sexta-feira, julho 10, 2026

O primeiro dia no céu

Roberto e Édila: hoje novamente reunidos no Paraíso

Meu anjo de amor libertou-se ontem dos sofrimentos da vida, nossa amada Nina descansou finalmente. A sua doença de Alzheimer lhe impôs duras penas nos últimos 12 anos, especialmente nos últimos 7 anos, em que esteve acamada e foi progressivamente perdendo a mobilidade e os sentidos. 
Não deixou nunca de sorrir. O seu sofrimento não foi a miséria de sua existência, pelo contrário, foi mais uma conta de amor no rosário de sua vida. Viveu-o com dignidade e com um sorriso, munida do seu imenso amor a Deus, a Jesus Cristo e a todos os Santos, mas também por nós, a sua família.
Poderia verter aqui memórias de recordação do nosso tempo juntos, mas seria um esforço despropositado: a infinidade de momentos simples e plenos de verdade, significado, força e ternura indizíveis forçariam as minhas capacidades para além do dom que Deus me teria dado para escrever.
Limito-me a agradecer a Deus a sorte de ter sido filho dela, embora neto. Fui filho porque criou-me desde muito pequeno e foi com ela que aprendi o amor, o perdão, a força e a justiça. Foram seus olhos que comunicaram os princípios ditos "inflexíveis" do meu espírito: amar com verdade e com propósito e ter sempre esperança no amor de Deus, principalmente quando as atribulações forem mais difíceis.
Nina deu-nos o que não teve direito. Ficou órfã de mãe aos 9 anos de idade, tendo de ser mãe dos irmãos mais novos e cuidar da casa para o pai viúvo. Casou muito nova com um homem de temperamento afetuoso mas dado a correr riscos: alinhou com ele irrestritamente em todos os seus empreendimentos e estiveram juntos na fortuna e na ruína, muitas vezes na vida. Teve os seus filhos neste ambiente de grande amor e cumplicidade: deu à luz a quatro rapazes e a três meninas. Uma prole de gente muito distinta, com um sangue quente e de coração amoroso. Eu fui o primeiro dos seus 15 netinhos. Mereci o seu afeto e o seu amor de uma forma incondicional. Ao meu pequeno coração de menino foi absolutamente natural amá-la também plenamente.
Tive um privilégio que nenhum outro neto teve do mesmo jeito: fui criado entre os 2 e os 4 anos na casa deles na Rua dos 3 Postes. Poucos netos conheceram essa casa maravilhosa: havia sempre uma broa a sair do forno, uma panela de feijão ao lume, um terço a ser rezado, um beijo na testa.
Mas o amor de Nina pela família não se resumiu minimamente aquele momento... antes e depois suas incansáveis orações chegaram às distantes paragens deste mundo onde eu me fui metendo ao longo dos anos... Seja em Juiz de Fora, Vitória, Belo Horizonte, Londres, Coimbra ou o Porto... suas orações chegaram sempre até mim em pensamentos de forte convicção no amor de Deus. A seguir, uma ligação para casa confirmava sempre aquelas impressões de saudades sentidas.
Hoje é o primeiro dia de minha vida em que ela não está neste mundo, mas é também o seu primeiro dia no Céu. Se podemos ter algum consolo da perda de quem amamos mais profundamente, talvez seja este: a grandeza de suas vidas, por terem vivido sempre para o bem dos outros, amando de forma profunda e desinteressada, elava-os diretamente para junto de Deus.
É lá onde um dia também eu quero estar, para a poder abraçar novamente.
Até o céu, avó.

