domingo, junho 21, 2020

Curso breve de patinagem sobre rodas


Quando criança, tive uns patins muito engraçados. Eram verdes e se amarravam por cima das sapatilhas. Ao contrário dos patins de rodas em linha que agora são mais comuns de se ver, tinham cada um quatro rodas, em pares perto da ponta e no calcanhar. O travão ficava mesmo na ponta, mas ao que me lembro, era usado mais para as arrancadas.
Nas longas tardes de verão no grande terraço da casa da minha avó, ficava a deslizar de um lado para o outro, ensaiando manobras e aprendendo sobre física cinemática à custa de umas quantas quedas e esfoladelas.
Recordo agora como a brincadeira com os patins então não era uma unanimidade entre os meus primos: muitos nunca nem sequer queriam calçar os patins para experimentar. Achavam que iriam cair e se magoar, não valeria a pena... Mas eu percebi que os patins, embora guardem um certo risco, não são instrumento para magoar: com cuidado e propósito, eram um maravilhoso brinquedo.
Muito tempo se passou desde aquela experiência infantil! Fui me entretendo com outros riscos, muito mais aborrecidos, diga-se de passagem, até que num passeio pela Foz na companhia do Luís aquela memória regressou. 
Junto ao mar, reparei no largo e bem equipado passeio, liso e perfeito para a patinagem, e que inclusive servia naquela hora a alguns patinadores, entusiasmados com o cheiro de verão que já se sentia. Disse ao meu amigo: "vou comprar uns patins". O Luís, no entanto, não se mostrou muito convencido da sensatez da ideia: "vais morrer." Bem, tudo é possível, mas havia muitas mais-valias a considerar com aquela empresa, e comecei a ponderá-la com atenção.
Passados uns dias, fomos mais o Rafael tomar café com um amigo do Luís que havia sido um patinador de competição na adolescência. A feliz coincidência serviu para consolidar a opinião de que seria uma boa atividade de lazer voltar aos patins.
Depois de uma pequena pesquisa sobre modelos de equipamento e técnicas de patinagem, lá comprei os meus novos patins. Tendo-os estreado no terraço de casa, claro, sem muita graciosidade no deslizar... ali consegui recordar os elementos básicos da arte.
Sem pressa, à espera de um fim-de-semana de calor, fui fazendo mais alguns treinos no terraço até que se apresentou um sábado em condições: e foi mesmo ontem! Sim, amigo leitor, fui à Foz patinar... ao longo da Avenida do Brasil, junto ao mar.
Diferentemente da experiência no terraço, ali tinha imensos espectadores que, embora não estivessem ali para me ver, iriam certamente achar alguma graça na minha falta de perícia! Atravessei a avenida com coragem, obviamente com passos curtos e ainda com pouca confiança, mas cheguei ao outro lado. 
Era então o momento colocar em prática as técnicas elementares da patinagem sobre rodas: flexionar os joelhos para baixar o centro de gravidade e abrir passadas de 45.º, curtinhas de início, para ganhar embalo. Para travar, um sutil movimento de curva com os dois patins, e para parar (e ficar parado), ter os patins em T. 
É imensamente prazeroso explorar as capacidades do nosso corpo! E a patinagem dá oportunidade a grandes aprendizagens. É fantástico ter a consciência imediata da distribuição do peso entre as patinagens e de como o pé de apoio atua fundamentalmente no equilíbrio.
A atividade demanda toda a nossa concentração, de modo que qualquer instante em que o pensamento é capturado pela beleza e pelo encanto, tem-se uma queda, naturalmente. 
Aprendi-o na prática! Por duas vezes em que me distraí nos meus pensamentos, os patins ficaram com as rodas para o ar! Numa das vezes, um homem que andava logo atrás teve de se desviar, e perguntou-me se estava bem. Não foi nada de mais, caí sentado nas duas vezes! Logo a seguir, já estava de novo a fazer o percurso, que penso ter sido de algo como 6 ou 7 quilómetros, entre ida e volta.
Houve momentos de alegria, como quando senti o vento vindo do mar, o cheiro a maresia, e o calor do sol mesmo no fim do dia, e todos os tons de dourados a colorir o mundo...; e também momentos de apreensão, como quando tive de travar a fazer uma curva, pois os declives fazem ganhar alguma velocidade e não me apetecia despenhar-me lá para a praia! E houve momentos de desconforto e superação, como quando caí e me levantei para prosseguir.
A vida exige coragem, deve ser vivida agora. Andar de patins não é só "andar de patins". É dizer "sim" ao que nos é significativo, ao que nos faz inteiros, ao que nos traz alegria e contentamento. 
Nem toda a gente anda de patins, e muitos olham os patinadores a passar e secretamente guardam a inveja de também poder deslizar por aí com toda aquela graça e liberdade. 
Tudo o que é preciso é conhecer-se e ser fiel a si mesmo. Uns tombos de patins não são nada se comparados com a mágoa de se ter dito que não à vida.

terça-feira, junho 16, 2020

A paixão da carne




(...)
Ah, que eu já sentisse
Os êxtases máximos
Da carne nos rasgos
Da paixão espúria!
Ah, que eu já bradasse
Nas horas de exalta-
Ção os mais lancinantes
Gritos de loucura!
Ah, que eu já queimasse
Da febre mais quente
Que jamais queimasse
A humana criatura!
Mas nunca como antes
Nunca! nunca! nunca!
Nem paixão tão alta
Nem febre tão pura.

A paixão da carne, in: Antologia Poética, Vinicius de Moraes


Com quatorze anos de idade chegou-me as mãos a edição original de Para Viver Um Grande Amor, de Vinicius de Moraes. Não poderia jamais imaginar que através daquele livro de páginas amareladas toda a minha vida seria marcada por um ideal tão intenso, tão puro, tão humano, que é o de amar incondicionalmente. Eu rapidamente me apercebi que essa era a regra de ouro do poeta, pela qual ele viveu e morreu, e essa foi a razão determinante de termos ficado "amigos".
No fim do livro há uma crónica muito tocante, chamada Pedro, meu filho. Vinicius ali faz algumas reflexões sobre "a terrível herança" que deixara ao Pedro - "a insensatez de um coração constantemente apaixonado."
Há uma outra passagem particularmente profunda, embora naquele tempo eu não tenha podido apreciá-la na sua inteireza. Agora, no entanto, sinto-a de forma muito marcada: "(...) eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua."
Alguns anos depois daquela leitura quase trivial da crónica, fui encontrar um poema de Vinicius que fazia referência ao mesmo episódio: A paixão da carne.
Ali apercebi-me melhor da dilacerante dor que sentira pela aflição com a doença do Pedrinho... como sofrera de forma impotente frente a dor de quem amava... como ambicionou para si a dor da "humana criatura"...
Hoje sinto tão claramente o que sentiu o pobre poeta... como a doença corta da vida a corrente essencial que nos liga aos sorrisos, aos abraços, aos afagos... como faz miseravelmente sofrer quem amamos e nos reduz à nossa natural insignificância, a contemplar pela madrugada em claro o sentido do sofrimento no convite sagrado de Deus para o vivermos dignamente.
Por ser tão intenso esse sofrimento apaixonado, fico a pensar se a paixão é apenas mais uma forma de adoração do ego. Nessa profunda paixão, nada mais haveria que uma grande forma de auto-satisfação de um falso ser, apoiado em outra pessoa. E como numa espécie de demência, as formas tomam o lugar das essências.
E assim a dor replica-se: a dor física, torna-se dor da alma... a paixão arde e aquece, queimando por dentro toda a sensatez, para recuperar a ideia de Vinicius, deixa a vida sem grande sentido real para além de uma obsessão.
O amor doce, sereno e verdadeiro, não é o da "paixão da carne"... ele quer acolher e se deixar sentir, passo a passo, ao longo do grande caminho... a doença não o pode deter, nem a tristeza, nem a distância. Ele alimenta-se da verdade e cresce na perseverança de estar sempre presente, como a grande dádiva da vida.

quarta-feira, maio 20, 2020

O trespasse da barbearia "O Carlos"



