Quanta reflexão cabe na tristeza. Talvez só se pense refletindo quando se enfrenta um problema, ao menos no que tange à vida quotidiana, e assim são os momentos de tristeza que propiciam esse compor de circunstâncias, essa tentativa de entender as pessoas e o mundo.
É engraçado que apenas o clima possa também influir nessa circunstância de reflexão, mas aqui ligada exclusivamente às condições naturais, afinal, quanta reflexão cabe numa tarde de chuva fria e fina!
Talvez num remorso de não haver tanta luz, talvez no condicionamento de ligar o frio e a chuva à miséria e ao desespero, de qualquer forma nunca vi ninguém celebrar um dia de clima ruim como o que tivemos hoje na ilha de Vitória. E que não coloquem a culpa nas frentes frias que chegam ao continente! Também no interior do país houve tempo idêntico.
Pois uma larga faixa de terras ficou imersa no cinza da tarde. Dentro dos movimentos da cidade, foi agradável, no fim das contas, não sentir tanto calor! Mas pareceu ainda mais triste a maneira maquinal com que as pessoas trabalhavam, pareciam engrenagens mal humoradas, enquanto que nos dias de sol costumam brincar mais uns com os outros e sorrir. Afinal, não é fácil brincar tendo que se proteger da chuva constante. Tempo maldito, tira a alegria natural.
Essa tola circunstância natural me fez lembrar da tese de Rousseau sobre a diferença entre as línguas do norte e do sul da Europa. Segundo Rousseau, as línguas setentrionais eram mais ásperas e duras precisamente pelas condições de vida, mais difícies, uma subsistência feita a base de luta diária. No sul os idiomas eram mais doces, as pronúncias mais moles e agradáveis de se ouvir: a isso devia-se a maneira de sobreviver mais fácil, concluindo que em condições mais favoráveis o homem podia dedicar-se às artes e aos sentimentos, enquanto que no norte o clima mais frio obrigava a todos a manterem-se ocupados em sobreviver.
Nós aqui vivemos em abundância: nem mesmo os que não trabalham morrem de fome! Há mesmo duas estações: uma seca e outra chuvosa (com exceção do que se passa no sul do Brasil, onde há definição melhor das estações ordinárias), no clichê da carta de caminha: tudo que se planta nessa terra dá e uma infidade de outros argumentos só viriam a confirmar não a luta pela vida aqui, no sentido da luta para não morrer de fome e de frio, mas sim a celebração ininterrupta dos sentimentos e das artes. A luta para não morrer de fome não é mais que uma idéia fantasmagórica para incendiar as ambições e medos profissioais, embora de fato ocorra com os miseráveis, no que não vou adentrar, apesar de ter que considerar também que esses têm assistência do Estado e juntos compomos uma grande "nação do sul", na idéia de Rousseau.
Mesmo com todas as circunstâncias favoráveis, basta uma chuvinha fria para todos lembrarem-se ancestralmente que a infelicidade está à espreita, que nosso caminho é um caminho cheio de cadafalsos invisíveis, que a morte, o desespero e a angústia são estados naturais, como o prova a própria natureza!
Inconscientemente, entretanto, há uma noção clara de que amanhã irá amanhecer outro dia e nesse dia novo, apartado por algum mistério suprafísico do anterior, há grandes chances de haver uma manhã ensolarada, daí então um prenúncio de felicidade ligada ao tempo que faz será suficiente para despertar o bom humor de todos e então recomeçarão as piadas e o andar despreocupado por entre as gentes.
quarta-feira, setembro 28, 2005
terça-feira, setembro 13, 2005
Moedas antigas
Sobre o coração uma porção de moedas antigas. Tiradas da lata guardada a anos em casa, lembrou-me aquela infância de aventuras e ócio, hoje bastante distante.
A coleção não é grande, mas tem uma peça importante: uma pataca de cobre datada de pouco depois da independência, de 1826, quando imperava Dom Pedro I. Conta também com moedas comemorativas raras, como do primeiro centenário da independência e algumas alusivas ao momento cultural e econômico ou homenageando vultos da história. Também há moedas estrangeiras de vários países, como Cuba, Áustria, Emirados Árabes, Inglaterra e Austrália.
Nunca quis me desfazer das moedinhas, mas nesse dia, olhando-as assim sobre mim, imaginei qual função poderiam ter que não a de esperar. Esperar por esperar é tão tolo quanto amar por amar, não se justifica, embora pareçam fazer sentido essas relações e daí fica difícil rompê-las, são essencialmente confortáveis.
Pensei em vendê-las, mas como a maior parte foi dada de presente, não tive coragem, não valeria a pena. Daí senti que a gratidão somou-se ao que havia de orgulho sentimental para que as mantivesse onde estavam, à espera não sei de quê.
Esperar afinal é o que fazem de melhor as coisas que já não sabemos para que servem mas que pelas mais variadas razões conservamos conosco: "pode ser que um dia seja necessária" já não se disse sobre uma pilha de revistas e jornais velhos?
Guardei as moedas, a nostalgia e a psicologia dos comportamentos humanos estavam à tona e fiquei um pouco mal humorado de ter de repensar em como as pessoas se comportam, em como são. Por que tantas voltas, tanta complicação? Se não fossem essas considerações o significado que têm, não custaria meter as moedas no lixo, como também as pilhas de lembranças, de rastros, de fotos, de sorrisos que já não são o que eram, não estão mais em circulação e não tem mais o valor que tiveram.
As moedas novas, todos os anos valem menos do que valiam antes, aliás todos os meses ou sempre que um preço é reajustado, nalguma medida, o dinheiro perde seu valor, e a moeda que o representa vai junto. Ainda assim valem mais que as antigas na caixa. Não poderia comprar um sorvete com uma pataca de cobre do século XIX.
A pataca serve para lembrar que ela existiu, não posso me desfazer dela porque de fato não tenho poder de dispor e tampouco vale algo além do valor histórico, por tudo isso, ó lógica infernal e sentimentos nostálgicos tolos, por isso conservo moedas antigas com tanto zelo, numa caixa de metal escondida no guarda-roupas de casa.
A coleção não é grande, mas tem uma peça importante: uma pataca de cobre datada de pouco depois da independência, de 1826, quando imperava Dom Pedro I. Conta também com moedas comemorativas raras, como do primeiro centenário da independência e algumas alusivas ao momento cultural e econômico ou homenageando vultos da história. Também há moedas estrangeiras de vários países, como Cuba, Áustria, Emirados Árabes, Inglaterra e Austrália.
Nunca quis me desfazer das moedinhas, mas nesse dia, olhando-as assim sobre mim, imaginei qual função poderiam ter que não a de esperar. Esperar por esperar é tão tolo quanto amar por amar, não se justifica, embora pareçam fazer sentido essas relações e daí fica difícil rompê-las, são essencialmente confortáveis.
Pensei em vendê-las, mas como a maior parte foi dada de presente, não tive coragem, não valeria a pena. Daí senti que a gratidão somou-se ao que havia de orgulho sentimental para que as mantivesse onde estavam, à espera não sei de quê.
Esperar afinal é o que fazem de melhor as coisas que já não sabemos para que servem mas que pelas mais variadas razões conservamos conosco: "pode ser que um dia seja necessária" já não se disse sobre uma pilha de revistas e jornais velhos?
Guardei as moedas, a nostalgia e a psicologia dos comportamentos humanos estavam à tona e fiquei um pouco mal humorado de ter de repensar em como as pessoas se comportam, em como são. Por que tantas voltas, tanta complicação? Se não fossem essas considerações o significado que têm, não custaria meter as moedas no lixo, como também as pilhas de lembranças, de rastros, de fotos, de sorrisos que já não são o que eram, não estão mais em circulação e não tem mais o valor que tiveram.
As moedas novas, todos os anos valem menos do que valiam antes, aliás todos os meses ou sempre que um preço é reajustado, nalguma medida, o dinheiro perde seu valor, e a moeda que o representa vai junto. Ainda assim valem mais que as antigas na caixa. Não poderia comprar um sorvete com uma pataca de cobre do século XIX.
A pataca serve para lembrar que ela existiu, não posso me desfazer dela porque de fato não tenho poder de dispor e tampouco vale algo além do valor histórico, por tudo isso, ó lógica infernal e sentimentos nostálgicos tolos, por isso conservo moedas antigas com tanto zelo, numa caixa de metal escondida no guarda-roupas de casa.
domingo, setembro 04, 2005
Do berço ao túmulo
Homem, bicho de pensamentos grandes e de emoções profundas! Já diziam as filósofas de plantão que classificam o amor como algo fora do plano das idéias e dentro do plano das coisas: vocês são todos uns mentirosos!
Que pena que me dá dessas mulheres! Quanta mentira contaram pra elas, a ponto de terem ficado traumatizadas e terem classificado tudo quanto é homem com mau e mentiroso! As que perdem são elas, pois tomam por mau um que eventualmente é bom, já que nem todos os homens são iguais, contrariando aí outra máxima feminina muito em voga desde sempre.
Há uma certa inflexão cheia de esperança de amor no ceticismo delas! Não que eu tenha alguma paciência para discutir e argumentar... gente radical fecha-se numa arrogância cristalizada... nada rompe facilmente e, digamos que para evitar a fadiga, não tenho ânimo de salvar-lhes de um destinho trágico, mas contemplo os seus grandes olhos de fatalismo com respeito.
Nesse tom tem se dado os meus embates sobre a nobreza masculina no campo dos sentimentos com a mãe de todas as céticas no assunto, a senhora Do Carmo, matrona e mal amada, que é minha vizinha e chega mesmo ao cúmulo, óbvio que para caçoar, de dizer aos homens a máxima dos que tem medo de tubarões: homem bom é homem morto! Cúmulo do ódio.
Já se vê, portanto, que não há sentimentos bons no ar...
Pois bem, vamos ao ponto: relatei aos amigos, reunidos no Bar do Figo, sobre a visita ao escritório da senhora Hildegart Goscht, vinda da zona rural de Domingos Martins reclamar de um instrumento de cessão de direitos patrimoniais que os irmãos homens enfiaram debaixo do nariz das irmãs para ficar com as terras da família e despojá-las desse direito, no mesmo instrumento constava a doação dos pais deles, por óbvio. Isso tudo os irmãos faziam felizes e de consciência limpa, já que na tradição dos pomeranos, povo alemão que vive próximo à fronteira sul com a Polônia e que mandou milhares de pares aqui para o Espírito Santo, só aos homens cabe herdar as terras, às mulheres cabe uma grande festa de casamento e nada mais!
Contado o caso, a Dona do Carmo exaltou-se absurdamente e em vários sentidos, que são uns covardes, machistas, aproveitadores... E a mim coube defender o gênero masculino, o que fiz mostrando, sem tolices, que a cultura se impõe à sociedade, não que a senhora Hildegart ficaria lesada, cuidaríamos de anular aquilo, mas os irmãos achavam que exerciam um direito!
E que assim como os irmãos Goscht cumpriam um ritual, também os homens em geral cumprem um ritual quando se envolvem com uma mulher: o ritual de buscar nelas algum amor, algum amparo para as dores que o mundo impinge, alguma esperança! Se por acaso a coisa descamba num final ruim, é porque o homem (ou a mulher no lado oposto) frustrou-se nessa busca e não teve generosidade de ser franco, de dizer "passe bem, não te amo", e esse não é o pior dos pecados.
O que não falta, de certo, são mulheres que não sabem se fazer amar, as que são tristemente enfadonhas, que dizem bobagens na proporção que respiram, que esnobam e fingem... felizmente há outro tipo que penso que predomina, para a felicidade geral da masculinidade: as bem amadas. Essas são, mais que tudo, amigas do homem, e se tem uma coisa que um homem de bom coração sabe ser é leal com os amigos de verdade, por isso ama com fé! Pois o amor pleno de amizade é o melhor de todos e o mais sincero também se for visto que amizade e amor diferem na intimidade e na exclusividade que há num e não há noutra.
Muitas são as mulheres que do berço ao túmulo insistem num amor diferente desse, e por isso, magoam muito quem as quer amar, de modo que se chamam "mal amadas", mas o amor mau foi fruto da sua falta de percepção de um amor mais verdadeiro, mais livre e que existe por si.
A dona do Carmo segue o seu percurso ao túmulo, mas a dona Hildegart não guarda nenhum remorso dos irmãos.
Que pena que me dá dessas mulheres! Quanta mentira contaram pra elas, a ponto de terem ficado traumatizadas e terem classificado tudo quanto é homem com mau e mentiroso! As que perdem são elas, pois tomam por mau um que eventualmente é bom, já que nem todos os homens são iguais, contrariando aí outra máxima feminina muito em voga desde sempre.
Há uma certa inflexão cheia de esperança de amor no ceticismo delas! Não que eu tenha alguma paciência para discutir e argumentar... gente radical fecha-se numa arrogância cristalizada... nada rompe facilmente e, digamos que para evitar a fadiga, não tenho ânimo de salvar-lhes de um destinho trágico, mas contemplo os seus grandes olhos de fatalismo com respeito.
Nesse tom tem se dado os meus embates sobre a nobreza masculina no campo dos sentimentos com a mãe de todas as céticas no assunto, a senhora Do Carmo, matrona e mal amada, que é minha vizinha e chega mesmo ao cúmulo, óbvio que para caçoar, de dizer aos homens a máxima dos que tem medo de tubarões: homem bom é homem morto! Cúmulo do ódio.
Já se vê, portanto, que não há sentimentos bons no ar...
