terça-feira, março 28, 2017

Faço o melhor que sou capaz


Aqui da biblioteca da Faculdade de Economia, de onde vejo ao meu lado o jardim logo abaixo, aprecio o balanço doce dos galhos do velho pinheiro de quase 20 metros de altura.
O vento passa sem ser notado, mas passa. Ele lá esteve por um breve momento e na sua suavidade cândida, fez movimento.
Tenho pensado que aprecio ser assim como o vento. Provocar um movimento suave, sem assustar, nem constranger e muito menos destruir, mas de alguma utilidade. Mesmo as brisas brandas são capazes de fazer girar as hélices gigantes dos cata-ventos geradores de eletricidade.
Não faço questão que fique o registo do meu nome, que alguém procure saber onde nasci ou quem foram os meus antepassados. Isso não importa verdadeiramente.
A minha grande ambição é tão-só fazer o melhor que sou capaz. Não tem sido fácil. Uma multitude de "necessidades" levanta-se cada vez que eu próprio levanto o olhar. Deparo-me com um horizonte em que ansiava por ver apenas os galhos do pinheiro a balançar suavemente, mas que enchem-se de interpelações de género vário. O excesso e o desgaste disso tem despertado uma leve tendência anti-social, não para causar mossa, mas simplesmente para procurar algum isolamento.
Sob a fria luz do dia, para uma tradução algo forçada da expressão inglesa, nenhum isolamento é-me possível agora. Dei a minha palavra e é meu dever permanecer no meu "posto", a levar a minha "espingarda" com a alça ao ombro, pronto para a ação.
Sob essa multitude de limitações, agruras e tristezas que um coração impuro arregimenta para si, tento inutilmente fazer o melhor que sou capaz, com a vã esperança de viver em paz.

