domingo, dezembro 14, 2025

Não se foge à raça

Largo de Coimbra com tropeiros e ao fundo a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto

Tenho me dedicado há alguns anos à pesquisa dos meus antepassados, em muito devido à influência de um querido primo que anteriormente se dedicara à reunir muitas memórias familiares em um livro fotocopiado chamado mesmo "Memórias", meu querido primo e irmão do meu coração, Paulo Afonso.
O grito de alerta de Paulo Afonso sobre a perda irreparável da memória dos antigos despertou em mim a necessidade de lhes apurar em verdade quem eram, de onde tinham vindo e o que fizeram nas suas vidas.
Antes de ler o "Memórias", sabia muito pouco, devo admitir. 
Sabia que éramos bons mineiros, zelosos nas tradições comuns das famílias mineiras. Sabia também que éramos descendentes dos portugueses que foram explorar as minas descobertas no fim do século XVII e que com o fim do ciclo do ouro (que durou um século largo para edificar o caráter mineiro com engenho, empenhamento, discrição e sofrimento) foram ocupar a zona de mata entre a região das minas e o Rio de Janeiro.
Eu confirmei a história aprendida da história e ainda descobri uma outra que não me havia sido contada corretamente. Talvez para preservar as crianças da crueldade das guerras, talvez porque o programa curricular de história do Brasil não tinha espaço que bastasse para entrar em pormenores da formação de Minas Gerais, só agora há poucos anos pude aferir da gravidade da guerra dos Emboabas.
Eu venho de uma antiga família de bandeirantes paulistas, encabeçada por Fernão Dias Paes, mas que também é composta por outros grandes nomes de relevo. Famílias de quatrocentos anos, como diz Tião Carreiro e Pardinho na moda "O mineiro e o italiano", do que deduzo que o juiz que foi ali ludibriado por um mineiro, era um correto e íntegro primo meu, também ele descendente das primeiras famílias de São Vicente.
O conflito dos emboabas foi uma cruenta guerra pela exploração das minas. De um lado, os orgulhosos paulistas, descobridores do "el dorado" do império português. De outro, os brasileiros de outras regiões, nomeadamente, cariocas, baianos, pernambucanos e mesmo reinóis (portugueses nascidos no Reino) que queriam também aceder às incomensuráveis riquezas das minas de ouro.
Uma guerra entre irmãos, por dinheiro. Algo triste e cru, que custou não só o sangue mas uma porção larga da dignidade de nossa raça.
Se Deus nos deu o Brasil para catequizar e salvar da danação eterna, incutindo-lhe a fé católica, não deu semelhante procuração para que nos trucidássemos por ouro.
Os paulistas, mesmo de crista levantada, perderam a disputa. Diz a história que na sua retirada para São Paulo, pelo caminho velho, ainda foram atraiçoados por um carioca indolente, líder emboaba, que lhes prometera salvo conduto se depusessem as armas aquando já de uma tentativa de retirada, quando os surpreenderam em uma encosta. Concordaram candidamente os paulistas para que, ao adormecer naquela noite, fossem acordados com as cruentas lâminas emboabas nos seus pescoços. 
Por muito orgulho e confiante na nobreza das minhas doces Minas Gerais, não podemos ver a vida em rosa de uma história feita também com dor, sofrimento e traição. Que Deus tenha piedade das almas dos nossos antepassados que tomaram parte nesses atos tristes e deploráveis.
Quando se ia acabando o ouro, a coroa portuguesa mantinha-se sedenta dos impostos, e fez impor uma derrama, na forma de uma quota mínima de arrobas de ouro que devia ser paga, independentemente da produção aurífera.
Este cálculo imprudente e pouco empático, foi o terreno fértil em que as ideias revolucionárias que já andavam assanhadas por aí se serviram para florescer. Não tardou, revolucionários começaram a se levantar propondo a maluquice da independência das Minas (e não propriamente do Brasil).
Maluquice porque não se separa o que na origem e no espírito é um só. Um divórcio fundado no ódio é uma separação de corpos que irá servir apenas para apequenar os espíritos. Mais tarde, essa teoria provou-se com a definitiva separação entre Portugal e o Brasil.
Ao que nos interessa, meu primo Cláudio Manoel da Costa, um magistrado com ideias fantasiosas e bons dons poéticos, alinhou-se nessa conspiração. Delatados, esses inconfidentes (traidores, é mesmo isso o que significa o seu título) foram degredados todos, exceto por Tiradentes (o suposto líder, mas que era apenas o doidinho iludido que achava que não seria levado à forca) e meu primo Cláudio, que tirou a própria vida no vão das escadas da Casa dos Contos, em Vila Rica.
Uma outra prima, essa paulista, Domitila, entretanto iria mais tarde seduzir o príncipe regente, e depois imperador do Brasil, nas suas tramas de deslumbramento. Tudo para ser rejeitada por ele e procurar redenção na caridade, o que não é de todo mau!
Desde essas tentativas de revolução e a fatídica separação de Portugal, minha raça só perseverou mais duas gerações na região das Minas. Em 1795 nasceu o meu pentavô José de Paiva Jorge, último português, e em 1828, meu tetravô Gomes, o primeiro brasileiro. E fomo-nos embora das minas porque ouro mesmo, já não havia.
Essa linha varonil que uso de referência apenas, sem em nada diminuir a grandeza das nobilíssimas mulheres mineiras de quem tenho a honra de descender também, mostra muito do nosso percurso: uma luta pela sobrevivência e pelo sentido de uma vida que, se tinha em Deus o seu signo maior, também não podia ignorar a necessidade de sobreviver.
A minha família reproduz em muito a história de Minas Gerais, o que muito me orgulha. 
Devemos ir-nos embora de Minas e achar que é o mundo o nosso refúgio, e não um seu canto qualquer?
Eu digo que afirmar isso é muito duvidoso.
Há encantos próprios das terras dos nossos pais e avós que comunicam ao nosso coração sentimentos insuspeitados. 
Quando vim estudar para Portugal, fui repentinamente arrebatado por um mar de identificações que não estava à espera. Durante muitos anos, paguei as dívidas de ausência no altar da devoção aos antigos portugueses que nos fizeram. Sem desmerecer as nossas outras legítimas e nobres constituições, (lembro-me sempre de Vinicius de Morais nas "redondilhas para Tati" dizendo a ela que era "forte como Peri!"), os nossos avós portugueses foram uma gente espetacular, quer pela sua devoção a Deus, Senhor nosso, quer pelas inúmeras e difíceis provações que tiveram que vencer, não há conclusão verdadeira a não ser que Minas foi feita por Portugal e para ser Portugal.
Passados todos estes anos aqui no "Reino", entretanto, colore-me as retinas o contorno verde pálido das minhas montanhas americanas, como um horizonte que melhor emoldura o meu coração.
E por isso eu vos afirmo: não se foge à raça, meus amigos. Nós não devemos jamais fingir ser o que não somos, nem acreditar em histórias fantasiosas que agradam a outros, mas negam as nossas origens.
A verdade é sempre simples e a sua evidência  desde os factos comprovados impõe-nos a honestidade de a acolher entre as nossas convicções.
Um grande viva ao nosso Portugal, de ontem e de hoje. Um viva ainda maior às nossas Minas, de luta, de inexplicável encantamento e de indizível amor.

