domingo, março 18, 2018

Toninho

Toninho e seu quinto neto 

Meu avô deu seu último suspiro quando eu tinha apenas cinco anos de idade, mas os seus olhos azuis de paz e o seu riso leve ainda existem na minha memória, como nos meus olhos e no meu riso.

A minha lembrança de primeira infância, feita da fantasia e da poesia que emolduram esses momentos para o resto da vida, recorda-o entre outras saudades de um tempo de muito amor e de cuidado. Os seus feitos como homem, no entanto, aprendidos por mim já depois que ele se tinha ido, colaboraram para fazer da memória do Toninho, cheia de êxitos retumbantes tanto em casa, como profissionalmente, uma herança incomparável.

Desafio o leitor a percorrer comigo essas façanhas e dar o seu próprio juízo, uma vez que o meu pode ser prejudicado pela óbvia ligação sentimental.

Comecemos pelas minhas próprias memórias e pela forma como ele era em casa. Trata-se de um passeio muito agradável por uma obra sentimental feita de dedicação incansável e amor incondicional à família.

Lembro do seu riso, que era frequente. Muito diferente de meu pai, que é um homem mais circunspecto, introspectivo e melancólico, o avô era alegre, e adorava brincar com os netos. O ambiente com ele já por si era animado: fez duas piscinas no São Carlos para garantir a festa dos adultos e das crianças. Embora eu tenha quase me afogado na piscina grande, a verdade é que passávamos lá uns domingos muito felizes, meu pai, seus irmãos e as famílias de cada um, e os meus avós, sempre com muita união, como era o gosto do meu avô

O Toninho também gostava de nos ter todos reunidos na sua casa na praça. Era lá que a festa continuava aos domingos, no começo da noite, quando assistíamos juntos aos Trapalhões na televisão. Também algumas vezes estávamos juntos nas tardes de sábado, quando ele gostava de arrebentar umas pipocas ou torrar uns amendoins com casca,  e dedicar-se às brincadeiras connosco.

Ele tinha imenso prazer em nos ver a sorrir. Uma das brincadeiras que fazia com os netinhos e recordo agora era uma prova de corrida entre a cozinha e a copa da casa dele. O avô ficava sentado no chão, de costas para a cozinha, onde nós estávamos à espera. Depois, mandava-nos vir um por um e, com o corrião na mão, tentava alcançar as nossas perninhas! Ele era maroto, porque começava a dar com o corrião muito devagar, como se não conseguisse nos apanhar, mas era uma estratégia sua: quando começávamos a ficar mais atrevidos e a passar mais lentamente para provocá-lo, ele vinha com tudo! Obviamente que era só para brincar, mas havia ali uma ideia de estar atento e não baixar a guarda.

Depois tenho uma única e muito querida memória de estarmos só os dois. Foi num sábado de manhã em que o meu pai levou-me lá à casa dos avós e como o avô Toninho estava pronto para ir ao sítio dele no São Carlos, pediu ao meu pai para me levar consigo. Lá fomos os dois no seu fusca branco. Chegando ao sítio, fomos à tulha de café e estivemos pelo terreiro onde ainda havia café a secar. Depois andamos por ali perto das piscinas, por um terreno inclinado em que o avô pôs-se a colher algumas abóboras. Por conta do sol forte, o avô sacou do lenço que tinha no bolso e improvisou-me um chapeuzinho, dando um nó em cada uma das pontas do lenço e pondo-o bem na minha cabeça. Quanto a ele, tinha lá o seu chapéu de palha. Estivemos sempre conversando entretidos. Acho que ele perguntava coisas da escolinha, eu estava ainda no pré-escolar. Dizia-me para me comportar e respeitar a professora, e que devia ser sempre um bom menino... Ele gostava de dar conselhos, e os podia dar. Foi uma manhã feliz, de amizade e convívio com o meu avô, e que guardo com imenso carinho.

Daqui para além surgem muitas histórias que me chegaram pela própria família e, muitas outras por gente de fora que, com a mesma consistência, quase que colocam o Toninho no altar junto dos santos mais populares. Já vamos lá chegar.

O Daniel contou-me alguns episódios interessantes, alguns deles contemporâneos ao meu tempo de convívio com o avô. Como neto homem mais velho, entretanto, ele acabou por conviver muito mais com o avô e também guarda dele uma memória de muito carinho. Entre muitas histórias, vou deixar algumas mais interessantes. Uma era habitual e passava-se com o fusquinha branco, normalmente ao voltar de São Carlos, em que o avô sempre parava quando via alguém a pé na estrada e oferecia boleia no carro. A boa vontade do avô, no entanto, não via limites, e mesmo com o carro cheio (o Daniel tinha que ir no "chiqueirinho", lá trás) ele continuava a parar e oferecer boleia, ao ponto das pessoas agradecerem e recusarem! Numa dessas vezes em que estavam mais uma vez a voltar do São Carlos, o avô deu boleia ao senhor Amaro, muito amigo do avô e foi quem me contou essa história. Ao entrar no carro, ele reparou no Daniel, que na altura usava o cabelo mais comprido. Disse então o senhor Amaro: "Toninho, o senhor tem uma netinha muito linda!". O Daniel ficou revoltado, pôs-se de pé, e com a cintura na frente da cara do senhor Amaro, abaixou os calções e disse: "Eu sou homem! Olha aqui!". O Toninho primeiro mandou-lhe levantar os calções, e depois riu-se imenso. A outra foi também com o senhor Amaro, de uma vez que o Daniel foi com outros meninos à Casa das Irmãs para "buscar" uns côcos. Alguém topou a "arte" e o Daniel saiu correndo com o saco de côcos achando que o senhor Amaro estava atrás deles, já que era ele que cuidava daquilo. Ao virar da praça para a rua Alferes Chiquinho, mete-se para dentro da Cafemac, empresa de cafés do avó, e com o avô ao fundo da loja, joga o saco ali por baixo e diz muito esbaforido: "Avô, estou fugindo do senhor Amaro!", mas o senhor Amaro estava ali à frente, reunido com o avô que, diante daquilo, não sabia se ria ou se pedia desculpas ao homem.

