quinta-feira, maio 24, 2012

A Deus


Vai-se embora, nessa bem conhecida primavera coimbrã das despedidas de todo ano, mais um dos amigos de muito tempo que tive a sorte de fazer nesta terra.
Pensei deixar aqui um testemunho algo egoísta da falta que vai fazer a todos que até Agosto pelo menos ainda terão a sua presença, mas não, farei algo mais dignificador.
Limitar-me-ei a contar o episódio e dele tirem vocês as suas conclusões como acharem melhor.
Corria o ano de 2008, um tempo de grandes mudanças e desafios pessoais. Vinha da Inglaterra para Portugal e precisava de adaptar a vida a este tempo novo em toda a sua linda e bruta feição.
Esperava-me um país e uma cidade em tudo superiores às minhas expectativas, entretanto já altas.
Fui feliz porque por cá havia gente que soube acolher-me com amizade, gente que viu na minha figura de estrangeiro a de um bom rapaz.
Entre estes que se mostrou particularmente tolerante e bom comigo está este senhor que seguirá para longe de nós já daqui uns mesitos.
Recordo com alguma nostalgia as minhas primeiras tardes no Instituto Universitário Justiça e Paz, a descobrir aquele espaço e as pessoas dali. Lembro-me como ainda hoje o vivo da generosidade e da pureza de intenções das pessoas que ali trabalham. Por um longo tempo estive ali a estudar e mesmo dar explicações. Passava assim no bar longuíssimas horas no decorrer de dois valentes anos. Sempre bem acolhido, a tomar café junto dos meus colegas, a pensar no futuro com o coração sossegado e a desfrutar da linda vista do Jardim Botânico e do rio Mondego que parecem ainda hoje emoldurar estes episódios da vida com a graça e a generosidade com que fui ali aceito e fiz ali amigos leais que tenho comigo e que muito enriquecem a minha existência.
Assim como fora para mim, esta casa é para todos. A forma como funciona, o seu cariz de bondade e de tolerância, a sua inserção efetiva para promover o bem da comunidade académica, muito se deve à direção que, com verdadeiro sentido humano e cristão, responde à indiferença com amor, à estupidez com tolerância, aos que precisam com a atenção preocupada que dão os pais aos filhos que por eles procuram.
Ver partir causa estranheza, mas não podemos ser egoístas. Devemos agradecer ao bem que nos fazem e deixar ir, libertar da nossa conveniência aqueles que procuram outros mundos e outros desafios, aqueles que têm uma alma inquieta e à procura do desconhecido, querendo ventura mais que aventura.
Assim também sou eu e também eu já parti deixando para trás um rio de lágrimas, lamentações e saudades, mas também de conquistas, de amadurecimento e de glória por ter este grande orgulho de ser senhor da minha própria vida e do meu destino.
Deixo assim a Deus, Nosso Senhor, a guarda daquele que por esses quatro anos é ainda o laço do passado que me ajuda a ver sua continuidade no presente com a certeza de que a grandiosa instituição a que ele dirigiu continuará seu caminho de trabalho cristão e dignificador da comunidade agora também em respeito ao seu legado e ao seu trabalho que está à vista de todos.
A Deus, meu bom amigo, é que cabe dizer da nossa vida e dos nossos quereres. Deixemos estas tristezas e dúvidas do porvir para repousar serenos os corações no amor do Nosso Senhor.