Roberto e Édila: hoje novamente reunidos no Paraíso
Meu anjo de amor libertou-se ontem dos sofrimentos da vida, nossa amada Nina descansou finalmente. A sua doença de Alzheimer lhe impôs duras penas nos últimos 12 anos, especialmente nos últimos 7 anos, em que esteve acamada e foi progressivamente perdendo a mobilidade e os sentidos.
Não deixou nunca de sorrir. O seu sofrimento não foi a miséria de sua existência, pelo contrário, foi mais uma conta de amor no rosário de sua vida. Viveu-o com dignidade e com um sorriso, munida do seu imenso amor a Deus, a Jesus Cristo e a todos os Santos, mas também por nós, a sua família.
Poderia verter aqui memórias de recordação do nosso tempo juntos, mas seria um esforço despropositado: a infinidade de momentos simples e plenos de verdade, significado, força e ternura indizíveis forçariam as minhas capacidades para além do dom que Deus me teria dado para escrever.
Limito-me a agradecer a Deus a sorte de ter sido filho dela, embora neto. Fui filho porque criou-me desde muito pequeno e foi com ela que aprendi o amor, o perdão, a força e a justiça. Foram seus olhos que comunicaram os princípios ditos "inflexíveis" do meu espírito: amar com verdade e com propósito e ter sempre esperança no amor de Deus, principalmente quando as atribulações forem mais difíceis.
Nina deu-nos o que não teve direito. Ficou órfã de mãe aos 9 anos de idade, tendo de ser mãe dos irmãos mais novos e cuidar da casa para o pai viúvo. Casou muito nova com um homem de temperamento afetuoso mas dado a correr riscos: alinhou com ele irrestritamente em todos os seus empreendimentos e estiveram juntos na fortuna e na ruína, muitas vezes na vida. Teve os seus filhos neste ambiente de grande amor e cumplicidade: deu à luz a quatro rapazes e a três meninas. Uma prole de gente muito distinta, com um sangue quente e de coração amoroso. Eu fui o primeiro dos seus 15 netinhos. Mereci o seu afeto e o seu amor de uma forma incondicional. Ao meu pequeno coração de menino foi absolutamente natural amá-la também plenamente.
No lar que ela e meu avô construíram para todos nós havia sempre uma broa a sair do forno, uma panela ao lume, um terço a ser rezado, um beijo na testa. Minha avó foi o refúgio das dores do mundo, um colo de imenso carinho e de compreensão. O seu encontro era para mim o encontro com o próprio amor do mundo, e seu sorriso foi para mim a visão da grandeza de Deus ao dizer-me sem hesitar jamais: "estou aqui, meu filho".
O estudo e o trabalho levaram-me para longe dela. Embora eu regressasse muitas vezes, a minha ausência convidava nela incansáveis orações, que chegaram às distantes paragens deste mundo onde eu me fui metendo ao longo dos anos... Seja em Juiz de Fora, Vitória, Belo Horizonte, Londres, Coimbra ou o Porto... suas preces chegaram sempre até mim em pensamentos de forte convicção no amor de Deus. A seguir, uma ligação para casa confirmava sempre aquelas impressões de saudades sentidas.
Hoje é o primeiro dia de minha vida em que ela não está neste mundo, mas é também o seu primeiro dia no Céu. Se podemos ter algum consolo da perda de quem amamos mais profundamente, talvez seja este: a grandeza de suas vidas, por terem vivido sempre para o bem dos outros, amando de forma profunda e desinteressada, eleva-os diretamente para junto de Deus.
É lá onde um dia também eu quero estar, para a poder abraçar novamente.
Até o céu, avó.