Para a minha grande tristeza, vi hoje o anúncio do trespasse da barbearia "O Carlos". É mais uma vítima desta maldita pandemia que a todos assola. Extinguiu-se a última barbearia tradicional da alta e com ela aquela alegria de sair de lá mais bonito, por dentro e por fora. 
Ainda lá está, com todo o recheio, a cadeira, os móveis, o lavatório nos fundos, os quadros de sítios emblemáticos de Coimbra... mas não se vai trespassar a alma daquele lugar. É só um corpo vazio agora, mas em tempos, foi um nobre baluarte do espírito académico coimbrão.
Entrei na barbearia "O Carlos" pela primeira vez há mais de dez anos, pela mão de um amigo, também ele apreciador das coisas da Alta de Coimbra e de suas tradições.
No seu interior, um senhor de alguma idade, de falas comedidas, mas riso fácil: o senhor Carlos. Com a cabeça calva, o cabelo (que tinha) penteado para trás, um rico bigode e uma barriga discreta, a sua figura era o arquétipo do barbeiro tradicional português. 
Recebeu-me com afeto, como recebia a todos os estudantes atrapalhados que precisam de adotar um barbeiro em Coimbra e vão parar às suas mãos porque tinha o estabelecimento mesmo ao pé da Sé Velha, e portanto, muito próximo à universidade: entre uma aula e outra, ou antes de um convívio, era fácil lá ir para "deixar de ser cigano", como ele dizia.
Tive um tio e primos barbeiros em Juiz de Fora, e portanto, sempre olhei para essa profissão com uma admiração viva, já que ela naturalmente aproxima os homens. Essas criaturas que tão dificilmente se deixam prender por afetos, às mãos do seu barbeiro têm a língua mais solta e vão dizendo o que pensam e sentem. 
Um barbeiro, por excelência, é alguém que sabe e gosta de ouvir. E se é verdade que se afeminam por profissão, como dizia Vinicius, talvez isso seja uma vantagem. Como o feminino é naturalmente mais participativo nos mistérios dos sentimentos e dos significados, e assim vive uma vida mais bela e completa, então é possível que o senhor Carlos efetivamente tenha beneficiado desse efeito colateral do seu ofício. 
Logo nas primeiras vezes que lá fui, criei por ele uma grande estima. Contava-lhe dos meus estudos, trabalhos e até das viagens que vinha fazendo, e havia mesmo espaço para anedotas de barbeiros! Acho que ele gostaria de saber que fui a Roma celebrar a conclusão do doutoramento, pois fui eu o primeiro a lhe contar a anedota do barbeiro e da viagem a Roma. Peço-vos licença para reproduzir aqui a anedota: um cliente conta ao barbeiro que vai a Roma. Mas o barbeiro, contrariando a postura que sempre admirei no senhor Carlos, começa a protestar: "Roma, que cidade suja! Por que vai a Roma? Não faça isso! É muito cheia e há aproveitadores por todos os lados!" Responde o cliente: "Bem, talvez eu me surpreenda positivamente, vamos ver. Consegui um ótimo vôo". Retruca o barbeiro: "Então vai viajar por qual companhia aérea?" O cliente: "Vou pela TAP! Consegui um preço promocional e os horários são excelentes". Mas o barbeiro não desiste: "Pois, mas sabe que os aeroportos ficam muito longe de Roma! Irá amargar horas até lá chegar, se é que vai conseguir levantar as malas - aquilo são só ladrões!" "Bem, vamos ver quanto a isso. Também já tenho o hotel marcado, estou muito contente com a localização: fica próximo ao Vaticano". Continua o nosso pessimista: "Ui, mas sabe que por aqueles lados não há metro! Vai levar para aí uma hora para ir à Piazza Veneza... depois se quiser voltar tarde para casa pode haver situações chatas por ali...". "Bem, o que interessa é que consiga ver o Papa. De tudo que acontecer, vou ficar contente se conseguir uma audiência". "Ver o Papa? Quem o senhor acha que vai ter uma audiência com o Papa? Isso não funciona assim! Tenho pena de lhe dizer, mas vai para Roma, não para o mundo das ilusões!". "Talvez não seja assim tão difícil. Para já, vamos ao corte de cabelo." "Como queira, vou então lhe fazer um serviço especial, já que irá ter com Sua Santidade, o Papa!". Passa o tempo, o cliente vai a Roma e, por necessidade da natureza capilar, volta à barbearia: "Olá Sr. Barbeiro! Já regressei de Roma!" "Ora, muito bem, então deve ter visto que não era nada daquilo que pensava, não é?" "Antes pelo contrário! A viagem correu lindamente, a localização foi perfeita, a cidade é belíssima e muito agradável, e ainda consegui ter uma audiência com Papa!" "Não acredito! Teve a bênção do Papa?" "Sim! Eu me ajoelhei e ele pôs a mão sobre a minha cabeça e me abençoou dizendo umas palavras muito certas!" Aí sim! Diga-me então o que lhe disse o Santo Padre?" E conclui satisfeito o cliente: "O Papa tocou-me a cabeça com muita compaixão e disse: 'Deus te abençoe meu filho! Pois o seu barbeiro, seguramente vai para o inferno!"
Ainda me lembro da risada do senhor Carlos, a fechar os olhos a rir e a curvar-se um pouco para trás! Foi um de muitos momentos felizes e bonitos ali na barbearia "O Carlos", no n.º 124 da mítica rua Joaquim António de Aguiar: conversas sobre o Sporting, sobre os políticos, as tradições, sobre a nossa Coimbra, sobre o que era ser português e o Portugal que ele queria deixar para os netos... Testemunhos de um homem vivido, que esteve emigrado em França muitos anos, que sempre se dedicou aos seus e nunca se queixou da vida humilde que era a sua. Viveu e serviu aos outros sempre com muita felicidade.
Um episódio marcante do nosso convívio aconteceu em 2015, quando o senhor Carlos sofreu um aneurisma cerebral. Esteve a barbearia fechada muitos meses e tive de improvisar uns cortes. Lá para o fim daquele ano, reabriu. Toda a clientela estava com um pouco de receio, afinal, tinham-lhe aberto a cabeça. Mas eu confiava na sua prudência e na sua responsabilidade. Dei-lhe o pescoço e as orelhas às lâminas, e ele não me tirou nenhum pedaço. Naquele dia do regresso aos cortes, selou-se uma amizade, deu-se uma prova de estima. Ficamos amigos: ele contente de lhe ser novamente confiado o corte, mesmo que com a mão um bocadinho trémula; eu com um bocadinho de medo, mas certo de que aquilo também lhe faria bem.
Depois de ir para o Porto já não consegui manter os cortes com ele, e tudo conversado, tinha de dar a minha vez aos novos estudantes, que o senhor Carlos continuava a receber ano a ano. Agora, não mais.
Chorei umas lágrimas que não sabia que tinha. Rezei por ele, para que estivesse bem, e senti uma imensa gratidão.

quarta-feira, abril 29, 2020

Perdoas-me? Então, como?


Ela ligou-me às 23hs daquele fatídico dia. Com os músculos do braço cheios de ácido lático, do esforço repetido no ginásio, mais a cabeça trespassada pelas coisas do dia, cheguei a sua voz ao ouvido, que entrou desde as insuportáveis ondas eletromagnéticas do telefone: "Não devias deixar as coisas se arrastarem", disse para introduzir o seu discurso.
Talvez... mas o que não existe não pode ser arrastado, nem remexido, nem exaltado, e mesmo quando é recordado, só o-é porque tem alguma utilidade prática. O que resta mesmo, vamos lá dizer a verdade, é essa triste resistência em ver-se num mundo novo. Mas por quê?
A minha referência de dignidade na matéria nunca me permitiu voltar atrás e resistir às mudanças, por mais difíceis que fossem (e muitas têm sido ultimamente), e em homenagem a ela, sou flexível como uma barra de aço.
Quando terminei o curso e aceitei o meu primeiro trabalho tive de me mudar e deixar para trás a minha namorada... a minha primeira namorada. Mas não foi o trabalho que nos separou, foi a tristeza de me sentir eternamente exausto pela prudência impudica. Quando estivemos em Ouro Preto juntos, eu tentei mostrar-lhe o grafitti com a citação de Blake num tapume na Rua São José: "A prudência é uma donzelona rica e feia que habita a torre de incapacidade". Mas ela não viu, ou viu, mas não associou. Era um dos meus arroubos filosóficos... pensou. Não era, era um presságio de uma convicção que se estava formando há muito.
Os seus serenos afetos, a sua doçura e brandura incomparáveis foram para mim mais que amor, foram a própria humanidade finalmente encontrada. Não posso dizer que não recebera esses sentimentos da minha família, mas sou de uma raça fundamentalmente fria, não o posso negar, e tive o azar (ou a sorte) de trair a raça nisso. Foi com surpresa que descobri nela um doce e puro amor, e penso que ela também viu o mesmo em mim.
No entanto, eu era marcial nas posturas: punia a relutância com indiferença e o medo com desprezo. Logo, a minha ideia de devoção incondicional de que tanto me orgulhava foi sufocando, pouco a pouco, o amor por ela, ao ponto de só sobrar o convívio.
Ainda decorreram uns meses até que, num passeio ao parque Halfeld, eu acabei com aquilo. Incrédula, pediu-me uma razão, que eu articulei como pude. Dizer "já não gosto mais de ti" seria cruel e mentiroso, mas eu já não gostava do mesmo jeito, ou ao menos não da forma como se gosta de uma namorada. O amor não deve ser um suplício na identificação... já basta as agruras da vida, a tentar tirar-lhe lascas. Na identificação tem que ser por inteiro: admiração, respeito e desejo mútuos estão sempre lá.
O meu único consolo era o de que ela não se debateria muito: a vantagem em se fazer num monumento ao método e à razão é que eles substituem o conteúdo sentimental da vida até um certo ponto. Ela apaziguou-se com as justificativas: eu ia me embora e não faria sentido alongar o que já não andava bem.
Depois de muito tempo eu a vi de novo, num encontro de membros do nosso antigo clube de jovens. Sempre bonita e confiante, estava a meio do seu mestrado e namorava um conhecido meu. Davam-se muitíssimo bem. O tipo era funcionário público da universidade, acho que era assistente, e andava com um carro popular, mas muito digno. Lá estava ela, de braços dados com a vida que queria, sem qualquer mossa do relacionamento comigo... mas aquilo era só uma parte da história.
São fundos e caudalosos os rios que correm dentro de nós, as suas águas por vezes turvas de emoções reprimidas e desejos frustrados vão carregando por cima incautos passageiros nos seus barcos de veraneio.
Sem que o homem visse, ela apanhou na minha mão e olhou-me tão fundo dentro dos olhos que o meu coração gelou. Foram três segundos em que todos aqueles anos estiveram de volta em mim e o impacto da sua dor revelou-se, afinal.
Não me disse nada, e um minuto depois veio o seu namorado e foram-se embora os dois, e eu fui ter com os outros amigos. Foi a última vez que a vi, ou que falei com ela.