Pois bem, vamos ao ponto: relatei aos amigos, reunidos no Bar do Figo, sobre a visita ao escritório da senhora Hildegart Goscht, vinda da zona rural de Domingos Martins reclamar de um instrumento de cessão de direitos patrimoniais que os irmãos homens enfiaram debaixo do nariz das irmãs para ficar com as terras da família e despojá-las desse direito, no mesmo instrumento constava a doação dos pais deles, por óbvio. Isso tudo os irmãos faziam felizes e de consciência limpa, já que na tradição dos pomeranos, povo alemão que vive próximo à fronteira sul com a Polônia e que mandou milhares de pares aqui para o Espírito Santo, só aos homens cabe herdar as terras, às mulheres cabe uma grande festa de casamento e nada mais!
Contado o caso, a Dona do Carmo exaltou-se absurdamente e em vários sentidos, que são uns covardes, machistas, aproveitadores... E a mim coube defender o gênero masculino, o que fiz mostrando, sem tolices, que a cultura se impõe à sociedade, não que a senhora Hildegart ficaria lesada, cuidaríamos de anular aquilo, mas os irmãos achavam que exerciam um direito!
E que assim como os irmãos Goscht cumpriam um ritual, também os homens em geral cumprem um ritual quando se envolvem com uma mulher: o ritual de buscar nelas algum amor, algum amparo para as dores que o mundo impinge, alguma esperança! Se por acaso a coisa descamba num final ruim, é porque o homem (ou a mulher no lado oposto) frustrou-se nessa busca e não teve generosidade de ser franco, de dizer "passe bem, não te amo", e esse não é o pior dos pecados.
O que não falta, de certo, são mulheres que não sabem se fazer amar, as que são tristemente enfadonhas, que dizem bobagens na proporção que respiram, que esnobam e fingem... felizmente há outro tipo que penso que predomina, para a felicidade geral da masculinidade: as bem amadas. Essas são, mais que tudo, amigas do homem, e se tem uma coisa que um homem de bom coração sabe ser é leal com os amigos de verdade, por isso ama com fé! Pois o amor pleno de amizade é o melhor de todos e o mais sincero também se for visto que amizade e amor diferem na intimidade e na exclusividade que há num e não há noutra.
Muitas são as mulheres que do berço ao túmulo insistem num amor diferente desse, e por isso, magoam muito quem as quer amar, de modo que se chamam "mal amadas", mas o amor mau foi fruto da sua falta de percepção de um amor mais verdadeiro, mais livre e que existe por si.
A dona do Carmo segue o seu percurso ao túmulo, mas a dona Hildegart não guarda nenhum remorso dos irmãos.
sábado, agosto 27, 2005
Um nome de mulher
Aconteceu de ir à Jardim Camburi, risonho bairro de Vitória, para comprar suprimentos de informática. Bairro grande e de ruas sempre em quadras, perdi-me diversas vezes, até que resolvi pegar um taxi e assim, no conforto do ar condicionado, cheguei num instante para fazer a compra.
A volta foi fácil, não fosse pelo fato de ter tido a bendita idéia de parar num bar em frente à praia para beber uma cerveja, afinal, na sexta-feira é preciso ir aos copos, como dizem os portugueses.
Veio um rapaz de uns 14 ou 15 anos com um avental preto que ia até aos pés e perguntou se queria jantar, disse que não, que me trouxesse uma cerveja. Tão logo a figura do rapaz foi embora, apareceu claramente na parede um nome de mulher pintado "Cristina".
Numa reação sem razão nenhuma, gritei perguntando se tinham conhaque, do que me olhou de soslaio um velho pescador que à porta discutia futebol. Olhou-me atentamente e sorriu voltando a cabeça de volta para quem conversava com ele.
Havia conhaque e bebi apenas duas doses naquela noite. Olhando fixamente para aquele nome, foi vindo mansa a lembrança da minha amiga, não que tivesse aquele nome, mas havia entre o que eu lia na parece e minha amiga uma intimidade perfeita. Tanto assim que o coração começou a bater seu nome e encheu-se com um sangue cheio de arreia e os risos das outras pessoas pareceram um grande deboche contra mim. Instalou-se a imagem do sorriso de amor dela, uma das poucas imagens do céu que meu ceticismo nunca ousou atingir contestando...
Num suspiro, afastei essa idéia tragando o fim da segunda dose, ao que, quando voltei a cabeça a horizontal, soverndo até última gota, apareceu sentado à minha frente um homem vestindo um paletó marrom e com grande barba preta. Devia ter algo como uns 50 anos e parecia irritado. "Olhe bem, rapaz, sei que é você quem está saindo com a minha mulher. Não se assuste, na verdade eu sempre soube. Estou aqui de boa vontade e sendo franco contigo, quero resolver tudo de uma maneira gentil." Pasmei por 10 segundos e resondi "Meu senhor, sou um forasteiro nessa cidade, mal conheço o percurso de casa para o trabalho, menos ainda ando a seduzir mulheres casadas" mas ele resistiu "Mas eu não vou fazer nada contra você, na verdade ela anda muito contente desde que te conheceu... " Ele estava decidido em me dar participação naquilo! Acabei me levantando e excedido na altura da voz disparei declamando:"Meu senhor, por acaso o senhor sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? O senhor sabe lá o que é torcer pelo Botafogo? O senhor sabe lá o que é sofrer de saudades que não tem jeito? O senhor sabe lá o que é conhecer a si mesmo?" Daí vi que ele se deu conta que não era eu o amante e se arrependeu, alguns minutos depois foi a minha vez.
Antes de ir embora perguntei ao garção quem era Cristina, ao que o rapaz disse ser "a filha". Concluí que era a filha do dono do bar e para mim bastava.
A volta foi fácil, não fosse pelo fato de ter tido a bendita idéia de parar num bar em frente à praia para beber uma cerveja, afinal, na sexta-feira é preciso ir aos copos, como dizem os portugueses.
Veio um rapaz de uns 14 ou 15 anos com um avental preto que ia até aos pés e perguntou se queria jantar, disse que não, que me trouxesse uma cerveja. Tão logo a figura do rapaz foi embora, apareceu claramente na parede um nome de mulher pintado "Cristina".
Numa reação sem razão nenhuma, gritei perguntando se tinham conhaque, do que me olhou de soslaio um velho pescador que à porta discutia futebol. Olhou-me atentamente e sorriu voltando a cabeça de volta para quem conversava com ele.
Havia conhaque e bebi apenas duas doses naquela noite. Olhando fixamente para aquele nome, foi vindo mansa a lembrança da minha amiga, não que tivesse aquele nome, mas havia entre o que eu lia na parece e minha amiga uma intimidade perfeita. Tanto assim que o coração começou a bater seu nome e encheu-se com um sangue cheio de arreia e os risos das outras pessoas pareceram um grande deboche contra mim. Instalou-se a imagem do sorriso de amor dela, uma das poucas imagens do céu que meu ceticismo nunca ousou atingir contestando...
Num suspiro, afastei essa idéia tragando o fim da segunda dose, ao que, quando voltei a cabeça a horizontal, soverndo até última gota, apareceu sentado à minha frente um homem vestindo um paletó marrom e com grande barba preta. Devia ter algo como uns 50 anos e parecia irritado. "Olhe bem, rapaz, sei que é você quem está saindo com a minha mulher. Não se assuste, na verdade eu sempre soube. Estou aqui de boa vontade e sendo franco contigo, quero resolver tudo de uma maneira gentil." Pasmei por 10 segundos e resondi "Meu senhor, sou um forasteiro nessa cidade, mal conheço o percurso de casa para o trabalho, menos ainda ando a seduzir mulheres casadas" mas ele resistiu "Mas eu não vou fazer nada contra você, na verdade ela anda muito contente desde que te conheceu... " Ele estava decidido em me dar participação naquilo! Acabei me levantando e excedido na altura da voz disparei declamando:"Meu senhor, por acaso o senhor sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? O senhor sabe lá o que é torcer pelo Botafogo? O senhor sabe lá o que é sofrer de saudades que não tem jeito? O senhor sabe lá o que é conhecer a si mesmo?" Daí vi que ele se deu conta que não era eu o amante e se arrependeu, alguns minutos depois foi a minha vez.
Antes de ir embora perguntei ao garção quem era Cristina, ao que o rapaz disse ser "a filha". Concluí que era a filha do dono do bar e para mim bastava.
quarta-feira, agosto 24, 2005
As noivas do parque Moscoso
Nas segundas-feiras as crianças não tem vez no parque Moscoso, espaço de recreação e belíssimo jardim, com chafarizes, concha acústica e roseiras bem cuidadas.
Tenho a grande impressão que a segunda-feira não é reservada, como dizem as autoridades, à "limpeza e manutenção", mas sim porque, tendo esse descanso das crianças, dos namorados e dos velhinhos com seus jornais, empregadas passeando com cães ou babás e bebezinhos... na segunda-feira as donas do parque são as noivas.
Acho que escolhem o parque Moscoso para tirar as fotos antes do casamento porque é em volta do parque que há a maior concentração de lojas de aluguel de roupa de casamento de toda grande Vitória. Pensando melhor, talvez uma coisa venha da outra... uma alimenta a outra, afinal, sendo o parque um lugar realmente muito bonito e com paisagens lindas, as noivinhas todas preferem esse sítio para as fotos e lá estando, vão ver as novidades nas lojinhas, que sabendo desse público, ploriferaram-se na região.
O que importa mesmo é que o espetáculo é bonito. Nós, que não somos noivas, ficamos do lado de fora do gradiado olhando a moça fazer poses e caras contentes para o fotógrafo que, recebendo pela profissão tantos sorrisos, por mais amargurado ou triste que fosse de nascença, parecia ser um sujeito formidável, muito alegre e muito paciente, já que a noivinha queria uma foto em cada canto bonito do lugar, uma perto do chafariz, outra numa fonte, outra com os lírios azuis no fundo, uma na concha acústica e uma no monumento a algum herói nacional.
Eu, que tinha comprado jornal e uns pães de mel para ler e comer lá antes de ir à Justiça Federal, tive que ficar apreciando pacientemente esse espetáculo que não suspeitava a causa até um guarda do parque negar-me acesso com aquela frase que sem dúvida dispertou o meu interesse: "desculpe doutor, hoje só as noivas".
Esse espetáculo que se dava fora do mundo das coisas, vez por outra também era interrompido por uma criança que querendo jogar bola na quadra de areia ou fazer um pique-esconde com os coleguinhas, mas tinha que dar meia-volta, às vezes praguejando contra a instituição do casamento e imaginei quase tão repentinamente quanto num susto que quando menino pensava exatamente assim como esses mais revoltados e que hoje já vejo tudo isso de uma forma natural.
Na verdade, sem as noivas do parque Moscoso não haveriam crianças, nem mais à frente namorados e no fim nem os velhinhos para preencher o parque nos outros dias da semana e muito menos advogados fatigados procurando refúgio.
Tenho a grande impressão que a segunda-feira não é reservada, como dizem as autoridades, à "limpeza e manutenção", mas sim porque, tendo esse descanso das crianças, dos namorados e dos velhinhos com seus jornais, empregadas passeando com cães ou babás e bebezinhos... na segunda-feira as donas do parque são as noivas.
Acho que escolhem o parque Moscoso para tirar as fotos antes do casamento porque é em volta do parque que há a maior concentração de lojas de aluguel de roupa de casamento de toda grande Vitória. Pensando melhor, talvez uma coisa venha da outra... uma alimenta a outra, afinal, sendo o parque um lugar realmente muito bonito e com paisagens lindas, as noivinhas todas preferem esse sítio para as fotos e lá estando, vão ver as novidades nas lojinhas, que sabendo desse público, ploriferaram-se na região.
O que importa mesmo é que o espetáculo é bonito. Nós, que não somos noivas, ficamos do lado de fora do gradiado olhando a moça fazer poses e caras contentes para o fotógrafo que, recebendo pela profissão tantos sorrisos, por mais amargurado ou triste que fosse de nascença, parecia ser um sujeito formidável, muito alegre e muito paciente, já que a noivinha queria uma foto em cada canto bonito do lugar, uma perto do chafariz, outra numa fonte, outra com os lírios azuis no fundo, uma na concha acústica e uma no monumento a algum herói nacional.
Eu, que tinha comprado jornal e uns pães de mel para ler e comer lá antes de ir à Justiça Federal, tive que ficar apreciando pacientemente esse espetáculo que não suspeitava a causa até um guarda do parque negar-me acesso com aquela frase que sem dúvida dispertou o meu interesse: "desculpe doutor, hoje só as noivas".
Esse espetáculo que se dava fora do mundo das coisas, vez por outra também era interrompido por uma criança que querendo jogar bola na quadra de areia ou fazer um pique-esconde com os coleguinhas, mas tinha que dar meia-volta, às vezes praguejando contra a instituição do casamento e imaginei quase tão repentinamente quanto num susto que quando menino pensava exatamente assim como esses mais revoltados e que hoje já vejo tudo isso de uma forma natural.
Na verdade, sem as noivas do parque Moscoso não haveriam crianças, nem mais à frente namorados e no fim nem os velhinhos para preencher o parque nos outros dias da semana e muito menos advogados fatigados procurando refúgio.
terça-feira, agosto 16, 2005
Lêmures suicidas
Depois de um animado almoço familiar no domingo, talvez apenas faltoso na parte de um bom licor para preparar a sesta, resolvi descansar e depois ir andar de bicicleta no calçadão da praia de Camburi.
