sexta-feira, julho 06, 2018

O melhor do mundo



Lembro-me do Ronaldo recém-chegado da Madeira, ainda muito novo e com os dentes tortos, mas já cheio de confiança e agressividade para se impor. Logo ali já havia qualquer coisa de diferente naquele rapaz alto e algo convencido.

Muitos, mesmo muitos adeptos, no entanto, olharam para ele com algum contragosto. O excesso de auto-confiança causa alguma repugnância aos sentimentos refinados, que homenageiam a humildade em oposição à arrogância.
Ele cresceu, entretanto, não só no seu magistral futebol, mas principalmente como homem.

Entre os dramas familiares que lhe impunha a dor de um pai que abusava dos copos e que morreu precocemente, e as pressões de afirmação da sua potencialidade que eram impostas por si mesmo, num misto de raiva, força e uma inquebrantável convicção de que podia sempre melhorar e fazer melhor, deu tudo de si, e venceu.

Nunca houve um jogador de futebol tão ambicioso, tão dedicado aos treinamentos, tão assertivo nas suas capacidades, tão concentrado na leitura do jogo e na inserção da sua magnífica inteligência dinâmica a serviço da conversão de todo esse trabalho em golos, e ainda assim sem prescindir da sua humanidade e das suas emoções e, mesmo por isso, chegar até nós como alguém que podemos estimar e nos orgulhar.

Dos muitos golos que fez, com uma regularidade ao longo da carreira que é raríssima, destaco a conversão do livre contra Espanha no mundial da Rússia. Num momento baixo da seleção nacional, intimidada pelo volume de jogo de Espanha que se impunha à Portugal para vencer a partida, surge a oportunidade de cobrar uma falta a vinte e poucos metros da baliza. A bola vai ter com o capitão de Portugal, que nunca se nega a cumprir com a sua função. Em silêncio, puxa as barras do calção para cima das coxas, fez um A com as pernas e vidra os olhos na baliza, numa pose de conjunto que deu a impressão de indução a um transe.

Nesse preciso instante, um país inteiro viveu dentro daquele homem. As milhares de gerações que existiram para que ele existisse, os valores, os mitos, os medos, os orgulhos e mesmo as mesquinharias... tudo que compõe a nacionalidade esteve presente naquele instante de redenção do orgulho nacional frente a Espanha.

E à contragosto dos seus detratores, Ronaldo converteu o livre num golo antológico. Portugal foi ao delírio, com um momento de emoção talvez só comparado ao da louca campanha no Euro 2004 ou nos momentos decisivos do Euro 2016.

A sua postura manteve-se igual no relacionamento com os demais jogadores, assumindo-se verdadeiramente como um líder, nunca se queixando, nunca assumindo postura de vítima, sempre incentivando os companheiros, mesmo quando erravam...

Por fim, já na despedida de Portugal contra o Uruguai, mostrou porquê os portugueses auto-intitulam-se um "nobre povo": abraçou e apoiou Cavani para que deixasse o relvado, uma vez que o avançado que marcara duas vezes contra a seleção nacional naquele mesmo jogo havia se lesionado.

Decisivo, frio, calculista, seguro de si, honesto, leal com os adversários, amigo do seu amigo... o melhor do mundo é viver o pleno das nossas capacidades. Ronaldo fê-lo (e fá-lo) como poucos.

domingo, março 18, 2018

Toninho

Toninho e seu quinto neto 


Meu avô deu seu último suspiro quando eu tinha apenas cinco anos de idade, mas os seus olhos azuis de paz e o seu riso leve ainda existem na minha memória, como nos meus olhos e no meu riso.

A minha lembrança de primeira infância, feita da fantasia e da poesia que emolduram esses momentos para o resto da vida, recorda-o entre outras saudades de um tempo de muito amor e de cuidado. Os seus feitos como homem, no entanto, aprendidos por mim já depois que ele se tinha ido, colaboraram para fazer da memória do Toninho, cheia de êxitos retumbantes tanto em casa, como profissionalmente, uma herança incomparável.

Desafio o leitor a percorrer comigo essas façanhas e dar o seu próprio juízo, uma vez que o meu pode ser prejudicado pela óbvia ligação sentimental.

Comecemos pelas minhas próprias memórias e pela forma como ele era em casa. Trata-se de um passeio muito agradável por uma obra sentimental feita de dedicação incansável e amor incondicional à família.

Lembro do seu riso, que era frequente. Muito diferente de meu pai, que é um homem mais circunspecto, introspectivo e melancólico, o avô era alegre, e adorava brincar com os netos. O ambiente com ele já por si era animado: fez duas piscinas no São Carlos para garantir a festa dos adultos e das crianças. Embora eu tenha quase me afogado na piscina grande, a verdade é que passávamos lá uns domingos muito felizes, meu pai, seus irmãos e as famílias de cada um, e os meus avós, sempre com muita união, como era o gosto do meu avô

O Toninho também gostava de nos ter todos reunidos na sua casa na praça. Era lá que a festa continuava aos domingos, no começo da noite, quando assistíamos juntos aos Trapalhões na televisão. Também algumas vezes estávamos juntos nas tardes de sábado, quando ele gostava de arrebentar umas pipocas ou torrar uns amendoins com casca,  e dedicar-se às brincadeiras connosco.