quinta-feira, junho 09, 2016

A alvorada da Nova República

Daqui de longe, na nossa Coimbra antiga, eu tento acompanhar o que se vem passando no cenário político brasileiro, com todas as inevitáveis implicações que estes factos acarretam na economia e mesmo na cultura nacionais.
A primeira impressão (sim, impressão, pois tendo como fonte a comunicação social, mesmo que seja imparcial, é sempre um contato em segunda ou terceira mão com a realidade) que tenho é que nada disso é mau, nem triste, nem é sinal de ruína da nossa ordem constitucional.
É doloroso, isso é claro, mas não significa que não deva ser visto com o grande valor simbólico que faz levantar desde tantas convulsões.
As demais impressões são, portanto, de uma ponderação no significado desses eventos, e não deles em si mesmos.
O impedimento da Presidente Dilma Rousseff, que ainda será decidido pelo Senado Federal, é um sinal de que o presidente da república já não tem aquela majestade de que gozavam os presidentes da República do café-com-leite, ou das didaturas do Estado Novo ou Militar. O impedimento do Presidente Collor de Melo já tinha deixado isso claro, embora não tenha sido tão enfático quanto agora porque Collor não dispunha de qualquer base de apoio política.
Obviamente que não é positivo afastar uma presidente eleita pelo voto direto, no entanto, dadas as circunstâncias em que está a ser processada, os crimes de que é acusada parecem estar diretamente ligados à péssima situação económica do Brasil nesse momento, o que todos os brasileiros conseguem sentir na pele.
À volta da questão principal, estão questões acessórias, mas que são da maior importância. Um ex-presidente da república que é feito Ministro de Estado por razões várias, mas não propriamente coincidentes com o interesse público, um Ministro de Estado da Justiça que faz insinuações de ameaça à Polícia Federal, um Advogado Geral da União que, deixando de lado a sua elegância pessoal, abraça uma defesa por ideologia político-partidária, instrumentalizando um órgão federal pensado para defender a União Federal, e não propriamente a Presidente da República.
A movimentar todo esse panorama imensamente sensível, está a operação Laja-Jato da Polícia Federal de Curitiba. Despoletada desde uma investigação sobre corrupção na Petrobrás, a força-tarefa da operação tem utilizado do novo mecanismo da delação premiada para obter espantosas evidências probatórias contra figuras de primeira linha da administração da pretolífera estatal e mesmo dos Governos Federais desde 2003.
A perda de mandato do Senador Delcídio do Amaral por ter tentado subornar um dos delatores, aparentemente em cumprimento de orientações do Partido dos Trabalhadores de que era filiado, foi apenas uma das consequências propriamente fantásticos desta operação.
Há dois dias, no entanto, uma das mais poderosas cúpulas políticas do Brasil foi atingida de frente pelo pedido de prisão pelo Procurador Geral da República Rodrigo Janot ao STF contra o ex-presidente José Sarney, o Presidente do Senado Renan Calheiros, o Presidente Interino do PMDB Senador Romero Jucá, fundamentado em evidências de que estariam a conspirar para enfraquecer e esvaziar a operação Lava-Jato.
Outros eventos que estão também vinculados a esse momento devem ser lembrados: a iniciativa do Promotor Dallagnol, coordenador da força-tarefa do Ministério Público no âmbito da operação Lava-Jato, em entregar ao Congresso Nacional um pedido de alteração de lei contra a corrupção desde a iniciativa popular também indica o mesmo caminho.
Outro símbolo que não se deve perder (este de enorme estatuto moral): as faixas verde-amarelas amarradas às árvores em frente à Polícia Federal em Curitiba, os laços verde-amarelos com que foram reunidas as mais de 1,5 milhões de assinaturas em favor do projeto de lei com as 10 medidas anti-corrupção.
Tudo isso é a alvorada da Nova República que foi anunciada por Tancredo Neves.
A nossa ordem constitucional não está a cambalear, ela está a afirmar-se. Não há ruína político-institucional no Brasil, o que estamos a ver é uma interpolação de regimes para além da constituição escrita, é a constituição a impor-se às velhas práticas da conveniência e da corrupção que se achavam imunes aos princípios. É em boa medida uma interpolação de gerações com mentalidades diferentes.
Filhos da Nova República, Dallagnol e seus pares não cresceram propriamente numa ditadura. Foram educados sob os princípios democráticos da presente ordem constitucional que tenho certeza que irão defender a qualquer custo.
De um lado, a geração e a mentalidade que está a ser vencida, em que um Ministro de Estado da Justiça, oriundo do Ministério Público, ameaça a Polícia Federal, de outro a geração que condena essa mesma mentalidade e quer fazer valer a Constituição Cidadã, propondo leis anti-corrupção de iniciativa popular e implicando criminalmente uma das mais poderosas cúpulas políticas do país, que pensava que os princípios constitucionais não se aplicavam a eles.