Trazida de Minas há duas semanas, a "magrela" ficou num canto do quarto à espera desse passeio, quase que me chantageando para conhecer as ruas de Vitória. Embora não seja uma bicicleta de competição, foi uma vencedora nas disputas de montanha e velocidade no circuito universitário de ciclismo. Seu segredo sempre foi uma boa calibragem, o que tanto impedia saltos e descontroles do guidão quanto era eficaz nas arrancadas e aderência. Em Vitória, entretanto, essa boa e gentil amiga não competirá, mas passeará.
Saí de casa às 16hs, com pouco tempo de luz e clima já esfriando, naquela hora do dia em que as cores são mesmo bastante bonitas e fica uma impressão de que o dia não vai terminar, afinal.
Por não conhecer bem a cidade resolvi pegar a avenida dos Navegantes e penei um pouco com o tráfego intenso, mas logo após a ponte de Camburi dei de frente ao início do calçadão e, de um jeito um pouco intromissivo que notei pelo olhar de um velhinho que terminava ali a caminhada, invadi o passeio contornando as pessoas.
Na verdade essas impressões de certo e errado são sempre relativas, andar naquele calçadão, por exemplo, não é errado, pois há placas que permitem, mas as pessoas não gostam de levantar a cabeça para ler placas ou sair da conformidade, daí, "matem o ciclista invasor!"
Após duzentos metros sendo perseguido por velhinhos bravos com essa ironia, encontrava-me no início da ciclovia e daí não tinha mais que me preocupar, a não ser com os vários carrinhos de bebê e crianças de 4 anos atravessando desesperadas a via para encontrar os pais, sem olhar para canto nenhum. Um menininho desses chamado Pedrito (sei porque a mãe o chamou assim com sotaque espanhol) olhou para mim quando estava a 30 metros dele e de repente se lançou na frente da bicicleta pulando com os braços e mãos abertos, pareceu mesmo aqueles lêmures planadores que se jogam do alto das árvores com os membros abertos e planam bastante antes de chegar no chão. O moleque não planou nada, veio direto contra mim e se não tivesse antevisto o movimento dele teríamos caído a bicicleta, o Pedrito e eu pelo calçadão, certamente despertando a ira da mamãe. Não se pode confiar nas crianças, elas não tem paixão nenhuma para mantê-las atadas ao mundo!
Nesse momento considerei voltar, já que essas cenas foram muito bizarras e certamente havia alguma coisa errada, mas como a ciclovia estava vazia, insisti e foram bons quilômetros pedalando sem as mãos e fazendo as curvas suaves apenas com o peso do corpo.
O porto de Tubarão no fundo, roubando eternamente a vista de horizonte de curvatura da terra que se tem na beira do mar, continuava queimando os coques para transformar o minério de ferro em aço, o que fazia com que o céu ficasse mais rosado na beira do mar indo ficar azul mais ao alto, com uma faixa branca separando as duas cores e pensei na hora na Bandeira do Espírito Santo.
Antes que os pensamentos me derrubassem, dei meia volta. Tentei voltar pelos bairros até chegar na Praia do Canto, sem sucesso retomei a Navegantes e cheguei em casa às 18hs15min, e depois de guardar a bicicleta senti um cheiro de saudade e paz. Mais um domingo pleno de fantasias.
Trazida de Minas há duas semanas, a "magrela" ficou num canto do quarto à espera desse passeio, quase que me chantageando para conhecer as ruas de Vitória. Embora não seja uma bicicleta de competição, foi uma vencedora nas disputas de montanha e velocidade no circuito universitário de ciclismo. Seu segredo sempre foi uma boa calibragem, o que tanto impedia saltos e descontroles do guidão quanto era eficaz nas arrancadas e aderência. Em Vitória, entretanto, essa boa e gentil amiga não competirá, mas passeará.
Saí de casa às 16hs, com pouco tempo de luz e clima já esfriando, naquela hora do dia em que as cores são mesmo bastante bonitas e fica uma impressão de que o dia não vai terminar, afinal.
Por não conhecer bem a cidade resolvi pegar a avenida dos Navegantes e penei um pouco com o tráfego intenso, mas logo após a ponte de Camburi dei de frente ao início do calçadão e, de um jeito um pouco intromissivo que notei pelo olhar de um velhinho que terminava ali a caminhada, invadi o passeio contornando as pessoas.
Na verdade essas impressões de certo e errado são sempre relativas, andar naquele calçadão, por exemplo, não é errado, pois há placas que permitem, mas as pessoas não gostam de levantar a cabeça para ler placas ou sair da conformidade, daí, "matem o ciclista invasor!"
Após duzentos metros sendo perseguido por velhinhos bravos com essa ironia, encontrava-me no início da ciclovia e daí não tinha mais que me preocupar, a não ser com os vários carrinhos de bebê e crianças de 4 anos atravessando desesperadas a via para encontrar os pais, sem olhar para canto nenhum. Um menininho desses chamado Pedrito (sei porque a mãe o chamou assim com sotaque espanhol) olhou para mim quando estava a 30 metros dele e de repente se lançou na frente da bicicleta pulando com os braços e mãos abertos, pareceu mesmo aqueles lêmures planadores que se jogam do alto das árvores com os membros abertos e planam bastante antes de chegar no chão. O moleque não planou nada, veio direto contra mim e se não tivesse antevisto o movimento dele teríamos caído a bicicleta, o Pedrito e eu pelo calçadão, certamente despertando a ira da mamãe. Não se pode confiar nas crianças, elas não tem paixão nenhuma para mantê-las atadas ao mundo!
Nesse momento considerei voltar, já que essas cenas foram muito bizarras e certamente havia alguma coisa errada, mas como a ciclovia estava vazia, insisti e foram bons quilômetros pedalando sem as mãos e fazendo as curvas suaves apenas com o peso do corpo.
O porto de Tubarão no fundo, roubando eternamente a vista de horizonte de curvatura da terra que se tem na beira do mar, continuava queimando os coques para transformar o minério de ferro em aço, o que fazia com que o céu ficasse mais rosado na beira do mar indo ficar azul mais ao alto, com uma faixa branca separando as duas cores e pensei na hora na Bandeira do Espírito Santo.
Antes que os pensamentos me derrubassem, dei meia volta. Tentei voltar pelos bairros até chegar na Praia do Canto, sem sucesso retomei a Navegantes e cheguei em casa às 18hs15min, e depois de guardar a bicicleta senti um cheiro de saudade e paz. Mais um domingo pleno de fantasias.
sexta-feira, agosto 05, 2005
Preciosismo
Por que o nome de "Los Hermanos 4"? Por que a sina de querer fazer um novo disco de estilo diferente do anterior? Por que retirar os metais das músicas? Por que achar que ser uma banda de rock que tem letras inteligentes e profundas é ter que estar evoluindo pra alcançar a iluminação?
Quem gosta dos Los Hermanos deve estar se angustiando com essas perguntas frente ao seu novo disco, o "Los Hermanos 4".
A crítica permanece bastante dividida: há os que idolatram as 12 músicas do álgum, outros reclamam que Los Hermanos estão muito preocupados em demonstrar maturidade e fizeram um disco cheio de preciosismos.
Hoje ouvi as músicas e sinceramente não parece nada com o que fizeram antes, é diferente sim, há uma unidade no "Quatro". Entretanto senti muito a falta dos metais, fato que deixou as músicas muito próximas de uma bossa nova sem alegria e irreverência que a caracteriza pelo envolvimento com o samba. Há uma preocupação excessiva em usar uma linguagem poética que acaba sufocando a suavidade que as canções precisam ter e que tiveram. Basta lembrar de uma obra prima como "Retrato pra Iaiá" e depois ouvir "Primeiro Andar", ambas de Rodrigo Amarante, para perceber que a qualidade poética é a mesma, mas a canção ficou menos agradável de ouvir: a impressão de um ouvido que não liga para a letra é de um longo pedido de socorro de algum suicida.
"O Vento" parece salvar em parte essa vontade aloprada de ser inovador, dando alguma sensação de semelhança com os discos passados, "Paquetá" também tem ares assim. Mas se comparadas com as canções do próprio "Quatro" fica melhor nele que em qualquer outro. Todos vão pela vereda de canções plenas de poesia e minimalistas a quanto basta ser, o que faz com que, escutando vezes seguidas as músicas, colha-se o cuidado com que foram geradas e aí é outro aspecto em que vejo mal o disco novo: as suas canções não são tão agradáveis de ouvir à primeira vez que as dos discos anteriores e isso significa que quem diz que Los Hermanos são uma banda de esnobes e orgulhosos vai ganhar muitos adeptos em quem for ouvir o "Quatro" antes dos outros discos. Há gente que vai argumentar que nas canções "fala-se demais e canta-se pouco".
Essa questão dos LH serem orgulhosos e terem-se deixado levar pela fama não é verdadeira de todo e nem falsa de todo. Evidentemente que o fato de serem muito conhecidos e terem muitos fãs mudou bastante o seu jeito de tratar os outros e de pensar a música, esse comportamtento diferente é sobretudo na maneira de negociar os concertos. Depois do "Ventura" LH não aceita que bandas desconhecidas ou que eles próprios não conhecem abram suas apresentações, talvez façam isso para evitar complicações, já que não se pode prever como a banda anterior deixou o público ou o provocou ou o que seja, mas a impressão acima de qualquer escusa é que são muitíssimo esnobes. De outro lado, velhos amigos da cena alternativa carioca garantem que LH é o mesmo desde o primeiro disco: bons amigos!
De todo jeito, o "amadurecimento" dos LH parece antes de qualquer coisa envelhecimento no sentido de perder o sopro de adolescência que havia forte no "Los Hermanos", estava presente em canções do "Bloco..." e também no "Ventura". No novo disco entretanto não há alegria nesse sentido e se há em outro sentido, perdoem, mas ainda não percebi pela melodia de nenhuma canção.
Quem gosta dos Los Hermanos deve estar se angustiando com essas perguntas frente ao seu novo disco, o "Los Hermanos 4".
A crítica permanece bastante dividida: há os que idolatram as 12 músicas do álgum, outros reclamam que Los Hermanos estão muito preocupados em demonstrar maturidade e fizeram um disco cheio de preciosismos.
Hoje ouvi as músicas e sinceramente não parece nada com o que fizeram antes, é diferente sim, há uma unidade no "Quatro". Entretanto senti muito a falta dos metais, fato que deixou as músicas muito próximas de uma bossa nova sem alegria e irreverência que a caracteriza pelo envolvimento com o samba. Há uma preocupação excessiva em usar uma linguagem poética que acaba sufocando a suavidade que as canções precisam ter e que tiveram. Basta lembrar de uma obra prima como "Retrato pra Iaiá" e depois ouvir "Primeiro Andar", ambas de Rodrigo Amarante, para perceber que a qualidade poética é a mesma, mas a canção ficou menos agradável de ouvir: a impressão de um ouvido que não liga para a letra é de um longo pedido de socorro de algum suicida.
"O Vento" parece salvar em parte essa vontade aloprada de ser inovador, dando alguma sensação de semelhança com os discos passados, "Paquetá" também tem ares assim. Mas se comparadas com as canções do próprio "Quatro" fica melhor nele que em qualquer outro. Todos vão pela vereda de canções plenas de poesia e minimalistas a quanto basta ser, o que faz com que, escutando vezes seguidas as músicas, colha-se o cuidado com que foram geradas e aí é outro aspecto em que vejo mal o disco novo: as suas canções não são tão agradáveis de ouvir à primeira vez que as dos discos anteriores e isso significa que quem diz que Los Hermanos são uma banda de esnobes e orgulhosos vai ganhar muitos adeptos em quem for ouvir o "Quatro" antes dos outros discos. Há gente que vai argumentar que nas canções "fala-se demais e canta-se pouco".
Essa questão dos LH serem orgulhosos e terem-se deixado levar pela fama não é verdadeira de todo e nem falsa de todo. Evidentemente que o fato de serem muito conhecidos e terem muitos fãs mudou bastante o seu jeito de tratar os outros e de pensar a música, esse comportamtento diferente é sobretudo na maneira de negociar os concertos. Depois do "Ventura" LH não aceita que bandas desconhecidas ou que eles próprios não conhecem abram suas apresentações, talvez façam isso para evitar complicações, já que não se pode prever como a banda anterior deixou o público ou o provocou ou o que seja, mas a impressão acima de qualquer escusa é que são muitíssimo esnobes. De outro lado, velhos amigos da cena alternativa carioca garantem que LH é o mesmo desde o primeiro disco: bons amigos!
De todo jeito, o "amadurecimento" dos LH parece antes de qualquer coisa envelhecimento no sentido de perder o sopro de adolescência que havia forte no "Los Hermanos", estava presente em canções do "Bloco..." e também no "Ventura". No novo disco entretanto não há alegria nesse sentido e se há em outro sentido, perdoem, mas ainda não percebi pela melodia de nenhuma canção.
quinta-feira, julho 28, 2005
Dóceis simulações
Isso de pintar abstrações pode ser defensável sob vários aspectos estéticos, de outro tipo de sensibilidade ou conforme se queira defender, entretanto não há abstração que seja tão sutil quanto os retratos para mostrar a realidade pretensamente como ela não é, fingindo que a retrata como é.
O quadro Bathing de Monet transmite-me isso: acho que não vou encontrar no mundo beira de cais com reflexos tão lindos.
