sexta-feira, março 31, 2006

Uma moça mira o mar

À beira do mar chega uma brisa que muito viajou antes de encontrar o continente, foram milhas e milhas onde a pressão atmosférica fez o ar mover-se a uma tal velocidade e sem nenhum obstáculo, que enfim encontrou o continente encorpado de sal, umidecido pela água, bem disposto para inspirar.

Olhar o mar... ver que a imensidão não tem limite, que o limite o mundo é que tem, na fronteira da curvatura da terra. Mas os olhos não se detêm às fronteiras, vêem além.

Como se houvesse uma torre imensa à beira do mar, no topo da qual fosse possível ver todos os reinos do mundo, insistem os olhos em perseguir o horizonte de onde segue oculto o mar.

Pois digo que não há horizonte mais bonito.

Vivamente me lembro de uma vista no campus da Universidade Federal de Juiz de Fora onde era possível contemplar um horizonte aberto. Ficava na praça cívica, próximo à Biblioteca Central, um grande vão aberto onde não se intrometia montanha nenhuma, nem prédio nenhum, era apenas um largo rebaixado de bosque com o lago do campus no fundo e mais abaixo, há uns 3 quilômetros, a cidade de Juiz de Fora. O sol se põe bem à frente de quem admira a paisagem, de modo que a linha da cidade fica dourada e com pigmentos alaranjados as folhas das árvores e o lago.

Ao fim do dia, via-se o pôr-do-sol mais bonito do mundo acadêmico, engrandecido pelo fato de que quem vive nas montanhas não tem horizontes abertos: há sempre algo à frente para interromper a vista, como se vivéssemos numa liberdade cercada, além de tardia.

Era ali que o coração liqüidava as mesquinhas preocupações e um bom vento livre, vindo talvez do litoral, soprava os cabelos, esfriava o corpo e convidava a um café na cantina da biblioteca. Havia filosofia demais para aquela vista.

Considerávamos, eu e os demais miradores, que valia morrer olhando para algo assim, que se fosse para ter fixada na alma uma última lembrança da vida, eternamente cristalizada, que fosse uma como aquela boa vista.

Não fosse a morte o argumento preferido dos poetas fatalistas, não fosse o morrer a mirar o mar a final sutileza da balada da Moça do Miramar, de entristecida poesia com essa mesma figura de linguagem, teria entre os meus sentimentos o desejo dessa morte, evidentemente secreto. Mas não é exatamente assim comigo.

Do fundo do coração, sei de uma coisa: meu último olhar não será para um livre horizonte sem fim, onde supostamente significaria ver liberdade, ou onde questionaria a metafísica do mundo... Será para dentro dos olhos do meu amor, donde colherei minha gota de transbordo da coragem, minha bandeira altaneira da esperança, minha alegria perene.

Não preciso estar em lugar nenhum para ver o infinito, senão perto deles, pois tenho nestes olhos o meu mar.

quarta-feira, março 29, 2006

Leve balanço

Vi Belo Horizonte pequena a desaparecer atrás de mim de dentro de um avião de élices: pequenino e bastante barulhento, mas que nas curvas fazia um leve balanço e cessava de tremer tanto.
Não supunha que houvesse linha aérea entre Belo Horizonte e outras cidades assim tão próximas, mas a prosperidade do Triângulo Mineiro fez sugir essa escala ao destino chamado Uberlândia, enquanto a nossa Manchester mineira, Juiz de Fora, continua com uma única linha regular para São Paulo: saudade do tempo em que era pioneira, pois agora há estudantes de mais e dinheiro de menos!
Nunca tinha vindo a Araxá, aqui tudo é muito plano e as ruas em geral bem largas: uma satisfação para quem está acostumado a ladeiras e curvas bem fechadas. É a terra de "Dona Beja" do Grande Hotel de águas termais, mas atraiu-me para cá o serviço: amanhã há uma audiência, a colhida de um testemunho.
Aterrissei distraído quando do avião tive um encontro quase aéreo, mesmo sem acreditar logo de início. Talvez pelo whisky servido à bordo, talvez pela docuça de curvar àquela velocidade e altura, desvencilhei-me do cinto aparentemente inútil num acidente aéreo, e encontrei em pleno vôo, desta vez sem élices barulhentas, mas de braços abertos e em frente a um horizonte lindo e aberto, um passarinho.
Desencantado de sua própria liberdade, planava bem longe, rumava a um destino desimportante e perseguido por puro instinto, rezava secretamente afeto, fomentava dentre as asas ensebadas amor, dava de comer no biquinho. Enfim sorri, depois de tantos dias tristes, meu melhor e mais franco sorriso para aquela desenvoltura nas acrobacias.
O que fazia esse bicho em Araxá, meu Deus? Não sei. Mas está por aqui. Eu que já o vi tantas vezes e conheço tão bem a sua natureza, eu que de um bicho desses fui companheiro e dono por longos anos, senti o peito espremer angústia, a garganta apertar sozinha e os olhos marejarem...
Voou depois para um lugar impercebido, sem dar um pio, sem qualquer sinal maior. Mas esteve aqui perto de mim, disse-me o seu "olá" e tão lindo fez-me lembrar de si com todo mérito que fazem por merecer os pássaros, criaturinhas muito livres e muito objetivas nos seus propósitos e alguns deles, como esse amiguinho, gloriosamente leal, desgraçadamente inesquecível.
Queria ter um bico como o dele, asas coloridas como as dele, queria mesmo era voar como ele quando fosse voltar para casa... mas não sou passarinho, vôo em aviões de élices, por vezes melancolicamente deselegantes.

segunda-feira, março 27, 2006

Minha crônica favorita

Susana, flor de agosto

A redação seria a coisa mais triste do mundo, não fosse a presença inesperada de Susana. Susana com seus 13 anos em flor, sua sábia beleza, seu doce e triste olhar castanho e sua perfeita desenvoltura encheram a redação de uma vida inesperada, fazendo-me por alguns instantes esquecer a mesquinhez do cotidiano. Ela entrou nos amplos espaços do meu tédio com passos graciosos de dançarina e ficou a girar por ali, balançando os cabelos longos sobre os ombros firmes de adolescente. Pus-me a adorá-la como nunca dantes, àquela menina a quem dei vida, e nunca senti mais forte, doce, secreto, o elo que a ela me prende.Talvez para os outros sua jovem figura trouxesse apenas o encanto uma flor em desabrochamento. Para mim, seu pai, trouxe uma sensação de indizível amor, de um triste, fatal e pacífico amor sem remédio. Revia-a pequenina em meus braços diante de um branco céu crepuscular olhar para o alto anunciando-me que as estrelinhas estavam acordando. Revi-a a me olhar do seu modo sério quando lhe contava histórias, longas histórias por vezes inventadas e que nunca eram bastantes para a sua imaginação insone. Revi-a crescendo diante de mim qual planta misteriosa, estirando o caule, distendendo os ramos numa ânsia saudável de crescer. Agora ali estava ela a dançar sua maravilhosa dança ritual só para mim, nos infinitos espaços do meu silêncio – Susana, uma vida tirada de mim, uma menina que eu fiz para amar com a maior doçura do mundo: Susana, flor de agosto, filha minha muito amada, para quem eu cantei meus mais sentidos cantos e sobre cujo pequenino rosto adormecido despetalei as mais lindas pétalas do meu carinho.