sexta-feira, maio 01, 2026

As distâncias, os silêncios e o tempo

     Senhor Fernando, proprietário do Café Dunas da Rua do Breiner


Entre as rotinas que estimo, está a de tomar um café cheio acompanhado de um bolo de arroz no Café Dunas, na Rua do Breiner. Um lanche de meio de tarde, digamos, vulgar, não fosse pelas circunstâncias em que tem lugar.
A mim, a baixa do Porto faz lembrar o Pugilista do Quirinal: está ali todo desfeito, parecendo a olhar como quem pede misericórdia, mas é apenas um repouso de uma dura e longa luta. 
A própria Rua do Breiner, em si mesma é um espaço de circulação nesta baixa cansada, e nada mais. Liga a Rua de Cedofeita ao Largo da Maternidade, sendo entrecortada por diversas ruas importantes, como a Rua de Miguel Bombarda, por exemplo, estas sim, imersas no quarteirão artístico da cidade do Porto, com diversos ateliês e salas de exposição de artes plásticas. A Rua do Breiner é então uma prima pobre e feinha em uma zona relativamente badalada dominada por suas primas ricas e bonitas.
Não sendo grande entusiasta desses espaços urbanos cheios de história e de charme, mas duramente negligenciados e algo gentrificados, não posso negar que a baixa inteira, talvez toda a cidade do Porto, e eventualmente toda a face dura desta carcomida Europa ocidental ganham uma luz completamente redentora desde o Café Dunas da Rua do Breiner.
Dentro do pequeno estabelecimento com seis pequenas mesas e um balcão, que serve pequenos almoços, almoços e lanches com pastelaria variada, está o Senhor Fernando, seu proprietário. Trata-se de uma pessoa afável e muito prestativa. Atende a todos com um sorriso e uma maneira tão respeitosa, que muitos ali frequentam apenas para beneficiar da sua inesgotável gentileza.
Nosso personagem é um típico homem português da sua geração: um homem alto, com seu bigode muito digno, com expressão fatigada dos que se aproximam dos 60 anos desde uma vida de sacrifícios e desilusões. São traços que poderiam sugerir rabugice e cinismo, como infelizmente muitas vezes se vê.
Mas é exatamente o contrário. Poder-se-ia dizer que o Senhor Fernando é uma espécie de gentle giant, passe a expressão inglesa de Roald Dahl, mas em versão portuguesa, munido de uma alegria e um compromisso em acolher o cliente como já não se vê mais.
Na sua integridade, não se faz de amigo dos clientes, como fazem as pessoas interesseiras, sugerindo afinidades ou conhecimentos que não existem para se aproximar com intenções ocultas. Serve bem, com simpatia e dá-se ao respeito sobretudo respeitando as pessoas que lá vão. Se eventualmente se afeiçoam a ele e lhe dedicam confiança, isso acontece com a normalidade que a verdade do convívio cotejado admite.
O que a muitos parece apenas um senhor a trabalhar duro e a ser simpático com os clientes, a mim significa muito mais que isso: é uma decisão consciente e previamente deliberada internamente de converter os silêncios, as distâncias e o tempo que tudo corroem e afastam em comprometimento com o afeto. A atenção aos outros e a visão do trabalho como um dever carregado de compromisso são a expressão desse afeto.
O tirar o café na máquina, servir a chávena à mesa e depois vir para lhe pôr por cima a espuma é o mesmo que dizer: "Tenho muito gosto que tenhas vindo tomar café aqui hoje. Que desfrutes do seu café!". Mas evidentemente que o Sr. Fernando não diz nada durante todo o processo, limita-se a pedir licença e a sorrir.
Sua vida certamente é de dor, sofrimento e incompreensão, como as vidas de todos nós que lá nos metemos à procura de cafés cheios, bolos de arroz e algum afeto do Sr. Fernando. Mas ao contrário de muito de nós, ele não responde a essas mazelas com desconfiança e azedume para com o desconhecido: ele escolhe (repito: ele escolhe) tratar as pessoas bem independentemente de como se sente.
Diriam que o faz por imperativo do comércio. Não, meus amigos. Há muitas formas de ganhar dinheiro que não forçariam um homem a interpretar um papel por anos seguidos e depois chegar a casa e ser outra pessoa. Não há ali interpretação nenhuma. Nem ele próprio aguentaria fingir por tanto tempo, nem os clientes se iriam sujeitar a uma simpatia de interesse, pois se torna logo perceptível. 
Poderiam dizer que não é natural alguém ser sempre simpático. Há dias que serão mais difíceis, há problemas que nos consomem mais, há preocupações que nos tiram o sono e se não temos tempo para os amigos, às vezes nem para a família ou até para nós mesmos. Como podemos achar disponibilidade para sermos simpáticos ou atenciosos com os estranhos, mesmo que nossos clientes? Admito que não é propriamente a atitude natural, mas retomo a ideia enfatizada anteriormente: é uma decisão consciente a do Sr. Fernando em fazer bem o seu trabalho. Como resultado, transforma o seu labor em instrumento de paz e de concórdia para a própria existência e para o bem-estar das pessoas que o dignificam ao comprar no seu estabelecimento.
Será que é muito difícil ser como o Sr. Fernando? Parece-me que, não sendo fácil propriamente, não é de certeza impossível.
Acolher com amor e tratar com respeito as pessoas do nosso convívio exige de nós um verdadeiro sentido de caridade, pois temos de dar de nós mesmos aos outros nesse momento de dedicação, colocando-nos em segundo plano para poder ouvir e dar vez ao outro. 
Essa habilidade é tão rara porque estamos envolvidos por lógicas obtusas que nos induzem ao sentido oposto. Ao buscar apenas a satisfação das nossas necessidades, do nosso conforto, do nosso bem-estar, iremos acabar por ver as outras pessoas como peças de um jogo de acumulação de conveniências. Esse movimento acaba por nos destruir ao nos afastar do divino sentido de nos realizarmos através do bem que se faz ao outro, ao ocultar ardilosamente a dignidade superior da nossa alma.
Por muito surpreendente que possa parecer, a via da redenção não se assume como uma avenida majestosa. Por vezes, anuncia-se como uma rua feinha de onde alma simples, mas digna do céu, ilumina as nossas escolhas diárias. 

domingo, dezembro 14, 2025

Não se foge à raça

Largo de Coimbra com tropeiros e ao fundo a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto

Tenho me dedicado há alguns anos à pesquisa dos meus antepassados, em muito devido à influência de um querido primo que anteriormente se dedicara à reunir muitas memórias familiares em um livro fotocopiado chamado mesmo "Memórias", meu querido primo e irmão do meu coração, Paulo Afonso.
O grito de alerta de Paulo Afonso sobre a perda irreparável da memória dos antigos despertou em mim a necessidade de lhes apurar em verdade quem eram, de onde tinham vindo e o que fizeram nas suas vidas.
Antes de ler o "Memórias", sabia muito pouco, devo admitir. 
Sabia que éramos bons mineiros, zelosos nas tradições comuns das famílias mineiras. Sabia também que éramos descendentes dos portugueses que foram explorar as minas descobertas no fim do século XVII e que com o fim do ciclo do ouro (que durou um século largo para edificar o caráter mineiro com engenho, empenhamento, discrição e sofrimento) foram ocupar a zona de mata entre a região das minas e o Rio de Janeiro.
Eu confirmei a história aprendida da história e ainda descobri uma outra que não me havia sido contada corretamente. Talvez para preservar as crianças da crueldade das guerras, talvez porque o programa curricular de história do Brasil não tinha espaço que bastasse para entrar em pormenores da formação de Minas Gerais, só agora há poucos anos pude aferir da gravidade da guerra dos Emboabas.
Eu venho de uma antiga família de bandeirantes paulistas, encabeçada por Fernão Dias Paes, mas que também é composta por outros grandes nomes de relevo. Famílias de quatrocentos anos, como diz Tião Carreiro e Pardinho na moda "O mineiro e o italiano", do que deduzo que o juiz que foi ali ludibriado por um mineiro, era um correto e íntegro primo meu, também ele descendente das primeiras famílias de São Vicente.
O conflito dos emboabas foi uma cruenta guerra pela exploração das minas. De um lado, os orgulhosos paulistas, descobridores do "el dorado" do império português. De outro, os brasileiros de outras regiões, nomeadamente, cariocas, baianos, pernambucanos e mesmo reinóis (portugueses nascidos no Reino) que queriam também aceder às incomensuráveis riquezas das minas de ouro.
Uma guerra entre irmãos, por dinheiro. Algo triste e cru, que custou não só o sangue mas uma porção larga da dignidade de nossa raça.
Se Deus nos deu o Brasil para catequizar e salvar da danação eterna, incutindo-lhe a fé católica, não deu semelhante procuração para que nos trucidássemos por ouro.
Os paulistas, mesmo de crista levantada, perderam a disputa. Diz a história que na sua retirada para São Paulo, pelo caminho velho, ainda foram atraiçoados por um carioca indolente, líder emboaba, que lhes prometera salvo conduto se depusessem as armas aquando já de uma tentativa de retirada, quando os surpreenderam em uma encosta. Concordaram candidamente os paulistas para que, ao adormecer naquela noite, fossem acordados com as cruentas lâminas emboabas nos seus pescoços. 
Por muito orgulho e confiante na nobreza das minhas doces Minas Gerais, não podemos ver a vida em rosa de uma história feita também com dor, sofrimento e traição. Que Deus tenha piedade das almas dos nossos antepassados que tomaram parte nesses atos tristes e deploráveis.
Quando se ia acabando o ouro, a coroa portuguesa mantinha-se sedenta dos impostos, e fez impor uma derrama, na forma de uma quota mínima de arrobas de ouro que devia ser paga, independentemente da produção aurífera.
Este cálculo imprudente e pouco empático, foi o terreno fértil em que as ideias revolucionárias que já andavam assanhadas por aí se serviram para florescer. Não tardou, revolucionários começaram a se levantar propondo a maluquice da independência das Minas (e não propriamente do Brasil).
Maluquice porque não se separa o que na origem e no espírito é um só. Um divórcio fundado no ódio é uma separação de corpos que irá servir apenas para apequenar os espíritos. Mais tarde, essa teoria provou-se com a definitiva separação entre Portugal e o Brasil.
Ao que nos interessa, meu primo Cláudio Manoel da Costa, um magistrado com ideias fantasiosas e bons dons poéticos, alinhou-se nessa conspiração. Delatados, esses inconfidentes (traidores, é mesmo isso o que significa o seu título) foram degredados todos, exceto por Tiradentes (o suposto líder, mas que era apenas o doidinho iludido que achava que não seria levado à forca) e meu primo Cláudio, que tirou a própria vida no vão das escadas da Casa dos Contos, em Vila Rica.
Uma outra prima, essa paulista, Domitila, entretanto iria mais tarde seduzir o príncipe regente, e depois imperador do Brasil, nas suas tramas de deslumbramento. Tudo para ser rejeitada por ele e procurar redenção na caridade, o que não é de todo mau!
Desde essas tentativas de revolução e a fatídica separação de Portugal, minha raça só perseverou mais duas gerações na região das Minas. Em 1795 nasceu o meu pentavô José de Paiva Jorge, último português, e em 1828, meu tetravô Gomes, o primeiro brasileiro. E fomo-nos embora das minas porque ouro mesmo, já não havia.
Essa linha varonil que uso de referência apenas, sem em nada diminuir a grandeza das nobilíssimas mulheres mineiras de quem tenho a honra de descender também, mostra muito do nosso percurso: uma luta pela sobrevivência e pelo sentido de uma vida que, se tinha em Deus o seu signo maior, também não podia ignorar a necessidade de sobreviver.
A minha família reproduz em muito a história de Minas Gerais, o que muito me orgulha. 
Devemos ir-nos embora de Minas e achar que é o mundo o nosso refúgio, e não um seu canto qualquer?
Eu digo que afirmar isso é muito duvidoso.
Há encantos próprios das terras dos nossos pais e avós que comunicam ao nosso coração sentimentos insuspeitados. 
Quando vim estudar para Portugal, fui repentinamente arrebatado por um mar de identificações que não estava à espera. Durante muitos anos, paguei as dívidas de ausência no altar da devoção aos antigos portugueses que nos fizeram. Sem desmerecer as nossas outras legítimas e nobres constituições, (lembro-me sempre de Vinicius de Morais nas "redondilhas para Tati" dizendo a ela que era "forte como Peri!"), os nossos avós portugueses foram uma gente espetacular, quer pela sua devoção a Deus, Senhor nosso, quer pelas inúmeras e difíceis provações que tiveram que vencer, não há conclusão verdadeira a não ser que Minas foi feita por Portugal e para ser Portugal.
Passados todos estes anos aqui no "Reino", entretanto, colore-me as retinas o contorno verde pálido das minhas montanhas americanas, como um horizonte que melhor emoldura o meu coração.
E por isso eu vos afirmo: não se foge à raça, meus amigos. Nós não devemos jamais fingir ser o que não somos, nem acreditar em histórias fantasiosas que agradam a outros, mas negam as nossas origens.
A verdade é sempre simples e a sua evidência  desde os factos comprovados impõe-nos a honestidade de a acolher entre as nossas convicções.
Um grande viva ao nosso Portugal, de ontem e de hoje. Um viva ainda maior às nossas Minas, de luta, de inexplicável encantamento e de indizível amor.

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Meu avô Gomes


Ilustração produzida pelo Grok da avó Umbelina, avô Gomes, avô Antônio Gomes, o infeliz do Inocêncio e a prima Amália

Muitos homens na minha família são carecas. Em verdade, sou a primeira geração que tenho notícia que não é careca: é careca meu pai, como foram meu avô Toninho, meu bisavô Miano, e foi também o meu trisavô Antônio Gomes, (já que a tia Lila dizia que meu avô era o descendente mais parecido com ele!). 
É natural que imaginasse o meu tetravô Gomes José de Paiva como um homem calvo. Calvo, mas com cara de mau, pois a vida de Gomes não foi fácil, e se desse uma de "vítima das circunstâncias" nós provavelmente não existiríamos.
Nos meus estudos e pesquisas, sempre tive a impressão de que Gomes tinha se tornado órfão de pai muito novo. Isso porque ele foi testemunha da assinatura do testamento do sogro ainda com 17 anos de idade (o que sugere que foi emancipado por orfandade).
Embora órfão, Gomes recebeu uma boa educação para os padrões da época: sabia ler e escrever muito bem, e tinha uma linda caligrafia.


A triste nota escrita por Gomes ao Sr. Delegado de Polícia, comunicando o acidente que ceifou a vida de seu filho Galdino

Esses indícios mais impressionantes de sua vida, capturados nas minhas investigações ao longo do tempo, evocam uma personalidade invulgar. Vamos reuni-los em uma linha de tempo para proporcionar uma visão de conjunto sobre o meu antepassado.
Gomes nasceu em Piranga em 1828, portanto, já em uma fase de acentuada crise da produção de ouro.  Casou-se novo, pois a proximidade com o sogro Domingos Monteiro, um rico proprietário rural, dono de largas sesmarias na região da mata, sugere que o casamento foi arranjado por conta de sua orfandade.
Casou-se com a avó Umbelina e veio para a região da Mata ocupar as sesmarias de Domingos Monteiro na região de Rio Preto e Rosário da Limeira.
Em Rosário da Limeira, teve uma fazenda chamada Pombal, talvez uma pequena referência ao concelho de Pombal, em Portugal. Presumo ter sido nesta propriedade que nasceu o meu trisavô Antônio Gomes e seus irmãos.
Havia por parte da família de Gomes, e também dos Monteiro (famílias claramente muito próximas) relações fortes com as antigas terras dos Bagres e Xopotó, hoje Guiricema e Cipotânea. Muitos registros de família falam dessas duas terras.
Dos filhos que Gomes teve com Umbelina, sabemos apenas de alguns que foram surgindo ao longo dos anos de pesquisa.
A filha mais velha, presumo ser a Rita Umbelina, nascida possivelmente em 1849. Rita casou-se com um Alves Pereira, filho de Belisário, o tio Germano. Pelas informações de Nina Campos, esse casalzinho foi viver para as terras de Belisário em Monte Alverne, mas Germano infelizmente morreu novo. A tia Rita depois era referida no inventário de Belisário, em 1880, como a viver em São Sebastião dos Aflitos, uma povoação de Ubá.
A seguir, presumo ter vindo Antônio José. Deste filho, só sabemos que vivia em Bagres aquando do processo criminal contra Inocêncio, pois o tribunal confundiu-o com o vovô Antônio Gomes, criando um incidente processual.