terça-feira, abril 21, 2020

A gratidão é a memória do coração

O mestre com a palma aberta, um símbolo de generosidade

Luiz Gonzaga da Silva foi um professor de literatura nos cursos de letras e do ensino secundário da minha terra, para minha grande sorte. Morreu há mais de um ano, prova de que o reconhecimento só é mesmo devido quando se nos impõe como um chamamento maior, de uma natureza complexa: voluntário na sua externalidade e obrigatório no sentido de valor que faz despertar em nós.
Nunca foi clara para mim a razão pela qual um poeta conhecido, homem de profundo conhecimento, um intelectual rigoroso e exigente, já com mais de cinquenta anos de idade e num tempo que já há muito era professor do ensino superior, ainda dava aulas no ensino secundário. Talvez pelo afeto pela minha escola, talvez porque ficasse mesmo a dois passos da sua casa (também a faculdade era ali ao pé, bastava atravessar a rua e subir o morro). Facto é que na rudeza dos meus 15 anos tive o gosto de aprender com quem efetivamente sabia e se importava com a aprendizagem. 
Ensinou-me a contemplação silenciosa que merecem os grandes poemas, e a necessidade de verve para dizê-los na sua inteireza... ensinou-me que o drama e o êxtase de alegria são alegorias e que o grande enredo é o de uma vida que não ignore nenhum deles e ainda assim coloque-se acima deles.
Esse homem preciso, forte, pleno de convicções, que sabia dizer "eu amo-te" em tupi-guarani e que via nas unhas das raparigas suas alunas garras afiadas para arrancar o coração dos rapazinhos apaixonados (ele muito justamente nos prevenia...), deixou uma obra grandiosa, muito para além da sua sentida, simples e verdadeira obra poética.
A testar os meus próprios dotes poéticos contra a sua profunda sabedoria (o homem sabia os Lusíadas de cor, e recitava trechos imensos da Ilíada de Homero, embora esses sejam evidência da reverência de um saber verdadeiro muito mais relevante), apresentei-lhe um dia, depois da aula, um poema meu como sendo de Vinicius de Moraes. Perguntei-lhe de maneira indireta: "Senhor professor, acha que este poema de Vinicius faz alguma concessão ao modernismo, ou é a continuação do seu estilo próprio, sem deferências de estilo?". Ele apanhou a folha em que tinha o poema "copiado" e, depois de pôr os óculos de leitura e juntar o indicador e o polegar embaixo do nariz para sem seguida separá-los ao longo do seu pequeno bigode, disse-me: "Claramente ele teima aqui também em fazer deferências ao seu estilo próprio, embora seja um poema interessante". 
Obviamente que fiquei radiante, afinal, o meu grande mestre confundiu-me com o meu poeta de predileção, para mim, um dos grandes poetas de sempre. Pus-me a escrever com mais frequência, e a ler poesia ainda com mais interesse. Logo constituí uma coleção longa de papéis esparsos com os meus poemas, o que daria sem dúvidas para um livro.
Meti aquilo tudo numa pasta e com muita coragem fui ter com o professor para pedir-lhe que lesse e desse o seu juízo. Ele recebeu-me com desconfiança. Hoje ainda mais aprecio aquela atitude. Não era um homem dado a ilusões, ou a sentimentalismos. Amava a verdade, a beleza e a bondade, mas era-lhe maçador ler os poemas dos alunos porque, primeiro, eram em geral muito ruins, depois porque tinha de o dizer a eles, e partir-lhes o coração, por último, uma razão técnica, muitos eram os que lhe davam poemas para ler escritos a lápis, e o grafite do lápis faz um traço mais difícil de ler, pela sua cor pálida. 
Foi isso mesmo o que eu fizera. Os poemas não se escrevem perfeitos logo à primeira, e para não estar a rabiscar tudo, o melhor era sempre escrever a lápis. Depois da sua chamada de atenção, no entanto, emendei essa parte. 
Quanto às outras observações gerais, apenas em parte aplicou-as a mim, felizmente. Em verdade, demorou um longo tempo para me mandar chamar e devolver os poemas com a sua crítica. Antes de me deixar ler as anotações que tinha feito em cada um, explicou com muito tato no que consistia a criação poética, e fê-lo com um brilhantismo que ainda hoje me emociona: "A construção da poesia é a construção que o próprio poeta faz em si e de si, de uma certa maneira. A poesia é uma ponte para que os outros passem. Só serás capaz de erguê-la se compreenderes essa verdade: manter um coração puro para seres capaz de colher poesia das coisas ordinárias, e depois ter sempre uma atitude de caridade para partilhar o que fores colhendo como poesia. As primeiras pontes serão arremedos improvisados, como as que os exércitos faziam para cruzar os rios e depois se desfaziam à primeira cheia. Mas se fores capaz de guardar as lições de construção poética interior, as tuas pontes manter-se-ão por séculos, como as pontes romanas ainda hoje em uso". Estas foram palavras doces que amaciaram o coração para uma pesada saraivada de críticas de estilo e de forma que ainda hoje ressoam, mas que foram fundamentais.
Penso que hoje sou capaz de edificar pontes melhores, mais duradouras, em linguagem corrente, fazer uma poesia mais sóbria, mais direta, e com estilo e beleza sempre maiores. O sentido estético do mestre era, obviamente, muito exigente, o que também contribuiu decisivamente para a formação da minha própria apreciação da beleza.
"Continua a escrever, não pares nunca. Vai chegar o dia em que terás de publicar, mas não esses primeiros escritos. Pensa neles como exercícios, guarda-os como testemunhos de afeto apenas, se quiseres. Tens em ti o que é preciso, persevera". 
E assim, com essas palavras, ele docemente me despachou, oferecendo-me um dos seus livros, (no qual já tinha preparado uma dedicatória simpática, que só fui ver em casa), e foi continuar a tratar dos seus muitos afazeres. No entanto, a presença dele em mim permanece, assim como a memória afetiva e o papel fundamental que desempenhou em minha vida e na vida de milhares de alunos que, como eu, tiveram o enorme privilégio de aprender com o melhor, com quem efetivamente sabia, com quem vivia e acreditava no que ensinava, com um homem verdadeiro, belo e bom.

sábado, abril 11, 2020

Amar sem mentir, nem sofrer

Amar é uma difícil travessia, não há dúvidas. Ontem fui ao Passeio Alegre para fazer exercício e apreciar um pouco do mundo. Como é na observação do mundo que está a verdade, como já dizia Aristóteles, vi à minha volta algumas referências do que o amor é nestes tempos em que as pandemias são muitas e as infecções pervertem a nossa natureza.

Vi um pai com uma filha e o cão, todos a brincar, ali junto a duas peças de artilharia colocadas no jardim para enfeitar (deviam ser do forte lá mais perto da foz). O pai com o semblante cansado, pesaroso, a conter as próprias aflições. A miúda completamente eufórica a correr com o cão, talvez das primeiras vezes que tinham conseguido esticar as pernas naquele dia. Depois de um longo sprint, vai ter com o pai a sorrir e ele, na maior descontração do mundo, diz-lhe: “que lenta que és! O Haroldo chegou aqui há 10 minutos!”

Eu estava a passar e sorri-lhes por um instante, ao que me cumprimentaram e continuaram as suas interações. Achei o nome do cão muito giro, mas sobretudo a forma como aquele homem levava o seu mundo às costas, a suportar as ansiedades, a oferecer afeto, a ignorar o próprio bem estar. Ele amava demais para pensar em si mesmo.

Mais à frente, com o passeio quase sempre deserto, virei-me para a natureza, e junto ao rio havia uns grandes cardumes de peixes grandes, se calhar com ao menos um quilo de peso, a pastar junto às rochas da margem o musgo ou alga que ao sabor das ondas se lhes ia oferecendo. Indiferentes ao mundo, seguiam o seu instinto, a nadar naquela água absolutamente cristalina, onde se podia ver um metro ou mais. Acho que nos animais há um amor infinito porque não são perturbados pelas coisas do mundo: não estão infectados. A sua união com tudo não chega à transcendência do homem com a filha e o Haroldo, é mais direta, mas nem por isso menos verdadeira. Amar também é colocar-se nesse estado de dignidade, de imediata participação no mundo, pois não há nele nenhuma malícia.

Mas como não somos animais irracionais e havia mais para ver, continuei o meu passeio (pelo Passeio Alegre e pelas reflexões quanto à verdade dos afetos).

Uma senhora que corria na minha direção deu-me o próximo mote. No troço a seguir à escultura de São Miguel-o-anjo (uma escultura bonita que fica no entroncamento entre a zona que vem da rua do Ouro e a parte do Passeio Alegre, mas sempre junto ao Douro) passou por mim a largos metros, retomando a seguir a margem do rio. A minha impressão foi a de que não se queria aproximar de um provável portador do COVID-19.