Vinicius de Moraes
10.1953
in

domingo, março 26, 2006

Dialética

Não é raro que a madrugada queime nos meus olhos, doce e bem vinda, embora no dia seguinte os mesmos olhos de contemplação tornem-se olhos arenosos, pesados e imprecisos.
É da própria essência da madrugada o mistério e o envolvimento, a sutileza e a plena consciência da falta de perenidade que lhe informa.
Calha bem respirar a brisa fria ao silêncio do mundo que dorme, sonhando acordado que o dia seguinte trará entendimentos mais inteligentes, que faltará aquela má-fé habitual, que se atrasará dormindo mais cinco segundos por preguiça aquela desgraçada inveja, filhinha dileta da vaidade e do orgulho.
Vem o dia com sol forte, e com olhos cheios de areia vejo as mesmas cenas: "não falamos o mesmo idioma", é normal pensar então, pois o entendimento é sempre difícil!
Segue o dia da rotina comum com apenas um rastro desses pensamentos, quase esquecida aquela sensação boa da madrugada. Um ceticismo sempre sarcástico e disciplinador é o vencedor habitual. Desacredita o mundo e tudo mais, como se colocasse os livros que já leu na estante rindo com confiança, enfim, também ele um tanto orgulhoso.
Vêm os colegas de hábito desejar "bom dia", comentamos do fim de semana, dos copos que esvaziamos, do futebol e da pena de não ter ido no estádio - que jogo fantástico! Sorrimos, vamos ao trabalho, concentramo-nos, afligimo-nos por qualquer prazo próximo, almoçamos, trabalhamos mais um tanto para o êxito do escritório e em casa finalmente, cansado e aborrecido com qualquer coisa pequena, levanto a alma para o alto com um banho bom, e com os pensamentos finalmente vagos de novo, já posso desacreditar tudo dentro do meu particular modo de pensar, achando graça do absurdo do mundo e não vertendo pra dentro nada que venha dele.
Venho aqui por uma curiosidade, a mesma talvez que tenho quando concorro - não pela vitória, mas pela incerteza do resultado - se consigo descobrir alguém que saiba ler no idioma em que escrevo.
Fora essas surpresas e o modo delicado como sorri minha avó, tudo no mundo é vão.

quarta-feira, março 22, 2006

Num copo de café

Passei em frente a uma vitrine da Savassi, tinham chegado peças novas da coleção de inverno. Acho que as mais caras, já que o verão finalmente está a passar.
Muito bem montada a vitrine. Tinha lá uns três manequins, um sofá, um abajour, uma mesinha de centro bem pequena e uns outros adornos elegantes. Parei e fiquei a olhar. Os manequins nus não pareciam envergonhados e se toda gente fosse assim era muito melhor, refleti mais por hábito do que por ter chegado a uma conclusão brilhante.
Logo entrou o rapaz que organizava as roupas. Tavam amarrotas. Ele vestiu os manequins mesmo assim. Achei engraçado pois, afinal, eles não se importam muito em vestir roupas naquele estado, ao menos não ficava à mostra aquele simulacro de sexo que os seus criadres inspirados imaginaram para reproduzir fielmente o corpo humano.
Finalmente, depois de agasalhar a todos os bonecos, deu comigo de frente pra cena toda. Sorriu e perguntou se estava bom. Respondi que sim, mas sem entusiasmo. O rapaz notou e convidou-me para entrar na loja.
Era um rapaz, mas nem tão novo assim, tinha 33 anos, chama-se Artur, e é vendedor há uns 4 naquela mesma loja. Naquela manhã trocava as roupas dos manequins. Perguntou como faria. Disse-lhe que não colocaria o rapaz a olhar para a moça, deixando-os de lado para a rua, daí as pessoas não veriam a estampa das blusas, que eram bonitas. Outra coisa que sugeri foi que colocasse a outra moça deitada no sofá, já que tinha boas pernas falsas e a pose iria chamar atenção. Ele concordou. Isso passou-se há 3 dias.
Encontrei com o rapaz no centro da cidade hoje. Tomava um café antes de seguir para o Fórum. Aproximou-se e disse que a vitrine tava fazendo sucesso, que as blusas e jaquetas tinham se esgotado e encomendavam outras e agradeceu de novo. Fiquei contente e ri devagar. Era pai de uma boa estratégia de vendas, tinha lá direito a uma comissão! Mas valeu mesmo pelo divertimento daquilo.
Veio à lembrança o modo como fazia batalhas na infância com soldadinhos de chumbo. Bolava estratégias, armava grandes confrontos! Emboscadas surpreendentes eram a prova de um exército bem disposto para o combate, que não perde de vista o ideal da vitória! Mas só havia um soldado na brincadeira, e era eu mesmo.
Na loja também só havia um manequim, e era o Artur. Ao me convidar para ir até lá dar a minha opinião e mudar tudo, acho que estava me convidando para tomar parte na sua brincadeira e fez de mim um rapaz que mostrava como as pessoas deviam fazer pose com as novas roupas da estação mais fria do ano, isso, é claro, através dos meus representantes inanimados!
Vertendo um e outro gole daquele café de depois do almoço, que serve mais para despertar da sesta do que para agradar o paladar, achava-me muito bem vestido para a nova estação, com a expressão multiplicada pela representação da minha vontade, orgulhoso da minha liderança, segui com os meus trajes formais de inverno por sobre o corpo, senhor dos soldadinhos de chumbo e agora também de manequins de lojas de grife.

domingo, fevereiro 12, 2006

Vem comigo a Ouro Preto

Assombrada pela sua praticidade frustrada, a capital mineira sob a chuva constante é quase como um assassino sem sua arma: fica um pouco confusa antes de encontrar outras opções. Confusão bonita de se ver e de se sentir, por instantes a marcha do mundo e das coisas é outra: "mas tá a chover..." argumentam todos nas conversas. Eu em casa, também à circunstância da chuva, aproveitei para verter pra dentro compreensões destas coisas bonitas daqui, lembrei das devoções que contemplei, ainda de uns espetáculos da natureza humana.... da comédia desta natureza... ouvi "Dora" e fiquei sorrindo uns minutinhos, depois outras também queridas daquela época, metade dos anos cinquenta ao fim dos sessenta, em que música popular e poesia andavam casadas em comunham universal de bens. Agradeci à chuva.
Surigiram lembranças, feitas não da má nostalgia de não as ter vivas, mas da contemplação da beleza. A meiga tarde de domingo no outono de Ouro Preto, meu Deus, que ar mais puro e doce, que composição plena das cores, das formas geográficas, do acaso da fortuna que ao pé da "Pedra Menina" edificou a matriz do Pilar e deste ponto, a sempre jovem condição de sofrer da paixão e conter-se.... mineiridade. Quis ir até lá talvez só pra ser molhado pela chuva de Ouro Preto, já então diria "felizmente está a chover" e o vagar pelas tortuosas ruas de pedra seria o exercício desta fé maior, crescida do esforço, justificada pelo encontro.
Abrir a porta de casa e dar de frente com essas coisas, a paz de sentir-se no lar que lhe cabe, disso iria muito bem mais uns poemas. Não desses que se escreve com o pensamento fixo num prêmio de concurso, mas dos feitos à mansidão do rio dos sentimentos.
Enturmei-me com uns versinhos novos, fiquei a ler umas palavras neles: "charutos", "noiva", "sanguinário", "tesouros"... talvez tenha sido esse poema um acelerador destas conclusões, pois a poesia nova aproxima-nos da mais cara e mais justa das certezas pessoais, a de que a terra arrasada ainda guarda embaixo das cinzas o adubo verde da esperança. Um gole de conhaque, um velho amigo a relatar aventuras, a redenção da justiça, a paixão discreta da condição ouropretana.
Rezei baixinho uma oração de devoção e piedade, fui tomar um café recém passado e comi um pedaço de queijo minas olhando a chuva insistente, apertei o queixo com o polegar e indicador direitos, enfim havia muito sentido em ir a Ouro Preto, e tanto mais quando está a chover.