Dou um passo largo atrás e recordo as memórias familiares mais antigas. São muito lindas as memórias que me chegaram da sua juventude. Uma delas é da relação com a mãe dele, a Dona Maria Martins. O avô era ainda adolescente e foi recrutado para fazer o treinamento militar no Rio de Janeiro, compondo a força expedicionária brasileira na II Guerra Mundial. Ao contrário de alguns rapazes da nossa terra (um deles foi vizinho do avô na rua Alferes Chiquinho), o avô não fugiu à luta. A bisavó Maria Martins, no entanto, passou muito aperto e ficava aflita com a possibilidade do Toninho ir para a guerra e lá perecer. Escrevia-lhe então umas cartas muito longas, em que dizia que rogava à Virgem Maria e a todos os santos para que o protegessem, que tivesse muito cuidado e que não se metesse a fazer atos heróicos... Só quem recebe amor e se sente amado é capaz de dar amor e de amar!

O avô era corajoso, mostrou-o muitas vezes na vida, mas não era tolo. Quando vinha de folga à terra, levava de volta para o Rio de Janeiro queijos, doces e cachaça para oferecer ao comandante militar. No fim das contas, o avô fez o treinamento de praça completo, mas a guerra acabou e ele nem precisou ir lutar na Itália... para o bem de todos nós, seus descendentes!

Aqui chegamos ao ponto mais importante da vida do Toninho, sem dúvida nenhuma. Parece que foi desde umas festas de Santa Rita que ele ficou a saber que o Sr. Domingos Ferreira Rios tinha uma filha muito bonita e muito prendada, chamada Adalgiza. Pediu então ao pai da moça para lhe fazer a corte. Não posso dizer bem como foi essa paquera, mas a avó um dia disse que ele vinha a cavalo até a casa deles e ficava do lado de fora à espera de ser convidado... o namoro à antiga era assim!

De todos os sucessos do avô (foram muitos... precisaria de um livro para contá-los), juntar o seu destino ao da minha avó foi o maior. Mulher de fibra, vinda de muito bom berço, equilibrada e de invulgar visão, a Adalgiza não esteve atrás do avô, mas ao seu lado. E ele ao lado dela. Os dois viveram um grande amor, feito também de grandes sacrifícios e tortuosas provações, e estiveram juntos até o fim. Muito do êxito comercial do avô explica-se pelas qualidades de perseverança, disciplina, organização e ambição da avó, embora o avô tivesse também as suas influências domésticas nesse campo.

O avô veio de uma família com tradições de iniciativa relevantes. A sua avó Augusta descendia de Fernão Dias Paes, e o seu pai já era naquele tempo um empreendedor de muito êxito. O bisavô Maximiano, que também era espirituoso e gostava de soltar fogos nas festas de Santa Rita, produzia uma cachaça muito conhecida. O negócio foi muito bem sucedido, e ainda hoje existe pelas mãos de um outro bisneto do bisavô Miano, o meu primo Marcelo. Ora bem, os exemplos de êxito devem ter despertado no avô aquela ambição de enriquecer, e ele fez muito por isso.

Inicialmente, o Toninho começou a trabalhar com o Sr. Juquinha do Vale, transportando café com a sua tropa. A avó costurava para fora e teve a ideia de que o avô começasse a ser ele mesmo a comprar o café, ao invés de só fazer o serviço de frete. O avô aceitou a sugestão (como muitas outras que viriam ao longo da vida) e, arranjando os próprios clientes, passou a ser ele mesmo a comprar o café para beneficiar e depois revender. A avó também ajudou nessa parte, perguntando às clientes da costura se os maridos tocavam alguma lavoura, e foi daí que o negócio do café começou.

Com ele, o avô fez muito dinheiro ao longo da vida, mas nem por isso era de esbanjar, antes pelo contrário. Chegou até mim a sua fama de homem poupado, do tipo que ficava na praça à espera de arranjar uma boleia para ir à cidade vizinha, e assim poupar o dinheiro da condução. A razão disso é que o avô sabia que os recursos são uma dádiva do trabalho e são conseguidos com a bênção de Deus. Para ele, desperdiçá-los quando se poderia poupar seria um desrespeito ao próprio esforço e ao fundamento da propriedade de servir ao homem, não o contrário.

A verdade dessa proposição está no seu caráter quanto aos que precisavam de ajuda. Nunca se negou a ajudar ninguém, o que lhe angariou uma fama de ser um homem de boa vontade, tornando-se padrinho de batismo de mais de cem alminhas. Quando alguém lhe pedia dinheiro para comprar um medicamento caro, ou ajudar com alguma despesa de saúde, dizia logo que sim, mas fazia sócios para a empresa: ia ao encontro dos outros que também poderiam ajudar e pedia que também colaborassem, cada um com um pouquinho, para todos juntos poderem comprar ou pagar pelo que era preciso. A ideia de envolver os outros ainda tinha (e tem!) uma grande vantagem: ajuda a desenvolver um espírito de comunidade, de amizade cívica, em que há respeito entre as pessoas, algo que o avô sempre trabalhou para defender e promover.

Muito por isso, não tolerava injustiças e nem abusos com os mais fracos. Contou-me a Elzita, que trabalhou na nossa casa muitos anos e também para o meu irmão, que ainda cedo na sua vida, o avô salvou-a de uma surra de corrião que levava do patrão. Dizia ela que trabalhava num sítio e que o marido era retireiro de leite. Pelo que percebi, numa manhã o marido esqueceu-se de levar o latão até onde passava o caminhão do laticínio e o leite azedou... Indo à casa do retireiro, o patrão encontrou a Elzita e começou a tirar satisfações, mas a pobre da mulher (uma menina de dezoito anos na época) não sabia de nada... O patrão irritou-se ainda mais, apanhando a mulher pelo cabelo e batendo-lhe com o corrião... Nisso chega o Toninho, que comprava café a esse homem. Vendo a cena, sacou do revólver e mandou-o parar. Disse ao homem que o que ele fazia era uma covardia e que se quisesse bater em alguém que fosse em quem pudesse se defender. Colocou a Elzita no carro, foi atrás do marido dela e explicou o que tinha acontecido. À tarde mandou lá um caminhão para fazer a mudança deles para um outro sítio que o avô já lhes tinha arranjado. A humanidade cristã esteve sempre em primeiro lugar, não só da boca para fora, mas nas atitudes.