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Meu avô Gomes


Ilustração produzida pelo Grok da avó Umbelina, avô Gomes, avô Antônio Gomes, o infeliz do Inocêncio e a prima Amália

Muitos homens na minha família são carecas. Em verdade, sou a primeira geração que tenho notícia que não é careca: é careca meu pai, como foram meu avô Toninho, meu bisavô Miano, e foi também o meu trisavô Antônio Gomes, (já que a tia Lila dizia que meu avô era o descendente mais parecido com ele!). 
É natural que imaginasse o meu tetravô Gomes José de Paiva como um homem calvo. Calvo, mas com cara de mau, pois a vida de Gomes não foi fácil, e se desse uma de "vítima das circunstâncias" nós provavelmente não existiríamos.
Nos meus estudos e pesquisas, sempre tive a impressão de que Gomes tinha se tornado órfão de pai muito novo. Isso porque ele foi testemunha da assinatura do testamento do sogro ainda com 17 anos de idade (o que sugere que foi emancipado por orfandade).
Embora órfão, Gomes recebeu uma boa educação para os padrões da época: sabia ler e escrever muito bem, e tinha uma linda caligrafia.


A triste nota escrita por Gomes ao Sr. Delegado de Polícia, comunicando o acidente que ceifou a vida de seu filho Galdino