Foi então que percebi: o medo impede que as pontes necessárias ao amor se mantenham disponíveis para a travessia, sempre perigosa... vamos tentando contornar, ao invés de fazer o caminho que está à nossa frente.

Mas não há volta a dar... é preciso dar de si. Vejo com muita tristeza que o medo dominou aquela verdadeira e última fortaleza da convicção na grandeza das partilhas... e um individualismo atroz diminuiu tudo a um jogo de ajuntamentos vãos: posição, dinheiro, manias... que somado às convenções do conforto tornam tudo muito insano. Portanto, é justo que sejam chamadas insanas as pessoas que assim vivem, infectadas por essa doença que os divide ao levá-las para dentro de si mesmas em busca dos referenciais dos outros! Se ao menos a jornada para dentro fosse a reflexão honesta de quem quer conhecer a si mesmo, muito haveria de vir daí... mas é um eterno jogo de desviar-se do que causa dor... e refugiar-se num senso comum que não pode jamais abarcar a profundidade do que se traz cá dentro.

Gente insana, doente, pervertida... vivem vidas solitárias, com seus gatos e hamsters, e suas certezas frias, nunca questionadas. A um olhar desatento, o pai, a filha, o Harold, os peixes e a corredora são apenas figurações da vida... mas não, eles na verdade são a vida a mostrar-lhe o que ele teimosamente ignora. Eles são o estar presente... o partilhar o momento, o dar de si para algo maior que nós mesmos...

Mas será que vale a pena? Irá perguntar-se o nosso desatento amigo no seu jogo frio dos cálculos mal feitos... É uma pergunta vã: viver em si e para si é um evidente desperdício de vida. Só há vida se for para os outros e com os outros... tanto mais se forem para aqueles e com aqueles com quem partilhamos os nossos ideais, os nossos sentimentos profundos, os que fazem as nossas aflições menores e as nossas ilusões mais acesas... Para tanto, é preciso ter coragem e conhecer a verdade. Infectados pelo medo, inchados pela vaidade que obscurece a vista e impede a aprendizagem, vão vivendo vidas vãs, privados de ir e vir, de ser e de estar, para além do que essa terrível condição lhes impõe.

Sem este maldito vírus, ao invés de se converterem nessas múmias confinadas nos seus apartamentos solitários, poderiam finalmente tomar a própria liberdade, abraçar a vida e ser pessoas completas... ao escolherem completar os outros.

domingo, janeiro 12, 2020

I said you, Liberty, you pick it up


The man who shot Liberty Valence, 1962, John Ford
Do que é feito o estado de criação artística? Dirás, caro leitor, "inspiração". Pois, mas esta é apenas uma resposta parcial, já que a inspiração em si mesma não é substância, mas antes um efeito. Tenho perseguido a resposta há muito tempo... talvez desde que me foi dado a decorar o primeiro poema, e da insistência em memorizar os versos surgiu a contemplação da beleza das imagens associadas às ideias.
No encalço da origem, em que se interpõem muitas coisas falsas ou apenas verdadeiras em aspectos secundários, fui fazendo o caminho com cuidado, e absorvendo a beleza do mundo e das obras que tentavam refleti-la. A "beleza" como mero entretenimento, o que para mim são formas degeneradas de arte, entretanto nunca me enganou. 
Repara, não estou aqui já a apreciar a estética, falo de algo que lhe antecede, que é a identificação com a beleza. O "artista" que não quer oferecer algo às pessoas, mas, ao invés disso (e como muitas vezes se dá), pretende tirar algo aos outros, produz uma criação que perverte a ideia de obra artística, ainda que insista (ele e seus sequazes) em chamá-la "arte", "obra prima", "produto de uma sensibilidade particular", ou o que o valha - o rótulo não faz o produto, assim como a pretensão de arte não faz a arte.
Daqui aponto o primeiro critério que me parece essencial: a arte está fundada na caridade. Tomo a caridade como o sentimento que nos une a todas as outras pessoas, aos animais, às plantas, e mesmo à natureza num sentido mais amplo: os rios, as florestas, as montanhas e tudo mais quanto existe. É um amor feito de dar, de integrar-se, de ser consciente desta composição ampla do universo, ou seja, é uma renúncia ao egoísmo. Produzir arte é querer oferecer algo belo aos outros.
Mas o mundo não é feito de intenções, e sim de atitudes. Só contam as pretensões efetivamente exteriorizadas em atos. A arte como exercício de um sentimento de caridade deve então encontrar uma expressão concreta específica. Pode-se imaginar expressões desse sentir que não são propriamente produto da arte. Oferecer um pedaço de pão a um mendigo é sem dúvida um ato de caridade, mas não me parece que seja propriamente artístico.
Talvez seja aqui que a "inspiração" jogue na equação dos elementos. Deve haver uma relação íntima entre o mundo exterior e o artista para que, dessa combinação, única nos seus sujeitos, tempo e espaço, se produza afinal uma peça artística como reprodução daqueles sentimentos, também informada pela caridade. E então chegamos ao ponto central de todo o percurso para responder à pergunta que inicialmente te coloquei, leitor: do que é feito este estado de criação da arte?
Penso que a quase totalidade das pessoas que se dizem incapazes de produzir arte são, a bem da verdade, inconscientes relativamente ao absoluto do seu espírito. Explico-me: a vida não é a perseguição de objetivos externos, como a acumulação de dinheiro, a escalada social em direção a um estatuto, ou a identificação com a aparência física... Embora essas possam ser formas com as quais nos ocupamos eventualmente, não são substância da vida. O auto-engano impede que se investigue o tesouro inestimável que há no fundo de si mesmos: a consciência de integração com tudo quanto existe, o espírito imortal que habita o seu corpo e que levanta-se de forma muito superior à mente que cria as formas, e que quando estamos presentes é uma fonte inesgotável de alegria, paz e completude.
Pode parecer um conceito difícil de alcançar, havendo naturalmente uma desconfiança de que se trata de algo místico... mas é muito simples de perceber. Vou dar um exemplo. Imagina uma ambição material muito importante para ti, como comprar uma boa casa. Trabalhas com afinco, por anos a fio pões dinheiro de lado. Deixas de ir viajar com a família, compras as roupas nos saldos e das marcas medianas, até mesmo trabalhos extras aceitas para pores lá para dentro mais uns recursos. Por fim, ao cabo de uma parte substancial do teu tempo de vida, muitas vezes, a casa é tua. Parabéns! Tens um bem material estimado por muitos. No entanto, tudo o que sacrificaste para alcançá-lo fez com que renunciaste ao teu eu mais profundo em muitos momentos: deixaste de acompanhar um jogo de futebol importante do teu filho para ficares a trabalhar mais umas horas no escritório, disseste que não ao convite do namorado para jantarem fora a fim de revisares o artigo e mandares no dia seguinte para a revista, ignoraste as flores de maio no jardim botânico porque estavas demasiado apressado para chegar à reunião ali perto. 
Estiveste ausente quando deverias ter estado presente, e portanto, não viveste verdadeiramente. Mas pronto, tens a tua casa! O facto verdadeiramente triste, e que evidencia o nosso discurso sobre o fundamento da arte, é que esse objetivo alcançado não te fará feliz por muito tempo: passada a euforia inicial, instala-se novamente o sentimento de vazio, de incompletude, de niilismo. Mas como achas que dentro de ti não há nada, colocas-te outro objetivo exterior, e o ciclo de busca no futuro recomeça... Toda a "arte" para ti não é mais que entretenimento para aquelas pausas em que precisas de desanuviar, ou, ainda pior (embora muitas vezes seja assim mesmo), fazer boa figura aos outros como instruído no que é alta cultura, ou artístico. Não admira que sejas incapaz de produzir arte: tu rejeitas a ideia fundamental do que é arte.
Quando as estrelas altas no céu brilham o seu mistério, e o vento frio da noite gela a tua cara de contemplação respeitosa, aí está a participação da beleza que proporciona o momento de criação artística. O artista passa a produzi-la e oferecê-la aos outros, sobretudo através de alguma associação com as emoções humanas: alegria, harmonia, paz, ou mesmo desassossego. Quando faz essa combinação, constrói uma ponte entre o absoluto e o material que convida a todos a participarem desse instante de glória, agora transladado para a eternidade.
Se formos como o artista, ou seja, se tivermos a coragem necessária de viver quem somos, todos podemos produzir arte. E não apenas isso: produzir obras verdadeiramente únicas que trarão beleza e recordarão significados profundos às vidas dos outros. 
Esta é afinal, a verdadeira e mais importante escolha que temos: encarar a oportunidade de criação como expressão de quem realmente somos e do que queremos dar ao mundo.