Ele tinha imenso prazer em nos ver a sorrir. Uma das brincadeiras que fazia com os netinhos e recordo agora era uma prova de corrida entre a cozinha e a copa da casa dele. O avô ficava sentado no chão, de costas para a cozinha, onde nós estávamos à espera. Depois, mandava-nos vir um por um e, com o corrião na mão, tentava alcançar as nossas perninhas! Ele era maroto, porque começava a dar com o corrião muito devagar, como se não conseguisse nos apanhar, mas era uma estratégia sua: quando começávamos a ficar mais atrevidos e a passar mais lentamente para provocá-lo, ele vinha com tudo! Obviamente que era só para brincar, mas havia ali uma ideia de estar atento e não baixar a guarda.

Depois tenho uma única e muito querida memória de estarmos só os dois. Foi num sábado de manhã em que o meu pai levou-me lá à casa dos avós e como o avô Toninho estava pronto para ir ao sítio dele no São Carlos, pediu ao meu pai para me levar consigo. Lá fomos os dois no seu fusca branco. Chegando ao sítio, fomos à tulha de café e estivemos pelo terreiro onde ainda havia café a secar. Depois fomos por ali perto das piscinas, por um terreno inclinado em que o avô pôs-se a colher algumas abóboras. Por conta do sol forte, o avô sacou do lenço que tinha no bolso e improvisou-me um chapeuzinho, dando um nó em cada uma das pontas do lenço e pondo-o bem na minha cabeça. Quanto a ele, tinha lá o seu chapéu de palha. Estivemos sempre conversando entretidos. Acho que ele perguntava coisas da escolinha, eu estava ainda no pré-escolar. Dizia-me para me comportar e respeitar a professora, e que devia ser sempre um bom menino... Ele gostava de dar conselhos, e os podia dar. Foi uma manhã feliz, de amizade e convívio com o meu avô, e que guardo com imenso carinho.

Daqui para além surgem muitas histórias que chegaram-me pela própria família e, muitas outras por gente de fora que, com a mesma consistência, quase que colocam o Toninho no altar junto com os santos mais populares. Já vamos lá chegar.

Do Daniel chegaram alguns episódios interessantes que são contemporâneos ao meu tempo de convívio com o avô. Como neto homem mais velho, ele acabou por conviver muito mais com o avô e também guarda dele uma memória de muito carinho. Entre muitas histórias, vou deixar algumas mais interessantes. Uma era habitual e passava-se com o fusquinha branco, normalmente ao voltar de São Carlos, em que o avô sempre parava quando via alguém a pé na estrada e oferecia boleia no carro. A boa vontade do avô, no entanto, não via limites, e mesmo com o carro cheio (o Daniel tinha que ir no "chiqueirinho", lá trás) ele continuava a parar e oferecer boleia, ao ponto das pessoas agradecerem e recusarem! Numa dessas vezes em que estavam mais uma vez a voltar do São Carlos, o avô deu carona para o senhor Amaro, muito amigo do avô e foi quem me contou essa história. Ao entrar no carro, ele reparou no Daniel, que na altura usava o cabelo mais comprido. Disse então o senhor Amaro: "Toninho, o senhor tem uma netinha muito linda!". O Daniel ficou revoltado, pôs-se de pé, e com a cintura na frente da cara do senhor Amaro, abaixou os calções e disse: "Eu sou homem! Olha aqui!". O Toninho primeiro mandou-lhe levantar os calções, e depois riu-se imenso. A outra foi também com o senhor Amaro, de uma vez que o Daniel foi com outros meninos à Casa das Irmãs para "buscar" uns côcos. Alguém topou a "arte" e o Daniel saiu correndo com o saco de côcos achando que o senhor Amaro estava atrás deles, já que era ele que cuidava daquilo. Ao virar da praça para a rua Alferes Chiquinho, mete-se para dentro da Cafemac, empresa de cafés do avó, e com o avô ao fundo da loja, joga o saco ali por baixo e diz muito esbaforido: "Avô, estou fugindo do senhor Amaro!", mas o senhor Amaro estava ali à frente, reunido com o avô que, diante daquilo, não sabia se ria ou se pedia desculpas ao homem.

Dou um passo largo atrás e recordo as memórias familiares mais antigas. São muito lindas as memórias que me chegaram da sua juventude. Uma delas é da relação com a mãe dele, a Dona Maria Martins. O avô era ainda adolescente e foi recrutado para fazer o treinamento militar no Rio de Janeiro, compondo a força expedicionária brasileira na II Guerra Mundial. Ao contrário de alguns rapazes da nossa terra (um deles foi vizinho do avô na rua Alferes Chiquinho), o avô não fugiu à luta. A bisavó Maria Martins, no entanto, passou muito aperto e ficava aflita com a possibilidade do Toninho ir para a guerra e lá perecer. Escrevia-lhe então umas cartas muito longas, em que dizia que rogava a Virgem Maria e a todos os santos para que o protegessem, que tivesse muito cuidado e que não se metesse a fazer atos heróicos... Só quem recebe amor e se sente amado é capaz de dar amor e de amar!

O avô era corajoso, mostrou-o muitas vezes na vida, mas não era tolo. Quando vinha de folga à terra, levava de volta para o Rio de Janeiro queijos, doces e cachaça para oferecer ao comandante militar. No fim das contas, o avô fez o treinamento de praça completo, mas a guerra acabou e ele nem precisou ir lutar na Itália... para o bem de todos nós, seus descendentes!