Era essa a mesma lógica no apoio que sempre deu às Festas de Santa Rita, em que ia todos os dias, colaborando com os leilões e ajudando em tudo o que podia para apoiar a Paróquia. Mais uma vez recorro às memórias do meu primo Daniel, sempre com muitos pormenores, especialmente dessas festas em que o avô o levava à "barraquinha de Maio". Naquelas noites, punham-se os dois a jogar bingo e o Daniel a beber o seu café com leite. Tudo com muita simplicidade e poesia, um bocado como a vida que o Toninho fez para si.


Falei antes das provações e dificuldades. Não foram poucas, mas me vou limitar a alguns factos evidenciadores. Os meus avós tiveram oito filhos. Entre o primeiro e o segundo, a diferença de idade era de apenas um ano e vinte dias! Na casa deles no São Carlos só foi haver água encanada depois que nasceu o meu pai, que está pelo meio da escadinha... Eletricidade então, nem sei dizer quando foi que tiveram, mas ainda deve ter demorado algum tempo a mais.

Com muito trabalho, empenho e dedicação, venceu-se tudo. Mudaram-se para a cidade e foram morar numa casa onde até hoje vive a minha avó. Dessa época em que os filhos já eram jovenzinhos também há algumas histórias interessantes. Como a do meu pai, ainda adolescente, a bater com a porta bravo porque o avô não queria lhe dar dinheiro para sair e gastar com as moças. Também há a história do rodízio do jipe do avô, que é muito engraçada. Eram muitos rapazes em casa e queriam sair todos com as namoradas, mas só havia um automóvel: o jipe verde com o parabrisas dobrável que era igual aos da II Guerra. A solução do Toninho foi óbvia: cada dia, um de vocês vai sair com o jipe. E assim foi. O meu pai arranjou um jeito de contornar a regra e comprou uma motocicleta para si, inclusivamente foi a primeira moto na cidade, causando grande alvoroço entre as meninas! Ainda assim, o jipe teve um uso bastante intensivo, tanto que um dia tentou se vingar do Toninho: quando ele ia para Santa Bárbara, foi atravessar um córrego e virou de rodas para o ar... Graças a Deus, o avô saiu ileso.

Já não foi assim, infelizmente, com o meu tio Marco António, que morreu ainda muito moço, logo depois de se casar, num acidente de caminhão que também levou a vida de um primo dele. A avó diz que a pior dor que já passou na vida foi a de perder um filho. O Toninho devia concordar, afinal, foram pais imensamente amorosos e dedicados, que viviam para os filhos.

Quando meu pai casou, além de arranjar a casa, o avô comprou os móveis todos e pôs tudo do que havia de melhor. Como fez para o meu pai, fez para todos os outros, não só com presentes de casamento, mas também encaminhando a cada um deles na vida o melhor que podia.

Ali mesmo na Alferes Chiquinho, para além do negócio do café que foi passando para o meu tio Max, o Toninho ajudou os filhos com outros negócios, e todos conseguiram prosperar.

São verdadeiramente admiráveis as suas capacidades de realização e disciplina, fundamentais para executar o plano: deixa ver se arranjo uma loja para cada um aqui perto de mim, e assim ficamos todos próximos. Premeditado ou não, a verdade é que os filhos todos tem casa a distância de uns 100 metros uns dos outros, praticamente todos na mesma rua. Mesmo a minha tia que mora em Viçosa, mais à frente ela e meu tio acabaram por comprar uma casa por ali.

A morte, no entanto, não permitiu que o Toninho gozasse por muito tempo os frutos da sua vida de trabalho e dedicação. Com problemas cardíacos (que na nossa família são quase tão comuns quanto as carecas), o avô foi ao Rio de Janeiro fazer um cateterismo. A operação foi de manhã, e em si correu até bem. O avô almoçou e foi se deitar para descansar. Logo ao início da tarde, no entanto, começou a passar mal e um ataque cardíaco fulminante levou-o para sempre de nós. Tinha apenas 62 anos.

Segue-se aqui um velório em sua casa, em que recordo claramente o seu caixão na sala, com os pés para a porta e no ar uma tristeza muito grande. Naquela manhã, o meu pai chorou à minha frente pela primeira e única vez na vida, e logo que se apercebeu da minha presenta, retirou-me de perto do caixão (eu me apoiava na ponta dos pés e me inclinava ali para dentro para tentar ver se era mesmo o avô). Levou-me lá para a varanda de dentro e disse que tínhamos de estar sérios. Eu já tinha percebido essa parte, mas era por demais surreal imaginar que nunca mais veria o meu avô, aquilo não cabia na minha cabeça de criança.

Nos anos que passaram, a memória dele permaneceu sempre muito elevada. Recordo agora dos mendigos que iam lá bater à porta da casa da minha avó e sempre encontravam um prato de comida - algo que o meu avô sempre fez questão de lhes oferecer. Houve ainda, penso que no máximo dois anos depois do avô ter morrido, um senhor que bateu à porta a perguntar se ele estava em casa, obviamente gente de fora. A minha avó só conseguiu dizer que não estava... Coube à minha mãe dar-lhe a notícia da morte dele. Pelo que diz a minha mãe, a minha avó juntou as mãos em oração e pediu que a sua própria mãe, a saudosa bisavó Elmira, estivesse com ela naquele momento. Não foi fácil para ela. Perder o seu parceiro na vida foi um golpe muito duro, como também foi, na devida proporção, para todos que o amavam e gozavam da sua amizade.

As longas décadas da ausência do nosso Toninho, no entanto, serviram para transformar a dor da perda na doçura da saudade e no imenso orgulho da sua memória.

O homem gentil, firme, ambicioso, cheio de amor e de alegria que nos deu a vida, que nos transmitiu o seu caráter e o seu exemplo, vive também em nós todos um pouquinho.

Da minha parte, a sua memória serviu (e serve ainda hoje) para ponderar sempre as atitudes mais corretas, para ter força e recordar sempre a importância fundamental da família e do dever de ajudar os que precisam.

Deixo o leitor fazer o seu juízo, fico com o meu. Foi a 18 de Março de 1924 que veio ao mundo o homem mais bem sucedido que eu alguma vez conheci.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Ó capitão! Meu capitão!




Ó Capitão! Meu Capitão! Finda é a temível jornada,
Vencida cada tormenta, a busca foi laureada.
O porto é ali, os sinos ouvi, exulta o povo inteiro,
Com o olhar na quilha estanque do vaso ousado e austero.
 

Mas ó coração, coração!
O sangue mancha o navio,
No convés, meu Capitão
Vai caído, morto e frio.