Presumo que o tio Antônio José de Paiva fosse de 1852, portanto, já casado e estabelecido por conta própria na altura em que surge nesse registro. Já neste tempo, aparecem muitos "Antônio José de Paiva" nos registros da região, o que dificulta um bocado saber mais deste tio. O que eu suponho, é que o nome "Antônio" fosse tido em muita conta por Gomes e Umbelina, pois deram esse nome a dois filhos!
Depois de Antônio José, possivelmente veio Galdino. Na época do seu acidente fatal, Galdino deveria contar com vinte e poucos anos. Portanto, deveria ser do ano de 1855. Dele, sabe-se apenas que trabalhava com o pai. No dia do acidente, quem o acompanhava era do vovô Antônio Gomes, então um adolescente de 15 anos, que desesperado com a brutal cena de sangue e agonia que testemunhou, correu a buscar ajuda nas casas da vizinhança do acidente, onde uma das rodas do carro de madeiras passou por cima do pobre tio Galdino. Vovô Antônio Gomes também teve grandes doses de sofrimento ao longo de sua vida!
Contamos então até aqui, Rita, Antônio José e Galdino. Vamos adiante!
Em 1857 nasceu José, definitivamente em São Paulo do Muriaé. Isso porque é o único dos filhos de Gomes e Umbelina que tem um batistério registrado: recebeu o Espírito Santo no dia 14 de Março de 1858. Foram seus padrinhos os seus tios Francisco José da Cruz e Maria Rosa de Jesus, esta, irmã de Gomes e mãe da Amália, a sobrinha a quem Gomes salvou a vida muitos anos depois. De José só sabemos isso mesmo. Presumo que tenha sido batizado "José Gomes de Paiva", e talvez com ele começaram a usar Gomes como sobrenome. Mas isso é só uma teoria até aqui. A mortalidade infantil era alta naquele tempo e este tio José pode mesmo não ter chegado à vida adulta.
Depois de José, nasceu o meu trisavô Antônio Gomes de Paiva, nascido certamente em 1861. Este senhor que recebeu o mesmo nome do irmão mais velho, foi um valoroso filho. Sabemos que não veio para Santa Rita do Glória com a esposa Augusta enquanto o pai era vivo, e suponho que também aguardou pelo descanso de sua mãe Umbelina para finalmente deixar Rosário da Limeira pelos idos de 1900. 
Meu trisavô foi um homem sério, talvez até mesmo duro, conforme a vida que teve. Viveu para a família e trabalhou muitíssimo. Há registros de compras de terras por ele, sendo que foi produtor de café, e muito colaborou com o rico tio de sua mulher, o tio José Belisário. Tia Lila o recorda como parecido com o meu avô Toninho, como já disse. Penso que deveria ser fisicamente parecido. Na forma de ser, deveria ser um homem sereno, já que a mulher tinha um temperamento difícil, para combinar teria de ser sossegadinho. Tia Lila também contava que ele não gostava de coscuvilhices e falsidades, e ilustra com a anedota sobre quem haveria de ter pintado a frente da casa do padre com dizeres pouco católicos: o vovô Antônio Gomes não se furtou em acusar a própria pessoa que trazia a tal notícia! Certamente, não era dado a contar muitas histórias. Dele sobrou muito pouca memória. Viveu 25 anos certos em Santa Rita do Glória, mas lá deixou imensa descendência.
Depois de Antônio Gomes, veio Hipólita, de 1863. Recebeu o nome em homenagem à mãe da avó Umbelina, que era Hipólita Joaquina. A nossa tia era Hipólita Umbelina. Dela sabemos que casou com o seu primo Antônio José Monteiro, e com ele teve dois filhinhos: Gomes José e Umbelina Calista. A tia Hipólita infelizmente morreu de bronquite aos 32 anos, em Rosário da Limeira, deixando os filhos órfãos de mãe. Um dos poucos ramos da família de Gomes em que consegui identificar descendência, foi o de Hipólita.
Por fim, muito mais novo, aprece o tio João Gomes de Paiva, provavelmente de 1870. O tio João foi a criança que escolheu o nome do Júri que iria julgar o Inocêncio, metendo por seguidas vezes a mão na urna com o nome de todos os convocados para o ato de julgamento. Na altura, deveria contar com 10 ou 11 anos de idade. Tio João foi definitivamente viver para Guiricema enquanto adulto. Eu suponho que Gomes tinha já algum irmão ou irmãos a viver na antiga freguesia de Bagres. Lá, tio João Gomes casou-se com Maria Eduarda da Assunção e tiveram muitos filhinhos. Tio João deu a eles os nomes da família, em um gesto de grande devoção aos Gomes de Paiva, que foi também o gesto do meu trisavô Antônio Gomes: José, Umbelina, Galdino, etc. Foi um descendente do tio João que o meu tio-bisavô Afonso Gomes de Paiva conheceu em Juiz de Fora por acaso nos anos 1980: o primo Sebastião Gomes de Paiva. 
Esse apego aos nomes de família, muito repetidos, sugerem que a casa de Gomes e Umbelina foi um lar de amor e de acolhimento. Quem não se sente amado em um lar, jamais reproduz os nomes dos pais e dos irmãos nos próprios filhos!
Por todos esses indícios e tão poucas evidências, sempre quis saber mais sobre a ascendência do velho Gomes, o grande patriarca dos Gomes de Paiva!
Essa busca tinha sido sempre infrutífera, pois a memória familiar mal lhe preservou o nome, e quase nem isso: costumávamos questionar se ele não se chamaria mesmo "José Gomes de Paiva", pelo inusitado de Gomes como primeiro nome! 
Recentemente, surgiu em uma das plataformas de genealogia os dados do censo de 1832 que identifica no povoado de Pinheiros Altos, Piranga, uma família com um menino chamado Gomes José de Paiva, nascido em 1828. Era definitivamente o nosso Gomes! Os dados todos confirmavam-no: a origem em Piranga, o ano de nascimento e mesmo a raridade do nome Gomes. Além disso, o segundo nome indiciava o nome do pai: José, e de facto era esse o nome de seu pai.
Na altura do censo, o pobre Gomes já era órfão de seu pai, que se chamava José de Paiva Jorge, um fazendeiro, nascido no ano de 1795. Sua mãe, Efigênia Maria da Silva, de 1802, criava sozinha os seis filhos: Antônio, de 1824, Francisco, de 1826, Gomes, de 1828, Maria Rosa (que sabemos ser a mãe de Amália), de 1829, Rita, de 1830, e Manoel, de 1831.