Aqui chegamos no ponto mais importante da vida do Toninho, sem dúvida nenhuma. Parece que foi desde umas festas de Santa Rita que ele ficou a saber que o Sr. Domingos Ferreira Rios tinha uma filha muito bonita e muito prendada, chamada Adalgiza. Pediu então ao pai da moça para lhe fazer a corte. Não posso dizer bem como foi essa paquera, mas a avó um dia disse que ele vinha a cavalo até a casa deles e ficava do lado de fora à espera de ser convidado... o namoro à antiga era assim!

De todos os sucessos do avô (foram muitos... precisaria de um livro para contá-los), juntar o seu destino ao da minha avó foi o maior. Mulher de fibra, vinda de muito bom berço, equilibrada e de invulgar visão, a Adalgiza não esteve atrás do avô, mas ao seu lado. E ele ao lado dela. Os dois viveram um grande amor, feito também de grandes sacrifícios e tortuosas provações, e estiveram juntos até o fim. Muito do êxito comercial do avô explica-se pelas qualidades de perseverança, disciplina, organização e ambição da avó, embora o avô tivesse também as suas influências domésticas nesse campo.

O avô veio de uma família com tradições de iniciativa relevantes. A sua avó Augusta descendia de Fernão Dias Paes, e o seu pai já era naquele tempo um empreendedor de muito êxito. O bisavô Maximiano, que também era espirituoso e gostava de soltar fogos nas festas de Santa Rita, produzia uma cachaça muito conhecida. O negócio foi muito bem sucedido, e ainda hoje existe pelas mãos de um outro bisneto do bisavô Miano, o meu primo Marcelo. Ora bem, os exemplos de êxito devem ter despertado no avô aquela ambição de enriquecer, e ele fez muito por isso.

Inicialmente, o Toninho começou a trabalhar com o Sr. Juquinha do Vale, transportando café com a sua tropa. A avó costurava para fora e teve a ideia de que o avô começasse a ser ele mesmo a comprar o café, ao invés de só fazer o serviço de frete. O avô aceitou a sugestão (como muitas outras que viriam ao longo da vida) e, arranjando os próprios clientes, passou a ser ele mesmo a comprar o café para beneficiar e depois revender. A avó também ajudou nessa parte, perguntando às clientes da costura se os maridos tocavam alguma lavoura, e foi daí que o negócio do café começou.

Com ele, o avô fez muito dinheiro ao longo da vida, mas nem por isso era de esbanjar, antes pelo contrário. Chegou até mim a sua fama de homem poupado, do tipo que ficava na praça à espera de passar uma carona para poder ir para à cidade vizinha, e assim poupar o dinheiro da condução. A razão disso é que o avô sabia que os recursos são uma dádiva do trabalho e são conseguidos com a bênção de Deus. Para ele, desperdiçá-los quando se poderia poupar seria um desrespeito ao próprio esforço e ao fundamento da propriedade de servir ao homem, não o contrário.

A verdade dessa proposição está no seu caráter quanto aos que precisavam de ajuda. Nunca se negou a ajudar ninguém, o que lhe angariou uma fama de ser um homem de boa vontade, tornando-se padrinho de batismo de mais de cem alminhas. Quando alguém lhe pedia dinheiro para comprar um medicamento caro, ou ajudar com alguma despesa de saúde, dizia logo que sim, mas fazia sócios para a empresa: ia ao encontro dos outros que também poderiam ajudar e pedia que também colaborassem, cada um com um pouquinho, para todos juntos poderem comprar ou pagar pelo que era preciso. A ideia de envolver os outros ainda tinha (e tem!) uma grande vantagem: ajuda a desenvolver um espírito de comunidade, de amizade cívica, em que houvesse respeito entre as pessoas, algo que o avô sempre trabalhou para defender e promover.

Muito por isso, não tolerava injustiças e nem abusos com os mais fracos. Contou-me a Elzita, que trabalhou na nossa casa muitos anos e também para o meu irmão, que ainda cedo na sua vida, o avô salvou-a de uma surra de corrião que levava do patrão. Dizia ela que trabalhava num sítio e que o marido era retireiro de leite. Pelo que percebi, numa manhã o marido esqueceu-se de levar o latão até onde passava o caminhão do laticínio e o leite azedou... Indo à casa do retireiro, o patrão encontrou a Elzita e começou a tirar satisfações, mas a pobre da mulher (uma menina de dezoito anos na época) não sabia de nada... O patrão irritou-se ainda mais, apanhando a mulher pelo cabelo e batendo-lhe com o corrião... Nisso chega o Toninho, que comprava café a esse homem. Vendo a cena, sacou do revólver e mandou-o parar. Disse ao homem que o que ele fazia era uma covardia e que se quisesse bater em alguém que fosse em quem pudesse se defender. Colocou a Elzita no carro, foi atrás do marido dela e explicou o que tinha acontecido. À tarde mandou lá um caminhão para fazer a mudança deles para um outro sítio que o avô já lhes tinha arranjado. A humanidade cristã esteve sempre em primeiro lugar, não só da boca para fora, mas nas atitudes.