Ó Capitão! Meu Capitão! Ergue-te ao dobre dos sinos;
Por ti se agita o pendão e os clarins tocam teus hinos.
Por ti buquês, guirlandas... Multidões as praias lotam,
Teu nome é o que elas clamam; para ti os olhos voltam,
 

Capitão, querido pai,
Dormes no braço macio...
É meu sonho que ao convés
Vais caído, morto e frio.

Ah! Meu Capitão não fala, foi do lábio o sopro expulso,
Meu calor meu pai não sente, já não tem vontade ou pulso.
Da nau ancorada e ilesa, a jornada é concluída.
E lá vem ela em triunfo da viagem antes temida.
 

Povo, exulta! Sino, dobra!
Mas meu passo é tão sombrio...
No convés meu Capitão
Vai caído, morto e frio.


Walt Whitman, in: "Recordações do Presidente Lincoln”, tradução de Luciano Meira

Aquele grande homem, no seu ocaso, fragilizado e diminuído pelo combate impossível que travou, vai finalmente descansar. Olhos marejados, suspiros profundos, gente cabisbaixa e nas mãos as contas do rosário, apertadas uma a uma entre o polegar e o indicador, como que para não deixar escapar a vida, em vão... Na imagem final que vai deixar aos que estiveram presentes, fica essa réstia pálida em representação da grandeza daquelas longas décadas em que caminhou pela terra, firmou o passo e deu o exemplo.
Levantava cedo, beijava a mulher, saia para trabalhar. Não vivia só para si, também gostava de ajudar, tentava colaborar, tinha as melhores intenções. Também errava, como todos que se propõem a fazer alguma coisa, mas não se enganava, sabia muito bem para onde é que estava a ir, e o que queria da vida. Com ímpeto suave e persistência implacável, avançou pela vida como um imparável colosso que tudo vence e a todos protege.
Deu amor, fez filhos, deixou amigos e lembranças guardadas na sala dos tesouros do espírito.
Tantas vezes vasculho a memória à procura daqueles momentos que já se foram. Reproduzo, como se fosse num filme, cada gesto, cada sorriso, lembro-me das palavras, e em silêncio balbucio, como se ainda fosse a criança que tentava alcançar o seu queixo com meus dedinhos pequenos...
Tão grande herança, tão grande herança esse homem deixou. Quanto amor derramado por aquelas mãos que incessantemente construíram um mundo próprio, com ideias próprias, e sonhos próprios, onde nós e tantos outros que partilharam do seu convívio fomos convidados a morar. Cada vez que é preciso tomar uma decisão, a moral própria convoca a moral do morto: "O que ele faria?"
As heranças não se contam só pelos alqueires de terra, ou pelas casas, ou dinheiro aplicado… Todas coisas pequeninas em vista do grande porvir. A herança que contará então é a da memória. Na pujança e na disciplina para o trabalho, na retidão da palavra dada, na coragem de correr o risco, na frieza para aplicar a justiça, lá está o homem morto, afinal vivo.
Se a cena final, em que o corpo sem vida deitado num caixão cheio de flores, provocou choro e luto, não deve agora deixar de ser recordada como um convite para honrar aquela vida determinada, com mais vidas determinadas.
Pois o dia passa e vem a noite. Agora o dia é nosso. Podemos sair por aí e ver mundo. Podemos dar beijos apaixonados e escrever poemas. Podemos lançar olhares e dar gargalhadas... E tudo que o morto quer é que nós o façamos. Ele completou o seu ciclo, a nós cabe fazer o nosso, com coragem para viver e cultivar na memória aquela vida que já não há, mas ainda há... em nós.
Nada é mais bonito que viver no pensamento de quem nos ama. Imagina que depois de dezenas de anos da tua morte, teus filhos e netos buscarão na lembrança a tua presença. Dali, como um quadro pintado num tempo esquecido, mas que ainda emociona, tu também emocionarás...
Penso que assim é porque o amor não morre. Ele faz a grande e perigosa jornada, cumpre o objetivo, traz para casa o prémio, e quando dividido, multiplica a vida.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Jeito mineiro de amar


Depois de muito tempo em que o verbo esteve no pretérito imperfeito das minhas próprias limitações, volta ao infinitivo do horizonte presente: amar à nossa moda.
Amor que vi nas rútilas ameias nos olhos anciãos dos meus avós, na resignação e na teimosia (cada qual na sua vez) nos olhos dos meus pais, e hei de ver um dia nos verdes olhos de esperança dos meus próprios filhos.
Aqui não há declarações. As palavras valem pouco ou nada quando se trata de um sentimento fundado na própria razão da vida. O que se diz tem de ser com o olhar, e só assim se sabe mesmo se um mineiro ama ou não.
Dá cá a mão - diz o sentimento reservado, a espreitar e a sorrir comedidamente. Anda comigo para além dos grandes arcos da verdade e entra cá para dentro. No âmago daquele ser, um mundo secreto espera pelo visitante que, incauto, distrai-se pelo inusitado do que não vem cá para fora, e deixa de reparar nas pequenas marcas e fissuras que lá dentro fizeram a feição e o temperamento.
O amor mineiro revela-se, portanto, nessa profunda dicotomia entre o sonho e o trágico.
Do alto das suas montanhas, esse puro amor quer proteger e amparar. Os ódios e as injustiças do mundo não são para ele formas naturais, mas sim produtos de sentimentos menores reservados para os cantos escuros da vida e, assim, incapazes de interferir no seu trajeto sobranceiro, a indicar o rumo da vida. Ama com grande liberdade e profundidade: em toda a extensão do seu peito há um nome tatuado no lado de dentro, escrito pelo bater do seu coração apaixonado. Na sua imensa ilusão, dá pancadas torpes e fortes, marcando fundo o seu sonho, exigindo partilhar o seu encantamento pela beleza do mundo, ou morrer de amor.
Do fundo dos brejos das almas, onde a sua ambição comanda e o seu pragmatismo abre estradas onde antes não havia nada, o amor perece à mercê da espera. O mineiro tem um plano: quer vender seus queijos, precisa de apanhar uma condução para Belo Horizonte, fez amizade com um sócio potencial, rezou para que a Virgem Santíssima lhe dê a bênção para fechar o negócio. Quer muito, e de tanto querer deixa à margem de si mesmo o que tem de mais bonito, justamente porque não o divide com ninguém. Amparado na sua inabalável convicção de que é preciso poupar para o amanhã, sacrifica o hoje no altar das certezas frias, as mesmas que lhe negarão beijos e abraços, e que irão de mão dada com outro, conforme o seu jogo de oferta e procura.
Fosse o visitante mais avisado, compreendendo essa brutal circunstância que nem toda a gente tem o cuidado de entender, talvez ele pudesse fazer o caminho sinuoso que leva até o coração do mineiro.
Qual o veio sonhado, esse coração abre-se à ilusão de pés fincados no chão, e o sonho se realiza.
Penso que para tanto colaboram alguns cuidados e atitudes. Primeiro, há que ter em conta o seu arrepio às precipitações: nada de rompantes por capricho, ou palavras inopinadas: a ponderação, ou melhor, o seu primo aparente, o silêncio, valem ouro (e todos sabemos como o mineiro gosta de ouro). Depois, é fundamental trazer um tanto de encanto, de deslumbramento pela vida, de ilusão um tanto feita de ambição - quem não acredita em si mesmo e não sente a necessidade de se pôr à prova não pode amar à mineira. Por fim, há que escolher com o coração aberto, sem medos, quem nos possa amar. A coragem é ingrediente essencial à mistura. Medo, toda a gente tem... se não tem não é gente. A diferença está no que se faz com o medo e é aí que esse amor exigente pede a sua maior prova, a necessidade de se acreditar e de dar de si incondicionalmente.
Passados pelos arcos dos olhos, visitados os sonhos e as tragédias, testado este nobre e complexo coração, resta ao visitante deixar de o ser para, afinal, ir morar lá dentro do mineiro.
Convém que escolha o seu lugar entre as coisas belas e os tesouros, entre amor à terra, à família e a Deus. Familiarizado com essa tríade sagrada, sossegado quanto às limitações desse espírito sempre pronto para vencer com o carisma dos seus gestos simples e a pujança do seu trabalho discreto, o agora residente vai se dar por satisfeito ao descobrir dentro do outro, ponderado e resiliente, um correspondido amor, também ele, à mineira.