domingo, janeiro 29, 2006

Moral da originalidade

Fui a Conselheiro Lafaeite por razões profissionais na semana passada. Ao clamor de um prezado nosso cliente de que o inventário de partilha de sua mulher estava a arrastar-se demais, resolvemos que era preciso falar diretamente com o senhor juiz da 4ª Vara Cível daquela comarca.
Ao providenciar o recolhimento das custas para expedição do formal de partilha, providência da prache processual para o caso de terminar um processo de inventário, onde reparte-se uma herança.
O belo fórum da cidade, já agora envelhecido e prestes a ser substituído por uma sede mais moderna, foi palco de um inesperado reencontro. Ninguém mais que um velho colega de Juiz de Fora, e com qual surpresa não reconheci aquela sua figura no corredor do velho edifício! Márcio Motta, a quem Roberto certa vez deu um apelido um tanto quanto engraçado, mas que vou omitir, por respeito.
Tinha então terminado a faculdade de direito e, não optando por uma carteira, fazia uso dos conhecimentos que encerravam o título seu de bacharel em direito, como funcionário da 3ª Vara Cível daquela comarca.
Cumprimentei e convidei para ir aos copos depois do trabalho, mas lembrei que teria de voltar a Belo Horizonte. Ficamos a falar no corredor por algo como 20 minutos. Falei do início da vida profissional, já o meu antigo colega falou da sua nova cidade, do incerto futuro profissional, visto que as medidas do Conselho Nacional de Justiça já entrariam logo em vigor e os funcionários do Tribunal de Justiça que não fossem concursados seriam todos exonerados, o que seria provavelmente o seu caso. Nessa hora fiquei mesmo algo preocupado por ele, tinha a testa plena de tensão, como ele mesmo ao demonstrar pena de si mesmo com o gesto. Sua vaidade era quase divertida.
Enfim falamos de nossa vida em Juiz de Fora: nossos amigos comuns e nossas competições. Mesmo após 5 anos, ele guardou intactas sua inveja e o seu rancor e logo a felicidade de rever um rosto conhecido de Juiz de Fora foi substituída pela decepção e pelo desprezo por ele.
Logo procurei me culpar por julgá-lo... mas independente de como os outros agem, já não suporto inveja ou rancor, que se querem ter algum vício, que procurem um menos destrutivo.
Todo o resto do dia andei advogando pela causa de encerrar o processo de inventário, no que tive sucesso e retornei a Belo Horizonte com o formal de partilha e minha sentença contra o velho colega. A minha moral pede sempre originalidade.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Um sorriso amigo

De longe, do outro lado da rua, vi uma moça a sorrir para mim e assim, como que intrigado com aquilo sorri de volta esperando perceber o que se tratava e reconheci imediatamente que tratava-se de uma amiga querido, que já há algum tempo não via.
Ela seguiu seu percurso, também eu segui o meu, mas acho que ambos, após aqueles acenos, seguimos diferentes.
Como as marcas dos pés pelo caminho maleável, também caminhou por cima de mim aquela presença, de corpo pesado, de simbologia rica e marcados traços inesquecíveis, traços de quem sabe amar à absurda potência de não mais medir, de quem soube arranhar e depois encobrir delicados palmos de coração puro.
Conseguiu finalmente sair da casa dos pais, sonho antigo que já nutria, para hoje ir viver em Ouro Preto, onde estuda história, querendo, entretanto, ser psicóloga, paradoxos sem nexo, tão típicos que quase dão tédio, não fosse a constante do seu encanto mágico e o despudor da sua coragem, generosa areia de colorir nas cenas bem compostas em que despreza os que se aproximam demais.
Imagino a composição delicada da sua presença em Ouro Preto, sua vida em Mariana... seu respeito pelo órgão que a matriz guarda, preciosidade da primeira cidade de Minas, assim como seu bem estar na praça próxima ao bispado, suas reflexões a caminho e junto da igreja do Rosário, tão simples e tão feia... Em Vila Rica imagino-a a se misturar com a beleza da cidade, com a desenvolutra das ruas, a certeza dos cheiros, a boa ostentação de não ser rei mas ainda ter toda a majestade. Eu, que tantas vezes contei pra ela da mística dessa cidade, fico agora imaginando-a nos caminhos que emoldurarm meus sonhos mais felizes.
Meu encontro, a fazer mais fundo esse e tantos desencontros, foi da mais genuina nostalgia que se pode imaginar. Foi bom ver marte a olho nu no horto florestal e conversar sobre julgar os outros. Curtia imenso as formas da sua mão, aturava seus discos baratos tentando doutriná-la a ser menos agressiva, andávamos então compassados, como um buquê bem costurado, fazia boa figura ver-nos juntos.
Na rua, assim separados, pessoas já tão diferentes, talvez teria sido melhor chorar, pois não havia mais graça em nós, havia esta forma de aparência, que traz consigo um memória, este algo que com mais certeza pode-se considerar o que fui e o que minha amiga foi.
Imaginando o contrangimento que seria chorar em público, ela, muito coerentemente, preferiu sorrir, forçando talvez alegria, e eu, bem mais de surpresa do que pela reação adequada, sorri de volta, mais comedido.