Era essa a mesma lógica no apoio que sempre deu às Festas de Santa Rita, em que ia todos os dias, colaborando com os leilões e ajudando em tudo o que podia para apoiar a Paróquia. O meu primo Daniel, que é mais velho que eu alguns anos, tem muitas memórias do avô, inclusive dessas festas em que ele o levava à "barraquinha de maio". Naquelas noites, punham-se os dois a jogar bingo e o Daniel a beber o seu café com leite. Tudo com muita simplicidade e poesia, um bocado como a vida que o Toninho fez para si.


Falei antes das provações e dificuldades. Não foram poucas, mas vou limitar-me a algumas apenas. Os meus avós tiveram oito filhos. Entre o primeiro e o segundo, a diferença de idade era de apenas um ano e vinte dias! Na casa deles no São Carlos só foi haver água encanada depois que nasceu o meu pai, que está pelo meio da escadinha... Eletricidade então, nem sei dizer quando foi que tiveram, mas ainda deve ter demorado algum tempo a mais.

Com muito trabalho, empenho e dedicação, venceu-se tudo. Mudaram-se para a cidade e foram morar numa casa onde até hoje vive a minha avó. Dessa época em que os filhos já eram jovenzinhos também há algumas histórias interessantes. Como a do meu pai, ainda adolescente, a bater com a porta bravo porque o avô não queria lhe dar dinheiro para sair e gastar com as moças. Também há a história do rodízio do jipe do avô, que é muito engraçada. Eram muitos rapazes em casa e queriam sair todos com as namoradas, mas só havia um automóvel: o jipe verde com o parabrisas dobrável que era igual aos da II Guerra. A solução do Toninho foi óbvia: cada dia, um de vocês vai sair com o jipe. E assim foi. O meu pai arranjou um jeito de contornar a regra e comprou uma motocicleta para si, inclusivamente foi a primeira moto na cidade, causando grande alvoroço entre as meninas! Ainda assim, o jipe teve um uso bastante intensivo, tanto que um dia tentou se vingar do Toninho: quando ele ia para Santa Bárbara, foi atravessar um córrego e virou de rodas para o ar... Graças a Deus, o avô saiu ileso.

Já não foi assim, infelizmente, com o meu tio Marco António, que morreu ainda muito moço, logo depois de se casar, num acidente de caminhão que também levou a vida de um primo dele. A avó diz que a pior dor que já passou na vida foi a de perder um filho. O Toninho devia concordar, afinal, foram pais imensamente amorosos e dedicados, que viviam para os filhos.

Quando meu pai casou, além de arranjar a casa, o avô comprou os móveis todos e pôs tudo do que havia de melhor. Como fez para o meu pai, fez para todos os outros, não só com presentes de casamento, mas também encaminhando a cada um deles na vida o melhor que podia.

Ali mesmo na Alferes Chiquinho, para além do negócio do café que foi passando para o meu tio Max, o Toninho ajudou os filhos com outros negócios, e todos conseguiram prosperar.

Às vezes penso se isso não teria sido um plano genial da sua cabeça: deixa ver se arranjo uma loja para cada um aqui perto de mim, e assim ficamos todos próximos. Se sim, ou se não, a verdade é que os filhos todos tem casa a distância de uns 100 metros uns dos outros, praticamente todos na mesma rua. Mesmo a minha tia que mora em Viçosa, mais à frente ela e meu tio acabaram por comprar uma casa por ali.

A morte, no entanto, não permitiu que o Toninho gozasse por muito tempo os frutos da sua vida de trabalho e dedicação. Com problemas cardíacos (que na nossa família são quase tão comuns quanto as carecas), o avô foi ao Rio de Janeiro fazer um cateterismo. A operação foi de manhã, e em si correu até bem. O avô almoçou e foi se deitar para descansar. Logo ao início da tarde, no entanto, começou a passar mal e um ataque cardíaco fulminante levou-o para sempre de nós. Tinha apenas 62 anos.

Segue-se aqui um velório em sua casa, em que recordo claramente o seu caixão na sala, com os pés para a porta e no ar uma tristeza muito grande. O meu pai chorou à minha frente pela primeira e única vez naquela manhã e, tirando-me de perto do caixão (eu me apoiava para tentar ver se era mesmo o avô), levou-me lá para a varanda de dentro e disse que tínhamos de estar sérios. Eu percebi essa parte, mas era por demais surreal imaginar que nunca mais veria o meu avô, aquilo não cabia na minha cabeça de criança.

Nos anos que passaram, a memória dele permaneceu sempre muito elevada. Recordo agora dos mendigos que iam lá bater à porta da casa da minha avó e sempre encontravam um prato de comida - algo que o meu avô sempre fez questão de lhes oferecer. Houve ainda, penso que no máximo dois anos depois do avô ter morrido, de ter batido à porta um senhor a perguntar se ele estava em casa, obviamente gente de fora. A minha avó só conseguiu dizer que não estava... Coube à minha mãe dar-lhe a notícia da morte dele. Pelo que diz a minha mãe, a minha avó juntou as mãos em oração e pediu que a sua própria mãe, a saudosa bisavó Elmira, estivesse com ela naquele momento. Não foi fácil para ela. Perder o seu parceiro na vida foi um golpe muito duro, como, na devida proporção, também o foi para todos que o amavam e gozavam da sua amizade.

As longas décadas da ausência do nosso Toninho, no entanto, serviram para transformar a dor da perda na doçura da saudade e no imenso orgulho da sua memória.

O homem gentil, firme, ambicioso, cheio de amor e de alegria que nos deu a vida, que nos transmitiu o seu caráter e o seu exemplo, vive também em nós todos um pouquinho.