terça-feira, maio 17, 2016

O jardineiro dos sonhos

Há quase dez anos eu disse adeus a tudo e a todos para vir viver o sonho. "Não chorem por mim, não façam da minha ausência uma ponderação para a tristeza", pedi-lhes em vão.
Recebia-me a capital do Reino Unido naqueles meados de Agosto de 2006 com a costumeira chuva de verão inglesa.
É crucial relembrar um episódio daqueles primeiros dias. Trata-se da circunstância em que estupidamente perdi o meu guarda-chuvas Ferreti, um exemplar objeto de uso da fidalguia de Belo Horizonte. Num desses dias de chuva, após entrar num autocarro inglês de dois pisos, vermelho, como é óbvio, resolvi pousar o gancho do guarda-chuvas na barra de apoio em frente ao meu assento. Ao chegar ao ponto de desembarque, pelo susto da novidade de tudo, não deu outra: esqueci da vida e lá deixei o Ferreti: fui-me embora fazer-me inglês.
Em que pese esse simbólico abandono de Minas, no entanto, a Inglaterra tratou a minha inocência com candura e paciência. Fui muito bem recebido. Os ingleses gostam de trabalho e comprometimento, e nos estudos que me propus a fazer, e também nos meus part-times, da mesma forma, tentei ser sempre diligente, e assim também já não era um estrangeiro a mais, mas alguém que comandava algum respeito e, ao ser dada a liberdade, alguma confiança. Com a ajuda de Deus, eu alcancei todos os objetivos que ambicionara ao chegar à Inglaterra, mas não venci em tudo.
Há quase dez anos, quando troquei completamente de vida para ir experimentar algo novo, eu pensava só em cumprir o sonho. Que bom é ter coragem de se viver o próprio sonho! Olho para trás e vejo o quanto já fiz na minha vida e consigo encher toda a caverna do peito de orgulho. Sem sobrar espaço para arrependimento nenhum, eu, e apenas eu, para além do nosso Senhor, no entanto, sei o que custou. Eu também perdi.
Penitenciei-me imensas vezes, e ainda hoje o faço, por todo o sofrimento que causei a vós, família e amigos brasileiros, e a tantos outros que, sem eu próprio devotar grande amizade, sempre tiveram por mim grande carinho e consideração, e amargaram também um pouco a minha ausência.
Aos amigos que ficaram, à minha linda família, digo-vos com grande susto: custa voltar e vê-los sempre mais velhos! É como se os nossos entes mais chegados envelhecessem de repente 10 anos, é brutal para a impressão visual desacostumada. Mas deixando de lado as brincadeiras, amo-vos, minha gente linda. Sóis o que de melhor a vida me deu até 10 anos atrás e isso não é pouco, é mesmo a maior parte da minha vida!
Eu não morri, no entanto. Vivo aqui no nosso Portugal dos antepassados, como eu insisto em chamá-lo, a fazer o meu percurso de uma maneira nova, uma vida nova. Não é uma vida em substituição à vida antiga, como se desta eu quisera livrar-me. Não pensai assim, pois não é verdade... É uma vida nova que responde a um chamado profundo que sempre houve dentro de mim, que pedia para avançar para mais além. Eu precisava de descobrir um mundo maior do que aquele que vós me havéis dado e do qual eu sou muito grato.
Agora eu sou capaz de olhar para trás e reconher que precisava de conhecer um mundo novo, um lugar em que os limites da minha própria origem fossem levantados, e onde eu pudesse ver o que valia para além do que já sabia, para além do que estava já à minha espera.
Eu paguei o preço: não pensem que o orgulho significa alegria. O orgulho é justamente a satisfação de ter vencido o sofrimento, a incerteza, a saudade e a angústia por acreditar em algo maior e mais valoroso que tudo isso. Foi o que eu sempre tentei fazer: pôr as situações contingentes em perspectiva e não permitir que alterassem as minhas convicções íntimas sobre mim mesmo e o meu destino. O pesar pelos retrocessos nunca foi maior que a vontade de superar essas dificuldades. A Inglaterra soube reconhecer esta atitute e cá no nosso lindo Portugal também a mesma postura tem sido, vez após vez, ano após ano, saudada com respeito e elevada pelos meus pares, pelos meus amigos, e até pelos meus conhecidos.
Não quero despedidas, porque até onde me disseram, a ponte do retorno não cai de velha ao se completar dez anos de exílio. Quero, isso sim, que os que ficaram para trás tragam-me na lembrança com o mesmo carinho que tenho por eles, e que eu possa estar presente na vida deles de formas diferentes enquanto a presença física não é possível.
O meu testemunho, talvez convenha esclarecer, não é um grito à emigração. O nosso país basta e provém a todos e mesmo aos estrangeiros, todos sabemos bem. Não foi por ser preciso que eu parti... No entanto, o meu apelo poderia ser o de ter coragem para viver em liberdade. O que mais quero, ó meus queridos amigos, é que vivéis as vossas vidas sem medo, e não deixéis para o amanhã indefinido a crucial importância de viver o sonho e trazê-lo, às custas que forem, ao sangue que se pedir de vós, à realidade.
O meu mantra nesses dez anos não foi o impetuoso "não te permitas fracassar", mas sim o prudente "não deixa que cresçam ervas daninhas no campo dos teus sonhos".
E por isso mesmo, caros amigos leitores, que ao cabo de quase dez anos, e se calhar para todo o resto da vida, assumi mais essa profissão de fé: ser um jardineiro de sonhos. Sóis todos bem vindos a juntarem-se à minha guilda.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Mon Brel