Assim como os reflexos das pessoas que Monet pintou tão magistralmente não foram nunca reflexos de ninguém, há várias outras simulações que acabam por bastar a si mesmas, como dos atores que figindo que se amam conseguem emocionar as donas de casa, ou dos treinamentos de incêncio para quebrar o tédio das aulas de geometria analítica e finalmente o açúcar como substituto às autênticas alegrias para liberar as substâncias orgânicas que acalmam e trazem conforto.
Não me sai da cabeça o famoso 'Mito da Caverna' de Platão ao falar desse assunto. O grande filósofo grego viu a maioria da humanidade condenada a uma infeliz condição. Imaginou (no Livro VII de "A República", um diálogo escrito entre 380-370 a.C.) todos presos desde a infância no fundo de uma caverna, imobilizados, obrigados pelas correntes que os atavam a olharem sempre a parede em frente. O que veriam então? Supondo a seguir que existissem algumas pessoas, havendo ainda uma escassa iluminação vindo do fundo do subterrâneo, disse que os habitantes daquele triste lugar só poderiam enxergar o bruxuleio das sombras daqueles objetos, surgindo e se desafazendo diante deles. Era assim que viviam os homens, concluiu ele. Acreditavam que as imagens fantasmagóricas que apareciam aos seus olhos (que Platão chama de ídolos) eram verdadeiras, tomando o espectro pela realidade. A sua existência era pois inteiramente dominada pela ignorância (agnóia).
Na mesma medida, nossa exposição continuada às simulações pode cegar, fazer com que se tome por verdadeiro algo que, na origem, é simulado. Isso explica muita coisa, como por exemplo, por que algumas mulheres não podem ser amadas, mesmo que alguém queira amá-las: na verdade nunca receberam amor verdadeiro e não suspeitam do que seja. Quando finalmente lhe oferecem esse sentimento ela não pode reconhecê-lo, pois só recebera simulações, como os homens acorrentados no fundo da caverna não reconheceriam como um homem se vissem sua figura normalmente, mas apenas se visse a sua sombra.
Dá arrepios pensar nos efeitos provocados pela ignorância acompanhada do vício de uma simulação, mas está mais presente do que se imagina, como na cortesia dos comerciantes, recepcionistas de hotel e taxistas, ou nos sorrisos de um político em campanha, ou na face contraída de quem acusa ou defende num tribunal com paixão pela vitória, antes de ser pela justiça: todos simulam e nós apreciamos suas simulações, pois são parte integrante do nosso modo de vida, que inclusive, no aspecto do trato social, deixam as coisas mais dóceis.
Entretanto, parafrasendo meu professor de literatura ao falar dos escritores engajados numa literatura sem conteúdo, há que saber se prefere-se as remelas ou os olhos. Na mesma medida há que saber se é suficiente dar 'bom dia' às sombras, ou às pessoas que são suas donas, saber se prefere-se os reflexos na água simulados numa pintura ou ir junto a margem olhar para o próprio reflexo e compreender a beleza de descobrir-se e ao mundo.
terça-feira, julho 26, 2005
O que vou deixar
Herdar é tão comum quanto respirar se formos comparar a vida na sociedade ocidental com a vida biológica, lembrando que para respirar, claro, é preciso ar e para herdar, mais claro ainda, é preciso ter o que deixar.
Há os que herdam bens, acho que é a espécie de herança mais ordinária. Mas também há os que herdam outras coisas de valor, como um nome famoso ou um sentimento.
Isso de deixar sentimentos como herança parece-me mais bonito que deixar aos herdeiros outras coisas. É claro que há sentimentos maus, como paixões cegas, obsessões fundadas em convicções erradas, medos, pudores ridículos, e mais tanta coisa que listar não vale a pena. Outrossim, há ótimos sentimentos a deixar, como a paciência, que seguramente não é lá da minha natureza, mas que herdei de meu pai e aprendi o grande valor dessa virtude; a humildade, a belíssima condição de perceber que a única coisa realmente perene é nosso desejo de nos unir a Deus; o amor que não impõe condições, não é do tipo doente passional, um amor tão suave, tão verdadeiramente bom e doce que dá como único destino a paz; a compaixão, virtude tão esquecida pelas pessoas egoístas que se esforçam pelas ruas, sem ver que um rompante de vento, para usar linguagem metafórica, seria suficiente para tirar-lhes o conforto e a segurança e igualá-los aos pobres pedintes de quem diariamente sentem asco e desprezam.
Mais que tudo, vale dizer, queria deixar aos herdeiros que tiver, o meu grande cuidado. Não puramente uma precaução medrosa com tudo, longe de ser isso. Digo do cuidado com quem se ama. Se querem algo de mim, que levem esse sentimento tão completo que é cuidar de quem se ama com desprendimento, na medida certa de não idolatrar, mas na margem de dar de si toda esperança, mesmo a que não se tem, toda a confiança, que merece com louvor, todos os sorrisos e boa disposição em fazer sorrir. É mesmo uma boa herança, mas acho que ainda tenho algo a acrescentar ao meu espólio.
Talvez também fosse bom deixar os meus poemas de afeto, algum sobre aventura, certamente cheio de metáforas brilhantes sobre coragem, talvez fosse boa a herança de um verso rimado e feliz! É isso mesmo que me deixaria contente em deixar: rima e felicidade pois, como na vida civil não há herança de dívidas, também na vida poético-social não pode haver poesia de ressentimentos, nem sobre desgraças ou morte que tenha mesmo grande valor, esses poemas não servem para herança.
Ficarão os cheios de paz e, certamente pelo fato de que as paixões espalham-se como um cheiro de comida para quem tem fome, também os poemas cheios de paixão e amor servirão a outros para inspirarem-se, elevarem-se e experimentarem o sabor da intensidade da vida que, se por um lado custa caro, já que envolve completamente e acaba por cegar às vezes, também serve para nos mostrar a beleza íntima de quem se ama.
Por fim, assinando o meu testamento, colocaria como condição essencial que tudo fosse esbanjado ao máximo: nada de acumular, aplicar, esperar rendimentos!
Que o que eu deixe sirva para salvar os olhos dos meus herdeiros do fim triste que tem os que pouco amam, pouco suspiram, pouco acreditam e pouco desejam deixar semelhante herança.
Há os que herdam bens, acho que é a espécie de herança mais ordinária. Mas também há os que herdam outras coisas de valor, como um nome famoso ou um sentimento.
Isso de deixar sentimentos como herança parece-me mais bonito que deixar aos herdeiros outras coisas. É claro que há sentimentos maus, como paixões cegas, obsessões fundadas em convicções erradas, medos, pudores ridículos, e mais tanta coisa que listar não vale a pena. Outrossim, há ótimos sentimentos a deixar, como a paciência, que seguramente não é lá da minha natureza, mas que herdei de meu pai e aprendi o grande valor dessa virtude; a humildade, a belíssima condição de perceber que a única coisa realmente perene é nosso desejo de nos unir a Deus; o amor que não impõe condições, não é do tipo doente passional, um amor tão suave, tão verdadeiramente bom e doce que dá como único destino a paz; a compaixão, virtude tão esquecida pelas pessoas egoístas que se esforçam pelas ruas, sem ver que um rompante de vento, para usar linguagem metafórica, seria suficiente para tirar-lhes o conforto e a segurança e igualá-los aos pobres pedintes de quem diariamente sentem asco e desprezam.
Mais que tudo, vale dizer, queria deixar aos herdeiros que tiver, o meu grande cuidado. Não puramente uma precaução medrosa com tudo, longe de ser isso. Digo do cuidado com quem se ama. Se querem algo de mim, que levem esse sentimento tão completo que é cuidar de quem se ama com desprendimento, na medida certa de não idolatrar, mas na margem de dar de si toda esperança, mesmo a que não se tem, toda a confiança, que merece com louvor, todos os sorrisos e boa disposição em fazer sorrir. É mesmo uma boa herança, mas acho que ainda tenho algo a acrescentar ao meu espólio.
Talvez também fosse bom deixar os meus poemas de afeto, algum sobre aventura, certamente cheio de metáforas brilhantes sobre coragem, talvez fosse boa a herança de um verso rimado e feliz! É isso mesmo que me deixaria contente em deixar: rima e felicidade pois, como na vida civil não há herança de dívidas, também na vida poético-social não pode haver poesia de ressentimentos, nem sobre desgraças ou morte que tenha mesmo grande valor, esses poemas não servem para herança.
Ficarão os cheios de paz e, certamente pelo fato de que as paixões espalham-se como um cheiro de comida para quem tem fome, também os poemas cheios de paixão e amor servirão a outros para inspirarem-se, elevarem-se e experimentarem o sabor da intensidade da vida que, se por um lado custa caro, já que envolve completamente e acaba por cegar às vezes, também serve para nos mostrar a beleza íntima de quem se ama.
Por fim, assinando o meu testamento, colocaria como condição essencial que tudo fosse esbanjado ao máximo: nada de acumular, aplicar, esperar rendimentos!
Que o que eu deixe sirva para salvar os olhos dos meus herdeiros do fim triste que tem os que pouco amam, pouco suspiram, pouco acreditam e pouco desejam deixar semelhante herança.
terça-feira, julho 19, 2005
Além de uma cela digna
Talvez, se não fosse preciso ter medo, poderia-se sonhar com planos possíveis para os sentimentos delicados e plenos que nos é permitido sentir.
Acusam a união federal de captar mais de trinta por cento das riquezas que produzimos para impostos, mas talvez mais voraz que o fisco seja o medo. Ao medo pagamos mais da metade do nosso valor e, por tantas vezes quanto é possível sonhar, é capaz que se pague mais!
Se fosse uma relação matemática, seria fácil ver que a vida custa caro demais, já que os momentos realmente plenos e sem privações são muito poucos em relação aos de aperto, tristeza, humilhação e dor e uns sem pudor de desagradar a moral da sociedade, diriam que tirar a própria vida seria mesmo mais prático. Nós, entretanto, somos daqueles bichos que amam o sofrimento, tanto quanto somos capazes de amar ao trabalho e a todos os sacrifícios que somos subordinados: suicídio não fecha bem a história, o melhor é deixar-se abater pela vida. Há ainda outro elemento: o não saber do destino, a esperança de tudo reverter-se. Esses sentimentos, entre tantos outros, são de uma potência incrível e revigoram as energias e estímulos.
O bom seria ir além da condição de gente, como os do oriente acreditam: iluminar-se, chegar junto ao que é divino, saber a verdade das coisas, não saber o que é, mas que é.
Essa serenidade espiritual que afasta os demônios, típica dos santos, costuma ser percebida também nos exércitos em guerra.
Repórteres que acompanham soldados já relataram que em momentos de grande tensão, as personalidades individuais cedem lugar para um estado de atenção e de concentração que foi muito eficiente para que escapassem dos riscos de morrer em batalha, já que, segundo os repórteres "não demonstraram medo, afobamento ou preocupação com a prórpria vida em especial. Não chamaram por seus medos pessoais nem crenças. Permaneceram em alerta, tomando decisões que foram obedecidas sem questionar pelos subordinados, que depois revelaram-se corretas".
Talvez nesses instantes esses homens tenham se iluminado precisamente porque negaram o seu eu para ser um todo uniforme, o que os unia passou a ser mais forte do que o que os diferenciava. Nesse instante o medo perdeu, ali não se pagou esse detestável tributo à personalidade e esses felizes soldados tiveram mais que uma cela digna que chamar de vida, tiveram o presente de alcançar a natureza divina de tudo.
Pois, ao que é divino, não importam as coisas do mundo, não importam as pessoas, não importam as aspirações de grandeza, nem as necessidades, as paixões tornam-se tolas e mesmo os sentimentos resumem-se no sentimento de plenitude da paz, da liberdade, essa humildade própria do que é santo.
Talvez o mais curioso de tudo é que justamente quando alcançaram essa condição provisória de santos, quando finalmente ficou submersa a personalidade, junto das ambições e preocupações ordinárias, justamente ali quando morrer seria heróico, os santos provisórios não morreram, foram santos para salvarem-se e poderem ser abatidos pela vida.
Acusam a união federal de captar mais de trinta por cento das riquezas que produzimos para impostos, mas talvez mais voraz que o fisco seja o medo. Ao medo pagamos mais da metade do nosso valor e, por tantas vezes quanto é possível sonhar, é capaz que se pague mais!
Se fosse uma relação matemática, seria fácil ver que a vida custa caro demais, já que os momentos realmente plenos e sem privações são muito poucos em relação aos de aperto, tristeza, humilhação e dor e uns sem pudor de desagradar a moral da sociedade, diriam que tirar a própria vida seria mesmo mais prático. Nós, entretanto, somos daqueles bichos que amam o sofrimento, tanto quanto somos capazes de amar ao trabalho e a todos os sacrifícios que somos subordinados: suicídio não fecha bem a história, o melhor é deixar-se abater pela vida. Há ainda outro elemento: o não saber do destino, a esperança de tudo reverter-se. Esses sentimentos, entre tantos outros, são de uma potência incrível e revigoram as energias e estímulos.
O bom seria ir além da condição de gente, como os do oriente acreditam: iluminar-se, chegar junto ao que é divino, saber a verdade das coisas, não saber o que é, mas que é.
Essa serenidade espiritual que afasta os demônios, típica dos santos, costuma ser percebida também nos exércitos em guerra.