Da minha parte, a sua memória serviu (e serve ainda hoje) para ponderar sempre as atitudes mais corretas, para ter força e recordar sempre a importância fundamental da família e do dever de ajudar os que precisam.

Deixo o leitor fazer o seu juízo, fico com o meu. Foi a 18 de Março de 1924 que veio ao mundo o homem mais bem sucedido que eu alguma vez conheci.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Ó capitão! Meu capitão!




Ó Capitão! Meu Capitão! Finda é a temível jornada,
Vencida cada tormenta, a busca foi laureada.
O porto é ali, os sinos ouvi, exulta o povo inteiro,
Com o olhar na quilha estanque do vaso ousado e austero.
 

Mas ó coração, coração!
O sangue mancha o navio,
No convés, meu Capitão
Vai caído, morto e frio.

Ó Capitão! Meu Capitão! Ergue-te ao dobre dos sinos;
Por ti se agita o pendão e os clarins tocam teus hinos.
Por ti buquês, guirlandas... Multidões as praias lotam,
Teu nome é o que elas clamam; para ti os olhos voltam,
 

Capitão, querido pai,
Dormes no braço macio...
É meu sonho que ao convés
Vais caído, morto e frio.

Ah! Meu Capitão não fala, foi do lábio o sopro expulso,
Meu calor meu pai não sente, já não tem vontade ou pulso.
Da nau ancorada e ilesa, a jornada é concluída.
E lá vem ela em triunfo da viagem antes temida.
 

Povo, exulta! Sino, dobra!
Mas meu passo é tão sombrio...
No convés meu Capitão
Vai caído, morto e frio.


Walt Whitman, in: "Recordações do Presidente Lincoln”, tradução de Luciano Meira

Aquele grande homem, no seu ocaso, fragilizado e diminuído pelo combate impossível que travou, vai finalmente descansar. Olhos marejados, suspiros profundos, gente cabisbaixa e nas mãos as contas do rosário, apertadas uma a uma entre o polegar e o indicador, como se para não deixar escapar a vida, em vão... Na imagem final que vai deixar aos que estiveram presentes, fica essa réstia pálida em representação da grandeza daquelas longas décadas em que caminhou pela terra, firmou o passo e deu o exemplo.
Levantava cedo, beijava a mulher, saia para trabalhar. Não vivia só para si, também gostava de ajudar, tentava colaborar, tinha as melhores intenções. Também errava, como todos que se propõem a fazer alguma coisa, mas não se enganava, sabia muito bem para onde é que estava a ir, e o que queria da vida. Com ímpeto suave e persistência implacável, avançou pela vida como um imparável colosso que tudo vence e a todos protege.
Deu amor, fez filhos, deixou amigos e lembranças guardadas na sala dos tesouros do espírito.
Tantas vezes vasculho a memória à procura daqueles momentos que já se foram. Reproduzo, como se fosse num filme, cada gesto, cada sorriso, lembro-me das palavras, e em silêncio balbucio, como se ainda fosse a criança que tentava alcançar o seu queixo com meus dedinhos pequenos...
Tão grande herança, tão grande herança esse homem deixou. Quanto amor derramado por aquelas mãos que incessantemente construíram um mundo próprio, com ideias próprias, e sonhos próprios, onde nós e tantos outros que partilharam do seu convívio fomos convidados a morar. Cada vez que é preciso tomar uma decisão, a moral própria convoca a moral do morto: "O que ele faria?"
As heranças não se contam só pelos alqueires de terra, ou pelas casas, ou dinheiro aplicado… Todas coisas pequeninas em vista do grande porvir. A herança que contará então é a da memória. Na pujança e na disciplina para o trabalho, na retidão da palavra dada, na coragem de correr o risco, na frieza para aplicar a justiça, lá está o homem morto, afinal vivo.
Se a cena final, em que o corpo sem vida deitado num caixão cheio de flores, provocou choro e luto, não deve agora deixar de ser recordada como um convite para honrar aquela vida determinada, com mais vidas determinadas.
Pois o dia passa e vem a noite. Agora o dia é nosso. Podemos sair por aí e ver mundo. Podemos dar beijos apaixonados e escrever poemas. Podemos lançar olhares e dar gargalhadas... E tudo que o morto quer é que nós o façamos. Ele completou o seu ciclo, a nós cabe fazer o nosso, com coragem para viver e cultivar na memória aquela vida que já não há, mas ainda há... em nós.
Nada é mais bonito que viver no pensamento de quem nos ama. Imagina que depois de dezenas de anos da tua morte, teus filhos e netos buscarão na lembrança a tua presença. Dali, como um quadro pintado há centenas de anos e que ainda emociona, tu também emocionarás...
Assim será, pois o amor não morre. Ele faz a grande e perigosa jornada, ele cumpre o objetivo, ele traz para casa o prémio, e quando dividido, multiplica a vida.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Jeito mineiro de amar