Ainda muito pequeno ouvia os discos franceses de minha mãe e ficava a adivinhar o que estavam a cantar. Tentava ir aos picos da voz, ao carinho, tristeza ou saudade que poderia identificar no tom de voz para interpretar aqueles hinos magníficos ao espírito e à grandeza humana. Havia lá algo de grandioso que fascinava-me enormemente. 

Parece-me que muito desta impressão estava já em Jacques Brel, já que a grandeza de espírito pode mesmo consumir a vida na sua própria ascenção para ir ter com o divino.

Figura incontornável da canção francófona, este belga de mãe francesa tinha um olhos acesos de poesia que incendiavam todos quanto os que olhavam para dentro daquela alma a pingar paixão para todos os lados.

Já no fim da minha adolescência comecei a percorrer as imperiais avenidas da cultura francesa, sobretudo a sua filosofia, pintura, e sobretudo literatura e música. Das grandes delícias que a alma experimenta ao encontrar as suas primas francesas de todos os tempos, Brel despontou na minha vida com um vigor de intensidade que para mim aponta para a verdade.

Quand on a que l'amour é das canções mais belas deste mundo, mas Brel não se resume a ela apenas, há Les Bourgeoises, Ne me quitte pas, Valse a mille temps, Ce gens-là e aqui acima uma versão exemplar de Les bonbons de 1967.

Nos momentos mais duros e de grande desgaste do espírito, pude encontrar satisfação e paz na expressão francesa para a arte, na grande França imortal que inspirou todo o mundo contemporâneo a sonhar e a viver a felicidade com grandeza e vigor.

Mon Brel, mon cher ami, que falta não fazes ao nosso mundo, mas que bom é podermos voltar a ouvir-te e ver-te e encontrar no teu testemunho passado a esperança e o amor que são naturalmente humanos e que pedem-nos com olhinhos humildes de mendigo para lhes darmos um pouco de atenção e cultivá-los no espírito para a nossa própria dignidade e felicidade. Trata-se dos instrumentos mais úteis e eficazes para conhecermo-nos a nós mesmos e assim encontrarmos corretamente o nosso lugar do mundo. A ignorância destas virtudes e do cuidado que devemos ter com elas é um caminho certo para a infelicidade, para a destruição e para o niilismo.

Passada a minha infância, alguns anos mais tarde, ao aprender francês propriamente, fiquei contente de ver que muitas (mas não todas) das minhas versões de apreensão da música francesa estavam corretas afinal. Parece-me claro neste momento a razão de ser desta feliz coincidência: é universal o desejo humano de grandeza, de amor, de partilhar a dor e a alegria, de crescer e ser para máximo do nosso potencial.

Oxalá assim seja para vós todos, leitores destes escritos! Oxalá a vossa vida seja plena e feliz. É o meu desejo, e também seria o do nosso Jacques Brel.