quinta-feira, junho 09, 2016

A alvorada da Nova República

Daqui de longe, na nossa Coimbra antiga, eu tento acompanhar o que se vem passando no cenário político brasileiro, com todas as inevitáveis implicações que estes factos acarretam na economia e mesmo na cultura nacionais.
A primeira impressão (sim, impressão, pois tendo como fonte a comunicação social, mesmo que seja imparcial, é sempre um contato em segunda ou terceira mão com a realidade) que tenho é que nada disso é mau, nem triste, nem é sinal de ruína da nossa ordem constitucional.
É doloroso, isso é claro, mas não significa que não deva ser visto com o grande valor simbólico que faz levantar desde tantas convulsões.
As demais impressões são, portanto, de uma ponderação no significado desses eventos, e não deles em si mesmos.
O impedimento da Presidente Dilma Rousseff, que ainda será decidido pelo Senado Federal, é um sinal de que o presidente da república já não tem aquela majestade de que gozavam os presidentes da República do café-com-leite, ou das didaturas do Estado Novo ou Militar. O impedimento do Presidente Collor de Melo já tinha deixado isso claro, embora não tenha sido tão enfático quanto agora porque Collor não dispunha de qualquer base de apoio política.
Obviamente que não é positivo afastar uma presidente eleita pelo voto direto, no entanto, dadas as circunstâncias em que está a ser processada, os crimes de que é acusada parecem estar diretamente ligados à péssima situação económica do Brasil nesse momento, o que todos os brasileiros conseguem sentir na pele.
À volta da questão principal, estão questões acessórias, mas que são da maior importância. Um ex-presidente da república que é feito Ministro de Estado por razões várias, mas não propriamente coincidentes com o interesse público, um Ministro de Estado da Justiça que faz insinuações de ameaça à Polícia Federal, um Advogado Geral da União que, deixando de lado a sua elegância pessoal, abraça uma defesa por ideologia político-partidária, instrumentalizando um órgão federal pensado para defender a União Federal, e não propriamente a Presidente da República.
A movimentar todo esse panorama imensamente sensível, está a operação Laja-Jato da Polícia Federal de Curitiba. Despoletada desde uma investigação sobre corrupção na Petrobrás, a força-tarefa da operação tem utilizado do novo mecanismo da delação premiada para obter espantosas evidências probatórias contra figuras de primeira linha da administração da pretolífera estatal e mesmo dos Governos Federais desde 2003.
A perda de mandato do Senador Delcídio do Amaral por ter tentado subornar um dos delatores, aparentemente em cumprimento de orientações do Partido dos Trabalhadores de que era filiado, foi apenas uma das consequências propriamente fantásticos desta operação.
Há dois dias, no entanto, uma das mais poderosas cúpulas políticas do Brasil foi atingida de frente pelo pedido de prisão pelo Procurador Geral da República Rodrigo Janot ao STF contra o ex-presidente José Sarney, o Presidente do Senado Renan Calheiros, o Presidente Interino do PMDB Senador Romero Jucá, fundamentado em evidências de que estariam a conspirar para enfraquecer e esvaziar a operação Lava-Jato.
Outros eventos que estão também vinculados a esse momento devem ser lembrados: a iniciativa do Promotor Dallagnol, coordenador da força-tarefa do Ministério Público no âmbito da operação Lava-Jato, em entregar ao Congresso Nacional um pedido de alteração de lei contra a corrupção desde a iniciativa popular também indica o mesmo caminho.
Outro símbolo que não se deve perder (este de enorme estatuto moral): as faixas verde-amarelas amarradas às árvores em frente à Polícia Federal em Curitiba, os laços verde-amarelos com que foram reunidas as mais de 1,5 milhões de assinaturas em favor do projeto de lei com as 10 medidas anti-corrupção.
Tudo isso é a alvorada da Nova República que foi anunciada por Tancredo Neves.
A nossa ordem constitucional não está a cambalear, ela está a afirmar-se. Não há ruína político-institucional no Brasil, o que estamos a ver é uma interpolação de regimes para além da constituição escrita, é a constituição a impor-se às velhas práticas da conveniência e da corrupção que se achavam imunes aos princípios. É em boa medida uma interpolação de gerações com mentalidades diferentes.
Filhos da Nova República, Dallagnol e seus pares não cresceram propriamente numa ditadura. Foram educados sob os princípios democráticos da presente ordem constitucional que tenho certeza que irão defender a qualquer custo.
De um lado, a geração e a mentalidade que está a ser vencida, em que um Ministro de Estado da Justiça, oriundo do Ministério Público, ameaça a Polícia Federal, de outro a geração que condena essa mesma mentalidade e quer fazer valer a Constituição Cidadã, propondo leis anti-corrupção de iniciativa popular e implicando criminalmente uma das mais poderosas cúpulas políticas do país, que pensava que os princípios constitucionais não se aplicavam a eles.