Depois de muito tempo em que o verbo esteve no pretérito imperfeito das minhas próprias limitações, volta ao infinitivo do horizonte presente: amar à nossa moda.
Amor que vi nas rútilas ameias nos olhos anciãos dos meus avós, na resignação e na teimosia (cada qual na sua vez) nos olhos dos meus pais, e hei de ver um dia nos verdes olhos de esperança dos meus próprios filhos.
Aqui não há declarações. As palavras valem pouco ou nada quando se trata de um sentimento fundado na própria razão da vida. O que se diz tem de ser com o olhar, e só assim se sabe mesmo se um mineiro ama ou não.
Dá cá a mão - diz o sentimento reservado, a espreitar e a sorrir comedidamente. Anda comigo para além dos grandes arcos da verdade e entra comigo cá para dentro. Lá dentro, um mundo secreto espera pelo visitante que, incauto, distrai-se pelo inusitado que não vem cá para fora e deixa de reparar nas pequenas marcas e fissuras que lá dentro tomaram feição e temperamento.
O amor mineiro revela-se, portanto, nessa profunda dicotomia entre o sonho e o trágico.
Do alto das suas montanhas, esse puro amor quer proteger e amparar. Os ódios e as injustiças do mundo não são para ele formas naturais, mas sim produtos de sentimentos menores reservados para os cantos escuros da vida e, assim, incapazes de interferir no seu trajeto sobranceiro a indicar o rumo da vida. Ama com grande liberdade, em toda a extensão do seu peito há um nome tatuado no lado de dentro pelo bater do seu coração apaixonado. Na sua imensa ilusão, dá pancadas torpes e fortes, marcando fundo o seu sonho, exigindo partilhar esse encantamento pela beleza do mundo, ou morrer de amor.
Do fundo dos brejos das almas, onde a sua ambição comanda e o seu pragmatismo abre estradas onde antes não havia nada, o amor perece à mercê da espera. O mineiro tem um plano: quer vender seus queijos, precisa de apanhar uma condução para Belo Horizonte, fez amizade com um sócio potencial, rezou para que a Virgem Santíssima lhe dê a bênção para fechar o negócio. Quer muito, e de tanto querer deixa à margem de si mesmo o que tem de mais bonito, justamente porque não o divide com ninguém. Amparado na sua inabalável convicção de que é preciso poupar para o amanhã, sacrifica o hoje no altar das certezas frias, as mesmas que lhe negarão beijos e abraços, e que irão de mão dada com outro, conforme o seu jogo de oferta e procura.
Fosse o visitante mais avisado, compreendendo essa brutal circunstância que nem toda a gente tem o cuidado de entender, talvez ele pudesse fazer o caminho sinuoso que leva até ao coração do mineiro.
Qual o veio sonhado, esse coração abre-se à ilusão de pés fincados no chão, e o sonho se realiza.
Penso que para tanto colaboram alguns cuidados e atitudes. Precipitações ficam do lado de fora: nada há de mais tolo que uma palavra inopinada, e aqui o silêncio vale ouro (e todos sabemos como o mineiro gosta de ouro). Depois, há que trazer para dentro um tanto de encanto, de deslumbramento pela vida, de ilusão um tanto feita de ambição - quem não acredita em si mesmo e não sente a necessidade de se pôr à prova não pode querer amar à mineira. Por fim, há que escolher com o coração aberto, sem medos, quem nos possa amar. A coragem com que fizemos o nosso país é também ingrediente essencial à mistura. Medo, toda a gente tem... se não tem não é gente. A diferença está no que se faz com o medo e é aí que esse amor exigente pede a sua maior prova, a necessidade de se acreditar e de dar de si incondicionalmente.
Passados pelos arcos dos olhos, visitados os sonhos e as tragédias, testado este nobre e complexo coração, resta ao visitante deixar de o ser, e afinal ir morar lá dentro do mineiro.
Convém que escolha o seu lugar entre as coisas belas e os tesouros, entre amor à terra, à família e a Deus. Familiarizado com essa tríade sagrada, sossegado quanto às limitações desse espírito sempre pronto para vencer com o carisma dos seus gestos simples e a pujança do seu trabalho discreto, o agora residente vai se dar por satisfeito ao descobrir dentro do outro, ponderado e resiliente, um correspondido amor, também ele, à mineira.

terça-feira, março 28, 2017

Faço o melhor que sou capaz


Aqui da biblioteca da Faculdade de Economia, de onde vejo ao meu lado o jardim logo abaixo, aprecio o balanço doce dos galhos do velho pinheiro de quase 20 metros de altura.
O vento passa sem ser notado, mas passa. Ele lá esteve por um breve momento e na sua suavidade cândida, fez movimento.
Tenho pensado que aprecio ser assim como o vento. Provocar um movimento suave, sem assustar, nem constranger e muito menos destruir, mas de alguma utilidade. Mesmo as brisas brandas são capazes de fazer girar as hélices gigantes dos cata-ventos geradores de eletricidade.
Não faço questão que fique o registo do meu nome, que alguém procure saber onde nasci ou quem foram os meus antepassados. Isso não importa verdadeiramente.
A minha grande ambição é tão-só fazer o melhor que sou capaz. Não tem sido fácil. Uma multitude de "necessidades" levanta-se cada vez que eu próprio levanto o olhar. Deparo-me com um horizonte em que ansiava por ver apenas os galhos do pinheiro a balançar suavemente, mas que enchem-se de interpelações de género vário. O excesso e o desgaste disso tem despertado uma leve tendência anti-social, não para causar mossa, mas simplesmente para procurar algum isolamento.
Sob a fria luz do dia, para uma tradução algo forçada da expressão inglesa, nenhum isolamento é-me possível agora. Dei a minha palavra e é meu dever permanecer no meu "posto", a levar a minha "espingarda" com a alça ao ombro, pronto para a ação.
Sob essa multitude de limitações, agruras e tristezas que um coração impuro arregimenta para si, tento inutilmente fazer o melhor que sou capaz, com a vã esperança de viver em paz.