terça-feira, novembro 25, 2014

O canto do cisne

Chovia muito, fazia algum frio, não muito. Era ainda o início do outono em Coimbra e os humores de futricas e doutores encontravam-se divididos entre a perspectiva do aperto das contas e a perspectiva dos exames. Havia mesmo muita tristeza nos olhos das pessoas nas paregens de autocarro - o tempo a escorrer conforme a chuva que caia sem descanso e o transporte que já não chega a horas.
A perspectiva do tempo ganhou uma dimensão completamente nova para mim quando se olha de frente para o que se quer fazer e, noutro lado, os recursos que tempos para a empreitada.
Quando eu era ainda miúdo fui a Ouro Preto com uns bons amigos da altura. O nosso propósito era participar de um encontro, mas rapidamente pudemos ver que havia muito mais ali do que aquilo. Uma cidade antiga, com um céu que não nos compreendia, nas palavras do poeta.
Formávamos já há algum tempo um grupo destemido de rapazitos em busca de ser vistos como homens. Por vezes íamos às festas universitárias e queríamos nos passar por "doutores", alguns mais atirados a pingar amor para todo o lado.
Em Ouro Preto tudo isso assumiu uma feição mais íntima, uma lua imensa iluminou as pedras antigas e no dia seguinte já não havia rapazitos, mas homens. Como o mito do lobisomem, o transcurso de uma noite com lua cheia serviu para mudar, mas no nosso caso a transformação foi no coração e no pensamento.
Estávamos todos a conversar animados após o jantar e havia já quem propusesse grandes teses sobre a igualdade e outros sobre a tolerância e o amor. Eu da minha parte acompanhava o brilho dos olhos. De alguma maneira sentia-me estranhamente em casa. Aquele ambiente, aquela gente, aqueles cheiros, tudo parecia algo próprio de mim mesmo.
Depois do café, fomos todos para a Praça Tiradentes para ver o movimento, à mineira e à antiga. Não havia lá muita gente para além dos estudantes e dos turistas. Havia duas raparigas alemães que não percebiam o que era o barroco e um dos meus amigos - por sinal, ainda hoje voluntarioso e falador, quis ser o porta-voz das tradições. Mais hora, menos hora, fomos todos ficando amigos.
Senti-me estranhamente dono da minha vida. Sentia o frio vento da noite ouropretana a bater-me no rosto e a deixar um pouco de mim mesmo naquele vento que passava: podia ser tudo que quisesse na vida.
Hoje recordo que ainda há poucos meses regressei a Ouro Preto e novamente senti-me em casa. Já não era o rapazito ansioso para ser homem, já agora um homem a fazer-se à vida. O antigo sonho de ir para engenharia de minas ficou em Ouro Preto, guardião das minhas memórias de adolescente e das minhas ilusões de rapaz.
Há algo que não se pode trocar, nem comprar e nem vender? Ouro Preto disse-me que sim, há o tempo.
Tu não me escapas, vida minha. Tenho ainda a juventude de quem se pode lançar com toda força e é o que hei de fazer. Os horizontes estreitam-se, mas nunca se hão de estreitar para que possa fazer a coisa certa e ser justo com os outros.
Valham-me as tristes e chuvosas tardes de Outono da minha velha Coimbra, pensativa e generosa à espera de que o enigma do tempo que eu um dia quebrei em Outro Preto seja também quebrado por mais gente e de que os dias sejam usados para maior proveito do que realmente vale a pena: amar, sonhar e estar com quem se gosta.

sábado, maio 24, 2014

Baden

                                                 
  

Ao ver o vídeo acima, fica clara a razão pela qual Vinicius de Moraes estimava tanto a parceria com Baden Powell. Doce, meigo e muito humilde, o grande Baden transmitia uma serenidade indizível. Assombra-me sempre ver os seus vídeos e a sua magistral habilidade com a guitarra a sua desenvoltura para criar e reproduzir música com uma instintividade só superada pela sua dedicação ao aprimoramento: eis o talento prestigiado pelo trabalho, qualidade tão rara nas sociedades humanas.

Lembro-me da primeira vez que ouvi o Baden a tocar, foi em casa de um amigo num sábado antes do almoço. "Vamos ouvir o Baden" e eu a achar que o fundador do escotismo tinha também dotes artísticos! Daí em diante ficamos imenso tempo na conversa, à volta dos tira-gostos e das bebidas, a ouvir Baden Powell e a desfrutar do bom convívio.