Trata-se de uma descoberta muito interessante porque, para além dos dados do censo de 1832, temos ainda o inventário de José de Paiva Jorge, com diversas informações preciosas, e que terei a oportunidade de investigar melhor futuramente.
Para já, fico contente de ter localizado o meu avô Gomes no tempo e no espaço. Ele não é mais apenas um nome, é uma pessoa com uma história e um legado de honradez, trabalho, coragem e amor.
Alguns dizem que a genealogia não nos pode trazer muito mais que uma simples recoleção de dados de um passado irrelevante. Mas isso é menosprezar o valor do sangue e da história que nele vive.
Nós somos a combinação dos nossos pais e avós, e em nós eles vivem, como vivemos nós próprios nos nossos filhos. Honrar a memória dos que se foram é honrar o dever filial, certamente.
Mas mais que cumprir com o dever, essas memórias distantes de antepassados que não conhecemos são a lembrança de que a grandeza deles, no grande sacrifício que passaram, enfrentaram e venceram, podem ser para nós um exemplo de superação e motivação contra as nossas próprias adversidades, simultaneamente mostrando a sua face humana e falha, como é a nossa própria.
Que Deus os guarde, ao meu avô Gomes e ao seu povo, que também é meu, em Sua infinita misericórdia.

domingo, dezembro 22, 2024

Meditações sobre os poemas que precisam de ser escritos

Desde o meu primeiro encontro com a poesia, visto óculos de ver o mundo segundo as suas lentes. Meu pensamento de menino ficou para sempre impactado com a possibilidade de se condensar significados complexos em rimas aparentemente inocentes. Pela sua melodia simples, repetiam-se no pensamento sem muito esforço, deixando sedimentar as profundas convicções de "colheita poética" na alma do leitor.
O príncipe dos poetas abriu em mim esse salão das possibilidades ilustradas de se ver a vida. Bilac chegou-me pela minha professora primária, e pelo meu farmacêutico. A dona Rosa declamava "a última flor do Lácio", e o Dr. Gélio "Ora, direis ouvir estrelas...", e o meu pensamento viajava da península itálica para a antiga Lusitânia, para as nossas Minas e subia por fim ao infinito imaginável da própria Via Láctea.
De Bilac, restou em mim o respeito inegociável à poesia. A sua dignidade sagrada, a sua expressão medida, e a indizível e delicada formação de versos (a um só tempo singelos e complexos), elevam-na à posição de insumo da própria ordem natural do homem, colaborando para a sua dimensão transcendental. A sua elevada dimensão entre as artes está portanto justificada na sua incomparável potência para o leitor.
Mais tarde na minha vida, atacado pelas paixões de rapazito, fui buscar no Poetinha a compreensão dos meus próprios sentimentos. Embora a paixão não seja boa conselheira para o entendimento, a intensidade brutal das suas fixações convida a própria imaginação a dar saltos novos de compreensão do mundo. Por isso, o diminutivo na alcunha só tem mesmo o sentido do carinho que Vinicius de Moraes merece, e nunca qualquer pequenez. 
Muitos outros poetas conversaram comigo. Sou bom amigo de Luís de Camões, Bocage, Florbela, Drummond, Bandeira, Quintana, Pessoa... e tantos outros que, não merecendo menção por não ombrear no estatuto, foram suficientemente honestos para ajudar a talhar o meu "reino das palavras", como o chamava Drummond. Sem este reino, nenhum poeta pode ser acamado rei de sua poesia. Será um rimador, um redator de ideias metafóricas organizadas em poema, eventualmente um letrista de música, mas não um verdadeiro poeta.
Talvez o critério mais importante para se abrir a porta de entrada nesse reino (em alusão à pergunta de Drummond: "Trouxeste a chave?"), seja a seriedade das meditações sobre os poemas que precisam de ser escritos.
As angústias e obrigações da vida, a brutalidade dos interesses materiais, a maldade calcada nesses mesmos interesses e na ignorância da grandeza do espírito, vão deitando terra para cima das considerações poéticas. Sujas, as lentes dos óculos poéticos pouco ou nada vêem, e a muitas injustiças poéticas são cometidas, em prejuízo do poeta e do resto do mundo. Vou explicar melhor essas considerações.
Sendo mais direto, e em resposta a um pedido reverso, as minhas meditações sobre os poemas que precisam de ser escritos são das orações mais sentidas da minha alma, rezadas no silêncio e no escuro do meu quarto, enquanto o sono me aguarda. Falo a Deus de toda a beleza e toda a tragédia que vi nas coisas banais do mundo, e que será esquecida no sono daquela noite. Eventualmente, no entanto, há significados demasiado grandes para serem ignorados, e quanto a esses, Deus não me concede o perdão na forma do esquecimento.
Os poemas que precisam de ser escritos são a brutalidade da verdade da vida ilustrada nas nossas experiências, as que marcam profundamente os nossos sentimentos e convicções morais. Visto na dimensão da sua seriedade, apenas os poemas que precisam de ser escritos é que deveriam mesmo sê-lo. Mas, curiosamente, não escrevê-los fá-los crescer em nós, em um amontoar de pressão poética que se vai tornando progressivamente mais dramático: ignorá-los é o pior que se pode fazer.
Assim, constrangido de todas as formas, pressionado pelas suas convicções profundas, complacente com o poema que de dentro lhe sorri sincero, o poeta resolve materializar aquilo em verso, com medo de que o resultado final seja feinho e desajeitado.
No entanto, esse receio jamais se converte em realidade. O poema que precisa de ser escrito é sempre bonito, pois ele é expressão de poesia vivida, a única fonte de poesia legítima que pode haver.
Desprendido do poeta, o poema ganha uma vida própria. Vai ser lido por outros que vão encontrar nele uma mistura de identificação com os sentimentos e convicções do poeta e identificação com os próprios, em uma espécie de matrimónio poético que irá modificar o leitor muito mais do que ele pode imaginar.
Esse efeito transformador, (adivinhem só), está reservado aos poemas que precisavam de ser escritos. Ele possuiu (e destruiu) Verlaine, salvou Camões do inferno, elevou Dante ao céu, deu a Vinicius a coragem que não tinha, e me projetou grandemente para fora de mim mesmo, extrovertendo o que seria de outra forma ignorado e reprimido.
Ainda em mim habitam muitos poemas que precisam de ser escritos. São meus amigos, esses poemas. Obviamente que eu não os ignoro, pelo contrário: conversamos em trovas filosóficas. Olham-me nos olhos com um amor e uma paciência que me deixam completamente à vontade. Eles sabem quem eu sou, e o lugar deles em mim é o das convicções mais sérias e reservadas. Talvez chegue o dia em que a pressão poética me fará escrever esses poemas. Até lá, entretanto, vou tentando compor melhor em mim a expressão de cada um deles, para que a sua derradeira forma seja tão significativa para outros, como já é para mim mesmo.