quinta-feira, junho 09, 2016

A alvorada da Nova República

Daqui de longe, na nossa Coimbra antiga, eu tento acompanhar o que se vem passando no cenário político brasileiro, com todas as inevitáveis implicações que estes factos acarretam na economia e mesmo na cultura nacionais.
A primeira impressão (sim, impressão, pois tendo como fonte a comunicação social, mesmo que seja imparcial, é sempre um contato em segunda ou terceira mão com a realidade) que tenho é que nada disso é mau, nem triste, nem é sinal de ruína da nossa ordem constitucional.
É doloroso, isso é claro, mas não significa que não deva ser visto com o grande valor simbólico que faz levantar desde tantas convulsões.
As demais impressões são, portanto, de uma ponderação no significado desses eventos, e não deles em si mesmos.
O impedimento da Presidente Dilma Rousseff, que ainda será decidido pelo Senado Federal, é um sinal de que o presidente da república já não tem aquela majestade de que gozavam os presidentes da República do café-com-leite, ou das didaturas do Estado Novo ou Militar. O impedimento do Presidente Collor de Melo já tinha deixado isso claro, embora não tenha sido tão enfático quanto agora porque Collor não dispunha de qualquer base de apoio política.
Obviamente que não é positivo afastar uma presidente eleita pelo voto direto, no entanto, dadas as circunstâncias em que está a ser processada, os crimes de que é acusada parecem estar diretamente ligados à péssima situação económica do Brasil nesse momento, o que todos os brasileiros conseguem sentir na pele.
À volta da questão principal, estão questões acessórias, mas que são da maior importância. Um ex-presidente da república que é feito Ministro de Estado por razões várias, mas não propriamente coincidentes com o interesse público, um Ministro de Estado da Justiça que faz insinuações de ameaça à Polícia Federal, um Advogado Geral da União que, deixando de lado a sua elegância pessoal, abraça uma defesa por ideologia político-partidária, instrumentalizando um órgão federal pensado para defender a União Federal, e não propriamente a Presidente da República.
A movimentar todo esse panorama imensamente sensível, está a operação Laja-Jato da Polícia Federal de Curitiba. Despoletada desde uma investigação sobre corrupção na Petrobrás, a força-tarefa da operação tem utilizado do novo mecanismo da delação premiada para obter espantosas evidências probatórias contra figuras de primeira linha da administração da pretolífera estatal e mesmo dos Governos Federais desde 2003.
A perda de mandato do Senador Delcídio do Amaral por ter tentado subornar um dos delatores, aparentemente em cumprimento de orientações do Partido dos Trabalhadores de que era filiado, foi apenas uma das consequências propriamente fantásticos desta operação.
Há dois dias, no entanto, uma das mais poderosas cúpulas políticas do Brasil foi atingida de frente pelo pedido de prisão pelo Procurador Geral da República Rodrigo Janot ao STF contra o ex-presidente José Sarney, o Presidente do Senado Renan Calheiros, o Presidente Interino do PMDB Senador Romero Jucá, fundamentado em evidências de que estariam a conspirar para enfraquecer e esvaziar a operação Lava-Jato.
Outros eventos que estão também vinculados a esse momento devem ser lembrados: a iniciativa do Promotor Dallagnol, coordenador da força-tarefa do Ministério Público no âmbito da operação Lava-Jato, em entregar ao Congresso Nacional um pedido de alteração de lei contra a corrupção desde a iniciativa popular também indica o mesmo caminho.
Outro símbolo que não se deve perder (este de enorme estatuto moral): as faixas verde-amarelas amarradas às árvores em frente à Polícia Federal em Curitiba, os laços verde-amarelos com que foram reunidas as mais de 1,5 milhões de assinaturas em favor do projeto de lei com as 10 medidas anti-corrupção.
Tudo isso é a alvorada da Nova República que foi anunciada por Tancredo Neves.
A nossa ordem constitucional não está a cambalear, ela está a afirmar-se. Não há ruína político-institucional no Brasil, o que estamos a ver é uma interpolação de regimes para além da constituição escrita, é a constituição a impor-se às velhas práticas da conveniência e da corrupção que se achavam imunes aos princípios. É em boa medida uma interpolação de gerações com mentalidades diferentes.
Filhos da Nova República, Dallagnol e seus pares não cresceram propriamente numa ditadura. Foram educados sob os princípios democráticos da presente ordem constitucional que tenho certeza que irão defender a qualquer custo.
De um lado, a geração e a mentalidade que está a ser vencida, em que um Ministro de Estado da Justiça, oriundo do Ministério Público, ameaça a Polícia Federal, de outro a geração que condena essa mesma mentalidade e quer fazer valer a Constituição Cidadã, propondo leis anti-corrupção de iniciativa popular e implicando criminalmente uma das mais poderosas cúpulas políticas do país, que pensava que os princípios constitucionais não se aplicavam a eles.