Baden representa mesmo o melhor talento artístico brasileiro, pois está alinhado nas melhores tradições populares, ainda assim extremamente sofisticado, rico em suas diversas variações e docemente triste. Quanta beleza!

Tímido, reservado e de poucas palavras, Baden construiu a sua carreira sem forçar o seu caminho, em verdade foi o caminho da fama e do sucesso que se abriu para o talento e a dedicação que tinha com a música.

Admiro profundamente o seu talento e a sua personalidade, sobretudo se for verter os olhos para o grosso da classe musical dos dias que correm.

Nesse sentido, há uma comparação que o cantor e compositor Marcelo Camelo faz entre os músicos, ou seja, quem faz música para dar alguma coisa às outras pessoas, e os que pretensamente assim se chamam enquanto fazem música para tirar alguma coisa às outras pessoas.

Embora não seja em si o agreste do talento e do caráter da classe musical que o faça grande, Baden se destaca pela facilidade com que se identifica na obra dele a verdadeira música, e assim é que se confirma a regra que Camelo quis estabelecer e que reflete o verdadeiro respeito pela música.

A este grande músico, que muitas vezes ocupa o silêncio das minhas horas de estudo e engrandece a minha vida, a minha pequenina homenagem, o meu gesto de gratidão.


                            

segunda-feira, março 03, 2014

Um mineiro chamado Raul Agostinho


Tinha então 19 ou 20 anos e encontrava-se já casado e dominado pelo sonho de fazer fortuna. No seu sangue, corria plena a ancestral ambição mineira de enriquecer e regressar ao Reino. O meu avô já nem sabia disso - tantas gerações passadas, já Portugal fora em muito esquecido da memória coletiva: mortos os parentes, passado o tempo, não havia mais para onde voltar - todavia, lá estava o sonho, intacto e dominador, a mandar ir à frente. E ele foi.

Ao casar, recebeu do pai uma carrinha e vivia em uma casa arrendada. Fazia então os seus fretes para ganhar uns trocos e, sempre muito conversador e conhecedor das gentes da terra, ficava atento às oportunidades de negócio.

Numa destas conversas, ficou a saber que havia um senhor de idade, dono de umas boas terras lá próximas das dele que queria vendê-las. Já estava velho e sem saúde para cuidar daquilo, queria mesmo era ir para o Rio de Janeiro ter com os filhos que lá já viviam e assim terminar em paz os seus dias.

Terra por terra, havia muitas à venda, mas aquelas terras eram especiais. Os entendidos diziam haver lá abundância de mica para tirar da terra. A mica - termo de origem latina que significa "brilhante" - é um mineral com divisal basal altamente perfeita, muito útil para a fabricação de condensadores e isolantes elétricos devido às suas propriedades naturais.

O velho disso tinha alguma ideia, mas não tinha certezas - e nem energias para explorar aquilo. O avô fez-lhe uma oferta boa, mas o velho disse que tinha que subir um pouco. Tendo em conta a boa oportunidade - que não era certa! - o avô vendeu a carrinha e apanhou dinheiro emprestado com toda gente que conhecia, inclusive no nome do pai.

Compradas as terras, para lá se mudou com a sua jovem esposa. Foram viver na pequena choupana onde tinha vivido o velho, sem luz, sem água, mas com muito amor, da parte dos dois, e vontade de enriquecer, sobretudo da parte do meu avô.

Sendo filho de boas famílias da terra, os trabalhos brutos e físicos não eram propriamente trabalhos que faria. Mas nunca teve medo de trabalhar, e o sonho ardia demasiado intensamente para se dizer que não ao que quer que fosse: faria o que fosse preciso.

Passavam-se os dias, o avô saia cedo, antes do sol, para ir abrir a sua mina. Trabalhava duro, com a pá e a picareta, em busca do seu tesouro. A avó ia pelas 10:30hs levar o café e também lhe dava algum afago - o trabalho nas minas não era fácil.