sábado, dezembro 24, 2005

Em transe

Contaram-me hoje de manhã o caso e assim, só hoje, por honestidade e dever cívico, comunico em crônica a incrível aventura que me foi relatada.
Disseram-me que dois homens entraram bastante determinados e com um talão de dívidas numa velha casa com fachada do início do século passado, paredes caiadas já de um tom mais acinzentado, cheiro usual de lugar habitado por dezenas de anos seguidos. Procuravam por uma moradora famosa do prédio chamada Eleonora Ricarda. De sua fama, sabe-se que conhece feitiços e domina o míster de fazê-los e disfazê-los através de invervenções bizarras. Para uns, motivo de riso, para outros uma mulher estranhamente convicta de seu trabalho e cuja fama era devida de fato.
Sentaram e esperaram. O mais novo era gerente, tinha 32 anos e era tão magro que a cara suada e puxada para junto dos ossos fazia lembrar o famoso poeta mineiro já na velhice, Carlos Drummond. O outro era mais alto e mais velho, tinha porte de urso e uma calvice declarada mas ainda não vencedora: apenas a frente estava pelada, fazendo-o parecer ter uma grande testa: era o dono da empresa e quem enfim, devia mesmo ter o pescoço junto à faca dos agiotas.
Após vinte minutos, já habituados ao cheiro de insenso e à constante brisa fria que vinha de um pátio interior, surgiu uma mulher madura e com olhar de víbora a mirá-los com a mão na cintura: "Sim, senhores, desejam algo?", ao que coube ao empresário responder "Tenho dívidas e não tenho como pagar, preciso de uma solução". Talvez fosse melhor ter tentado renegociar as dívidas, talvez fosse melhor ter conversado pessoalmente com cada credor, ou ainda ter tentado substituir todas por uma dívida única junto a algum banco, entretanto, pensava o homem grande, era melhor procurar um fim definitivo para seus credores.
A mulher escutou o relato sobre os problemas econômicos, dos juros injustos, das ofensas pessoais. Foi ouvindo e concordando com a cabeça, mas sem evitar que as pontas da boca ensaiassem um sorriso de deboche, nada que os aflitos senhores percebessem.
Fê-los entrar na sua sala de esforços sobrenaturais. Sentaram-se ambos num grande sofá de veludo vermelho, de um tom próximo à cor do vinho.
Caberiam confortavelmente sentados 5 distintos senhores naquele sofá, mas aqueles seus então ocupantes não notaram seu tamanho avantajado, os seus olhares eram da decoração algo exageradamente mística e exotérica, algo estranha aos místeres burgueses. No fim conformaram-se e voltaram a atenção à voz que lhes dirigia Eleonora Ricarda: concluiram que quem procura uma ocultista tem mesmo de se deparar com coisas que se ocultam!
A senhora pediu-lhes que fechassem os olhos e deu-lhes um forte incenso para que cheirassem. Deveriam tomar uma profunda aspiração da fumaça, vezes seguidas e assim, no fim do processo, estavam inebriados, a revirar os olhos e a sorrir compulsivamente, a ser exageradamente francos, muito menos do que gostariam.
Contaram seus pecados, vergonhas, detalharam planos maus de exploração e depravação sexual, debocharam de alguns devotados amigos e reconheceram suas dívidas como justas. Ainda em transe ela perguntou se se arrependiam de alguma coisa, mas eles pareciam felizes em contar aquelas coisas, como se a ausência dos freios sociais lhes possibilitassem a relalização do antigo sonho de se gabar do mau que fizeram.
Quando dispertaram do sonho, Eleonora disse-lhes que na manhã seguinte não teriam mais que se preocupar com dívidas, que estaria tudo resolvido em relação àqueles credores.
Na manhã seguinte ambos os distintos senhores amanheceram mortos: o coração de ambos estourou de madrugada.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Símbolos do natal

A praça da liberdade já está bonitamente adornada para o Natal! Cuidou com capricho o governo estadual e a companhia de luz de Minas Gerais de fazer da alameda que corta a praça, ligando em linha reta o fim da rua João Pinheiro e as portas do Palácio da Liberdade, o passeio do amor, visto que há corações luminosos em fila. O restante da praça também está decorada, mas com luzinhas normais, sem atropelos maiores, numa harmonia que é bonita, porque nesses dias de chuva sua luz reflete no parelepídedo molhado, deixando tudo pleno do espírito de esperança que o nascimento do Salvador faz renovar.
Talvez tenha ficado parecido com bandeirolas de festas juninas... enfim, originalidade é, antes de tudo, não ter vergonha de ser como se é, e somos mineiros.
Também na praça Sete de Setembro e na rua Rio de Janeiro há decoração, esta providenciada pelo Município. Muito feinha, infelizmente. Junto à mendicância local e a pressa dos transeuntes, somado a isso, o aspecto de decadência do centro da cidade faz parecer que o adorno é um deboche.
A poucas quadras de distância um lugar do outro: um majestoso e romântico o outro de mal gosto, debochado, ambos remetem a um novo natal e a mais um natal.
Enquanto novo e cheio de esperança, o natal aproxima-se em espectativas boas de seu significado, boa nova, enfim. Já como mais um natal, estima-se o pesar consumista da data, com significados superficiais, marcado por comemorações do comércio que pela data esperava salivando, marcado ainda pelas campanhas filantrópica circunstânciais que nada resolvem em definitivo, assim, é mais um natal.
Lamentem ou não, o povo não pratica religião com tanta devoção como já se fez um dia. Claro que há igrejas cheias e somos em maioria absoluta cristãos, mas aquela devoção natural, aquela fé cheia de amor, isso não vejo, principalmente não vejo a identificação desse amor à Deus e o natal, justamente expressão da verdadeira fé.
Hodiernamente, a cultura de consumo elenca como valores as piadas rápidas e divertidas, mesmo que imorais, e a ostentação. Deus não gera lucros senão para essas pseudo religiões que promovem a chamada "extorsão da fé" com suas absurdas cobranças de dízimos, protegidas pela proteção constitucional à liberdade de culto, mas esses abusos logo serão cerceados. Com exceção, portanto, dos "extorquidores da fé" e talvez das livrarias religiosas, Deus não dá muito lucro. Mitos vindos da religião, entretanto.
Assim se dá com a Páscoa em alguma escala, mas sobretudo com o Natal. Enraizadas no gosto popular justamente pela fé que simbolizam no Novo Testamento, qual seja, a da paixão do Salvador e de seu nascimento, respectivamente, essas datas lembram apenas palidamente esses momentos, sobretudo quando das reportagens sobre presépios feitos de algum material curioso ou da encenação da crucificação por algum filipino radical.
Vivemos o tempo de ser filho do amor e da ira, com a decadência dos seculares conceitos morais para emersão uma ética sem balizas visíveis em que os pobres, também acometidos no íntimo pelo falta de prática da religião, enxergam mais claramente sua situação de submissão e exclusão, talvez aqui a única conseqüência boa do "mais um natal", mas ainda assim é ruim, pois se por um lado não são apaixonados por Deus, por outro são apaixonados por consumir, como toda gente, e daí sua falta de fé só serve para romper as amarras que a piedade coloca à violência.
Gosto dos corações luminosos na praça da Liberdade, não é decoração de centro comercial, é símbolo do amor, mas nem todos vêem assim. Talvez se houvesse lojas na praça parecesse menos estranho a esses mais radicais consumistas de natal.
Nesse novo natal, que todos renovem seus votos de amor ao próximo, de mitigação do egoísmo, de devoção à verdade, ao perdão e à humildade: foi a isso que veio o menino que nasceu no dia 25 e é isso que se deve celebrar.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Nostalgia e remelas