sexta-feira, março 22, 2024

Há 100 anos Toninho Miano veio ao mundo


No dia 18 de Março de 1924, na fazenda Santa Cruz, Sinhá deu à luz ao seu oitavo filho. O menino levou o nome do avô paterno, mas nos sobrenomes Miano resolveu repetir a combinação que recebeu a tia Manzica, pois com Gomes de Paiva já havia o seu pai e o seu irmão. Assim, o menino que viria a ser o meu avô foi batizado Antônio Gomes Martins.
Acho que esta combinação com os sobrenomes do pai e da mãe foi muito feliz, em que pese eu ter ficado sem o Paiva. Isso porque vejo nele os traços da família de um e outro lado, em que pode unir o muito do que era bom, e evitar o algum que era mau.
Antes de fazer a reconstituição da genealogia do meu avô, louvando os nossos antepassados, ou mesmo contar histórias da sua infância, vou falar do Toninho Miano que eu conheci, muito pequeno ainda, e do que me foi dado a conhecer por toda a gente que conviveu mais com ele.
Meu avô morreu muito cedo. Tinha apenas 62 anos. Pior, morreu de repente, sem que fosse esperado, e em uma terra que, embora não fosse estrangeira, não era mineira. Acho que muitos de nós na família nunca aceitamos a morte dele. E foi (e é) assim não porque nos falte fé em Deus, ou confiança na Sua divina composição dos assuntos do mundo. Antes, a saudade que permanece é muito fruto de corações eternamente cativados pela sua indizível bondade e carisma.
Dotado de uma invulgar prudência, aliada a um caráter brando e extrovertido, mas muito firme no sentido do que era certo, fez uma vida de trabalho e de amor com raríssimo sucesso.
Digo mesmo, sem qualquer sombra de exagero, que meu avô foi o homem mais bem sucedido que alguma vez conheci. Isso porque ele venceu em todos os campos relevantes da vida. Foi capaz de prover aos seus e encaminhar muito bem todos os filhos, esteve presente para os seus irmãos e para os seus pais, ajudou mesmo aqueles que mal conhecia, por vezes oferendo a quem lhe tinha mostrado ingratidão uma redentora misericórdia. 
Na origem de tanto êxito, ouso dizer, estava uma fé inquebrantável em Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando esteve em vias de embarcar para a Guerra, a vovó Agusta lhe dirigiu uma carta em que rogava para que Nossa Senhora continuasse a protegê-lo. E quando, já mais tarde na vida, o seu jipe virou de ponta cabeça em uma ponte precária na estrada de Santa Bárbara, ele chamou pela intervenção de Santa Rita e teve a vida poupada.
Não só nesses momentos críticos, mas sobretudo nas longas tribulações que viveu ao lado da minha avó, seu grande amor, Deus orientou sempre a suas ações. E é justamente por isso que o Toninho sentia uma necessidade tão grande em ser caridoso: o amor de Deus deve ser emulado no amor que temos pelo próximo. Assim como sempre viu fazer a sua mãe Sinhá, Toninho fazia os possíveis para ajudar quem precisava.
Entre as várias histórias que demonstram esse comprometimento com a bondade, sem necessidade de fazer alarde, está uma história que chegou por uma pessoa anônima para mim, e por isso mesmo carrega muito da verdade. Contou-me essa senhora, hoje com mais de 50 anos de idade, que menina ainda, com a idade de 10 anos, trabalhava colhendo café para o meu avô. Com os bracinhos pequenos, não conseguia ir aos ramos mais altos do pé de café, e nem tinha disposição física para fazer a jornada de trabalho com os adultos, daí o valor da sua diária era de metade da de um adulto. No entanto, Toninho sabia que ela tinha uma mãe doente em casa e mais dois irmãozinhos menores, por isso um dia lhe fez uma oferta: "A partir de agora vou lhe pagar o mesmo que pago a um adulto, mas não pode contar para ninguém".
Ainda consigo ouvir a sua risada. Mesmo tendo se passado tantos anos do seu desaparecimento e sendo eu tão pequeno quando ele se foi. Na verdade, a morte pode nos privar da presença física, mas não é capaz de tirar de nós a presença do exemplo.
Muitas vezes na minha vida, ressentido por alguma dificuldade, ou chateado por não ter recebido o mesmo tratamento que dediquei aos outros, não me veio como um raio caído do céu o semblante sério do meu avô recordando a obrigação de ter gratidão pelo que me foi concedido? Quantas vezes as histórias de rebeldia do meu pai com ele, em que rapou o cabelo depois do meu avô ter dito que não tinha cortado o suficiente, ou sair de casa a bater com a porta quando o meu avô lhe negava um dinheirinho para sair à noite não serviram para me ensinar prudência e comedimento?
A sanha de enriquecer que nos corre nas veias desde os Alves Pereira, no Toninho teve um propósito muito elevado, também graças à rara inteligência da Ziza, sua amada mulher. Minha avó tinha o tino para os negócios dos Bicalho, muito astutos e pacientes. Esse planejamento, somado à inteligência e à energia que o Toninho recebeu do vovô Miano, fez com que a sua tropa de burros de carga a serviço do Juquinha do Vale se transformassem em muitas terras, muito café, muitas casas e lojas.
O exemplo de vida santa de Sinhá sempre pesou para que as atitudes com os outros (e com ele mesmo) fossem as mais corretas. Daí o dinheiro nunca foi idolatrado. O propósito da sua vida frugal e muito poupada (não posso aqui negar que o Toninho não gostava de gastar dinheiro!) era ajuntar o suficiente para nada faltasse aos seus amados filhinhos e netos.
Assim também aprendi com ele: com correção nos negócios, ir na direção certa, mesmo que não fosse tão rápido quanto gostaria. Até hoje, tem dado muito certo para mim!
É importante lembrar desse seu lado porque embora Toninho fosse muito alegre e brincalhão com os netinhos, também era disciplinador e gostava de dar tarefas para todos, pois não queria ver ninguém desocupado.
Eis mais uma lição que procuro aplicar à minha vida: aproveitar ao máximo o tempo e envolver as pessoas em atividades em que possam também tirar proveito. Essa é aliás uma forma muito simples para se fazer amizades boas e ajudar as pessoas, embora haja os que acham que estamos apenas a lhes dar serviço!
Nestes 100 anos do nascimento do Toninho, termino destacando uma das suas feições mais bonitas: o seu imenso amor pela minha avó. Quantas vezes vi nos olhos dela e no seu sorriso comedido a lembrança do meu avô como uma saudade cheia de dor, pelo vazio monumental que alguém tão grande como ele deixa, mas também cheia de orgulho pela sua herança de amor, força e misericórdia.
Um amor que mesmo lá no São Carlos, sem luz e água corrente, ajudaram-se um ao outro a cuidar dos filhinhos que chegavam, principalmente naquele início de vida juntos, em que entre o nascimento do tio Max e o tio Domingos tinha decorrido pouco mais de um ano!
Minha linda avô levou sempre consigo a memória do meu avô. A sua própria nobreza de alma sempre serviu para elevá-lo ainda mais aos nossos olhos.
Hoje no céu, abraçados e a sorrir, esse lindo casal olha por nós, celebrando os 100 anos de nascimento do Toninho, que deixou o mundo tão melhor do que encontrou, e será sempre merecedor das nossas mais profundas saudades.