De volta à casa ao fim do dia, muitos calos nas mãos, a pele coberta de terra, as unhas sujas, e mica nenhuma. Já começavam a apertar os credores. O pai que lhe chamava a atenção por ter colocado o nome dele na praça à custa de sonhos tolos, a mulher também não andava feliz com aquela vida cheia de privações: era a pressão a subir-lhe pelos calcanhares, mas o avô não a deixava assentar.

Mais tarde na vida, pude ver com os meus próprios olhos a fibra e a fortaleza que habitam o avô. Diante da morte brutal de um dos filhos, guardou o semblante sempre sereno, pronto a confortar. Não vergou nem um centímetro, e não por orgulho tolo, mas porque sabia que tinha de ser o esteio da família, a coluna mestra daquela casa emocionalmente destroçada, que ele não deixaria vir abaixo. Pouco sabia então que aquela hombridade vinha de muito antes.

Aos credores: já vão ser pagos; ao pai: tem paciência que o teu nome tem boa reputação; à mulher: ao menos temos a fé no Senhor e um ao outro. E trabalhava: dia a dia, a parar aos domingos, cravava na terra a sua picareta, tirava as sacas de terra da mina, sempre com um mesmo pensamento de vitória.

Ao fim de um longo dia, já com os músculos dos braços a tremer (acumulava-se-lhe o ácido lático nos músculos fatigados), ficou na mina já depois de escurecer. Tinha em si um impulso de continuar. Em casa a mulher a rezar: o que se passa com o Raul que nunca mais chega?

Batia a picareta contra o fundo da mina, alguma sobra de mica já a tinha visto, mas onde está o generoso veio que andava já há meses a procura? A dúvida alimentava o corpo cansado, batia, batia, batia a picareta contra a terra. Atrás de si, um lampião mal iluminava aquele mundo subterrâneo.

Afinal, a picareta encontrou resistência e avançou quase nada. Há aqui rocha, pensou. Retirou a terra com as mãos, sentiu a rocha, era lisa, como lisas são as partes de mica, finíssimas películas sobrepostas - o seu coração saltou, mas ainda não via. Deitou água para cima daquilo, limpou com as mãos e chegou o lampião junto ao fundo da mina e o que viu ele disse-me uma vez com os seus bonitos olhos verdes a brilhar: "vi o meu reflexo e sorri como um louco!".

O avô tinha encontrado o maior veio de mica até então conhecido. Basta dizer que pagou as dívidas todas na semana seguinte a descobrir o veio e ainda comprou camiões para carregar aquela mica toda - despachada para o Rio de Janeiro e depois para o estrangeiro.

Enriqueceram muito. Teve uma vida boa, comprou terras, cultivou café, criou gado, depois, mais tarde na vida, perdeu dinheiro nos seus negócios de compra e venda de terras, ao ponto de ter de ir viver para as terras herdadas pela mulher, o único bem que havia sobrado. Ainda naquele momento mais baixo, que eu rapazito pude ver, manteve sempre mesma integridade e consistência: voltava a trabalhar duro com o mesmo sonho de enriquecer, não esmorecera em nada.

Raul, este nome que para mim diz serenidade, calma ao falar, pensar rápido e à frente dos outros, esta designação que é tão próxima do meu espírito e da minha forma de ver o mundo, sob o signo da justiça e com força e pujança para o trabalho, esta fortaleza da família, esta beleza indizível na forma de amar sem declarações que eu tanto aprecio e que tão bem sabe - por ser verdadeira.

Este nosso Raul Agostinho (o Agostinho é herança do pai, que era António Agostinho; o avô chama-se Raul António), completou agora há duas semanas 80 anos. Os meus parabéns, avô. Deste-me com a tua vida o que ninguém mais me poderia dar. Herança minha de que tenho imenso orgulho.