sexta-feira, maio 01, 2026

As distâncias, os silêncios e o tempo

     Senhor Fernando, proprietário do Café Dunas da Rua do Breiner


Entre as rotinas que estimo, está a de tomar um café cheio acompanhado de um bolo de arroz ao Café Dunas, na Rua do Breiner. Um lanche de meio de tarde, digamos, vulgar, não fosse pelas circunstâncias em que tem lugar.
A mim, a baixa do Porto faz lembrar o Pugilista do Quirinal: está ali todo desfeito, parecendo a olhar como quem pede misericórdia, mas é apenas um repouso de uma dura e longa luta. 
A própria Rua do Breiner, em si mesma é um espaço de circulação nesta baixa cansada, e nada mais. Liga a Rua de Cedofeita ao Largo da Maternidade, sendo entrecortada por diversas ruas importantes, como a Rua de Miguel Bombarda, por exemplo, estas sim, imersas no quarteirão artístico da cidade do Porto, com diversos ateliês e salas de exposição de artes plásticas. A Rua do Breiner é então uma prima pobre e feinha em uma zona relativamente badalada dominada por suas primas ricas e bonitas.
Não sendo grande entusiasta desses espaços urbanos cheios de história e de charme, mas duramente negligenciados e algo gentrificados, não posso negar que a baixa inteira, talvez toda a cidade do Porto, e eventualmente toda a face dura desta carcomida Europa ocidental ganham uma luz completamente redentora desde o Café Dunas da Rua do Breiner.
Dentro do pequeno estabelecimento com seis pequenas mesas e um balcão, que serve pequenos almoços, almoços e lanches com pastelaria variada, está o Senhor Fernando, seu proprietário. Trata-se de uma pessoa afável e muito prestativa. Atende a todos com um sorriso e uma maneira tão respeitosa, que muitos ali frequentam apenas para beneficiar da sua inesgotável gentileza.
Nosso personagem é um típico homem português da sua geração: um homem alto, com seu bigode muito digno, com expressão fatigada dos que se aproximam dos 60 anos desde uma vida de sacrifícios e desilusões. São traços que poderiam sugerir rabugice e cinismo, como infelizmente muitas vezes se vê.
Mas é exatamente o contrário. Poder-se-ia dizer que o Senhor Fernando é uma espécie de gentle giant, passe a expressão inglesa de Roald Dahl, mas em versão portuguesa, munido de uma alegria e um compromisso em acolher o cliente como já não se vê mais.
Na sua integridade, não se faz de amigo dos clientes, como fazem as pessoas interesseiras, sugerindo afinidades ou conhecimentos que não existem para se aproximar com intenções ocultas. Serve bem, com simpatia e dá-se ao respeito sobretudo respeitando as pessoas que lá vão. Se eventualmente se afeiçoam a ele e lhe dedicam confiança, isso acontece com a normalidade que a verdade do convívio cotejado admite.
O que a muitos parece apenas um senhor a trabalhar duro e a ser simpático com os clientes, a mim significa muito mais que isso: é uma decisão consciente e previamente deliberada internamente de converter os silêncios, as distâncias e o tempo que tudo corrói e afasta em comprometimento com o afeto. A atenção aos outros e a visão do trabalho como um dever carregado de compromisso são a expressão desse afeto.
O tirar o café na máquina, servir a chávena à mesa e depois vir para lhe pôr por cima a espuma é o mesmo que dizer: "Tenho muito gosto que tenhas vindo tomar café aqui hoje. Que desfrutes do teu café!". Mas evidentemente que o Sr. Fernando não diz nada durante todo o processo, limita-se a pedir licença e a sorrir.
Sua vida certamente é de dor, sofrimento e incompreensão, como as vidas de todos nós que lá nos metemos à procura de cafés cheios, bolos de arroz e algum afeto do Sr. Fernando. Mas ao contrário de muito de nós, ele não responde a essas mazelas com desconfiança e azedume para com o desconhecido: ele escolhe (repito: ele escolhe) tratar as pessoas bem independentemente de como se sente.
Diriam que o faz por imperativo do comércio. Não, meus amigos. Há muitas formas de ganhar dinheiro que não forçariam um homem a interpretar um papel por anos seguidos e depois chegar a casa e ser outra pessoa. Não há ali interpretação nenhuma. Nem ele próprio aguentaria fingir por tanto tempo, nem os clientes se iriam sujeitar a uma simpatia de interesse, pois se torna logo perceptível. 
Poderiam dizer que não é natural alguém ser sempre simpático. Há dias que serão mais difíceis, há problemas que nos consomem mais, há preocupações que nos tiram o sono e se não temos tempo para os amigos, às vezes nem para a família ou até para nós mesmos. Como podemos achar disponibilidade para sermos simpáticos ou atenciosos com os estranhos, mesmo que nossos clientes? Admito que não é propriamente a atitude natural, mas retomo a ideia enfatizada anteriormente: é uma decisão consciente a do Sr. Fernando em fazer bem o seu trabalho. Como resultado, transforma o seu labor em instrumento de paz e de concórdia para a própria existência e para o bem-estar das pessoas que o dignificam ao comprar no seu estabelecimento.
Será que é muito difícil ser como o Sr. Fernando? Parece-me que, não sendo fácil propriamente, não é de certeza impossível.
Acolher com amor e tratar com respeito as pessoas do nosso convívio exige de nós um verdadeiro sentido de caridade, pois temos de dar de nós mesmos aos outros nesse momento de dedicação, colocando-nos em segundo plano para poder ouvir e dar vez ao outro. 
Essa habilidade é tão rara porque estamos envolvidos por lógicas obtusas que nos induzem ao sentido oposto. Ao buscar apenas a satisfação das nossas necessidades, do nosso conforto, do nosso bem-estar, iremos acabar por ver as outras pessoas como peças de um jogo de acumulação de conveniências. Esse movimento acaba por nos destruir ao nos afastar do divino sentido de nos realizarmos através do bem que se faz ao outro, ao ocultar ardilosamente a dignidade superior da nossa alma.
Por muito surpreendente que possa parecer, a via da redenção não se assume como uma avenida majestosa. Por vezes, anuncia-se como uma rua feinha de onde uma alma simples, mas digna do céu, ilumina as nossas escolhas diárias.