Não quero cantar a minha cidade, quero deixá-la em paz. O cimento frio e duro de suas casas, o desenho de suas calçadas portuguesas, o frescor indescritível dos meus sorrisos à avenida Rio Branco... tudo isso continua existindo, mesmo quanto ao frescor dos sorrisos, pois é certo que outros estudantes me sucederam nesse deslumbramento.
Nas fotografias dos meus amigos a moldura dos momentos é essa cidade distante que parece hoje significar ser também uma amiga, já que foi o gigantesco picadeiro desses graciosos números e, certamente porque foi um querido espetáculo viver entre os juizforanos e ser um deles, mas já vinha me esquecendo de grandes virtudes dos daquela cidade, como a hospitalidade e a tradição.
Apanhou-me pela orelha o avô de um colega de estágio que é juizforano e com quem conversei bastante nesse fim de semana durante um almoço em sua casa.
Como eu, foi aluno na Academia de Comércio e em seu escritório de advocacia ninguém menos que meu querido professor de Direito Civil, magistrado aposentado e hoje advogado, Israel Carone, foi seu estagiário!
A essas impressões meu pensamento considerava pesadamente sobre as ausências e da boa nostalgia de recordar invadiu um sentimento de perda que procurei disfarçar com sorrisos numa crescente sensação de sufoco. Salvou-me o tique do velho advogado, ao rir e levantar alto as duas sobrancelhas, algo que eu achei bastante engraçado, num impulso de estupidez, mas enfim serviu para distrair-me.
Conduzi a conversa para o futebol, falamos do Tupi Futebol Clube, tentei ir à literatura, falamos de Murilo Mendes e Pedro Nava, fugi correndo pedir abrigo à contra-cultura e falamos do apresentador Márcio Garcia e sua boate na Cidade Alta juizforana... Quase aceitei o roteiro, conformando-me a ver surgir rotas de lugares, caminhos marginais, a cidade do alto da Garganta do Dilermando a pedir de mim um simples mergulho nas suas entranhas e o eco do "eu não posso te amar" sobrou em mágoa e olheiras, no desespero de paixão assassinada que me deixou com um remorso imenso, tanto que olhei para fora, em direção à linda varanda, como quem ansiasse por ver nesse mesmo horizonte uma forca preparada para dar fim às humilhações. Não havia forca, tratei de perceber isso. Havia um lindo horizonte.
Percebi que causei algum espanto na gentil senhora, avó de meu amigo, quando esvaziei em menos de um minuto a tacinha de sorvete: aquela sobremesa separava-me da porta. Correr, correr para fora, era tudo que ordenavam meus pensamentos, mas há que se ter etiqueta à mesa. Pela precipitação ao tomar o sorvete, preferi aceitar outra taça a ter que explicar porque devorei com tanto desespero a primeira: sem dúvida era porque estava divino.
Aproveitei os instantes finais, o delicioso café passado na hora, para esquecer de boa vontade dessa ânsia em não perder, em acumular lembranças desmedidamente. Embora custem caro as mudanças e não haja na vida nada mais desconfortável, também não há nada que seja mais constante.
Em casa meditei profundamente sobre aquela querida cidade em que vivi. Lembrei-me de cada rua, praça, avenida, lembrei-me das casas onde vivi, dos familiares que deixei e das casas dos meus amigos, lembrei-me vivamente do meu colégio e da minha universidade, e depois de recordar-me vivamente dos sorrisos, percebi que era tolice lamentar que não os tinha, já que os tenho no coração e qualquer tristeza ou nostalgia os desmereceria.
À melancolia cheia de paixão da saudade, perpassam mais e mais os ventos de manhãs novas em ruas e pessoas que para mim são novas, nessa sempre nova capital mineira.

segunda-feira, novembro 28, 2005

O mundo todo é hostil

Pátria do mundo, eis a melhor definição do Brasil. Aqui há gente de todo lado, claro, mais brancos e pretos que de outra etnias, mas também acha-se amarelos, principalmente a vender pastéis e nas lavanderias e, claro, vendendo contrabando!
Os séculos de opressão contra o Brasil foram suficientes para, nesse tempo em que não existe sonho socialista possível a fazer frente ao sistema de exploração do homem pelo homem, insentivar um revanchismo tolo e cruel em muitos aspectos. Vivemos um tempo em que a fraternidade não é possível, não a pura fraternidade, de querer bem aos outros por convicção. É preciso querer bem ao próximo por obrigação.
Deste modo, o Estado brasileiro, como tantos outros, cria e implanta programas, leis, regras de comportamento dos funcionários e repartições públicas para implantar a fraternidade. Como eu disse antes, é uma política compensatória de fraternidade. Compensa-se aos negros por terem sido escravos, compensa-se as mulheres por terem sido subjugadas, compensa-se os paralíticos e outros deficientes por razões óbvias, compensa-se os velhos e crianças, por não terem forças suficientes para enfim deixarem de ser compensados!
Outra grande falácia do estado é o serviço de correios e telégrafos: no horário de almoço deviam estar com todos os guichês a atender, mas não é isso o que acontece, como ocorreu comigo no horário de almoço.
Tinha 15 minutos para postar uma correspondência. Pois bem, parece tempo suficiente, mas não quando se quer um regime de fraternidade obrigatória! Explico-me: com grande gentileza e calma, perguntei à atendente se tinha que ir à fila para comprar um selo postal que custa R 0,55. Sua resposta foi : "Claro! A fila é igual para todos!" Sua rispidez me assustou, mas retomei meu lugar na fila agradecendo. 25 minutos depois fui atendido e chegou junto de mim uma senhora que quis comprar três selos do que a atendente prontamente interrompeu meu atendimento e vendeu-lhe os selos sem sequer pedir-me licença. Indaguei dessa sua atitude, mas ela não respondeu de imediato, disse antes que não iria postar a carta porque o código postal estava errado, mas que iria me vender o selo e colou-o no envelope antes que eu a pudesse impedir. No fim disse ainda que eu não lhe deveria chamar a atenção porque a mulher era idosa e eu não, daí sua preferência, eu esclareci que tinha feito uma pergunta apenas e lhe recordei que tinha dito que a fila era igual para todos.
Fato é que, parafraseando George Orwell, uns são mais iguais que os outros! E para promover essa igualdade não se organizam debates públicos, não se incentiva o desapego do individualismo (fatal para o sistema de exploração do homem pelo homem), não se investe nas escolas públicas, nem se incentiva o povo a amar sinceramente. Tenta-se a fraternidade pela força, como um paradoxo difícil de engolir, louco como nosso tempo, cambaleante como o melhor whisky.
Não digo que velhos não mereçam cuidados especiais, principalmente mensalidades menores dos planos de saúde! Mas não os dispensaria de atividades que são plenamente aptos a realizar. Da mesma forma, cotas para negros em universidades públicas e idade menor para aposentadoria das mulheres: benefícios que não se justificam gratuitamente.
É deprimente que o Estado se debruce nessas compensações, onerando financeira e psicologicamente a parcela produtiva da população, como se estivesse a pagar uma "dívida" e ainda mais deprimente é o fato desses "beneficiados" calarem-se sobre seu desmerecimento particular para recebê-las.
Se todos não fossem tão agressivos para implantar a fraternidade, sob o prisma de uma desforra ancestral nada mais nobre que as velhas opressões, talvez ela fosse mais possível e enfim surgisse por si mesma.