sexta-feira, dezembro 27, 2019

Quando te fiz chorar

Les frères, Annie Massollo

Há poucas coisas tão íntimas quanto as emoções. Como umas acabrunhadas filhas no nosso ego, elas relacionam-se diretamente com os medos, as paixões, as ilusões e as ambições mais profundas.
Cedo aprendi o poder destrutivo, ou até involuntariamente construtivo das emoções. Recordo antigas discussões com o meu irmão, sempre muito acalouradas, por coisas sem nenhuma importância, mas que resultavam em dramas fenomenais. Ele com o seu especial gosto por provocar e testar os limites, eu com o meu orgulho e meu sentido de justiça. 
Quando estávamos os dois na segunda infância, eu com 12 anos e ele com os seus 9, tivemos uma briga séria, que começou por qualquer tolice num jogo de futebol. Ficamos então sem nos falar por uns dias, a fingir que o outro não existia: um comportamento tão estúpido e cruel que ainda hoje me envergonha. Na altura a nossa maturidade não dava para muito mais, e ficávamos a medir forças com esse tipo de agressividade inútil... Mas como era época das festas da cidade, também andávamos os dois muito distraídos com outras coisas.
Era comum saírmos à noite com grupos de amigos à procura de algum entretenimento: ver as novidades do parque das exposições e por lá passear e arranjar algumas confusões. 
O recinto constitui-se num grande largo com um campo relvado para as provas equestres e rodeios, com uma grande arquibancada que se insere harmonicamente no declive, formando uma espécie de mistura entre praça de touros e anfiteatro grego antigo. Há restaurantes improvisados à esquerda de quem chega, com alguma estrutura a mais que a dos carros das farturas das feiras e festas populares, além de pavilhões de exposições. À direita ficam os pavilhões com os estábulos para os animais, sobretudo cavalos e bois, mas também há um ou dois pavilhões temáticos. À frente, fica uma grande estrutura com palco, com dois pisos e uma excelente projeção sobre o largo. No fundo ficam, aí sim, as carrinhas de farturas e outras vendas em barracas montadas, das quais recordo com particular saudade as que vendiam uns estupendos espetos na brasa.
Anexo ao parque das exposições, ficava o recinto do parque das diversões, com os brinquedos para miúdos e, muitas vezes, também para os adultos. Era um grande campo em declive suave, talvez com três mil metros quadrados, em que havia espaço suficiente para se meter uma roda gigante, pula-pulas, um carrossel (ou dois), uma pista dos carrinhos de bate-bate, além das brincadeiras de arremesso e de tiro ou um ou outro brinquedo da moda que desafiava a coragem dos mais audazes. 
Estava montado o palco ideal para as grandes disputas entre os rapazes!
O meu irmão e eu andávamos em grupos diferentes, e naquela altura ainda por cima, estávamos zangados um com o outro, como já referi. Estávamos cada um por sua conta e risco, num ambiente de muitos ânimos!
Tendo saído de casa mais cedo que eu, o Fernando juntou-se logo com os amigos no recinto. Depois de darem duas voltas àquilo, resolveram ir investigar uns tambores que haviam sido usados numas provas e estavam encostados à beira do relvado. Os miúdos, à falta de supervisão, logo fizeram daquilo uma brincadeira em forma de desafio: "aposto que não consegues ficar de pé sobre o tambor!". Enquanto a coisa estava entre eles, tudo bem. À parte de que os tambores não deviam ter sido deixados ali,  soma-se o risco de que os miúdos podiam partir o nariz numa queda, mas pronto, merecendo alguma censura, não é grave por si só. 
A treta começa quando o meu irmão desequilibra-se do tambor, que apanha impulso e vai direitinho contra as pernas de um rapaz muito mais velho. Talvez já com uns 15 anos, ele era um repetente regular, conhecido da nossa escola, e estava por ali com uns amigos.
"Vais pedir desculpas já!". "Não vou. Foi um acidente". Os outros à volta, sedentos de alguma ação, atiçavam os adversários: "Vais morrer, miúdo". "Vais ouvir isso e calar?". "Eu não deixava que me fizessem isso".
Eu entretanto já andava por ali, porém mais interessado em ver se espreitava uma certa rapariga nos restaurantes que propriamente à procura do mano. No entanto, a voz era demasiado familiar para que não fossem chamados à colação os meus instintos mais primitivos: "És grande, mas és fraco!"
A este último impropério seguiu-se uma valente troca de socos e muita gritaria dos miúdos à volta. Sem pensar no que seria do lindo fio de ouro que trazia ao pescoço, ou da camisa nova que me fora oferecida pela avó e que estreava naquele dia, ou ainda do cheiro fresco de perfume que exalava em favor daquele recinto com os cheiros que podes imaginar, caro leitor, irrompi no conflito a agarrar o meu irmão pelo casaco e lançá-lo para longe daquilo e, ato contínuo, desferir um belo murro na orelha e dois pontapés nas costelas do rapaz. Levei também uma bordoada - o rapaz não era tão fraco quanto o meu irmão dizia. Mas logo aquilo acalmou com a chegada dos adultos e fomos lá obrigados a apertar as mãos e nos desculpar uns com os outros, embora (e ainda bem) não se tenha feito qualquer apuração de culpas, propriamente.
O Fernando nunca se esqueceu daquele dia, e nem eu, obviamente. Para além da poeira levantada pela fumaça daquelas turras que nós tínhamos, para além das tolices emocionais que não contam para nada, há dois corações, muito leais um ao outro, capazes de grandes atos de bravura ou desprendimento. O que conta, afinal, é a sintonia entre os corações... Naquele dia, por muito ruído emocional que houvesse à volta, a vida aconteceu (e acontece) naquela vibração.
Quando o encontrei depois da briga, ele ainda com a cara vermelha da sova que levara, não havia derramado uma só lágrima. Nos meus braços, no entanto, dominado pela emoção do meu acolhimento à sua defesa, chorou discretamente e deixou escapar um longo suspiro. Logo em seguida, enxugou os olhos com as mangas do casaco, respirou fundo e disse, "Bem, agora vamos ver o que mais há para fazer por aqui".

sexta-feira, dezembro 06, 2019

Menininha do meu coração


Vieste a este mundo de modo insuspeitado, como a vida deveria ser sempre. E que grande chegada, Puca-puca... Recordo da ligação do Fernando a dizer que eu seria tio e que dali a uns poucos meses haveria um casamento, tudo assim um bocado em cima do joelho, mas sempre com um imenso sentido de alegria.
Nasceste há sete anos, a 4 de Dezembro, um dia de sol em Coimbra, em que eu percorri as bancas de jornal e recolhi tudo quanto se havia publicado nesse dia, a pensar que no futuro irias gostar de ver como estava Portugal e o Mundo no momento da tua chegada.
Logo chegaram as tuas primeiras fotos, que causaram grande curiosidade: não eras parecida nem connosco, nem com a família da tua mãe: como todos os recém-nascidos, eras uma coisinha acabada de sair do conforto do ventre materno, rosada e chorona, ainda muito inchada. Um traço teu, no entanto, chamou-me logo a atenção: tinhas já um queixo delicado, como o da tua avó paterna, e podia-se adivinhar o contorno do teu rosto desde aquele ponto de acesso à forma dos teus sorrisos.
Vieste cá ainda bebé e encheste-me o coração de alegria: as tuas reinações mantinham-nos todos entretidos: os passeios a Fátima, ao Porto ou a Lisboa eram sempre o mote para fotos curiosas, como a que temos contigo na Avenida dos Aliados, em que te agarraste em simultâneo a mim e ao teu pai, sem querer estar ao colo só de um dos dois.
Depois fui eu que viajei ao teu encontro, doçura. Nos longos meses em que a tese foi sendo escrita, que grande conforto não me trouxeram as nossas brincadeiras de domingo nas Três Barras. Revivi contigo os momentos de uma infância privilegiada, em que livres e intrépidos, o teu pai e eu desbravávamos os limites da quinta, conhecendo ao pormenor cada árvore dos pomares, cada declive em direção aos córregos, a cor dos campos de pasto, o cheiro dos armazéns de café e o silêncio do açude que em nós fez-se (e faz-se sempre que lá estamos) no encontro com o nosso eu profundo.
Também tu e eu corremos pelos campos, nadamos na piscina, colhemos acerolas e comemos mangas, quase sempre contigo a cantar qualquer música... Aliás, fui eu quem te ensinou a assobiar e tu rapidamente dominaste este primeiro "instrumento musical" para de mais uma forma expressar os teus gostos.
Fazes parte disso tudo que somos nós, tens o nosso sangue e o assim a nossa grandeza e a nossa miséria... És inteligente e delicada. Pensas antes de falar e és muito cuidadosa. Uma sedutora como poucas, consegues sempre o que queres sem nunca, nunca forçar... És um exemplo para essa legião de chatos que vivem a insistir e espezinhar... Não, tu guardas a tua dignidade altaneira e tens aprendido rápido a ganhar e a perder. Mas também amas muito e sinceramente... e por isso te colocas muitas vezes em posições de fragilidade. Vai chegar um tempo em que poderás querer sentir de outra forma: se lá não estiver o tio para te olhar com amor e dizer "esquece, encanto", lembra do seguinte: amar é expressar gestos de generosidade convicta, não uma busca por validação.
Brinca com as tuas bonecas, escolhe as tuas roupinhas, e os teus sapatinhos, veste-te de princesa e inventa brincadeiras: vive a tua infância na alegria e na paz, sê a menininha linda e feliz que anda por aí a distribuir sorrisos e a fazer sorrir, sem qualquer antecipação.
Não vou pedir que não cresças. Seria egoísmo, ou tratar-te como se fosses um brinquedo, a servir ao nosso deleite. Vais crescer e estás a ser criada para seres uma mulher, digna da nossa casa e de ti mesma, e assim serás. 
Porém, não nego que o teu riso de criança seja para nós a própria vida, pequenina. Conservá-lo é que queremos para ti, no dia dos teus anos e sempre, mas sem técnicas de redoma, que te previnam de experimentar o mundo. Do alto das montanhas das minhas convicções, majestosas como as da nossa terra, terás do tio sempre um abraço de amor e uma palavra de verdade, e nenhuma desilusão te poderá jamais deitar abaixo.