Esses indícios mais impressionantes de sua vida, capturados nas minhas investigações ao longo do tempo, evocam uma personalidade invulgar. Vamos reuni-los em uma linha de tempo para proporcionar uma visão de conjunto sobre o meu antepassado.
Gomes nasceu em Piranga em 1828, portanto, já em uma fase de acentuada crise da produção de ouro.  Casou-se novo, pois a proximidade com o sogro Domingos Monteiro, um rico proprietário rural, dono de largas sesmarias na região da mata, sugere que o casamento foi arranjado por conta de sua orfandade.
Casou-se com a avó Umbelina e veio para a região da Mata ocupar as sesmarias de Domingos Monteiro na região de Rio Preto e Rosário da Limeira.
Em Rosário da Limeira, teve uma fazenda chamada Pombal, talvez uma pequena referência ao concelho de Pombal, em Portugal. Presumo ter sido nesta propriedade que nasceu o meu trisavô Antônio Gomes e seus irmãos.
Havia por parte da família de Gomes, e também dos Monteiro (famílias claramente muito próximas) relações fortes com as antigas terras dos Bagres e Xopotó, hoje Guiricema e Cipotânea. Muitos registros de família falam dessas duas terras.
Dos filhos que Gomes teve com Umbelina, sabemos apenas de alguns que foram surgindo ao longo dos anos de pesquisa.
A filha mais velha, presumo ser a Rita Umbelina, nascida possivelmente em 1849. Rita casou-se com um Alves Pereira, filho de Belisário, o tio Germano. Pelas informações de Nina Campos, esse casalzinho foi viver para as terras de Belisário em Monte Alverne, mas Germano infelizmente morreu novo. A tia Rita depois era referida no inventário de Belisário, em 1880, como a viver em São Sebastião dos Aflitos, uma povoação de Ubá.
A seguir, presumo ter vindo Antônio José. Deste filho, só sabemos que vivia em Bagres aquando do processo criminal contra Inocêncio, pois o tribunal confundiu-o com o vovô Antônio Gomes, criando um incidente processual.