terça-feira, novembro 22, 2005

O Clube Atlético Mineiro

Gente a sorrir de felicidade e alívio. Não foi outra coisa que se viu no Mineirão no dia 20 de novembro. Enquanto os jogadores do Clube Atlético Mineiro esforçavam-se para garantir a vitória pelo placar mínimo, a imensa torcida suava junta, berrava e quase todos bastante bêbados, chingavam os adversários e o árbitro em gestos deselegantes para uma igreja ou um restaurante sociável, mas necessários a uma batalha verbal e apaixonada como a que se travou entre o Galo e o Coritiba: sem parar um instante de torcer e apoiar a equipe, sempre cantando o hino e com fé na vitória, a massa de atleticanos foi muito feliz nesse dia, de uma alegria pura e emocionante na sua sinceridade sem interesses. Uma das faixas foi emblemática desse sentimento, trazia o escudo do Atlético em forma de coração e em letras imensas dizia: "meu Galo, minha vida".
Lambão e generoso com os inimigos durante quase todo o campeonato brasileiro de 2005, o time do Galo encontra-se em estado de perigo, sob risco de ser rebaixado à segunda divisão do futebol do Brasil. Resultado alcançado por jogadores desmotivados, sem amor à camisa e mais que tudo por planejamento mal feito, o 1º campeão brasileiro agoniza tristemente.
No domingo, entretanto, houve algum alento: após duas boas vitórias longe de Belo Horizonte, contra o Paysandu e o Fluminense, foi a vez de vencer o Coritiba em casa para deixar a última posição do campeonato, mas ainda não a zona de rebaixamento, da qual tem que se livrar com uma combinação prodigiosa de resultados junto da série contínua de mais duas vitórias, contra o Clube de Regatas Vasco da Gama em Belo Horizonte e contra o Juventude em Caxias do Sul. Tarefa ingrata, a tomar-se pela fama de algoz que sempre faz valer o time da cruz de malta.
Isso tudo, entretanto, interessa muito mais aos matemáticos e dirigentes, além dos próprios jogadores, do que precisamente à torcida que encheu o estádio no domingo.
Entre os quase 40.000 torcedores, muitos havia que tinham tomado três ônibus, gastando mais de 2 horas para chegar, voltando para casa perto das 10 da noite, tendo que levantar às 4 e meia no outro dia para retomar a labuta. Mas naquelas horas de sacrifício que se seguiriam depois, quanta felicidade anestesiava ao relembrar o gol do Atlético e a certeza íntima e sagrada, inconfessável aos mais reservados, de que sua presença foi essencial à vitória, de que seu grito e seu sorriso alegraram os desmotivados, de que o Galo forte vingador que cantou tantas vezes junto da letra do hino, só existe enquanto time e torcida ungidos na fé neles mesmos e no futebol como desporto símbolo da virilidade, da amizade e da luta! Desta forma, os atleticanos fazem valer o seu ideal de vencer e de honrar o nome de Minas.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Dezesseis de novembro

Uma candura e um apelo. Um sentir próprio das pessoas que amam sinceramente. Sente, sente a vida em todos os seus sentimentos, sente o amor que tem à sua volta e se regozija desta boa estabilidade de sentir.
Talvez deva lembrar suas feições de gentileza, cortesia e generosidade, cada uma de suas tão grandes e tão raras qualidades. Caberia ainda uma digressão exagerada sobre os seus diferentes sorrisos, cada qual com diferentes significados, e uma outra sobre seu cheiro, aquele que a brisa marinha influenciou, como um rochedo à beira mar que vai ficando liso com os séculos. Tudo isso não bastaria, pois é mais e maior que as metáforas, mesmo perfeitas e justas, sobre ela.
Surgem seus esforços de dedicação sempre precedidos de seu incomparável tato em não ferir. Constroem-se sua indizível pureza e seu pudor em ser de outra maneira, como dois componentes de uma só virtude. É ela mesma e isso dá muita alegria, pois de outro modo não seria tão doce, nem tão querida, nem tampouco o dia de hoje seria dezesseis de novembro.
É dia dos seus anos! Cometas a rasgar o céu desprevenido vêm dizer ao mundo que é para alegrar-se. Não é uma mártir dos pecados, mas redime o mundo de ser tão traiçoeiramente bobo e superficial.
Surpreendentemente habita os lugares improváveis. Por mais de uma vez já a surpreendi nos céus dos parques, nas esquinas tristes e distantes do centro da cidade, na saída do trabalho quando o tempo era bom e eu me senti enfim apto a apreciar o que quer que fosse. Lá estava essa moça, a sorrir diligentemente seu incomparável sorriso aos meus pensamentos, a trazer-me de volta das considerações mais absurdas sobre a condição humana, a resgatar-me sem saber de algum imaginário ou real degredo.
Além de mim, tantos outros se alegram. Seus pais, suas irmãs, seus colegas de trabalho, seus amigos, todos que a conhecem, hoje batem palmas! Alegram-se por tê-la por perto e por ela dividir com todos esses seus sorrisos e essas suas gentilezas, essa conversa cheia de interesses sinceros e preocupações justas, e sabem muito bem todos eles o quão especial ela é e como fica bonita quando um pouco preocupada!
Hoje queria beijá-la e dizer pessoalmente o quanto o futuro reproduzirá suas virtudes em felicidades e grande paz, que Deus há de garantir-lhe boa saúde, que todos os seus sempre se alegrarão mais e mais do seu convívio. Distante, todavia, reproduzo meus sentimentos nessa escrita e ambiciono coisas loucas!
Entre tudo, ambiciono um baile a mais para enfim conduzir seu corpo dançante entre as vias estelares de um salão sem estrelas (mas cheio de gente bêbada e ansiosa, mas enfim, há espaço para nós lá também!) E novamente poder fazê-la sorrir, talvez até gargalhar, construindo alguma alegria e tendo grande alegria, e então, como um mendigo satisfeito, não diria "Deus te abençoe", mas "que lindo sorriso!"

sexta-feira, novembro 04, 2005

Fingi na hora rir

Desaprendi a ler daquele nosso jeito antigo. Fui apanhado pelos cabelos por um índio escalpeador, cortou-me essa capacidade. Agora leio literalidades. Prefiro não tomar sustos. Aos poucos vou me tornando um ridículo burguês, talvez seja isso mesmo.
Vamos partir em breve para um destino simples? Talvez vendam passagens pra esse lugar, mas não me refiro a nenhum entorpecente ou veneno... sem mormidez hoje, sem dramas simples. Eu gosto é do gasto.
Duas paralíticas vieram me pedir dinheiro para seu orfanato, perguntei se aceitavam amor, elas se ofenderam, achavam que eu estava debochando com alguma insinuação, mas na verdade eu estava na dúvida se aceitavam amor, porque os cartões de crédito, de todos os tipos, aceitavam. Claro que não daria o meu amor a elas, não tenho para dar, perguntei por curiosidade econômico-sentimental.
Tenho curiosidade, eis o meu mal. Curto imenso os limites das curvas, quando o carro vai capotar? Haverá sobreviventes? Continuará o carro em condições de funcionar bem depois? É impossível saber... essas curvas variam muito! Viva a geografia das nossas estradas que oferecem sempre curvas imprevisíveis. Descubro o corpo de seu cobertor e dou risadas inconvenientes, mas nunca a ponto de constranger... disso não gosto. Basta de ser curioso.
Bom mesmo seria não imaginar o amanhã, viver na realidade dos bichos, bom mesmo seria não ter tanto ideal, bom mesmo seria não ser escravo da paixão de quem sabe um dia vir a ser... sei lá o quê! E ter! Ter muito dessas coisas inúteis. E ter um amor também! Claro, um bem importante.
Será que ambicionar o amor assim é ser materialista? Será que uma moral reconstruída de um cristianismo burguês pode me livrar de ser tão tristemente tolo na conduta social? Será que ela me entende mesmo tão bem a ponto de amar? Meu Deus, amar! Que verbo desconjurado do que devia mesmo ser!
Amo mesmo é o verbo contemplar. Contemplo. Dentro de mim calo tudo. Sim, não digo, não vou dizer, não digo mesmo. Curto é calar. Sorrir e calar. Embriagar em silêncio, ver triunfar uma inércia boa que é um ensaio tosco do que será a inércia do meu cadáver por bastante tempo a apodrecer sem reação, abaixo duma lápide com gentilezas dos meus entes queridos escritas, mas deixemos desses pensamentos mórbidos que não os quero hoje.
Hoje quero uma tarde quente e uma cerveja, quero falar com os meus amigos queridos, quero sorrir um tanto grande antes de desmaiar chorando! E vinho, meu Deus, muito vinho para todos! Seria bom ser daqueles vinhos caseiros que se toma no Paraná! Quero amanhecer sem que o dia amanheça comigo. E antes dessa quase manhã, na madrugadinha prestes a ceder, ter certezas de que vai amanhecer para mim, afinal.
Se as moças paralíticas aceitassem uma taça de vinho e soubessem dessas coisas, talvez não ficassem tão ofendidas. Embora eu saiba que seu sorriso me deixaria muito mais triste, é melhor construí-los que dividir minha miséria... Uma miséria que dividida, apenas cresce.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Sonhos secretos das sombras