terça-feira, maio 17, 2016

O jardineiro dos sonhos

Há quase dez anos eu disse adeus a tudo e a todos para vir viver o sonho. "Não chorem por mim, não façam da minha ausência uma ponderação para a tristeza", pedi-lhes em vão.
Recebia-me a capital do Reino Unido naqueles meados de Agosto de 2006 com a costumeira chuva de verão inglesa.
É crucial relembrar um episódio daqueles primeiros dias. Trata-se da circunstância em que estupidamente perdi o meu guarda-chuvas Ferreti, um exemplar objeto de uso da fidalguia de Belo Horizonte. Num desses dias de chuva, após entrar num autocarro inglês de dois pisos, vermelho, como é óbvio, resolvi pousar o gancho do guarda-chuvas na barra de apoio em frente ao meu assento. Ao chegar ao ponto de desembarque, pelo susto da novidade de tudo, não deu outra: esqueci da vida e lá deixei o Ferreti: fui-me embora fazer-me inglês.
Em que pese esse simbólico abandono de Minas, no entanto, a Inglaterra tratou a minha inocência com candura e paciência. Fui muito bem recebido. Os ingleses gostam de trabalho e comprometimento, e nos estudos que me propus a fazer, e também nos meus part-times, da mesma forma, tentei ser sempre diligente, e assim também já não era um estrangeiro a mais, mas alguém que comandava algum respeito e, ao ser dada a liberdade, alguma confiança. Com a ajuda de Deus, eu alcancei todos os objetivos que ambicionara ao chegar à Inglaterra, mas não venci em tudo.
Há quase dez anos, quando troquei completamente de vida para ir experimentar algo novo, eu pensava só em cumprir o sonho. Que bom é ter coragem de se viver o próprio sonho! Olho para trás e vejo o quanto já fiz na minha vida e consigo encher toda a caverna do peito de orgulho. Sem sobrar espaço para arrependimento nenhum, eu, e apenas eu, para além do nosso Senhor, no entanto, sei o que custou. Eu também perdi.
Penitenciei-me imensas vezes, e ainda hoje o faço, por todo o sofrimento que causei a vós, família e amigos brasileiros, e a tantos outros que, sem eu próprio devotar grande amizade, sempre tiveram por mim grande carinho e consideração, e amargaram também um pouco a minha ausência.
Aos amigos que ficaram, à minha linda família, digo-vos com grande susto: custa voltar e vê-los sempre mais velhos! É como se os nossos entes mais chegados envelhecessem de repente 10 anos, é brutal para a impressão visual desacostumada. Mas deixando de lado as brincadeiras, amo-vos, minha gente linda. Sóis o que de melhor a vida me deu até 10 anos atrás e isso não é pouco, é mesmo a maior parte da minha vida!
Eu não morri, no entanto. Vivo aqui no nosso Portugal dos antepassados, como eu insisto em chamá-lo, a fazer o meu percurso de uma maneira nova, uma vida nova. Não é uma vida em substituição à vida antiga, como se desta eu quisera livrar-me. Não pensai assim, pois não é verdade... É uma vida nova que responde a um chamado profundo que sempre houve dentro de mim, que pedia para avançar para mais além. Eu precisava de descobrir um mundo maior do que aquele que vós me havéis dado e do qual eu sou muito grato.
Agora eu sou capaz de olhar para trás e reconher que precisava de conhecer um mundo novo, um lugar em que os limites da minha própria origem fossem levantados, e onde eu pudesse ver o que valia para além do que já sabia, para além do que estava já à minha espera.
Eu paguei o preço: não pensem que o orgulho significa alegria. O orgulho é justamente a satisfação de ter vencido o sofrimento, a incerteza, a saudade e a angústia por acreditar em algo maior e mais valoroso que tudo isso. Foi o que eu sempre tentei fazer: pôr as situações contingentes em perspectiva e não permitir que alterassem as minhas convicções íntimas sobre mim mesmo e o meu destino. O pesar pelos retrocessos nunca foi maior que a vontade de superar essas dificuldades. A Inglaterra soube reconhecer esta atitute e cá no nosso lindo Portugal também a mesma postura tem sido, vez após vez, ano após ano, saudada com respeito e elevada pelos meus pares, pelos meus amigos, e até pelos meus conhecidos.
Não quero despedidas, porque até onde me disseram, a ponte do retorno não cai de velha ao se completar dez anos de exílio. Quero, isso sim, que os que ficaram para trás tragam-me na lembrança com o mesmo carinho que tenho por eles, e que eu possa estar presente na vida deles de formas diferentes enquanto a presença física não é possível.
O meu testemunho, talvez convenha esclarecer, não é um grito à emigração. O nosso país basta e provém a todos e mesmo aos estrangeiros, todos sabemos bem. Não foi por ser preciso que eu parti... No entanto, o meu apelo poderia ser o de ter coragem para viver em liberdade. O que mais quero, ó meus queridos amigos, é que vivéis as vossas vidas sem medo, e não deixéis para o amanhã indefinido a crucial importância de viver o sonho e trazê-lo, às custas que forem, ao sangue que se pedir de vós, à realidade.
O meu mantra nesses dez anos não foi o impetuoso "não te permitas fracassar", mas sim o prudente "não deixa que cresçam ervas daninhas no campo dos teus sonhos".
E por isso mesmo, caros amigos leitores, que ao cabo de quase dez anos, e se calhar para todo o resto da vida, assumi mais essa profissão de fé: ser um jardineiro de sonhos. Sóis todos bem vindos a juntarem-se à minha guilda.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Mon Brel




Ainda muito pequeno ouvia os discos franceses de minha mãe e ficava a adivinhar o que estavam a cantar. Tentava ir aos picos da voz, ao carinho, tristeza ou saudade que poderia identificar no tom de voz para interpretar aqueles hinos magníficos ao espírito e à grandeza humana. Havia lá algo de grandioso que fascinava-me enormemente. 