quarta-feira, fevereiro 07, 2024

O enigma de Mariana

Brasão dos Paiva

Há um nome que ressoa de forma muito contundente na minha ancestralidade: Mariana Luísa de Paiva.
Mariana foi a esposa de Belisário Alves Pereira, o célebre desbravador e tropeiro da Zona da Mata na segunda metade do século XIX. A contrastar com a vida rude e agreste de seu marido, Mariana teria tido uma educação esmerada, gostava de poesia, e sabia ler e escrever corretamente. Era uma mulher um pouco diferente das que fizeram a transição da região das minas para a mata.
Desde a sua aura lívida e feminina, há um mistério a perdurar: qual é a ascendência de Mariana?
Essa pergunta pode parecer tola, uma vez que a tradição familiar dos Alves Pereira estabeleceu que ela é uma das filhas mais jovens de Manoel Silvério Vieira de Andrade e de Maria do Carmo Fonseca e Silva, tendo nascido a 10 de Março de 1832.
Essas informações me foram dadas a conhecer pela prima Nina Campos e, penso eu, ela pelos registros do Museu do Tic Tac em Belisário (então formado pelo tio Luciano Alves Pereira). O tio Luciano, por sua vez, valeu-se (suponho eu) dos registros do seu tio Luciano Dias de Andrade, um importante proprietário rural de Ubá.
A prima Nina Campos, no seu História de Belisário, ainda acrescenta mais informações sobre Mariana: seria descendente do bandeirante Fernão Dias Paes, surpeendendo-se do seu sobrenome não ser Dias.
Somadas essas referências da ascendência de Mariana pelo lado dos Alves Pereira, há uma referência familiar direta que nos chegou pela vovó Augusta: o Paiva de Mariana (sua avó paterna) era o mesmo Paiva do seu marido Antônio Gomes de Paiva.
Está então armada a confusão: de onde veio a nossa antepassada? É Paiva? É Dias Paes? É Vieira de Andrade?
Diante dessas dúvidas, virei-me para os poucos documentos que nos chegaram sobre Mariana.
O documento mais importante é sem dúvida o processo de inventário dos bens deixados pelo seu marido Belisário. Pela relação dos herdeiros, é possível colher o ano de nascimento exato dos filhos mais novos e estimar a dos filhos mais velhos. Assim sendo, temos o seguinte:

José Belisário Alves Pereira - 1841
Ana Luísa de Paiva- 1845
Germano Alves Pereira - 1847
Maria Theodora de Jesus -1849
Maximiano Alves Pereira - 1851
Antônio Alves Pereira - 1853
Rita Cypriana de Jesus - 1855
Manoel Alves Pereira - 1858
Joaquina Izidora de Jesus - 1862

A idade do primeiro filho também é certa. O tio José Belisário deixou um inventário com muitas e preciosas informações. Lá está declarado que faleceu em 1924 com a idade de 83 anos. Assim, era do ano de 1841.
Aqui já se desfaz a informação do Museu do Tic Tac sobre o ano de nascimento, pois se Mariana fosse mesmo do ano de 1832, teria tido o primeiro filho com 9 anos de idade... o que não faz qualquer sentido.
Aliás, através das evidências que chegaram reforça a ideia de que muito provavelmente Mariana não seja filha de Manoel Silvério e Maria do Carmo. Veja-se que as anotações sobre a genealogia do tio Luciano Dias de Andrade, irmão da vovó Heduviges, informa-se que os supostos pais de Mariana tiveram os seguintes filhos:

Ana Angélica - 1815
Manuel - 1817
Inácio - 1820
Francisca - 1822
Vicente e Maria Vicência - 1824
Rosa - 1825
Joaquim - 1827
Lino - 1829
Mariana - 1832
Cândida 1834
Maria Jacinta - 1837
Raimundo - 1839