Repórteres que acompanham soldados já relataram que em momentos de grande tensão, as personalidades individuais cedem lugar para um estado de atenção e de concentração que foi muito eficiente para que escapassem dos riscos de morrer em batalha, já que, segundo os repórteres "não demonstraram medo, afobamento ou preocupação com a prórpria vida em especial. Não chamaram por seus medos pessoais nem crenças. Permaneceram em alerta, tomando decisões que foram obedecidas sem questionar pelos subordinados, que depois revelaram-se corretas".
Talvez nesses instantes esses homens tenham se iluminado precisamente porque negaram o seu eu para ser um todo uniforme, o que os unia passou a ser mais forte do que o que os diferenciava. Nesse instante o medo perdeu, ali não se pagou esse detestável tributo à personalidade e esses felizes soldados tiveram mais que uma cela digna que chamar de vida, tiveram o presente de alcançar a natureza divina de tudo.
Pois, ao que é divino, não importam as coisas do mundo, não importam as pessoas, não importam as aspirações de grandeza, nem as necessidades, as paixões tornam-se tolas e mesmo os sentimentos resumem-se no sentimento de plenitude da paz, da liberdade, essa humildade própria do que é santo.
Talvez o mais curioso de tudo é que justamente quando alcançaram essa condição provisória de santos, quando finalmente ficou submersa a personalidade, junto das ambições e preocupações ordinárias, justamente ali quando morrer seria heróico, os santos provisórios não morreram, foram santos para salvarem-se e poderem ser abatidos pela vida.
sexta-feira, julho 15, 2005
Biscoito de Polvilho
Quem já provou dos biscoitos de pouvilho feitos em casa sabe do que vou falar a seguir: uma iguaria, coisa fina, da fineza que é própria do que resume um sabor, um significado e até uma saudade! Lembro do meu pai contando que seu dia mais feliz como cozinheiro foi ainda na juventude, quando, talvez por iluminação divina, combinou de uma maneira magistralmente arbirtrária os ingredientes do biscoito caseiro, tendo como resultado da fritura da massa, o biscoito de polvilho mais saboroso que já fora experimentado pela sua estirpe.
Esse mito fez com que eu tivesse na guloseima algo como uma fascinação. Foi fácil, deste modo, ceder à sugestão da minha vizinha, dona Sueli, que comprasse um pacote de polvilho doce para que ela me fizesse o tal biscoito. Aconselhou o doce, pois o azedo era indisposto! Santa sabedoria dos velhinhos octogenários! A dona Sueli tinha já os seus 84, mas conservava o bom humor e a lucidez, também o amor às coisas de cozinha, dona de hotel que fora, e de restaurante também, trata-se, portanto, de uma empreendedora reformada, assim me parece pelo seu senso de iniciativa e constante esperança em tudo.
Cheguei com o pacote em sua cozinha e entreguei-lhe com satisfação, mas a dela foi maior: que doçura a maneira como os velhos se alegram com as coisas pequenas, uma humildade que não nos foi legada pelos pais, infelizmente.
Determinada a ser julgada sozinha e receosa, evidentemente, de que eu atrapalhasse o seu emprenho em fazer o seu famoso biscoito, fiquei só observando, fazendo-lhe companhia enquanto amassava o polvilho, os ovos, o leite, a manteiga, acho que a receita leva isso, não me perguntem...
A dona Sueli sabe decorado e muito bem essas receitas, tanto que deve ser até enfadonho para ela lembrar-se de algo que cozinha há mais de 70 anos! Mas é provável que cada vez que faça o biscoito lembre-se de algo que o acompanhou no passado, como eu com o prodígio do meu pai!
Dizendo-lhe que naquela noite o programa era encher a pança de biscoito e ir dormir, ela começou a questionar sobre namoros e coisas assim e é claro que não lhe dei confiança, mas fui gentil.
Da mesma forma que com o prazer de fazer a sua receita, dona Sueli começou a discorrer longamente sobre o amor, das facetas, das paixões, das coisas más e boas e eu, empolgado em ver alguém tão idoso falar disso, fui dando confiança e acabei por perguntar se no casamento fora feliz. Já sabia que o esposo era falecido. Ela parou um instante e fitou-me friamente: "dei-lhe um tiro na barriga" disse com o olhar petrificado.
Minha primeira reação foi pensar que estava brincando, mas falava muito sério. Daí fui perguntando o que tinha acontecido, alguma razão teria para aquilo e de fato havia: a cólera da mulher que além de traída, fora ofendida. Perdeu a razão e meteu um tiro no agressor adúltero! Mas o que acabou com esse um não foi esse tiro, morreu muitos anos depois. Vale acrescentar que se sentia tão culpado por aquilo que retirou a denúncia contra a esposa na delegacia, disse-lhes "foi minha culpa, provoquei isso".
Dona Sueli tinha se casado por imposição do pai. Amava a outro.
Ficou pronto o nosso biscoito, comi e fui dormir. Mas não sem antes agradecer à minha cozinheira: pela primeira vez na vida comi uma receita de biscoito de polvilho que além dos ingredientes normais levou lágrimas de paixão de uma velhinha de 84 anos.
Esse mito fez com que eu tivesse na guloseima algo como uma fascinação. Foi fácil, deste modo, ceder à sugestão da minha vizinha, dona Sueli, que comprasse um pacote de polvilho doce para que ela me fizesse o tal biscoito. Aconselhou o doce, pois o azedo era indisposto! Santa sabedoria dos velhinhos octogenários! A dona Sueli tinha já os seus 84, mas conservava o bom humor e a lucidez, também o amor às coisas de cozinha, dona de hotel que fora, e de restaurante também, trata-se, portanto, de uma empreendedora reformada, assim me parece pelo seu senso de iniciativa e constante esperança em tudo.
Cheguei com o pacote em sua cozinha e entreguei-lhe com satisfação, mas a dela foi maior: que doçura a maneira como os velhos se alegram com as coisas pequenas, uma humildade que não nos foi legada pelos pais, infelizmente.
Determinada a ser julgada sozinha e receosa, evidentemente, de que eu atrapalhasse o seu emprenho em fazer o seu famoso biscoito, fiquei só observando, fazendo-lhe companhia enquanto amassava o polvilho, os ovos, o leite, a manteiga, acho que a receita leva isso, não me perguntem...
A dona Sueli sabe decorado e muito bem essas receitas, tanto que deve ser até enfadonho para ela lembrar-se de algo que cozinha há mais de 70 anos! Mas é provável que cada vez que faça o biscoito lembre-se de algo que o acompanhou no passado, como eu com o prodígio do meu pai!
Dizendo-lhe que naquela noite o programa era encher a pança de biscoito e ir dormir, ela começou a questionar sobre namoros e coisas assim e é claro que não lhe dei confiança, mas fui gentil.
Da mesma forma que com o prazer de fazer a sua receita, dona Sueli começou a discorrer longamente sobre o amor, das facetas, das paixões, das coisas más e boas e eu, empolgado em ver alguém tão idoso falar disso, fui dando confiança e acabei por perguntar se no casamento fora feliz. Já sabia que o esposo era falecido. Ela parou um instante e fitou-me friamente: "dei-lhe um tiro na barriga" disse com o olhar petrificado.
Minha primeira reação foi pensar que estava brincando, mas falava muito sério. Daí fui perguntando o que tinha acontecido, alguma razão teria para aquilo e de fato havia: a cólera da mulher que além de traída, fora ofendida. Perdeu a razão e meteu um tiro no agressor adúltero! Mas o que acabou com esse um não foi esse tiro, morreu muitos anos depois. Vale acrescentar que se sentia tão culpado por aquilo que retirou a denúncia contra a esposa na delegacia, disse-lhes "foi minha culpa, provoquei isso".
Dona Sueli tinha se casado por imposição do pai. Amava a outro.
Ficou pronto o nosso biscoito, comi e fui dormir. Mas não sem antes agradecer à minha cozinheira: pela primeira vez na vida comi uma receita de biscoito de polvilho que além dos ingredientes normais levou lágrimas de paixão de uma velhinha de 84 anos.
terça-feira, julho 12, 2005
Trouxeste a chave?
Na versão americana de "Vanilla Sky" o protagonista e seu psiquiatra, no subconsciente do primeiro, sobem por um elevador que parece que não vai parar nunca. Sobem como se estivessem na Torre de Babel que foi concluída, num prédio que projeta sua sombra sobre a curvatura da terra, como um ponteiro imenso de relógio à passagem do sol. Quando finalmente chegam, olham o horizonte com o vento na cara: é a hora da verdade.
Se cenas assim são marcantes no cinema, imaginem na vida. O cinema consegue tratar da coisa de uma maneira mais poética e fotográfica, como nesse filme. Mas mesmo um simples camponês, nos confins da Moldávia, escuta do seu destino aquela pergunta: "trouxeste a chave?". Podia ser engraçado imaginar o camponês respondendo ao destino que não tinha chave nenhuma e pensar no que resonderia de volta o destino, mas digamos que não ter a chave significa exatamente não saber o que fazer com a própria vida. Encarando a coisa ainda sob essa metáfora, seria como se o destino se desincumbisse da tarefa de existir pelo camponês. Com a pergunta sobre a chave, na verdade, lança um terrível "agora é contigo, meu amigo supersticioso". Se o camponês não quisesse aceitar, o destino daria de ombros, se fosse um bom gozador ainda desejaria um bom proveito, com aquele risinho de absoluta auto-confiança. Mas deixemos essa metáfora, já que não sou profeta oriental e nem autor de literatura barata pra enveredar por aí. A crise no peito fala mais diretamente, rompe com o seu universal e rude: trouxeste a chave?
Essa mesma chave abre alguns portões relevantes, o que eu pessoalmente mais prezo é do do mundo das palavras, onde estão todos os poemas que esperam ser escritos, segundo a "Procura da Poesia" de Carlos Drummond. A mesma decisão é que molda os poemas.
Não há vida mais heróica e ao mesmo tempo mais miserável do que a de um poeta de vocação, um verdadeiro poeta, como considero Camões, Bocage, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, William Blake, Florbela Espanca, Castro Alves e Vinicius de Moraes, gente que tinha algo apenas parecido com sangue nas veias, mas que não era sangue, gente que tinha algo como músculos, pele e ossos, mas também não era exatamente isso: eram poetas e tinham os bolsos cheios de chaves.
Ler esses poetas é como tentar roubar suas chaves. Mais de uma vez sonhei com alguns deles tentando me ensinar alguma coisa tola de se fazer, como segurar um copo de cerveja, costurar uma camisa rasgada por faca, tocar a superfície quieta da água sem perturbá-la e mesmo coisas fantásticas, como domar búfalos e conduzir um exército em guerra. Acho que com tudo isso diziam em código: "aí estão as tuas chaves! Pega e vai ter com teus poemas." Há uma grande verdade nisso, pois para haver algo que mereça o nome de poesia, há que se encarar o mundo e as coisas do mundo com alguma coragem e tirar delas, ainda assim, a sua sutileza, o seu histórico de paixão e contrariedades, para só então materializar a perturbadora presença do poema reclamão, doido para ir ao papel. Aí então é preciso força, pois não há poesia sem habilidade para despregar do sono imemorial as palavras, sem sensibilidade para juntar os músculos dos braços num empenho de desafogar o verso preso ao limbo, ao inconsciente, ao desejo inadmitido. Os portões do despertar têm sua chave de ouro. Sem chaves, não há poesia.
Se cenas assim são marcantes no cinema, imaginem na vida. O cinema consegue tratar da coisa de uma maneira mais poética e fotográfica, como nesse filme. Mas mesmo um simples camponês, nos confins da Moldávia, escuta do seu destino aquela pergunta: "trouxeste a chave?". Podia ser engraçado imaginar o camponês respondendo ao destino que não tinha chave nenhuma e pensar no que resonderia de volta o destino, mas digamos que não ter a chave significa exatamente não saber o que fazer com a própria vida. Encarando a coisa ainda sob essa metáfora, seria como se o destino se desincumbisse da tarefa de existir pelo camponês. Com a pergunta sobre a chave, na verdade, lança um terrível "agora é contigo, meu amigo supersticioso". Se o camponês não quisesse aceitar, o destino daria de ombros, se fosse um bom gozador ainda desejaria um bom proveito, com aquele risinho de absoluta auto-confiança. Mas deixemos essa metáfora, já que não sou profeta oriental e nem autor de literatura barata pra enveredar por aí. A crise no peito fala mais diretamente, rompe com o seu universal e rude: trouxeste a chave?
Essa mesma chave abre alguns portões relevantes, o que eu pessoalmente mais prezo é do do mundo das palavras, onde estão todos os poemas que esperam ser escritos, segundo a "Procura da Poesia" de Carlos Drummond. A mesma decisão é que molda os poemas.
Não há vida mais heróica e ao mesmo tempo mais miserável do que a de um poeta de vocação, um verdadeiro poeta, como considero Camões, Bocage, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, William Blake, Florbela Espanca, Castro Alves e Vinicius de Moraes, gente que tinha algo apenas parecido com sangue nas veias, mas que não era sangue, gente que tinha algo como músculos, pele e ossos, mas também não era exatamente isso: eram poetas e tinham os bolsos cheios de chaves.