Parece-me que muito desta impressão estava já em Jacques Brel, já que a grandeza de espírito pode mesmo consumir a vida na sua própria ascenção para ir ter com o divino.

Figura incontornável da canção francófona, este belga de mãe francesa tinha um olhos acesos de poesia que incendiavam todos quanto os que olhavam para dentro daquela alma a pingar paixão para todos os lados.

Já no fim da minha adolescência comecei a percorrer as imperiais avenidas da cultura francesa, sobretudo a sua filosofia, pintura, e sobretudo literatura e música. Das grandes delícias que a alma experimenta ao encontrar as suas primas francesas de todos os tempos, Brel despontou na minha vida com um vigor de intensidade que para mim aponta para a verdade.

Quand on a que l'amour é das canções mais belas deste mundo, mas Brel não se resume a ela apenas, há Les Bourgeoises, Ne me quitte pas, Valse a mille temps, Ce gens-là e aqui acima uma versão exemplar de Les bonbons de 1967.

Nos momentos mais duros e de grande desgaste do espírito, pude encontrar satisfação e paz na expressão francesa para a arte, na grande França imortal que inspirou todo o mundo contemporâneo a sonhar e a viver a felicidade com grandeza e vigor.

Mon Brel, mon cher ami, que falta não fazes ao nosso mundo, mas que bom é podermos voltar a ouvir-te e ver-te e encontrar no teu testemunho passado a esperança e o amor que são naturalmente humanos e que pedem-nos com olhinhos humildes de mendigo para lhes darmos um pouco de atenção e cultivá-los no espírito para a nossa própria dignidade e felicidade. Trata-se dos instrumentos mais úteis e eficazes para conhecermo-nos a nós mesmos e assim encontrarmos corretamente o nosso lugar do mundo. A ignorância destas virtudes e do cuidado que devemos ter com elas é um caminho certo para a infelicidade, para a destruição e para o niilismo.

Passada a minha infância, alguns anos mais tarde, ao aprender francês propriamente, fiquei contente de ver que muitas (mas não todas) das minhas versões de apreensão da música francesa estavam corretas afinal. Parece-me claro neste momento a razão de ser desta feliz coincidência: é universal o desejo humano de grandeza, de amor, de partilhar a dor e a alegria, de crescer e ser para máximo do nosso potencial.

Oxalá assim seja para vós todos, leitores destes escritos! Oxalá a vossa vida seja plena e feliz. É o meu desejo, e também seria o do nosso Jacques Brel.

terça-feira, novembro 25, 2014

O canto do cisne

Chovia muito, fazia algum frio, não muito. Era ainda o início do outono em Coimbra e os humores de futricas e doutores encontravam-se divididos entre a perspectiva do aperto das contas e a perspectiva dos exames. Havia mesmo muita tristeza nos olhos das pessoas nas paregens de autocarro - o tempo a escorrer conforme a chuva que caia sem descanso e o transporte que já não chega a horas.
A perspectiva do tempo ganhou uma dimensão completamente nova para mim quando se olha de frente para o que se quer fazer e, noutro lado, os recursos que tempos para a empreitada.
Quando eu era ainda miúdo fui a Ouro Preto com uns bons amigos da altura. O nosso propósito era participar de um encontro, mas rapidamente pudemos ver que havia muito mais ali do que aquilo. Uma cidade antiga, com um céu que não nos compreendia, nas palavras do poeta.
Formávamos já há algum tempo um grupo destemido de rapazitos em busca de ser vistos como homens. Por vezes íamos às festas universitárias e queríamos nos passar por "doutores", alguns mais atirados a pingar amor para todo o lado.
Em Ouro Preto tudo isso assumiu uma feição mais íntima, uma lua imensa iluminou as pedras antigas e no dia seguinte já não havia rapazitos, mas homens. Como o mito do lobisomem, o transcurso de uma noite com lua cheia serviu para mudar, mas no nosso caso a transformação foi no coração e no pensamento.
Estávamos todos a conversar animados após o jantar e havia já quem propusesse grandes teses sobre a igualdade e outros sobre a tolerância e o amor. Eu da minha parte acompanhava o brilho dos olhos. De alguma maneira sentia-me estranhamente em casa. Aquele ambiente, aquela gente, aqueles cheiros, tudo parecia algo próprio de mim mesmo.
Depois do café, fomos todos para a Praça Tiradentes para ver o movimento, à mineira e à antiga. Não havia lá muita gente para além dos estudantes e dos turistas. Havia duas raparigas alemães que não percebiam o que era o barroco e um dos meus amigos - por sinal, ainda hoje voluntarioso e falador, quis ser o porta-voz das tradições. Mais hora, menos hora, fomos todos ficando amigos.
Senti-me estranhamente dono da minha vida. Sentia o frio vento da noite ouropretana a bater-me no rosto e a deixar um pouco de mim mesmo naquele vento que passava: podia ser tudo que quisesse na vida.
Hoje recordo que ainda há poucos meses regressei a Ouro Preto e novamente senti-me em casa. Já não era o rapazito ansioso para ser homem, já agora um homem a fazer-se à vida. O antigo sonho de ir para engenharia de minas ficou em Ouro Preto, guardião das minhas memórias de adolescente e das minhas ilusões de rapaz.
Há algo que não se pode trocar, nem comprar e nem vender? Ouro Preto disse-me que sim, há o tempo.
Tu não me escapas, vida minha. Tenho ainda a juventude de quem se pode lançar com toda força e é o que hei de fazer. Os horizontes estreitam-se, mas nunca se hão de estreitar para que possa fazer a coisa certa e ser justo com os outros.
Valham-me as tristes e chuvosas tardes de Outono da minha velha Coimbra, pensativa e generosa à espera de que o enigma do tempo que eu um dia quebrei em Outro Preto seja também quebrado por mais gente e de que os dias sejam usados para maior proveito do que realmente vale a pena: amar, sonhar e estar com quem se gosta.

sábado, maio 24, 2014

Baden

                                                 
  

Ao ver o vídeo acima, fica clara a razão pela qual Vinicius de Moraes estimava tanto a parceria com Baden Powell. Doce, meigo e muito humilde, o grande Baden transmitia uma serenidade indizível. Assombra-me sempre ver os seus vídeos e a sua magistral habilidade com a guitarra a sua desenvoltura para criar e reproduzir música com uma instintividade só superada pela sua dedicação ao aprimoramento: eis o talento prestigiado pelo trabalho, qualidade tão rara nas sociedades humanas.