Antes de ler o livro de Autran Dourado chamado "Uma vida em segredo" entabulava pensamentos de que tratava-se de um livro que discutiria alguma sorte de introspecção, ou então, alguma vida secreta! Algo interessante de se considerar ou emocionante de se ler se fosse também inteligente.
Li rapidamente o livro, um bom romance na verdade, mas nada do que esperava, talvez porque não houvesse nada oculto nele, nada do que eu imaginava e aí está o ponto.
O bom nome de batismo do romance, entretanto, ainda retumba no pensamento às vezes, principalmente quando algo pouco habitual revela as personalidades, aí sim desabrocham as vidas secretas.
Como foi da vez em que visitando um advogado no domingo, descobri que sua grande paixão era a horta do quintal: lá cultivava cebolinha, alface, pimentão, tomates, couve entre outras hortaliças. Tudo muito bem cuidado. Perguntei, talvez para brincar, se não confiava nas alfaces que se vendem no supermerados ou feiras, pelos agrotóxicos que são usados, e ele disse que também ele usava alguns! Gostava da horta porque lembrava-lhe o pai lavrador e enfim por amor à terra.
Questiono-me se não é assim que vivem as nossas sombras, a sonhar que podemos fazer o que por uma razão ou outra estamos impedidos, no todo ou em parte, de fazer. Talvez a sombra desse advogado nas varas criminais não acompanhasse verdadeiramente a leitura atenta dos autos de algum processo, ou as vociferações de defesa em que se clamava a piedade pessoal do magistrado, sua consideração pelo gênero humano e por fim ao próprio Deus. Talvez essa sombra estive a sonhar em desprender-se daqueles gestos para, disfarçadamente, imitar na sua expressão na parede ou no canto do corredor, alguém com uma enxada, a limpar em volta das alfaces vermes ou outras pragas. Talvez as sombras estejam secretamente ansiando pela revelação de uma vida em segredo.
Fato não questionável, entretanto, é o de que esse advogado adora defender acusados de crimes e talvez essa custosa ocupação seja recompensada nas horas de relaxamento na horta. As sombras aguardam sem muita ansiedade.
Outra vida secreta é a dos adúlteros, essa danosa à sociedade, na medida em que a promessa de fidelidade é descumprida, mas foquemos nos sentimentos verdadeiros do adúltero: desejo por outra mulher, prazer de estar com ela ou a aventura de parecer que não tem responsabilidades. Tudo isso é sonhado pela sombra dele ao entrar no quarto de casa e dizer "boa noite" à esposa acordada à espera. Talvez se sua mulher conseguisse desviar os olhos de cólera da camisa amaçada para a sombra fosca na parede conseguisse perceber mais evidências do que suspeita como atividades extralaborativas do marido. Mas as sombras não são percebidas por sentimentos violentos, temos aí então outra característica delas: para lê-las é preciso não levar nada muito a sério, as vidas em segredo não gostam dessa seriedade dos donos de sombra!
Talvez se houvesse qualquer coisa de sombra na "uma vida em segredo" o romance poderia me ter impressionado mais. Nos segredos, nas sombras e nos sonhos, há coisas insuspeitas, surpreendentemente bem guardadas nessas palavras imaginadas, abstrações do mundo dos donos de sombra. Mas, talvez por essa mesma essência, dificilmente nossas sombras revelam-se ou revelam-nos, silenciosamente sonham por nós.

quinta-feira, outubro 20, 2005

A compaixão do canto lírico

A apresentação do grupo de canto lírico da Faculdade de Filosofia de Vitória será hoje à noite. Os participantes ensaiaram durante a semana toda, quem mora no centro da cidade, ao menos nas redondezas, pode atestar a regularidade dos ensaios!
Acho bom que as pessoas queiram aprender a cantar canto lírico. É bonito e além disso fazem bem a si mesmos, já que, conforme o ditado, "quem canta seus males espanta", e fazem bem aos outros, já que é agradável ouvir (desde que afinado e de boa qualidade a voz).
Lembro de um colega da faculdade que passou por algum trauma, algo como fim de namoro ou morte de parente querido, e trancou a faculdade, isolou-se em casa e não apreciava nem o sol da manhã. Pois matriculou-se na aula de canto lírico e advinhem: continuou triste, mas ao menos um triste que sabia cantar bem e alegrar os outros, o que o tornou menos triste no fim das contas.
Levou 2 anos, eu acho, mas voltou a faculdade e à vida normal de um rapaz de vinte e poucos anos, afinal, havia lirismo de novo.
Na sua volta é que ficamos amigos, conversávamos sobre tudo, inclusive canto lírico. O engraçado é que conversávamos sobre canto lírico indo para a faculdade e no meio do ônibus começava o jovem Kaiser a soltar seus agudos e graves, mas nunca sem antes fazer o aquecimento.
Os traumas desse meu amigo do canto lírico também eram interessantes, e eu, talvez por algum impulso mórbido, fazia com que ele explicasse tudo e ficava mesmo surpreso de como ele reagia contra as adversidades, como quando a namorada o deixou por outro e ele contava como que uma piada que a outra pessoa já conhece! Previamente sem esperar fazer rir, mas de bom humor e boa disposição.
Estranhamente eu achava normal um rapaz de 1,90 e bastante barbado gostar de canto lírico. Lembro quando fiquei sabendo e fui na sua primeira apresentação, uma ópera de autor brasileiro, já não me lembro quem, mas era algo moderno e ousado, saiu-se muito bem o meu amigo, arrancou suspiros das calouras e foi o orgulho da rapaziada da sua turma aquele dia.
Hoje, por conta de ficar sabendo dessa apresentação em Vitória, lembrei das suas histórias. A última que fiquei sabendo era muito boa: de como ele conhecera uma namorada. Estava o rapaz ao celular e numa linha cruzada conheceu a moça! Essa todos na faculdade duvidavam, e eu também duvidava, parecia só mais uma das estórias do Kaiser, mas depois conheci a menina, uma loira baixinha e com um sorriso lindo, doida por ele.
Afinal, o canto lírico faz bem à alma do mundo.

