quarta-feira, maio 20, 2020

O trespasse da barbearia "O Carlos"



Para a minha grande tristeza, vi hoje o anúncio do trespasse da barbearia "O Carlos". É mais uma vítima desta maldita pandemia que a todos assola. Extinguiu-se a última barbearia tradicional da alta e com ela aquela alegria de sair de lá mais bonito, por dentro e por fora. 
Ainda lá está, com todo o recheio, a cadeira, os móveis, o lavatório nos fundos, os quadros de sítios emblemáticos de Coimbra... mas não se vai trespassar a alma daquele lugar. É só um corpo vazio agora, mas em tempos, foi um nobre baluarte do espírito académico coimbrão.
Entrei na barbearia "O Carlos" pela primeira vez há mais de dez anos, pela mão de um amigo, também ele apreciador das coisas da Alta de Coimbra e de suas tradições.
No seu interior, um senhor de alguma idade, de falas comedidas, mas riso fácil: o senhor Carlos. Com a cabeça calva, o cabelo (que tinha) penteado para trás, um rico bigode e uma barriga discreta, a sua figura era o arquétipo do barbeiro tradicional português. 
Recebeu-me com afeto, como recebia a todos os estudantes atrapalhados que precisam de adotar um barbeiro em Coimbra e vão parar às suas mãos porque tinha o estabelecimento mesmo ao pé da Sé Velha, e portanto, muito próximo à universidade: entre uma aula e outra, ou antes de um convívio, era fácil lá ir para "deixar de ser cigano", como ele dizia.
Tive um tio e primos barbeiros em Juiz de Fora, e portanto, sempre olhei para essa profissão com uma admiração viva, já que ela naturalmente aproxima os homens. Essas criaturas que tão dificilmente se deixam prender por afetos, às mãos do seu barbeiro têm a língua mais solta e vão dizendo o que pensam e sentem. 
Um barbeiro, por excelência, é alguém que sabe e gosta de ouvir. E se é verdade que se afeminam por profissão, como dizia Vinicius, talvez isso seja uma vantagem. Como o feminino é naturalmente mais participativo nos mistérios dos sentimentos e dos significados, e assim vive uma vida mais bela e completa, então é possível que o senhor Carlos efetivamente tenha beneficiado desse efeito colateral do seu ofício. 
Logo nas primeiras vezes que lá fui, criei por ele uma grande estima. Contava-lhe dos meus estudos, trabalhos e até das viagens que vinha fazendo, e havia mesmo espaço para anedotas de barbeiros! Acho que ele gostaria de saber que fui a Roma celebrar a conclusão do doutoramento, pois fui eu o primeiro a lhe contar a anedota do barbeiro e da viagem a Roma. Peço-vos licença para reproduzir aqui a anedota: um cliente conta ao barbeiro que vai a Roma. Mas o barbeiro, contrariando a postura que sempre admirei no senhor Carlos, começa a protestar: "Roma, que cidade suja! Por que vai a Roma? Não faça isso! É muito cheia e há aproveitadores por todos os lados!" Responde o cliente: "Bem, talvez eu me surpreenda positivamente, vamos ver. Consegui um ótimo vôo". Retruca o barbeiro: "Então vai viajar por qual companhia aérea?" O cliente: "Vou pela TAP! Consegui um preço promocional e os horários são excelentes". Mas o barbeiro não desiste: "Pois, mas sabe que os aeroportos ficam muito longe de Roma! Irá amargar horas até lá chegar, se é que vai conseguir levantar as malas - aquilo são só ladrões!" "Bem, vamos ver quanto a isso. Também já tenho o hotel marcado, estou muito contente com a localização: fica próximo ao Vaticano". Continua o nosso pessimista: "Ui, mas sabe que por aqueles lados não há metro! Vai levar para aí uma hora para ir à Piazza Veneza... depois se quiser voltar tarde para casa pode haver situações chatas por ali...". "Bem, o que interessa é que consiga ver o Papa. De tudo que acontecer, vou ficar contente se conseguir uma audiência". "Ver o Papa? Quem o senhor acha que vai ter uma audiência com o Papa? Isso não funciona assim! Tenho pena de lhe dizer, mas vai para Roma, não para o mundo das ilusões!". "Talvez não seja assim tão difícil. Para já, vamos ao corte de cabelo." "Como queira, vou então lhe fazer um serviço especial, já que irá ter com Sua Santidade, o Papa!". Passa o tempo, o cliente vai a Roma e, por necessidade da natureza capilar, volta à barbearia: "Olá Sr. Barbeiro! Já regressei de Roma!" "Ora, muito bem, então deve ter visto que não era nada daquilo que pensava, não é?" "Antes pelo contrário! A viagem correu lindamente, a localização foi perfeita, a cidade é belíssima e muito agradável, e ainda consegui ter uma audiência com Papa!" "Não acredito! Teve a bênção do Papa?" "Sim! Eu me ajoelhei e ele pôs a mão sobre a minha cabeça e me abençoou dizendo umas palavras muito certas!" Aí sim! Diga-me então o que lhe disse o Santo Padre?" E conclui satisfeito o cliente: "O Papa tocou-me a cabeça com muita compaixão e disse: 'Deus te abençoe meu filho! Pois o seu barbeiro, seguramente vai para o inferno!"
Ainda me lembro da risada do senhor Carlos, a fechar os olhos a rir e a curvar-se um pouco para trás! Foi um de muitos momentos felizes e bonitos ali na barbearia "O Carlos", no n.º 124 da mítica rua Joaquim António de Aguiar: conversas sobre o Sporting, sobre os políticos, as tradições, sobre a nossa Coimbra, sobre o que era ser português e o Portugal que ele queria deixar para os netos... Testemunhos de um homem vivido, que esteve emigrado em França muitos anos, que sempre se dedicou aos seus e nunca se queixou da vida humilde que era a sua. Viveu e serviu aos outros sempre com muita felicidade.
Um episódio marcante do nosso convívio aconteceu em 2015, quando o senhor Carlos sofreu um aneurisma cerebral. Esteve a barbearia fechada muitos meses e tive de improvisar uns cortes. Lá para o fim daquele ano, reabriu. Toda a clientela estava com um pouco de receio, afinal, tinham-lhe aberto a cabeça. Mas eu confiava na sua prudência e na sua responsabilidade. Dei-lhe o pescoço e as orelhas às lâminas, e ele não me tirou nenhum pedaço. Naquele dia do regresso aos cortes, selou-se uma amizade, deu-se uma prova de estima. Ficamos amigos: ele contente de lhe ser novamente confiado o corte, mesmo que com a mão um bocadinho trémula; eu com um bocadinho de medo, mas certo de que aquilo também lhe faria bem.
Depois de ir para o Porto já não consegui manter os cortes com ele, e tudo conversado, tinha de dar a minha vez aos novos estudantes, que o senhor Carlos continuava a receber ano a ano. Agora, não mais.
Chorei umas lágrimas que não sabia que tinha. Rezei por ele, para que estivesse bem, e senti uma imensa gratidão.