Presumo que o tio Antônio José de Paiva fosse de 1852, portanto, já casado e estabelecido por conta própria na altura em que surge nesse registro. Já neste tempo, aparecem muitos "Antônio José de Paiva" nos registros da região, o que dificulta um bocado saber mais deste tio. O que eu suponho, é que o nome "Antônio" fosse tido em muita conta por Gomes e Umbelina, pois deram esse nome a dois filhos!
Depois de Antônio José, possivelmente veio Galdino. Na época do seu acidente fatal, Galdino deveria contar com vinte e poucos anos. Portanto, deveria ser do ano de 1855. Dele, sabe-se apenas que trabalhava com o pai. No dia do acidente, quem o acompanhava era do vovô Antônio Gomes, então um adolescente de 15 anos, que desesperado com a brutal cena de sangue e agonia que testemunhou, correu a buscar ajuda nas casas da vizinhança do acidente, onde uma das rodas do carro de madeiras passou por cima do pobre tio Galdino. Vovô Antônio Gomes também teve grandes doses de sofrimento ao longo de sua vida!
Contamos então até aqui, Rita, Antônio José e Galdino. Vamos adiante!
Em 1857 nasceu José, definitivamente em São Paulo do Muriaé. Isso porque é o único dos filhos de Gomes e Umbelina que tem um batistério registrado: recebeu o Espírito Santo no dia 14 de Março de 1858. Foram seus padrinhos os seus tios Francisco José da Cruz e Maria Rosa de Jesus, esta, irmã de Gomes e mãe da Amália, a sobrinha a quem Gomes salvou a vida muitos anos depois. De José só sabemos isso mesmo. Presumo que tenha sido batizado "José Gomes de Paiva", e talvez com ele começaram a usar Gomes como sobrenome. Mas isso é só uma teoria até aqui. A mortalidade infantil era alta naquele tempo e este tio José pode mesmo não ter chegado à vida adulta.
Depois de José, nasceu o meu trisavô Antônio Gomes de Paiva, nascido certamente em 1861. Este senhor que recebeu o mesmo nome do irmão mais velho, foi um valoroso filho. Sabemos que não veio para Santa Rita do Glória com a esposa Augusta enquanto o pai era vivo, e suponho que também aguardou pelo descanso de sua mãe Umbelina para finalmente deixar Rosário da Limeira pelos idos de 1900. 
Meu trisavô foi um homem sério, talvez até mesmo duro, conforme a vida que teve. Viveu para a família e trabalhou muitíssimo. Há registros de compras de terras por ele, sendo que foi produtor de café, e muito colaborou com o rico tio de sua mulher, o tio José Belisário. Tia Lila o recorda como parecido com o meu avô Toninho, como já disse. Penso que deveria ser fisicamente parecido. Na forma de ser, deveria ser um homem sereno, já que a mulher tinha um temperamento difícil, para combinar teria de ser sossegadinho. Tia Lila também contava que ele não gostava de coscuvilhices e falsidades, e ilustra com a anedota sobre quem haveria de ter pintado a frente da casa do padre com dizeres pouco católicos: o vovô Antônio Gomes não se furtou em acusar a própria pessoa que trazia a tal notícia! Certamente, não era dado a contar muitas histórias. Dele sobrou muito pouca memória. Viveu 25 anos certos em Santa Rita do Glória, mas lá deixou imensa descendência.
Depois de Antônio Gomes, veio Hipólita, de 1863. Recebeu o nome em homenagem à mãe da avó Umbelina, que era Hipólita Joaquina. A nossa tia era Hipólita Umbelina. Dela sabemos que casou com o seu primo Antônio José Monteiro, e com ele teve dois filhinhos: Gomes José e Umbelina Calista. A tia Hipólita infelizmente morreu de bronquite aos 32 anos, em Rosário da Limeira, deixando os filhos órfãos de mãe. Um dos poucos ramos da família de Gomes em que consegui identificar descendência, foi o de Hipólita.
Por fim, muito mais novo, aprece o tio João Gomes de Paiva, provavelmente de 1870. O tio João foi a criança que escolheu o nome do Júri que iria julgar o Inocêncio, metendo por seguidas vezes a mão na urna com o nome de todos os convocados para o ato de julgamento. Na altura, deveria contar com 10 ou 11 anos de idade. Tio João foi definitivamente viver para Guiricema enquanto adulto. Eu suponho que Gomes tinha já algum irmão ou irmãos a viver na antiga freguesia de Bagres. Lá, tio João Gomes casou-se com Maria Eduarda da Assunção e tiveram muitos filhinhos. Tio João deu a eles os nomes da família, em um gesto de grande devoção aos Gomes de Paiva, que foi também o gesto do meu trisavô Antônio Gomes: José, Umbelina, Galdino, etc. Foi um descendente do tio João que o meu tio-bisavô Afonso Gomes de Paiva conheceu em Juiz de Fora por acaso nos anos 1980: o primo Sebastião Gomes de Paiva. 
Esse apego aos nomes de família, muito repetidos, sugerem que a casa de Gomes e Umbelina foi um lar de amor e de acolhimento. Quem não se sente amado em um lar, jamais reproduz os nomes dos pais e dos irmãos nos próprios filhos!
Por todos esses indícios e tão poucas evidências, sempre quis saber mais sobre a ascendência do velho Gomes, o grande patriarca dos Gomes de Paiva!
Essa busca tinha sido sempre infrutífera, pois a memória familiar mal lhe preservou o nome, e quase nem isso: costumávamos questionar se ele não se chamaria mesmo "José Gomes de Paiva", pelo inusitado de Gomes como primeiro nome! 
Recentemente, surgiu em uma das plataformas de genealogia os dados do censo de 1832 que identifica no povoado de Pinheiros Altos, Piranga, uma família com um menino chamado Gomes José de Paiva, nascido em 1828. Era definitivamente o nosso Gomes! Os dados todos confirmavam-no: a origem em Piranga, o ano de nascimento e mesmo a raridade do nome Gomes. Além disso, o segundo nome indiciava o nome do pai: José, e de facto era esse o nome de seu pai.
Na altura do censo, o pobre Gomes já era órfão de seu pai, que se chamava José de Paiva Jorge, um fazendeiro, nascido no ano de 1795. Sua mãe, Efigênia Maria da Silva, de 1802, criava sozinha os seis filhos: Antônio, de 1824, Francisco, de 1826, Gomes, de 1828, Maria Rosa (que sabemos ser a mãe de Amália), de 1829, Rita, de 1830, e Manoel, de 1831.



Trata-se de uma descoberta muito interessante porque, para além dos dados do censo de 1832, temos ainda o inventário de José de Paiva Jorge, com diversas informações preciosas, e que terei a oportunidade de investigar melhor futuramente.
Para já, fico contente de ter localizado o meu avô Gomes no tempo e no espaço. Ele não é mais apenas um nome, é uma pessoa com uma história e um legado de honradez, trabalho, coragem e amor.
Alguns dizem que a genealogia não nos pode trazer muito mais que uma simples recoleção de dados de um passado irrelevante. Mas isso é menosprezar o valor do sangue e da história que nele vive.
Nós somos a combinação dos nossos pais e avós, e em nós eles vivem, como vivemos nós próprios nos nossos filhos. Honrar a memória dos que se foram é honrar o dever filial, certamente.
Mas mais que cumprir com o dever, essas memórias distantes de antepassados que não conhecemos são a lembrança de que a grandeza deles, no grande sacrifício que passaram, enfrentaram e venceram, podem ser para nós um exemplo de superação e motivação contra as nossas próprias adversidades, simultaneamente mostrando a sua face humana e falha, como é a nossa própria.
Que Deus os guarde, ao meu avô Gomes e ao seu povo, que também é meu, em Sua infinita misericórdia.