Ler esses poetas é como tentar roubar suas chaves. Mais de uma vez sonhei com alguns deles tentando me ensinar alguma coisa tola de se fazer, como segurar um copo de cerveja, costurar uma camisa rasgada por faca, tocar a superfície quieta da água sem perturbá-la e mesmo coisas fantásticas, como domar búfalos e conduzir um exército em guerra. Acho que com tudo isso diziam em código: "aí estão as tuas chaves! Pega e vai ter com teus poemas." Há uma grande verdade nisso, pois para haver algo que mereça o nome de poesia, há que se encarar o mundo e as coisas do mundo com alguma coragem e tirar delas, ainda assim, a sua sutileza, o seu histórico de paixão e contrariedades, para só então materializar a perturbadora presença do poema reclamão, doido para ir ao papel. Aí então é preciso força, pois não há poesia sem habilidade para despregar do sono imemorial as palavras, sem sensibilidade para juntar os músculos dos braços num empenho de desafogar o verso preso ao limbo, ao inconsciente, ao desejo inadmitido. Os portões do despertar têm sua chave de ouro. Sem chaves, não há poesia.
sexta-feira, julho 08, 2005
Amélias do meu Brasil
O samba "Ai, que saudades da Amélia" não é só esse hino da submissão feminina como gritam os tontos desse país, antes disso, é uma linda declaração de amor. Na letra o sambista reclama com sua mulher, diz que não sabe o que é consciência, diz que tudo que ver quer, e diz que boa era a Amélia, que passava fome ao seu lado e dizia a ele "meu filho, o que se há de fazer?", ou seja, sente saudades de um amor que era mesmo bonito por ser simples e honesto. Então coloco no subjuntivo para provocar e para me intrigar: não seria melhor se as mocinhas do Brasil fossem mais boazinhas e compreesivas, se tivessem mais persistência em não ter a menor vaidade?
Olha que não tou aqui simplesmente acusando e dizendo, "olha que tolas temos como mulheres nesse país de araque", nem por isso, meus amigos, há mocinhas por essas terras que são a própria doçura encarnada, mulheres finas e ternurentas como sonhou o nosso Álvares de Azevedo nas noites mais insanas, quando ainda se achava que a noiva casta era o sinônimo da esposa santa!
Digo simplesmente que há gente complicando muito as coisas, e vou ser justo afinal: não é só do lado das mocinhas e seus sorrisos e ambições, também, e em maior grau, os rapazinhos têm interesses vários quando colocam os olhos numa mulher. Se acaso deixam-se apaixonar, bom, aconteceu. A moça solta um grande grito: finalmente aconteceu! Noves fora, resta concluir forçosamente que toda gente parece correr em sentidos opostos, quando a grande inteligência pra um amor dar certo é que ambos imitem os cavalos de corrida: corram os dois no mesmo sentido.
Falo aqui da ambição do homem, já que sou um e conheço o suficiente para não falar muita bobagem. As da mulher, bom, elas não são de esconder tanto quanto nós escondemos, basta olhar nos seus olhos e já se vê do que se trata.
Não é lindo apaixonar-se por uma moça que prove aos outros o quanto o homem seduz bem? Linda e simpática, aos amigos inteligentes é também consciente das dores do mundo e articulada, à mãe é a filha de Beltrano! Ao pai tem lindos olhos! Balzac é que estava certo, trata-se da comédia humana, mas não percamos o foco, senão levamos bomba do leitor! Vamos lembrar que o que parece bom hoje pode ser mau amanhã!
Acontece justamente isso com o homem que casa-se com uma moça linda e apenas isso. Fato é que o rapaz foi um tolinho, não ouviu o poeta: "uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza" e reparem na generosidade: qualquer coisa. Infelizmente a grande parte das beldades não tem nada além da beleza e essa é sua desgraça e de quem as ama, a sua gritante pobreza. Quando o marido se dá conta do mau negócio, acaba desfazendo o matrimônio, ou pela decadência na aparência da esposa ou por ter perdido mesmo a paciência.
Outros há que se casam por amor passivo à doce e romântica namorada que já não ama com paixão, mas tem o seu respeito e mais que isso, tem sua amizade. Esses casamentos são os melhores e nesse grupo, creio eu na minha modéstia barata, estão as Amélias, já que os homens gostam dessa disposição da mulher aos seus caprichos. Falta só uma coisinha simples: paixão e uma pitada de falta de razão. Para um homem ambicioso de vida, ingredientes fundamentais, aliás, sua fonte de sua desgraça e perdição.
Se essa doce Amélia souber a mágica de instigar amor e paixão, bom, então caminhamos para a frente: despertando amor, desmontam o que há de mau no homem. Temos a amada, humilde e louca de amor, cercada do que ela dá, querida e adorada. Há uma delícia em se amar mulheres assim, ficam as marcas dos seus dentes (rastros da sua nunca ignorada passagem) e a graça do riso vai demolindo o tempo subjuntivo: não há essa conjugação para elas, só certezas. Também uma medida boa dos medos, portanto, também desaparece: sobra uma mulher de verdade.
Olha que não tou aqui simplesmente acusando e dizendo, "olha que tolas temos como mulheres nesse país de araque", nem por isso, meus amigos, há mocinhas por essas terras que são a própria doçura encarnada, mulheres finas e ternurentas como sonhou o nosso Álvares de Azevedo nas noites mais insanas, quando ainda se achava que a noiva casta era o sinônimo da esposa santa!
Digo simplesmente que há gente complicando muito as coisas, e vou ser justo afinal: não é só do lado das mocinhas e seus sorrisos e ambições, também, e em maior grau, os rapazinhos têm interesses vários quando colocam os olhos numa mulher. Se acaso deixam-se apaixonar, bom, aconteceu. A moça solta um grande grito: finalmente aconteceu! Noves fora, resta concluir forçosamente que toda gente parece correr em sentidos opostos, quando a grande inteligência pra um amor dar certo é que ambos imitem os cavalos de corrida: corram os dois no mesmo sentido.
Falo aqui da ambição do homem, já que sou um e conheço o suficiente para não falar muita bobagem. As da mulher, bom, elas não são de esconder tanto quanto nós escondemos, basta olhar nos seus olhos e já se vê do que se trata.
Não é lindo apaixonar-se por uma moça que prove aos outros o quanto o homem seduz bem? Linda e simpática, aos amigos inteligentes é também consciente das dores do mundo e articulada, à mãe é a filha de Beltrano! Ao pai tem lindos olhos! Balzac é que estava certo, trata-se da comédia humana, mas não percamos o foco, senão levamos bomba do leitor! Vamos lembrar que o que parece bom hoje pode ser mau amanhã!
Acontece justamente isso com o homem que casa-se com uma moça linda e apenas isso. Fato é que o rapaz foi um tolinho, não ouviu o poeta: "uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza" e reparem na generosidade: qualquer coisa. Infelizmente a grande parte das beldades não tem nada além da beleza e essa é sua desgraça e de quem as ama, a sua gritante pobreza. Quando o marido se dá conta do mau negócio, acaba desfazendo o matrimônio, ou pela decadência na aparência da esposa ou por ter perdido mesmo a paciência.
Outros há que se casam por amor passivo à doce e romântica namorada que já não ama com paixão, mas tem o seu respeito e mais que isso, tem sua amizade. Esses casamentos são os melhores e nesse grupo, creio eu na minha modéstia barata, estão as Amélias, já que os homens gostam dessa disposição da mulher aos seus caprichos. Falta só uma coisinha simples: paixão e uma pitada de falta de razão. Para um homem ambicioso de vida, ingredientes fundamentais, aliás, sua fonte de sua desgraça e perdição.
Se essa doce Amélia souber a mágica de instigar amor e paixão, bom, então caminhamos para a frente: despertando amor, desmontam o que há de mau no homem. Temos a amada, humilde e louca de amor, cercada do que ela dá, querida e adorada. Há uma delícia em se amar mulheres assim, ficam as marcas dos seus dentes (rastros da sua nunca ignorada passagem) e a graça do riso vai demolindo o tempo subjuntivo: não há essa conjugação para elas, só certezas. Também uma medida boa dos medos, portanto, também desaparece: sobra uma mulher de verdade.
Velhas senhoras
Hoje ouvi de novo a querida Rita Pavone, conhecida no Brasil por ter gravado originalmente a "dameti un martelo" e olhe lá, mas sua voz que dá a impressão de ser muito aguda, só que não é, é linda, de fato linda justamente por isso.
Imaginei, pensando nela e na injustiça de não ser reconhecida, que eu tenho na cabeça uma imagem sua jovem, mas Rita hoje não é mais jovem, deve já ser uma senhora de 50 e alguns anos. Em seguida, veio à mente essa foto acima de Cartier-Bresson: "les vielles femmes" ou "as velhas senhoras" e também o seu truncado olhar de reprovação a tudo que não lhe agrada, sentença que dói só de imaginar.
É engraçado a contradição aparente que as senhoras lançam aos olhos atentos a esses símbolos, como se não fossem mulheres aptas ao amor, à aventura, ao riso e à desventura: as velhas senhoras parecem matronas perpetuamente ligadas a censurar e a reprimir, sem fertilidade, sem riso, sem saúde. Não são poucas as censoras idosas que na minha infância ralhavam comigo por qualquer bobagem, como da vez que tive uma dúvida de interpretação da bíblia no velho testamento. Perguntei à professora de catecismo se, já que Deus tinha ordenado à Noé e sua família para crescer e se multiplicar, tinha mandado que todos fizessem muito sexo, já que só assim é que os bebês vêm ao mundo e que, logo, o sexo não seria assim tão mal, já que estaríamos obedecendo diretamente ao Altíssimo, mas a minha professora, uma senhora que quase setenta anos, disse que eu estava subvertendo tudo e, na minha inocência, não compreendia o mal que havia no sexo feito de maneira lasciva. A pobrezinha não percebeu que não disse nunca que seria por diversão, mas justamente para reprodução, de todo jeito ficou muito sem jeito e brava, indo conversar com mamãe na outra vez que me levou à aula. Sou forçado a reconhecer, em outra medida, que mesmo as mais severas e tristes velhas senhoras guardam um jeito mais inocente, essa professora quando ruborizou com a minha observação prova essa delicadeza, em casa, por exemplo, muitas foram as vezes que vi minhas avós aprontarem-se para casamentos e festas com essa alegria inocente e pura, cheias de carinho ao distribuírem seus sorrisos formidáveis.
Hoje, porém, concluí que esse modelo está totalmente falido, a geração de coroas a que pertence Rita Pavone desbancou para sempre o mito da "velha senhora", já que as novas velhas são mesmo como as mulheres novas de agora, viveram a liberação sexual, a revolução feminina, não praticam a religião como suas mães e avós, enfim, são tão jovens no comportamento como qualquer mocinha de vinte anos, com a vantagem de saber que os sonhos são mais saborosos se forem mais práticos e que os homens se apaixonam pelo que não podem ter.
Não se vêem pelas ruas senhoras de xales pretos às costas e óculos fundos com touquinhas e sorrisos de gentileza, as senhoras modernas não são assim tão clássicas, vestem outras roupas, têm o próprio carro, não são feitas de tolas nos contratos com a mesma facilidade e talvez seja verdade que o nosso Cartier-Bresson tenha capturado um olhar extinto nos dias de hoje, talvez não exista no mundo mais essa matrona má e cheia de rancor, pronta a censurar com apóio de sua irretocada contuda moral e religiosa, não foi-se esse tempo e esse comportamento.
Imaginei agora a senhora Rita Pavone com seu martini na mãozinha direita, junto ao parapeito de algum transatlântico comentando com uma amiga que lindos jovens estavam na disco noite passada: assim são nossas novas velhas senhoras.
domingo, julho 03, 2005
Só para raros
"... Minha vida fora penosa, transtornada e infeliz, conduzindo à destruição e ao niilismo, fora amargurada pelo sal de todo destino humano, mas havia sido rica, orgulhosa e senhorial; uma vida soberba até mesmo na miséria. E anida que o resto do caminho até o ocaso fosse inteiramente desfigurado, o cerne dessa vida fora nobre, tinha feição e estirpe, não girara em torno das moedas, mas em torno das estrelas."
Hermann Hesse, O lobo da estepe
O primeiro amigo que fiz por aqui não é como eu esperava (um brinde à vida!). O vizinho que estudava filosofia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais partilha comigo alguma estranheza aos costumes e jeitos daqui.
As disussões, entretanto, não restaram nas fronteiras das nostalgias pelas montanhas nobres que foram nosso berço comum, caminham animadas comumente pela cerveja para combater o calor a temas como o existencialismo, inatismo da personalidade, angústia pela razão, música popular e, evidentemente, poesia.
Sua triste e apática figura lembra o de um refugiado de guerra que sofre pela fome e pela humilhação e os traços ora frágeis, ora agressivos parecem marcas que se fixaram após terem expressado todas as expressões e sido assim o espelho físico de todas as torturas que seu jovem espírito sofreu. De início, essa sua débil figura foi o prenúncio de verniz intelectual estilizado e subestimei pretensiosamente o alcance de suas idéias, tomando-o por um desses que gostam de dizer que estudam filosofia, viajam a congressos da juventude comunista e em segredo conspurcam uma natureza pobre e arbitrária, emoldurada por suas baforadas entorpecidas. Enganei-me, felizmente.
Os óculos que trazia na cara não eram uma peça de seu figurino, mas a ferramenta que usava para ler, para auxiliar os olhos míopes a conversar com os seus mestres, partilhando deliciosamete as idéias avassaladoras da rica filosofia do fim do século XIX e do século XX. Isso vi não pelos livros espalhados em seu quarto e que trazia sempre à mão, mas pelo vigor com que defendeu, certa vez, que a moral cristã era um mal que a sociedade usava para seu conforto, um conforto burguês, mais ou menos igual ao que dizia Nietzsche. Idéia que eu, pessoalmente, considero agressiva, mas que mostrou também que o vizinho trazia na alma uma tristeza e uma agústia que eram filhas da sua consciência clara do mundo e das coisas.