sábado, novembro 30, 2019

Rapariga da Foz



Chovia bastante no início da manhã daquele dia. Quando me meti no carro para ir à universidade já havia amainado, mas ainda assim estava composto o cenário de Outono do Porto: chuva fina, pouco vento e frio. Não era um dia feio, no entanto e ao contrário do que a sugestão indica: as árvores coloriam as ruas de vermelho e laranja, e mesmo as folhas caídas, já podres no seu castanho a indicar a morte, tinham o seu encanto harmonioso. Como é natural, estava muito alinhado e bem disposto com aquela forma do mundo e fui também eu à minha vida para fazer parte dela.
A meio do caminho, na altura em que temos o mar à esquerda, naquele dia a rebentar umas ondas furiosas, vi a caminhar na calçada oposta uma rapariga com uma linda parka de cor amarelada, semelhante à lã no estado natural. Não levava guarda-chuvas e, por isso mesmo, tinha o capucho a cobrir a cabeça. Ainda assim não tinha a cabeça baixa: olhava o horizonte de frente e levava com a chuva fina no rosto. Uns cabelos de um louro escuro, soprados pelo vento, terminavam de apresentar aquela figura inusitada, a marchar em direção às suas aulas na Universidade Católica Portuguesa.
Parado a esperar que o sinal finalmente apontasse para o green go, distraí-me com a resolução da rapariga em apreciar a chuva... Não parecia nada imersa nos próprios pensamentos, como está todo o resto desta linda e sonâmbula cidade do Porto. Sem surpresa, ela virou a cabeça para o meu lado e reparou no meu olhar fixo, o que me deixou um bocado constrangido. 
Depois de trabalhar na primeira parte da manhã, já a contemplar as minhas construções jurídicas e muitíssimo envolvido com os artigos e a prova de doutoramento, esqueci-me daquilo completamente, para o meu azar. 
Entrei no bar a pensar na minha meia de leite, pus-me na fila e ensaiei um sorriso para o rapaz atrás da caixa, com quem já tinha feito amizade devido ao gosto dele pelo Boavista. Fui me sentar e só ao pousar a chávena reparei que à minha esquerda, no fundo do bar, olhava-me discretamente a rapariga. Junto com uma amiga, já sem a parka para lhe ocultar a figura, com os cabelos soltos e perfeitamente maquiada, falava pausadamente e dobrava e desdobrava as pontas do guardanapo de papel reciclado, como se estivesse a ilustrar os seus pontos de vista. Quando furtivamente ia buscar os meus olhos, vez por outra mexia no cabelo, rasgando uns sorrisos muito naturais e bonitos. Afinal também havia apreciado o nosso "encontro" mais cedo.
Quando ia saindo e passou por mim, finalmente pude ver que tinha uns olhos verdes acastanhados, de uma cor muito diferente. Como um prisma mágico, brilharam intensamente o mistério que vive em si e que desesperadamente lhe pede para ser partilhado com o resto do mundo.
Uns olhos como as folhas deste Outono que cumprem o seu ciclo de vida. Não quer nada além do seu momento. A rapariga ficou-me no pensamento com aquela decisão de sentir a chuva no rosto, e naquele instante ela esteve presente no mundo, inserida em todo o grande quadro das coisas e dos seres. Que grande presença!
Os anos talvez lhe retirem esse viçoso encanto. Poderá ter desilusões de amor, poderão lhe fazer promessas que serão descumpridas, poderá perder pessoas e posições que agora considera partes fundamentais da sua vida. Espero mesmo que ela não se torne uma dessas balzaquianas ressentidas, cheias de suspeição e incapazes de dar nada de verdadeiro aos outros.
Tanta vez vi o afeto verdadeiro se dissolver em mágoa, e a mágoa escorrer para dentro do espírito, sendo aceita e, assim, enegrecendo aquelas cores vivas de um outono que elas também um dia foram... Depois disso, não há mais uma mulher completa, mas sim uma versão distorcida da sua grande feminilidade, a simular uns sorrisos capazes de enganar os incautos, mas que nunca me conseguiram cativar. Em segredo, a se autossabotar e a lançar culpas com grande velocidade, cultuam seus corações rotos sem nada mais ter para oferecer. Fingem que podem amar enquanto lhes paira por cima o medo e o ego. Os fingidores são sempre figuras tristes.
A menina da Foz ainda não tem nenhum desses vícios: o sorriso é espontâneo, os gestos são simples e despretensiosos, e arrisco dizer que poderia se comprometer sem necessidade se sentisse que havia ali a naturalidade em ser e estar que ela aprecia e incorpora. Que os dias futuros conheçam sempre a virtude dela!
No entanto, para a realidade que importa, especular o que será é uma perda de tempo. Naquele momento em que nos ligamos, a rapariga da Foz e eu partilhamos a beleza e o significado profundo das coisas e seres do mundo.

sexta-feira, novembro 22, 2019

Afrika Korps


A reflexão de hoje pode parecer estranha às sensibilidades mais exaltadas (para ficarmos por esta qualificação simpática), já que se refere à força expedicionária alemã na campanha no Norte da África durante a 2ª Guerra Mundial.
Ideologias totalitárias à parte, revejo-me nos soldados que lá serviram bravamente e que, numa fase posterior da guerra, foram realocados para defender o Reich na fronteira com a Bélgica, na épica batalha de resistência que ficou conhecida como "Floresta Negra".
Vento, areia, calor… fome, disenteria e mais umas tantas misérias que só a infelicidade da guerra faz despoletar em simultâneo… tudo vencido para além das batalhas, num ambiente bastante distante daquela Alemanha romântica dos lagos secretos, das montanhas enevoadas e dos grandes rios a deslizar serenos.
Terminada a campanha, depois de vitórias gloriosas e demonstrações incontestáveis de bravura e serviço prestado honrosamente, numa fase posterior da guerra, ao invés de uma merecida baixa, esses soldados do Afrika Korps foram transferidos para o front europeu ocidental, para proteger a Alemanha do avanço dos aliados, sobretudo dos americanos, que haviam desembarcado na Normandia.
Ali sim houve provas de desespero e destemor, misturados e sem ser possível avaliá-los moralmente. Dia após dia, mês após mês, numa resistência ferrenha, cada metro de território era defendido com toda a gana daqueles soldados em vencer… e viver!
Neste carrossel de vitórias e derrotas, em que devemos manter a compostura sem perceber bem porquê, parece-me haver verdade na mentalidade do soldado alemão na floresta negra. Mesmo frente a um presente em tudo desfavorável, aquele soldado decidiu ser o que era, fazer o que lhe competia, e da melhor maneira que estivesse ao seu alcance. Não tinha escolha? Não é bem verdade: poderia sempre desertar. Aliás, não era difícil fazê-lo naquele momento: a Alemanha estava claramente a perder a guerra e os aliados prometiam acolhida favorável aos desertores alemães. De tudo em tudo, os que fizeram uma escolha consciente, firme na decisão em ser o que eram, sem subterfúgios, merecem toda a consideração.
Por vezes, (por muitas vezes), a vida é injusta. Ninguém se importa com os teus sonhos, ou com as tuas expectativas de futuro… isso não diz nada a ninguém… a não ser a quem te ame… mas mesmo a estes, é mais a preocupação contigo do que propriamente o luto pela tua perda. A justiça é um ideal e não uma condição natural. Daí que a não aceitação do injusto traga tanto sofrimento: achamos que as nossas ideias fazem o mundo, e não contrário.
Eu desci desse gira-gira de tolos já há algum tempo. Compreendo as limitações do mundo e estou em paz com elas. Não lhes faço guerra e menos ainda acho que há justificativa em qualquer tipo de revolução. Já não sou criança! Devemos é nos alinhar às condições naturais e viver pelas nossas virtudes, sem pretensões egoístas de colher a felicidade no exterior de nós mesmos.
Títulos, comendas, caviar… nada disso importa, old pal. Nos anos mais verdes, talvez ficasses impressionado com uma ou outra circunstância desse tipo. Querias ser o doutor, o presidente, o comendador… A tua mãe ficaria muito orgulhosa, de certeza, mas afinal, por detrás dos títulos, o que haveria? Tu saberias responder? Eu sei.
No frio da tua vigília, o que existe é o rifle na tua mão, a farda úmida e fria a te pesar no corpo, o sopro de ar espesso que te sai dos pulmões. Abre os olhos, vê a realidade. É no momento presente que realmente existes. As tuas glórias passadas te irão iludir a identidade e os medos de não as repetir no futuro te irão paralisar quanto ao que realmente deverias de fazer. Esquece o que foste, abdica de tentares controlar o que serás…  no presente é que está a tua redenção de sofrimento, de privação, de tanta vida que já desperdiçaste...
Mas como fazê-lo? Perguntar-me-ias… Not easy, old sport, mas nada te fará mais completo e realizado. Primeiro, um esclarecimento: certamente que és o resultado das tuas experiências e que temos sonhos projetados para o futuro que são belos e mesmo visam o bem dos outros… A questão não é fingir que o passado ou o futuro não importam, mas sim de subordina-los ao que realmente existe, que é o presente. É mesmo para inverter a pirâmide que tem a sua base no que foi e no que será e na ponta o presente, para que o a agora seja a base determinante e as suas perspetivas só interessem no que possam compor, apoiar ou fazer melhor o presente. Trata-se de reorganizar a compreensão do tempo em ti, assim deixares de ser um escravo das ambições e frustrações da mente.
Quando o inimigo interno se achegar a ti, o agora se vai materializar de forma inescusável. E então a força da tua luta veterana, talvez já distante do fulgor dos teus vinte anos… não interessa, desde que esteja convicta em quem verdadeiramente és, vai afinal se vingar das dúvidas e seus sequazes, deixando-lhes claro que para se imporem à tua grandeza, primeiro vão ter de passar por cima de ti, e que vai ser uma luta renhida.