Ocorre que a Lista de habitantes da Freguesia de São João Baptista do Presídio no ano de 1819 traz claramente a família de Manuel Silvério e Maria do Carmo (inclusivamente confirmando a informação das anotações genealógicas sobre a filha ilegítima de Manuel, Rita), mas as idades declaradas naquela época não coincidem com as das anotações. Manuel Silvério seria do ano de 1764, e não de 1766; Maria do Carmo seria de 1795, e não de 1797. Mas as discrepâncias de idade aumentam relativamente à lista de filhos. Inicalmente as diferenças eram de 2 anos, mas Francisca, supostamente nascida em 1822, na verdade era do ano de 1818 na Lista.
Ora, aplicando-se a mesma proporção de tempo desde Francisca (a filha  mais nova ao tempo da Lista), que é de um filho a cada dois anos, se esse ritmo se mantivesse, respeitada a ordem de nascimento informada nas anotações, Mariana teria nascido em 1828. Ora, sabemos que o seu primeiro filho, tio José Belisário, era do ano de 1841, assim, Mariana teria tido esse primeiro filho com a idade de 13 anos, o que é muitíssimo improvável. A idade mais normal para casamento de moças em famílias bem estruturadas, como era o caso, era a partir dos 16 ou 17 anos, até pelos 20 anos. Tendo em conta o nascimento do nosso tio, Mariana deveria ser do ano de 1824 ou mais provavelmente 1825.
Assim, reforça-se a ideia de que Mariana não era filha de Manuel Silvério e Maria do Carmo.
Mas então o que explicaria o facto de três filhos de Luciano Dias Paes e Ana Angélica de Andrade terem se casado com três filhos de Belisário Alves Pereira e Mariana Luísa de Paiva? Esta intensa ligação estaria justificada pelo facto das duas mulheres serem irmãs, ou seja, Mariana seria mesmo filha de Manuel Silvério e Maria do Carmo.
A verdade é que José Belisário casou-se com a tia Chiquinha, Maximiano casou-se com Heduviges, e Rita casou-se com Raimundo. Mas Ana Luíza casou-se com Sebastião Dias Paes, neto de Vicente Dias Paes, assim como Luciano Dias Paes, pai de Heduviges, Chiquinha e Raimundo. E Sebastião não tinha laço de parentesco direto com Ana Angélica, para além de ser sua prima.
Recorde-se que a forma habitual de arranjar casamentos na zona da mata a ser desbravada era mesmo a de arranjos familiares, já que as famílias viviam isoladas em suas fazendas em uma região ainda selvagem e fechada. Isso se fazia dentro da mesma família, ou então entre famílias amigas. Pode ser que a forte ligação que motivou os casamentos de três filhos de Luciano e Ana Angélica com os três filhos de Belisário e Mariana fosse de amizade apenas, o facto de terem sido três casamentos entre filhos desses dois casais reforça minimamente uma forte amizade ao longo de muitos anos.
Outra informação, esta também do inventário de Belisário, é que Mariana não sabia ler e escrever, tanto assim que a sua declaração de inventariante tem que ser assinada a rogo, ou seja, pelo escrivão em seu nome.
Essas evidências já colocam em causa algumas das informações que o testemunho familiar fez chegar. Devemos, no entanto, ter em consideração que a provável origem dessas informações é o tio Luciano Dias de Andrade, filho de Luciano Dias Paes e Ana Angélica de Andrade, a filha mais velha dos supostos pais de Mariana: Manuel Silvério Vieira de Andrade e Maria do Carmo.
Pode-se presumir que o tio Luciano quis juntar aos Alves Pereira a ancestralidade dos Vieira de Andrade, mas não se pode perder de vista que o tio Luciano foi contemporâneo da própria Mariana!
Ele nasceu em 1841, faleceu apenas em 1921, e Mariana, sendo mais velha que o tio Luciano, provavelmente de 1824, por exemplo, faleceu certamente em 1891. Com 50 anos de idade ao tempo do falecimento da sua suposta tia Mariana, o tio Luciano Dias de Andrade não poderia andar a inventar o que não tivesse conhecimento direto, assim como a restante família, certamente conhecedora das origens de Mariana, iria aturar uma tramoia deste tamanho, ou seja, a de inventar que Mariana era irmã de sua mãe Ana Angélica enquanto, na verdade, seria de uma família com sobrenome Paiva, provavelmente, da região de Piranga. 
A possibilidade mais verossímil é que esta atribuição errada tenha sido avançada mais à frente, provavelmente, pelo tio Luciano Alves Pereira, promotor do Museu do Tic Tac, em Belisário. Ao verificar a ancestralidade de sua mãe Heduviges, o tio Luciano está mais distante do tempo dos acontecimentos, mas ainda contemporâneo de Mariana (o tio Luciano era do ano de 1877, ou seja, tinha 14 anos ao tempo do falecimento de sua avó por parte de pai, sendo que moravam ambos em Belisário ao tempo do desaparecimento de Mariana).
Facto é que sua irmã mais velha, Maria Augusta, dizia à tia Lila que o Paiva de Mariana era o mesmo de seu marido Antônio Gomes... Entre esses dois irmãos, algum estava enganado. Poder-se-ia imaginar que o Paiva de Mariana teria sido uma homenagem à outra mulher com o mesmo nome, supostamente, sua madrinha, por exemplo. Mas se assim fosse, por quê repetir o sobrenome ao batizar sua própria filha, Ana Luísa?
Tendo em conta a questão fundamental, a de saber qual é a ascendência de Mariana, eu sinceramente acredito mais que seja mesmo de uma família com sobrenome Paiva que da ascendência que lhe é atribuída.
A primeira evidência em favor da ascendência como Paiva está também no inventário de Belisário: o nome completo de sua primeira filha é Ana Luísa de Paiva. Mais uma vez é usado o sobrenome Paiva. Seria mesmo de supor que este não é o sobrenome da família de Mariana, mesmo ela o tendo usado expressamente para batizar a sua filha mais velha?
Mas não ficamos por aqui: Germano, o segundo filho mais velho, casou-se com Rita Umbelina de Paiva. Ora, a tia Rita era uma irmã mais velha do vovô Antônio Gomes de Paiva.
Aqui já ficamos mais próximos do testemunho da vovó Augusta: se o casamento de Germano e Rita foi um arranjo familiar, então é evidente que Mariana era parente do pai do vovô Antônio Gomes: o velho Gomes José de Paiva.
Há por fim um indício curioso: uma das filhas de Manoel Martins de Paiva, rico português dono de minas de ouro em Vila Rica, era justamente Mariana Luísa de Paiva, o nome de uma irmã sua que havia ficado no Porto.
Sendo esse indício verdadeiro, Mariana e o velho Gomes eram descendentes de Manoel Martins de Paiva radicados em Piranga, onde o velho Gomes declarou ser natural. É mesmo capaz que o velho Gomes e Mariana tenham sido primos a partilhar a infância familiar, já que o velho Gomes era de 1829 e o ano de nascimento de Mariana é estimado em 1825.
Resta compreender porquê foi atribuída a Mariana a ascendência de Manuel Vieira de Andrade e Maria do Carmo Fonseca e Silva.
Pelo sim, pelo não, fica este enigma para ser desvendado!