Daquela discussão em diante, ambos ganhamos confiança para trocar essas impressões, ele declarando-se descrente das instituições e dos sistemas ordenantes, eu partilhando minha angústia do superficialismo dos sentimentos e da pequenez das vontades e objetivos que era o normal, ambos nos sentindo, de fato, pessoas alijadas do mundo burguês, e emprego essa palavra no seu pior sentido: um mundo de aparências, conveniências, culto à posse e egoísmo endeusado a ponto de ser considerado normal não ser solidário.
Fomos a um clube de serviço para universitários no sábado, como o que eu freqüentava em Juiz de Fora, e argumentando com o vizinho que também no meio da sociedade de valores pequenos e mesquinhez há muita gente que não se deixa abater, que é persistente e que nós mesmos não temos de nos atormentar, temos sim de viver com plenitude a vida misteriosa que teremos antes de morrer e ter por cima uma lage e embaixo, definitivamente, a solidão.
Discrente do meu otimismo, disse seguidas vezes o seu costumeiro "será?" e eu ri intimamente e por fora dizendo que sim, que temos a grandessíssima vantagem de não viver vidas tolas e inúteis e que nos esperava um destino cheio de surpresa (talvez a coisa mais certa de se dizer de algum destino). Lembrei-lhe ainda que essa liberdade, se custava o tormento de amargurar-se com a feiura do mundo e com angústias existenciais, permitia-nos rir muito mais que as outras pessoas e secretamente, no mínimo, gargalhar das circunstâncias do acaso e mesmo debochar das pessoas que se elevam acima dos outros, desconhecedores da nossa condição de macacos muitíssimo inteligentes, mas ainda macacos.
Não lhe convenci, no fundo talvez pretendesse convencer a mim mesmo novamente e cada vez mais dessa idéia, mas ele também lembrou-se que muitas vezes tentou ver esse prêmio como um consolo por ter partido do mundo das idéias simplistas e da alienação e me disse isso. Disse enfim, talvez para que finalmente ele sorrisse: "vivemos uma realidade que é só para raros", ao que ele respondeu que os loucos são raros, daí foi minha vez de sorrir.
sexta-feira, julho 01, 2005
Rivais na miséria
A avenida Nossa Senhora da Penha também é chamada reta da Penha, num apelido ou talvez porque sendo bem reta, vê-se no horizonte elevado o mosteiro de Nossa Senhora da Penha, ainda não descobri a origem precisa. Movimentada e pulsante, é uma das artérias mais importantes do tráfego automobilistíco de Vitória, congregando também o setor de serviços e o comércio: tudo muito bem organizado e funcionando.
Um olhar quebrou essa imagem, talvez pela minha piedade burguesa, mas acho que antes disso pela estranheza melancólica da situação.
Saindo de uma das padarias dessa avenida, no ponto em que ela serve para separar os bairros de Santa Helena e Praia do Canto, tinha em mente o sonho conformado de um banho quente e de descanso, sem lançar-me a questões existenciais, nem pensamentos profundos, agia, evidentemente, de maneira mais mecânica, nem por isso tinha a percepção do mundo alienada.
O relógio marcava 21:40 horas e e fiquei olhando a avenida após pagar pelo delicioso café com creme e esfirras com que acabara de me deliciar. O café foi um estimulante, suspeito bastante, eficaz para perceber aquela cena quando, ao aproximar-se o caminhão do departamento de limpeza urbana, apressaram-se simultaneamente o padeiro com um pequeno saco de pães velhos e uma família de indigentes que na calçada acompanhava esses gestos como que se tivera esperado por eles longas horas e também com aqueles gestos e olhares que precedem a execução das coisas rotineiras que não se faz por prazer. Com passo determinado e sem desviar o olhar um único instante, o padeiro entregou nas mãos de um dos lixeiros o pequeno saco, e veio ao encontro dos dois o pai da família de pedintes com olhar atônito e quase desesperado. O padeiro, depois de ter entregue os pães, voltou ao seu posto, certamente tendo obedecido ordens de um patrão que não desejava mendigos em frente à sua padaria, mesmo que perto das 10 horas da noite, à espera de uma possível e ansiada refeição que não podia ser comprada como fora o convencimento do padeiro através de seu salário. O lixeiro, por sua vez, tomou para si os pães na cabina do caminhão e deu ordem ao motorista de partir, mas antes de subir, agarrado pelo braço pelo chefe da família, trocaram olhares que foram de gelar a alma: o pedinte arregalava os olhos e contraía a face, numa mistura de súplica e horror, o lixeiro, porém, tinha os olhos baixos, semicerrados, olhando placidamente a cena que parecia repugnar totalmente e por um momento, olhando a sua volta, percebeu que eu assistia a tudo e de dentro do saco de pães, tirou três ou quatro, passando-os abruptamente às mãos do indigente. Logo que o caminhão partiu os filhos e a mulher foram correr pra junto do pai, que beijando a cabecinha dos filhos, distribuía o seu prêmio. Provavelmente acostumado a receber olhares de repugnância, aquele do lixeiro não lhe comoveu nada, na verdade estava feliz, tinha dado de comer à família.
Aos meus olhos, mais que piedade, ficou aquele olhar paralizante do lixeiro, homem de ordenado pequeno, que conhece as durezas e dificuldades da vida, com um ímpeto feroz de negar alguns pães velhos a uma família de famintos, de deixar àquele pai pedinte um olhar cheio de desprezo e de pretensão, alheio à máxima de que a pobreza compartilhada é menos pobre.
Os olhos do lixeiro, naquela noite, foram o grande absurdo de haver soberba e rivalidade entre o pobre e o miserável, foram a miséria de compaixão que é dona do mundo e, então, a avenida Nossa Senhora da Penha tornou-se verdadeiramente cosmopolita.
Um olhar quebrou essa imagem, talvez pela minha piedade burguesa, mas acho que antes disso pela estranheza melancólica da situação.
Saindo de uma das padarias dessa avenida, no ponto em que ela serve para separar os bairros de Santa Helena e Praia do Canto, tinha em mente o sonho conformado de um banho quente e de descanso, sem lançar-me a questões existenciais, nem pensamentos profundos, agia, evidentemente, de maneira mais mecânica, nem por isso tinha a percepção do mundo alienada.
O relógio marcava 21:40 horas e e fiquei olhando a avenida após pagar pelo delicioso café com creme e esfirras com que acabara de me deliciar. O café foi um estimulante, suspeito bastante, eficaz para perceber aquela cena quando, ao aproximar-se o caminhão do departamento de limpeza urbana, apressaram-se simultaneamente o padeiro com um pequeno saco de pães velhos e uma família de indigentes que na calçada acompanhava esses gestos como que se tivera esperado por eles longas horas e também com aqueles gestos e olhares que precedem a execução das coisas rotineiras que não se faz por prazer. Com passo determinado e sem desviar o olhar um único instante, o padeiro entregou nas mãos de um dos lixeiros o pequeno saco, e veio ao encontro dos dois o pai da família de pedintes com olhar atônito e quase desesperado. O padeiro, depois de ter entregue os pães, voltou ao seu posto, certamente tendo obedecido ordens de um patrão que não desejava mendigos em frente à sua padaria, mesmo que perto das 10 horas da noite, à espera de uma possível e ansiada refeição que não podia ser comprada como fora o convencimento do padeiro através de seu salário. O lixeiro, por sua vez, tomou para si os pães na cabina do caminhão e deu ordem ao motorista de partir, mas antes de subir, agarrado pelo braço pelo chefe da família, trocaram olhares que foram de gelar a alma: o pedinte arregalava os olhos e contraía a face, numa mistura de súplica e horror, o lixeiro, porém, tinha os olhos baixos, semicerrados, olhando placidamente a cena que parecia repugnar totalmente e por um momento, olhando a sua volta, percebeu que eu assistia a tudo e de dentro do saco de pães, tirou três ou quatro, passando-os abruptamente às mãos do indigente. Logo que o caminhão partiu os filhos e a mulher foram correr pra junto do pai, que beijando a cabecinha dos filhos, distribuía o seu prêmio. Provavelmente acostumado a receber olhares de repugnância, aquele do lixeiro não lhe comoveu nada, na verdade estava feliz, tinha dado de comer à família.
Aos meus olhos, mais que piedade, ficou aquele olhar paralizante do lixeiro, homem de ordenado pequeno, que conhece as durezas e dificuldades da vida, com um ímpeto feroz de negar alguns pães velhos a uma família de famintos, de deixar àquele pai pedinte um olhar cheio de desprezo e de pretensão, alheio à máxima de que a pobreza compartilhada é menos pobre.
Os olhos do lixeiro, naquela noite, foram o grande absurdo de haver soberba e rivalidade entre o pobre e o miserável, foram a miséria de compaixão que é dona do mundo e, então, a avenida Nossa Senhora da Penha tornou-se verdadeiramente cosmopolita.
segunda-feira, junho 27, 2005
Pequeno Poema de Amor
Imerso no pesadelo da morte de meu tio Roberto Valério, voltava subitamente para casa após a trágica manhã, quando, na faculdade de direito, fui informado de seu "grave acidente".
4 horas de viagem e a angústia e a solidão do mundo inteiro num olhar para as pastagens, culturas de milho, casas de lavradores longe, longe... Então já duvidava que fosse meu tio, seria mesmo meu pai? Não diriam pois poderia ficar louco... daí disseram que se acidentara gravimente o meu tio! Mas chegando à cidade natal, corri à casa da avó paterna e ela confirmou com resignação a morte do meu tio materno.
Depois em casa, espectros de gentes vagavam olhando o chão imóvel como se ele se mexesse e o grande amor da minha raça à família estava esgotando paulatinamente a razão de todos. Sentei-me no sofá abatido por esse mal, imaginei o morto e imaginei o quanto significava sua morte: "um muito, um muito" repetia o pensamento reverberando a conclusão mais certa em vista da jovem família que ele constituíra.
Mas então, elevado à grande crina da loucura, da demência em revolta, da cólera pelo injusto, surgiu à minha lembrança a figura dela e de seu sorriso incomensuravelmente lindo: minha avó Nina. Logo o luto pelo meu tio foi rivalizando com a piedade pelo sofrimento da mãe do morto e como se o meu corpo fosse segurado por mãos imensas e quentes, suspirei um alívio doce e a ardência nos olhos passou devagarinho, disse seu nome de novo, pensei nela e de novo era o menininho que vagava à tarde pela sua casa com cheiro de amor.
A veemência com que ralhava comigo quando aprontava alguma estrepolia, não era nem de longe tão marcante quanto a doçura dos seus olhares, a precisão dos seus gestos e a grande beleza do seu sorrir de alegria: Nina, pensei mais uma vez, minha mãezinha, mais que mãe de minha mãe. Uma mulher que tão útil ao mundo que exerceu a maternidade a tantos quantos lhe coube dar educação e afeto: foi mãe dos seus irmãozinhos quando a sua mãe morreu. Foi mãe, principalmente, dos seus filhos quando teve a própria família e mãe de si mesma, quando um deles morreu na infância. Foi mãe, por último e para minha grande sorte, dos seus netos, quando a modernidade impôs o trabalho fora de casa às mulheres, como minha mãe, e então nos conhecemos.
Conforme os anos de maturidade chegaram, sua figura tomou o porte que sempre teve, que o olhar baixo de criança não consegue ver, e a grandeza de seus sentimentos de amor e generosidade rapidamente tornaram-se causas confiáveis de muitos de meus sentimentos correlatos, como que numa adaptação criteriosa do que a vida deve ser a partir da verdade de vê-la de vestido na cozinha preparando o jantar, batendo com força contra a panela a colher grande que serviu para refogar o arroz.
À noite, na casa do morto, finalmente encontrei-me com ela novamente. Sentada à beira da cama, rodeada pela família e entupida de calmantes, tinha olhos, não da original esperança e fidalguia que nos transmitiu com orgulho, mas de um abatimento cruel e sem caminho, de uma morte que tudo quer para si e nada dá, de uma tristeza que era propriamente o fim de tudo.
Na sala o corpo frio e costurado do meu tio, morto num acidente motociclístico, parecia sereno a ponto de consolar os que choravam por ele, minha mãe, minhas tias e tios, meus primos.
Eu chorava baixinho pela minha avó, pelo seu perturbado coração de mãe que perdia uma parte de si subitamente, pela honorável condição de mãe de três gerações de uma família, pela graça indescritível do seu olhar que o desespero roubara naquele dia.
Então, como que numa eureca mórbida, compreendi que toda minha vida provinha da luz de seus olhos, que tinha virado gente em algum dia da primeira infância quando fui invadido graciosamente pelo amor de minha avó e, tateando como um anão bêbado e feliz, comecei a conjugar o mundo em versos que não dizia para ninguém, celebrando solitariamente a miséria de uma natureza absoluta e irremediavelmente sedenta de alegria e paixão.
Alguns meses depois, procurando o significado dos nomes dos familiares, fui olhar o dela. Seu nome de batismo é Édila, que vem de Idílio. Seu significado me perturbou mais do que poderia supor, de maneira que o pensamento foi tomado por longos dias na sua repetição incançável. O significado do nome de minha avó Nina, vejam bem meus amigos, é "pequeno poema de amor".
quinta-feira, junho 23, 2005
Quando não se morre da doença, morre-se da cura
Um ditado é quase que como uma sentença no aspecto de fazer gelar a coluna, a vantagem sobre a sentença é que os recursos são mais simples, basta ignorar, virar a cara para o ditador e está bem desse jeito. Há um ditado que deixa difícil recorrer, é mais ou menos como o "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come", é talvez o equivalente desse nosso lá em Porgual: "quando não se morre da doença, morre-se da cura."