terça-feira, maio 17, 2016

O jardineiro dos sonhos

Há quase dez anos eu disse adeus a tudo e a todos para vir viver o sonho. "Não chorem por mim, não façam da minha ausência uma ponderação para a tristeza", pedi-lhes em vão.
Recebia-me a capital do Reino Unido naqueles meados de Agosto de 2006 com a costumeira chuva de verão inglesa.
É crucial relembrar um episódio daqueles primeiros dias. Trata-se da circunstância em que estupidamente perdi o meu guarda-chuvas Ferreti, um exemplar objeto de uso da fidalguia de Belo Horizonte. Num desses dias de chuva, após entrar num autocarro inglês de dois pisos, vermelho, como é óbvio, resolvi pousar o gancho do guarda-chuvas na barra de apoio em frente ao meu assento. Ao chegar ao ponto de desembarque, pelo susto da novidade de tudo, não deu outra: esqueci da vida e lá deixei o Ferreti: fui-me embora fazer-me inglês.
Em que pese esse simbólico abandono de Minas, no entanto, a Inglaterra tratou a minha inocência com candura e paciência. Fui muito bem recebido. Os ingleses gostam de trabalho e comprometimento, e nos estudos que me propus a fazer, e também nos meus part-times, da mesma forma, tentei ser sempre diligente, e assim também já não era um estrangeiro a mais, mas alguém que comandava algum respeito e, ao ser dada a liberdade, alguma confiança. Com a ajuda de Deus, eu alcancei todos os objetivos que ambicionara ao chegar à Inglaterra, mas não venci em tudo.
Há quase dez anos, quando troquei completamente de vida para ir experimentar algo novo, eu pensava só em cumprir o sonho. Que bom é ter coragem de se viver o próprio sonho! Olho para trás e vejo o quanto já fiz na minha vida e consigo encher toda a caverna do peito de orgulho. Sem sobrar espaço para arrependimento nenhum, eu, e apenas eu, para além do nosso Senhor, no entanto, sei o que custou. Eu também perdi.
Penitenciei-me imensas vezes, e ainda hoje o faço, por todo o sofrimento que causei a vós, família e amigos brasileiros, e a tantos outros que, sem eu próprio devotar grande amizade, sempre tiveram por mim grande carinho e consideração, e amargaram também um pouco a minha ausência.
Aos amigos que ficaram, à minha linda família, digo-vos com grande susto: custa voltar e vê-los sempre mais velhos! É como se os nossos entes mais chegados envelhecessem de repente 10 anos, é brutal para a impressão visual desacostumada. Mas deixando de lado as brincadeiras, amo-vos, minha gente linda. Sóis o que de melhor a vida me deu até 10 anos atrás e isso não é pouco, é mesmo a maior parte da minha vida!
Eu não morri, no entanto. Vivo aqui no nosso Portugal dos antepassados, como eu insisto em chamá-lo, a fazer o meu percurso de uma maneira nova, uma vida nova. Não é uma vida em substituição à vida antiga, como se desta eu quisera livrar-me. Não pensai assim, pois não é verdade... É uma vida nova que responde a um chamado profundo que sempre houve dentro de mim, que pedia para avançar para mais além. Eu precisava de descobrir um mundo maior do que aquele que vós me havéis dado e do qual eu sou muito grato.
Agora eu sou capaz de olhar para trás e reconher que precisava de conhecer um mundo novo, um lugar em que os limites da minha própria origem fossem levantados, e onde eu pudesse ver o que valia para além do que já sabia, para além do que estava já à minha espera.
Eu paguei o preço: não pensem que o orgulho significa alegria. O orgulho é justamente a satisfação de ter vencido o sofrimento, a incerteza, a saudade e a angústia por acreditar em algo maior e mais valoroso que tudo isso. Foi o que eu sempre tentei fazer: pôr as situações contingentes em perspectiva e não permitir que alterassem as minhas convicções íntimas sobre mim mesmo e o meu destino. O pesar pelos retrocessos nunca foi maior que a vontade de superar essas dificuldades. A Inglaterra soube reconhecer esta atitute e cá no nosso lindo Portugal também a mesma postura tem sido, vez após vez, ano após ano, saudada com respeito e elevada pelos meus pares, pelos meus amigos, e até pelos meus conhecidos.
Não quero despedidas, porque até onde me disseram, a ponte do retorno não cai de velha ao se completar dez anos de exílio. Quero, isso sim, que os que ficaram para trás tragam-me na lembrança com o mesmo carinho que tenho por eles, e que eu possa estar presente na vida deles de formas diferentes enquanto a presença física não é possível.
O meu testemunho, talvez convenha esclarecer, não é um grito à emigração. O nosso país basta e provém a todos e mesmo aos estrangeiros, todos sabemos bem. Não foi por ser preciso que eu parti... No entanto, o meu apelo poderia ser o de ter coragem para viver em liberdade. O que mais quero, ó meus queridos amigos, é que vivéis as vossas vidas sem medo, e não deixéis para o amanhã indefinido a crucial importância de viver o sonho e trazê-lo, às custas que forem, ao sangue que se pedir de vós, à realidade.
O meu mantra nesses dez anos não foi o impetuoso "não te permitas fracassar", mas sim o prudente "não deixa que cresçam ervas daninhas no campo dos teus sonhos".
E por isso mesmo, caros amigos leitores, que ao cabo de quase dez anos, e se calhar para todo o resto da vida, assumi mais essa profissão de fé: ser um jardineiro de sonhos. Sóis todos bem vindos a juntarem-se à minha guilda.