terça-feira, outubro 18, 2005

O mar avança contra o continente

No litoral sul do Espírito Santo o mar avança contra o continente: fortes marés, centímetro a centímetro, trazem o mar pra mais perto da terra. As ressacas mais fortes deixam à mostra as raízes dos coqueiros do calçadão, testemunhas fatais dessa "travessura" do mar.
Os meninos que brincam na praia não se importam muito, tudo continua bonito: brilha o sol, a água é quente e limpa, há ondinhas bacanas para brincar e ninguém parece estar sofrendo. Alguns lamentam, claro! Os donos de pousadas à beira mar desconversam: sempre foi assim.
Sempre foi natural ser diferente de antes, talvez nem sempre para as praias e suas faixas de areia, mas sempre para as pessoas.
As raízes dos coqueiros à mostra são mais que uma prova de que elas existem mesmo, de que o mar avança ou do que mais se quiser constatar desse exemplo. Assim parece-me o meu rosto de manhã às vezes, como aquelas raízes: sou diferente do que achava que era, embora fosse presumivel que um dia chegaria a esse estado. Sem complicar muito, ninguém é sempre o mesmo, não é? E conforme se conheça a si próprio, é possível prever onde os caminhos escolhidos hoje vão dar amanhã.
Com o mar avançando, fatalmente iria sobrar para as raízes dos coqueiros e se quisermos ser mais ousados, também vai sobrar para todas as avenidas junto a faixa de areia de agora até uns 50 anos! Claro, antes disso o poder público local deve providenciar um aterro, ou coisa que o valha para conter o atlântico sul.
Fatalmente os que conhecem os amigos de uma maneira, logo adiante espantam-se com as suas atitudes e surpreendem-se com suas posições, maneiras de falar, sua disposição de vida.
Era possível prever que de dentro do coração de lembranças e véus roxos a matiz temerária dos seus assassinatos, a curvatura dos sorrisos que viriam do absurdo que se tornaria a vida, tranformariam todas as certezas em bases para perguntas mais sofisticadas, suposições de suposições emoldurariam os dias seguintes, e um azeite prático substituiria o sangue quente que um dia pulsou por aqueles prados. Nem melhor, e nem pior, apenas diferente do que foi.
É preciso compreender que para deixar à mostra as raízes dos coqueiros primeiro o mar teve que chegar até lá e insistir em ser mar.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Em meio papel

Os títulos de crédito, documentos que garantem direitos creditícios em relação a outrem (na promissória do sacado em relação ao sacador, por exemplo) estão desaparecendo em meio papel, tanto mais no príncipe dos títulos de crédito brasileiros, a duplicata mercantil.
Isso, não em virtude da falta de vigor do instituto, mas em virtude das novas tecnologias que balisam as relações mercantis: tudo é feito em meio magnético, desde a emissão ao protesto, não há necessidade de se colocar no papel esse importantíssimo título.
Nessa tendência, perece um dos requisitos dos títulos de crédito, que é a cartularidade, ou seja, o título material, sua constituição física, palpável.
Apesar de todas as facilidades, muitos ainda guardam ressalvas à descartularização, receosos de que possam ser cometidas fraudes e os mais tradicionalistas, embirram por tradição mesmo.
Talvez na mesma medida possamos tomar a comunicação por cartas e correio eletrônico, ou seja, quem mais escreve cartas estando disponível o meio eletrônico de comunicação?
Ontem, entretanto, recebi uma carta longa do meu querido amigo Roberto, que está morando em Curitiba.
É bem verdade que foi uma carta resposta a uma outra minha, mas enfim, era papel escrito e enviado pelo meu amigo, mais pessoal, trazia sua letra e sua assinatura, enfim, havia naquilo um tanto maior de humanidade, impossível de negar.
Em meio papel, escreveu sobre Curitiba com menos acidez, embora ainda ressabiado pela "soberba" dos curitibanos, a violência dos gatunos e ladrões viciados em drogas e a impertinência dos motociclistas. Toda metrópole guarda elementos maus, Curitiba não é diferente, mas acho que a soberba, os ladrões e motociclistas curitibanos sejam particularmente diferentes na medida de que Curitiba é uma cidade diferente das outras.
Foi esse caráter sui generis daquela capital que motivou a migração de Roberto, entre outras variantes. E corajoso e audacioso, partiu para lá, passando por adversidades e sofrimentos, mas já agora, depois de uns meses, já tem uma certa familiaridade por aquele estado dos pinhais.
Relatou num post scriptum notícias de Juiz de Fora, ao que me fez sorrir um pouco e deixou idéias fortes e senti mesmo sua presença.
Já havíamos trocado impressões por via eletrônica, mas as cartas guardam-se entre as coisas de maior valor, testemunhos de próprio punho de amizade e consideração.
Talvez chegue o dia em que os correios não vão mais aceitar cartas particulares, assim como no direito cambiário é provável que não se mitigue e morra a cartularidade. Mas pelo lado do direito seria questão de praticidade, ninguém se afeiçoa aos títulos de crédito, a não ser os agiotas afixionados, mas quanto às cartas... aboli-las seria mesmo pouco prático para matar as saudades.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Sólida solidão

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...


Montevidéu, 1960
in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"

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Esse sentimento, tão cruel e tão comum, habitualmente é tema evitado em todas as conversas: é anti-social falar de solidão, apesar dessa característica típica de ser sentida por todos, mesmo que eventualmente não. É estranho que esse aspecto deprimente só fica mesmo visível se quem é só tenta arranjar gente que lhe console por isso, para lamentar-se por não ter com quem partilhar seus pensamentos e idéias ou mesmo para contar uma piada. Mas também, no outro lado da moeda, há quem não se importa, por vezes gosta e até acha vantagem passar muito tempo sozinho: é bonito fazer tipo, mas às estátuas sobram as fezes dos pombos. A auto-piedade contra os lamentos de solidão também não é boa, o orgulho costuma reclamar dela, mas no fim das contas é triste sentir-se sozinho, não vamos apelar dessa verdade.
Para esclarecer tantos paradoxos, acho boa a noção do que significa solidão, o sentimento na sua inteireza: é o sentir-se sozinho, mesmo tendo companhia. Diria até que não ser entendido e não ter quem entenda é a grande solidão. Como se diz popularmente "sozinho na multidão". Apavora a impressão de que não há quem nos entenda, que ninguém se importa, que não há intimidade possível para falar os mais profundos assuntos.
Comunicar ao mundo que tão breve é a vida para esvair-se em comodismos, em ver a tarde ir embora, ou a matar-se num serviço técnico (embora útil à sociedade), pode não ser possível, as pessoas não entendem bem essa pressa. Tampouco tentar explicar o remorso por partir deixando atrás de si gente que ama sinceramente, ou ter que submeter-se às ordens de gente menos capaz, ou tentar amar e não conseguir: há uma absoluta solidão nesses picos de paixão, ninguém pode completamente livrar-nos de enfrentar conosco mesmo as reflexões dessas condições.
Há coisas que são mais anti-sociais que outras de serem admitidas. Como a dificuldade em ver o belo na vida ou reconhecer nela um sentido puro. É normal o sofrimento e a adversidade desbotarem juntos a beleza de tudo, deixando do que era tristes esqueletos, armações de ferros retorcidos do que foi o símbolo da beleza, do afeto, do motivo essencial: mais um símbolo de um deboche do que o que fora, do que um símbolo do que é belo e significativo, do que faz a vida significativa.
Há então essa grande angústia em comunicar que vive-se por teimosia, ou que vive-se porque abdicar da vida é anti-social demais: é o cúmulo da anti-socialidade! Mas há milhões e milhões (não vou me arriscar nos bilhões, mas é bom lembrar que são feitos de mil milhões cada) de pessoas que vivem por teimosia, a contemplar o horizonte de suas vidas numa esperança verdadeiramente santa de que virá algo bonito a fazer nascer seu sorriso, alguém que lhes reconheça a angústia e ao mesmo tempo seja capaz de calá-la, alguém para fazer-lhes, verdadeiramente, companhia e contar algumas piadas engraçadas.