sexta-feira, outubro 25, 2019

Encontra-me num sonho

 Maxfield Parrish (1870-1966) - Morning

Começo já com uma advertência, que é para poupar o seu tempo e depois não levar com críticas injustas: o que se segue é um lamento de um poema perdido. Caso não se interesse por poesia, ou o belo seja uma apreensão muito distante ou talvez até mesmo desnecessária para si, não há mal nenhum. Está um dia lindo e há muito que fazer na vida. Imagine que vive no norte da Europa e vá cuidar das coisas práticas.
Muito bem, ficamos nós, apenas.
Há uns tempos largos foi-me dedicado um poema muito singular. Um dos seus versos, que dava o tom daquela poesia tão bem conseguida, fazia um pedido que abria a imaginação a possibilidades imensas: "Encontra-me num sonho."
Todo o poema era sobre viver a ilusão. Repara, viver, e não propriamente divagar na ilusão. Não quero ser injusto e reproduzir erradamente a estrutura, que recordo como leve... desprendida de modelos, mas muito natural e doce... No entanto, posso dizer que afrontava um pouco a indecisão e o medo.
Sem deles fazer pouco, propriamente, ainda assim exigia que se mostrasse as cores verdadeiras. A vida o exige, não há tempo para esperar ou ver como vai calhar. Era um canto à liberdade e à coragem que me entrou pelo peito adentro como as setas que espetaram em São Sebastião. Mas a minha morte foi a de uma vida menor, sem encanto e sem virtude. Nasceu daqueles versos uma convicção nova no sentido dos sentimentos elevados, que efetivamente passavam a justificar tudo. Lá está, foi mesmo o caso de viver a ilusão.
A loucura, no entanto, não dominava em absoluto o poema. Como toda grande peça do género, era equilibrado, mas imparável na sua marcha em direção à ideia poética.
A próxima estrofe docemente recordava os afetos. Como as promessas das delícias do paraíso, havia ali "burburinhos de água clara" e "mil estrelas nos sorrisos que me davas", para honrar o "Na esperança de teus olhos". Estavam ali a voz baixa a meio da noite a confidenciar as inseguranças, mas sem medo nenhum, e uns olhares de admiração que brilhavam intensamente de um para o outro. Tudo estava ao alcance.
Por fim, uma reflexão a piscar o olho ao fatalismo. Sem dramas sentimentais inúteis, sacrificava de bom grado no altar excelso da verdade as pretensões de receber honras ou atingir estatutos: todo o ciclo da vida estava bem justificado pelo amor. Mas atenção, não qualquer amor. Um amor maior que tudo, que está à frente dos outros e mesmo por isso não está condicionado por nada: ele é. Assim a vida encontrava a morte com um sorriso... íamos afinal para as mãos de Deus, propriamente em união com o divino.
Veio-me num sonho (acredita se quiseres, leitor... já chegaste até aqui, portanto...). O verso a repetir-se, repetir-se, sempre como um mantra hindu que me induziu a um transe ainda agora a fazer-se sentir. 
Decidi ir à sua procura. Entretanto, essa fantástica composição de poesia, fotografia poética de um dos pontos mais bonitos da nossa vida, esfumaçou-se, por assim dizer, quando o provedor dos serviços de correio eletrónico resolveu que os arquivos antigos eram para apagar... "O senhor já não os acedia há mais de dez anos." 
E por que não havia copiado o bendito poema para o computador? Por que não o havia impresso, emoldurado, ou mesmo decorado? Ora, isso é fácil de responder... Mas não me demoro onde a imaginação pode fazer melhor trabalho que eu.

terça-feira, setembro 24, 2019

Uma mulher a sério




A sua beleza, minha mãe, é indizível.
De um amor feito de equilíbrio, pureza e inquebrantável coragem, meu irmão e eu viemos ao mundo a sorrir o seu sorriso de resignação e fé (no meu caso, quase que literalmente, já que tão bom era o seu ventre que tive de ser de lá retirado com um fórceps).
A beleza da mulher é algo incrivelmente complexo. Não a igualo à beleza geral das coisas ou à do homem. É especial, há nela algo de divino, de misterioso, de integração com o absoluto que lhe faz ter em si todo o cosmos celeste. E nessa concentração de valores estéticos, simbólicos e afetivos, o nosso coração é arrebatado a uma dedicação firme e valorosa: fazer felizes as lindas mulheres que nos adornam a vida. Nenhuma missão é mais importante ou vantajosa à nossa própria felicidade.
Ainda pequenino, minha mãezinha, ouvi pela sua voz e vi no seu sorriso toda a beleza do mundo. Desde esse momento até hoje, quanto tempo não passou para confirmar aquela impressão infantil!
Feito à sua aparência, não nasci, no entanto, com as suas inúmeras e admiráveis qualidades... aprendi pelo convívio a ter paciência, observei no dia-a-dia o valor da temperança, acalmei o meu coração, muitas vezes durante a vida, com o exemplo do seu amor brando e verdadeiro, sem rompantes de brutalidade nem palavras inúteis, mas resoluto nas suas convicções.
Sem exageros, sem sentimentalismos inúteis, sem nos privar de conhecer a realidade das coisas, logo cedo pudemos experimentar as consequências das nossas escolhas. A senhora nos educou com muita sabedoria, e deu-nos as armas para vencer verdadeiramente na luta da vida, sem escusas ou vitimizações.
A minha mãe deu-me a liberdade para que fosse eu mesmo e me desenvolvesse como quis, dentro dos valores da nossa casa (e ainda bem). Não tenho como pagar por isso. À custa de viver a verdade (e todos temos de pagar esse preço n'alguma altura da vida), muita ausência, distância e não saber foram-lhe impostos. Tanto mais pelo sofrimento (melhor seria penitência, de certa forma, pois foi e é feito de convicções certas), muito se eleva o seu exemplo de mãe que fez pelo amor, e não propriamente pelo próprio conforto sentimental.
Do nosso convívio mais recente, minha mãe, que tão boas surpresas tive! Já adulto e formado nas artes do viver, tive o gosto de ver a sua dedicação séria e seu profissionalismo. A sua diligente atenção e firme supervisão dos assuntos colocados à sua responsabilidade. No novo convívio, novamente tive o bálsamo do seu afeto, nos cuidados no dia-a-dia, na forma amável de abordar os assuntos fáceis e difíceis, das suas sugestões que revelavam preocupações nunca diretamente admitidas.
Em família, a sua postura é a incorporação dos sentimentos delicados e da sua serena resignação na fé. Equilibrando as graças e as misérias, lá temos ido atrás do seu exemplo... Por vezes com o sorriso da Fernandinha, outras vezes com o da Dona Nina. Minha mãe, de todas as dificuldades dramáticas da vida, saiba que o seu esforço é mais uma vez liderança certa: conduz bem o processo, com dignidade e fidalguia, e depois nos deixa de herança o dever de honrá-lo no futuro, com sinceridade e verdade, o melhor que pudermos.
Deus do céu ama muito esta sua filhinha linda, e lhe reserva muitas graças e momentos de felicidade. Oxalá possa ser eu o autor mediato de algumas dessas alegrias! Muito as merece, minha mãe, por toda a beleza que a senhora é e oferece a nós que partilhamos o privilégio de estar à sua beira.
Neste dia glorioso dos seus anos, recebe o meu amor e a minha lealdade, a minha gratidão e sentidas lágrimas de orgulho. Que Deus lhe dê muita saúde, paz e muitos anos felizes de vida.

domingo, agosto 25, 2019

Aloquete ou cadeado

 