E não é que pode ser verdade? Outro dia uma tia comentava que não valia tratar da gripe, pois se tomando os remédios, melhorava com 5 dias, sem tomar nada melhorava na mesma com 8! Uma bela economia, afinal... Infelizmente eu nunca pude fazer dessa economia, já que as minhas gripes são todas gulosas da minha saúde e sem tratar, convaleço rapidamente. Desse ditado, entretanto, não haveria injeção de Fredamicina com Ozonil que pudesse me safar!
O ditado ganhou hoje uma proporção linda quando foi metaforizado por uma amiga minha quando discutíamos sobre o seu estado sentimental (infelizmente péssimo). Deixei lá a minha esprança que sempre vem um novo amor e tentei consolar, como meus bons amigos fazem comigo, mas a moça tava irredutível e disparou o ditado: quando não se morre da doença, morre-se da cura!
Pois não é que é verdade sobre o ideal do amor? Bem que podia ser se não houvesse a possibilidade de salvar-se. Daí a minha sofrida amiguinha não percebeu mais nada e tive que recapitular os fatos, ora vamos lá: a doença é mesmo essa expectativa de realizar o ideal do amor, essa vontade de amar sinceramente e receber um amor igual, simples de explicar, mas na prática não funciona bem, prova disso é que a cura para a doença, a amada, por mais das vezes acaba por mostrar-se má para o paciente! Daí morre-se da cura, se não tiver antes morrido da doença! Estamos mau então, não há escapatória... Mas não há que achar que todo amor é falho, falso ou tolo... nem por isso, há quem se salva desse destino e não é coisa tão rara assim, ou seja, vive o seu último e definitivo romance.
A amiguinha achou bonita a minha visão romântica do ditado e a maneira que encontrei de ver alternativa à sua sentença pessimista, mas também isso não adiantou para animá-la, fato é que ela precisa correr o risco de morrer pela cura, precisa de uma paixão tão alta e tão forte que esses olhos de choro voltem a brilhar fortemente e sem medo, já que a opção a um novo amor é morrer da frustração de não vivê-lo, da terrível doença das frígidas e das histéricas! E olha que esperar passar pra ver se cura também é uma tola e redonda bobagem, quem acha que faz economia assim por não ir comprar o remédio vai se dar muito mal, a vida não gosta de esperar!
Curem-se logo, meus amigos, procurem uma farmácia e curem-se, isso de viver doente não presta.
E não é que pode ser verdade? Outro dia uma tia comentava que não valia tratar da gripe, pois se tomando os remédios, melhorava com 5 dias, sem tomar nada melhorava na mesma com 8! Uma bela economia, afinal... Infelizmente eu nunca pude fazer dessa economia, já que as minhas gripes são todas gulosas da minha saúde e sem tratar, convaleço rapidamente. Desse ditado, entretanto, não haveria injeção de Fredamicina com Ozonil que pudesse me safar!
O ditado ganhou hoje uma proporção linda quando foi metaforizado por uma amiga minha quando discutíamos sobre o seu estado sentimental (infelizmente péssimo). Deixei lá a minha esprança que sempre vem um novo amor e tentei consolar, como meus bons amigos fazem comigo, mas a moça tava irredutível e disparou o ditado: quando não se morre da doença, morre-se da cura!
Pois não é que é verdade sobre o ideal do amor? Bem que podia ser se não houvesse a possibilidade de salvar-se. Daí a minha sofrida amiguinha não percebeu mais nada e tive que recapitular os fatos, ora vamos lá: a doença é mesmo essa expectativa de realizar o ideal do amor, essa vontade de amar sinceramente e receber um amor igual, simples de explicar, mas na prática não funciona bem, prova disso é que a cura para a doença, a amada, por mais das vezes acaba por mostrar-se má para o paciente! Daí morre-se da cura, se não tiver antes morrido da doença! Estamos mau então, não há escapatória... Mas não há que achar que todo amor é falho, falso ou tolo... nem por isso, há quem se salva desse destino e não é coisa tão rara assim, ou seja, vive o seu último e definitivo romance.
A amiguinha achou bonita a minha visão romântica do ditado e a maneira que encontrei de ver alternativa à sua sentença pessimista, mas também isso não adiantou para animá-la, fato é que ela precisa correr o risco de morrer pela cura, precisa de uma paixão tão alta e tão forte que esses olhos de choro voltem a brilhar fortemente e sem medo, já que a opção a um novo amor é morrer da frustração de não vivê-lo, da terrível doença das frígidas e das histéricas! E olha que esperar passar pra ver se cura também é uma tola e redonda bobagem, quem acha que faz economia assim por não ir comprar o remédio vai se dar muito mal, a vida não gosta de esperar!
Curem-se logo, meus amigos, procurem uma farmácia e curem-se, isso de viver doente não presta.
quarta-feira, junho 22, 2005
Suas orquestras não têm nossas gaitas
Há uma valsa que Jean-Jacques Rousseau compôs no século XVIII que foi motivo de grande chacota por parte da intelectualidade francesa da época. A valsa Allons Danser, da ópera Le devin du village, podia mesmo não ser tão melodiosa quanto um ouvido exigente gostaria, ou mesmo representar uma aventura tosca pela música de um filósofo iluminista, mas sua virtude, como em todas as obras do genebrino Rousseau, era a sutileza de suas idéias:
“Vamos dançar, por entre as flores, com alegria,
Oh! meninas, vamos dançar, por entre as flores,
Com alegria, ao som dos flautins.
Cantando belas canções de amor
Pra ter sempre alegre o coração,
Dançando na roda dos enamorados
Bem distantes da solidão.
Se na cidade não mora a paz,
Se brincadeiras alegres não há,
Que é da alegria? Que é da canção?
Onde a beleza, sem disfarce?
Suas orquestras não têm nossas gaitas.”
Oh! meninas, vamos dançar, por entre as flores,
Com alegria, ao som dos flautins.
Cantando belas canções de amor
Pra ter sempre alegre o coração,
Dançando na roda dos enamorados
Bem distantes da solidão.
Se na cidade não mora a paz,
Se brincadeiras alegres não há,
Que é da alegria? Que é da canção?
Onde a beleza, sem disfarce?
Suas orquestras não têm nossas gaitas.”
Decobri a letra dessa ópera por acaso, lendo sobre a interessantíssima vida de Rousseau e nela também verifiquei a força de suas idéias aliada à suavidade do convite que ele propõe: vamos dançar!
Sempre imaginei as pessoas dançando despreocupadamente nas festas antigas, não como nos salões tradiconais, onde as regras e as aparências tiravam todo gosto, mas nas vilas de camponeses, nos bairros operários, lá sim, havia gaitas, digamos assim.
Seduz imensamente a idéia da alegria popular, talvez mais legítima e sincera, mas sempre ficou para mim o pressentimento de que apesar de querer festejar essa alegria, Rousseau lamentava, parece haver um ranço de revanchismo, de tristeza por ser menosprezado, como que se "fóssemos dançar" para provar alguma coisa e não simplesmente para ir dançar, como se a alegria fosse uma obrigação ligada a uma questão política de provar a legitimidade do que é popular, democrático, feito pelo povo. Aí é que a coisa fica mais aparente, já que Rousseau foi um dos maiores críticos do absolutismo e um dos seus maiores iconoclastas, assim como da própria monarquia.
Pois é aqui que digo que também os libertadores escravizam, pois se é doce dançar ao som de valsas ao invés de ser esnobado por uma elite preguiçosa e arrogante, tanto pior é ser obrigado a ser feliz simplesmente por esnobar de volta essa elite, por viver à margem do mundo que o inimigo quer que seja real.
Não vamos entrar em discussões muito profundas... O bom é que essa ópera seja lida por todos quanto gostem e admirem o nosso Jean-Jacques, gênio do seu tempo, para verificar nele, filósofo e amante da cultura e da arte, essa vertente de angústia e revanchismo, voltando à alegria o que foi produzido em seu coração pela tristeza e pelo rancor.
É assim que me parece essa triste ópera, na mesma medida da expressão dessa moça do quadro "Danse à Bougival", de Renoir: obrigada a dançar por um sujeito bizarro com chapéu amarelo, flagrantemente envergonhada e fingindo "dançar", como o povo, a saída é desviar o olhar e cair na dança sem pensar muito.
domingo, junho 19, 2005
Escravo da alegria
Rememorando a vida que comungamos em felicidade, imensos olhos da minha amiga, redondos e coloridos, investem contra essa estante de cinzas que é meu peito já há muito tempo. Neles há um pranto e um pedido tímido e grandioso, em choro pede que novas e maiores sutilezas indiquem que o as fronteiras não existem, que nós não obedecemos a limites, mas estamos sujeitos às mesmas leis físicas e civis que todas as gentes. Talvez, no seu íntimo, argumentasse que não é justo, já que podemos ver além dessa massada toda que é a realidade bruta e arrogante, mas a sensibilidade não é tão valorizada assim, talvez noutros tempos, em outras escalas.
Frente ao grande precipício da separação e da angústia, é preciso, novamente e sempre com o mesmo manto de morte e desapego, sentar no trono da contemplação das estrelas vivas, das que por algum propósito divino brilham para nós e brilharão para os nossos descendentes como da primeira vez que um homem as achou bonitas no céu e se deram conta de que eram estrelas. Somente as estrelas, empenhadas no céu a nos observar, saberão as respostas pra tantas dúvidas, pra perguntas que eu não sei e nem ouso responder, nem tanto por medo, muito mais por respeito ao grande mistério que é o futuro.
Entristece ver no céu, na tardina, as nuvens que vão impedir de ver as estrelas à noite, sempre chamo de ladras essas nuvens, ladras da minha comunhão com os astros distantes, amigos dessa sabedoria das tragédias e dos mistérios e também verdadeiros, apesar de inalcançáveis, só ao alcance dos olhos e do pensamento. Também os olhos da minha amiga são assim, são minhas estrelas prediletas, as únicas que queimam no espaço de uma menininha movida pelo impulso do amor, um astro da maior das grandezas, visto a milhões de anos luz pelos meus olhos, pedintes e humildes frente a sua luminosidade.
Eu, criatura expatriada dos disses e das primeiras ilusões, fiquei órfão muito cedo das minhas maiores esperanças de queimar para iluminar o mundo inteiro, sobraram verdades que não levam nomes de mulher, sobrou uma ordem rude de alcançar um fim preciso, intimidade que é minha própria natureza e que não me causa nenhum medo.
Pesa sobre a cabeça a grande culpa de tudo sacrificar, entretanto. Tenho na boca um gosto amargo e persistente que não me abandona, como uma goma mascada dia a dia por meses sem parar, a loucura que desapaixona e humilha, que a solidão faz lembrar com mais força e que eu venço com tanta dificuldade, mas sempre com confiança de que o meu caminho não deixou uma trilha de sangue, mentiras ou fraudes, mas foi uma rota de companheirismo e aprendizagem, da expressão dos melhores sentimentos, do encontro com os melhores amigos.
As estrelinhas são minhas amigas, das melhores.
Frente ao grande precipício da separação e da angústia, é preciso, novamente e sempre com o mesmo manto de morte e desapego, sentar no trono da contemplação das estrelas vivas, das que por algum propósito divino brilham para nós e brilharão para os nossos descendentes como da primeira vez que um homem as achou bonitas no céu e se deram conta de que eram estrelas. Somente as estrelas, empenhadas no céu a nos observar, saberão as respostas pra tantas dúvidas, pra perguntas que eu não sei e nem ouso responder, nem tanto por medo, muito mais por respeito ao grande mistério que é o futuro.
Entristece ver no céu, na tardina, as nuvens que vão impedir de ver as estrelas à noite, sempre chamo de ladras essas nuvens, ladras da minha comunhão com os astros distantes, amigos dessa sabedoria das tragédias e dos mistérios e também verdadeiros, apesar de inalcançáveis, só ao alcance dos olhos e do pensamento. Também os olhos da minha amiga são assim, são minhas estrelas prediletas, as únicas que queimam no espaço de uma menininha movida pelo impulso do amor, um astro da maior das grandezas, visto a milhões de anos luz pelos meus olhos, pedintes e humildes frente a sua luminosidade.
Eu, criatura expatriada dos disses e das primeiras ilusões, fiquei órfão muito cedo das minhas maiores esperanças de queimar para iluminar o mundo inteiro, sobraram verdades que não levam nomes de mulher, sobrou uma ordem rude de alcançar um fim preciso, intimidade que é minha própria natureza e que não me causa nenhum medo.
Pesa sobre a cabeça a grande culpa de tudo sacrificar, entretanto. Tenho na boca um gosto amargo e persistente que não me abandona, como uma goma mascada dia a dia por meses sem parar, a loucura que desapaixona e humilha, que a solidão faz lembrar com mais força e que eu venço com tanta dificuldade, mas sempre com confiança de que o meu caminho não deixou uma trilha de sangue, mentiras ou fraudes, mas foi uma rota de companheirismo e aprendizagem, da expressão dos melhores sentimentos, do encontro com os melhores amigos.
As estrelinhas são minhas amigas, das melhores.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