Parte fundamental da vida é fazer o corpo estar na sua melhor condição... acredito que corpo e mente são uma unidade inseparável... não existe nada dessa bobagem de vida intelectual, ou vida de aparências sem abstrações. Existe vida. Física e intelectual são suas expressões, ou momentos de uma única realidade. Tudo isso para dizer que gosto muito de treinar!
Ora bem, há uns tempos reiniciei as visitas ao ginásio e tem sido fantástico. Para além de uma infraestrutura em tudo adequada (desde a secção para exercício cardiovascular, as máquinas para musculação e a secção de pesos livres), conta ainda com um grande balneário, com cacifos para as nossas coisas, além de piscina interior, jacuzzi, banho turco e sauna. Não que me tenha feito esquecer completamente meu antigo ginásio (não exageremos), mas digamos que estou bem ali para já.
Nesta rotina de ir para lá, vestir o fato de treino, treinar, regressar para pôr o fato de banho, depois finalmente voltar e vestir-se novamente para partir, um pequeno instrumento é fundamental: o aloquete do cacifo.
Pois é, é assim que chamam ao cadeado as gentes cá do norte! Descobri-o quando o meu aloquete velhinho deixou de me obedecer... sim, foi mesmo isso. Com três carreiras de combinação e alguns anos de uso, o pequenino cansou-se de abrir e fechar... resolveu trancar lá dentro as minhas coisas quando voltei do treino.
Cansado, suado e desiludido com o minha sessão de jacuzzi a ser injustificadamente adiada, pensei: vou partir isso. Pois, mas o aloquete era valente, não se deixava ir com qualquer abanão. Pronto, vamos ver se há suporte técnico. Lá fui eu à receção ver se arranjava quem me arrombasse o cacifo. O senhor António, a trabalhar na casa há 14 anos (desde quando abriu, disse-me ele), é que foi tratar do assunto. Trouxe lá de dentro um alicate de meio metro de comprimento e num golpe maneiro, rompeu com aquilo. "Cá está o seu cacifo." Fantástico. Lá fui eu seguir com a rotina!
Depois enquanto tomava o banho, fiquei a fazer o luto do aloquete. Quantas vezes não houve cadeados a meio das coisas! Malditos aloquetes, a meterem-se no meio do caminho... mas por outro lado, santos aloquetes, que me salvaram de muito sarilho escusado, fechando o caminho a especuladores.
É um bocado como a pergunta que a poesia lança ao poeta quando ele quer desprender o poema do limbo: "Trouxeste a chave", ou no caso do finado aloquete: "Sabes a combinação?".
Quando era miúdo, um dia na catequese colocaram a questão do "coração fechado", e o símbolo era mesmo uma porta fechada a cadeado. Não sei bem porquê (se calhar porque todos os outros miúdos diziam que sim), disse que não havia ali nada aberto. Pronto, a catequista encontrou o mote para o sermão de abrir o coração a Jesus...
Mas não basta discursos para abrir o coração. Isso é muito pouco. O que é determinante é que ele se reconheça no que está lá fora. Há quem saiba a combinação ou tenha a  chave, e o aloquete deixa de ser teimoso, não é preciso chamar o Sr. António com o alicate de meio metro...
De toda forma, vou comprar um aloquete novo, com quatro carreiras de combinação, e praticamente impossível de abrir por formas sorrateiras.

quinta-feira, junho 13, 2019

Mein Schatz

  
Árvore do amor - Festa de Nosso Senhor de Matosinhos


No sábado passado tomei parte, pela primeira vez e em companhia do amigo Luís, da Festa de Nosso Senhor de Matosinhos: uma "festa da terra", embora Matosinhos seja bastante grande e esteja inserida na área do grande Porto.
Para quem é cá do Norte, não há muita novidade... a festa é tradicional e vem gente de muito longe para comer as farturas, levar os miúdos ao parque de diversões ou mesmo para comer uma sandes de leitão ou umas sardinhas assadas. Celebrada no calor de Junho, sente-se a alegria no ar.
Começamos mesmo com uma sandes de leitão assado acompanhado de um tinto maduro... e depois uns churros com recheio de oreo.
O Luís já sentia falta da nicotina e fomos dar uma volta para que ele fumasse o cigarro dele e a gente apreciasse a festa.
A subir da parte dos restaurantes, encontramos um rio de gente a sair da igreja do Bom Jesus de Matosinhos - uma linda obra do Barroco.
Fomos passeando para esse lado, curiosos. Afinal, tanta gente a sair da igreja... será o fim de uma homilia? Logo descobrimos: era uma bênção às crianças, marcada para o meio da tarde. Portanto, lá se fizeram presentes famílias inteiras. Miúdos a gritar, bebés com fome... irmãos mais velhos a fazer asneiras e pais desalinhados tentando manter a patota em ordem.
Em meio a tanta algazarra (o Luís já queria ir-se embora), surpreendi-me com um pensamento: que bonito esforço faz essa gente! Gente que deu gente ao mundo, com grande sacrifício pessoal... e com gosto.
Depois vieram-me imediatamente à lembrança conversas com amigos que já foram pais. Ao vê-los cansados, acabados, quebrados... sempre brincava a perguntar se valia a pena. A resposta foi sempre a mesma: obviamente, o amor paga tudo.
Como no cumprimento de uma profecia, surgiu logo a seguir no nosso caminho uma imagem peculiar: uma árvore com o tronco envolvido em croché branco e nos seus ramos e galhos foram colocados grandes corações vermelhos. Não poderia chamar-lhe de outra forma, que não "árvore do amor".
Acho que cada um daqueles corações poderiam muito bem representar alguém que amamos na vida, alguém por quem nos sacrificamos de bom grado... por amá-lo. Depois aquele fruto feito de dar ficava ali pendendo, não só para ser dado, mas também para ser colhido, porque o amor exige dois gestos: tem de ser oferecido e aceito.
Por muito caminho que se faça para longe da árvore do amor, esses frutos estarão ao nosso alcance. Basta um telefonema, e a voz de quem se ama faz saltar no peito o coração vivo. Basta um sorriso leve, um olhar de ternura, uma palavra de afeto... e a árvore produz um fruto novo.
E este fruto faz-se notar... faz uma figura tão bonita... inspira quem está por perto, dá esperança, afeto e repõe a nossa humanidade.
Foi então que dei por mim na festa do Senhor de Matosinhos influenciado pelo efeito contagioso do amor. Mas cuidado! Há que ver nas árvores que estão por aí, e que de repente encontramos, se dão frutos ou se nem sombra oferecem! E se for este o caso... a vida faz-se num deserto.
Para evitar esses percalços, o melhor é cuidar dessas árvores... se assim fizer, ninguém que gosta de si há de passar fome!

sexta-feira, julho 06, 2018

O melhor do mundo



Lembro-me do Ronaldo recém-chegado da Madeira, ainda muito novo e com os dentes tortos, mas já cheio de confiança e agressividade para se impor. Logo ali já havia qualquer coisa de diferente naquele rapaz alto e algo convencido.

Muitos, mesmo muitos adeptos, no entanto, olharam para ele com algum contragosto. O excesso de auto-confiança causa alguma repugnância aos sentimentos refinados, que homenageiam a humildade em oposição à arrogância.
Ele cresceu, entretanto, não só no seu magistral futebol, mas principalmente como homem.

Entre os dramas familiares que lhe impunha a dor de um pai que abusava dos copos e que morreu precocemente, e as pressões de afirmação da sua potencialidade que eram impostas por si mesmo, num misto de raiva, força e uma inquebrantável convicção de que podia sempre melhorar e fazer melhor, deu tudo de si, e venceu.

Nunca houve um jogador de futebol tão ambicioso, tão dedicado aos treinamentos, tão assertivo nas suas capacidades, tão concentrado na leitura do jogo e na inserção da sua magnífica inteligência dinâmica a serviço da conversão de todo esse trabalho em golos, e ainda assim sem prescindir da sua humanidade e das suas emoções e, mesmo por isso, chegar até nós como alguém que podemos estimar e nos orgulhar.

Dos muitos golos que fez, com uma regularidade ao longo da carreira que é raríssima, destaco a conversão do livre contra Espanha no mundial da Rússia. Num momento baixo da seleção nacional, intimidada pelo volume de jogo de Espanha que se impunha à Portugal para vencer a partida, surge a oportunidade de cobrar uma falta a vinte e poucos metros da baliza. A bola vai ter com o capitão de Portugal, que nunca se nega a cumprir com a sua função. Em silêncio, puxa as barras do calção para cima das coxas, faz um A com as pernas e vidra os olhos na baliza, numa pose de conjunto que deu a impressão de indução a um transe.

Nesse preciso instante, um país inteiro viveu dentro daquele homem. As milhares de gerações que existiram para que ele existisse, os valores, os mitos, os medos, os orgulhos e mesmo as mesquinharias... tudo que compõe a nacionalidade esteve presente naquele instante de redenção do orgulho nacional frente a Espanha.

E à contragosto dos seus detratores, Ronaldo converteu o livre num golo antológico. Portugal foi ao delírio, com um momento de emoção talvez só comparado ao da louca campanha no Euro 2004 ou dos momentos decisivos do Euro 2016.

A sua postura manteve-se igual no relacionamento com os demais jogadores, assumindo-se verdadeiramente como um líder, nunca se queixando, nunca assumindo postura de vítima, sempre incentivando os companheiros, mesmo quando erravam...

Por fim, já na despedida de Portugal contra o Uruguai, mostrou porquê os portugueses se auto-intitulam um "nobre povo": abraçou e apoiou Cavani para que deixasse o relvado, uma vez que o avançado que marcara duas vezes contra a seleção nacional naquele mesmo jogo havia se lesionado.

Decisivo, frio, calculista, seguro de si, honesto, leal com os adversários, amigo do seu amigo... o melhor do mundo é viver o pleno das nossas capacidades. Ronaldo fê-lo (e fá-lo) como poucos.