Lembro-me da primeira vez que ouvi o Baden a tocar, foi em casa de um amigo num sábado antes do almoço. "Vamos ouvir o Baden" e eu a achar que o fundador do escotismo tinha também dotes artísticos! Daí em diante ficamos imenso tempo na conversa, à volta dos tira-gostos e das bebidas, a ouvir Baden Powell e a desfrutar do bom convívio.

Baden representa mesmo o melhor talento artístico brasileiro, pois está alinhado nas melhores tradições populares, ainda assim extremamente sofisticado, rico em suas diversas variações e docemente triste. Quanta beleza!

Tímido, reservado e de poucas palavras, Baden construiu a sua carreira sem forçar o seu caminho, em verdade foi o caminho da fama e do sucesso que se abriu para o talento e a dedicação que tinha com a música.

Admiro profundamente o seu talento e a sua personalidade, sobretudo se for verter os olhos para o grosso da classe musical dos dias que correm.

Nesse sentido, há uma comparação que o cantor e compositor Marcelo Camelo faz entre os músicos, ou seja, quem faz música para dar alguma coisa às outras pessoas, e os que pretensamente assim se chamam enquanto fazem música para tirar alguma coisa às outras pessoas.

Embora não seja em si o agreste do talento e do caráter da classe musical que o faça grande, Baden se destaca pela facilidade com que se identifica na obra dele a verdadeira música, e assim é que se confirma a regra que Camelo quis estabelecer e que reflete o verdadeiro respeito pela música.

A este grande músico, que muitas vezes ocupa o silêncio das minhas horas de estudo e engrandece a minha vida, a minha pequenina homenagem, o meu gesto de gratidão.


                            

segunda-feira, março 03, 2014

Um mineiro chamado Raul Agostinho


Tinha então 19 ou 20 anos e encontrava-se já casado e dominado pelo sonho de fazer fortuna. No seu sangue, corria plena a ancestral ambição mineira de enriquecer e regressar ao Reino. O meu avô já nem sabia disso - tantas gerações passadas, já Portugal fora em muito esquecido da memória coletiva: mortos os parentes, passado o tempo, não havia mais para onde voltar - todavia, lá estava o sonho, intacto e dominador, a mandar ir à frente. E ele foi.

Ao casar, recebeu do pai uma carrinha e vivia em uma casa arrendada. Fazia então os seus fretes para ganhar uns trocos e, sempre muito conversador e conhecedor das gentes da terra, ficava atento às oportunidades de negócio.

Numa destas conversas, ficou a saber que havia um senhor de idade, dono de umas boas terras lá próximas das dele que queria vendê-las. Já estava velho e sem saúde para cuidar daquilo, queria mesmo era ir para o Rio de Janeiro ter com os filhos que lá já viviam e assim terminar em paz os seus dias.

Terra por terra, havia muitas à venda, mas aquelas terras eram especiais. Os entendidos diziam haver lá abundância de mica para tirar da terra. A mica - termo de origem latina que significa "brilhante" - é um mineral com divisal basal altamente perfeita, muito útil para a fabricação de condensadores e isolantes elétricos devido às suas propriedades naturais.

O velho disso tinha alguma ideia, mas não tinha certezas - e nem energias para explorar aquilo. O avô fez-lhe uma oferta boa, mas o velho disse que tinha que subir um pouco. Tendo em conta a boa oportunidade - que não era certa! - o avô vendeu a carrinha e apanhou dinheiro emprestado com toda gente que conhecia, inclusive no nome do pai.

Compradas as terras, para lá se mudou com a sua jovem esposa. Foram viver na pequena choupana onde tinha vivido o velho, sem luz, sem água, mas com muito amor, da parte dos dois, e vontade de enriquecer, sobretudo da parte do meu avô.

Sendo filho de boas famílias da terra, os trabalhos brutos e físicos não eram propriamente trabalhos que faria. Mas nunca teve medo de trabalhar, e o sonho ardia demasiado intensamente para se dizer que não ao que quer que fosse: faria o que fosse preciso.

Passavam-se os dias, o avô saia cedo, antes do sol, para ir abrir a sua mina. Trabalhava duro, com a pá e a picareta, em busca do seu tesouro. A avó ia pelas 10:30hs levar o café e também lhe dava algum afago - o trabalho nas minas não era fácil.

De volta à casa ao fim do dia, muitos calos nas mãos, a pele coberta de terra, as unhas sujas, e mica nenhuma. Já começavam a apertar os credores. O pai que lhe chamava a atenção por ter colocado o nome dele na praça à custa de sonhos tolos, a mulher também não andava feliz com aquela vida cheia de privações: era a pressão a subir-lhe pelos calcanhares, mas o avô não a deixava assentar.

Mais tarde na vida, pude ver com os meus próprios olhos a fibra e a fortaleza que habitam o avô. Diante da morte brutal de um dos filhos, guardou o semblante sempre sereno, pronto a confortar. Não vergou nem um centímetro, e não por orgulho tolo, mas porque sabia que tinha de ser o esteio da família, a coluna mestra daquela casa emocionalmente destroçada, que ele não deixaria vir abaixo. Pouco sabia então que aquela hombridade vinha de muito antes.

Aos credores: já vão ser pagos; ao pai: tem paciência que o teu nome tem boa reputação; à mulher: ao menos temos a fé no Senhor e um ao outro. E trabalhava: dia a dia, a parar aos domingos, cravava na terra a sua picareta, tirava as sacas de terra da mina, sempre com um mesmo pensamento de vitória.

Ao fim de um longo dia, já com os músculos dos braços a tremer (acumulava-se-lhe o ácido lático nos músculos fatigados), ficou na mina já depois de escurecer. Tinha em si um impulso de continuar. Em casa a mulher a rezar: o que se passa com o Raul que nunca mais chega?

Batia a picareta contra o fundo da mina, alguma sobra de mica já a tinha visto, mas onde está o generoso veio que andava já há meses a procura? A dúvida alimentava o corpo cansado, batia, batia, batia a picareta contra a terra. Atrás de si, um lampião mal iluminava aquele mundo subterrâneo.

Afinal, a picareta encontrou resistência e avançou quase nada. Há aqui rocha, pensou. Retirou a terra com as mãos, sentiu a rocha, era lisa, como lisas são as partes de mica, finíssimas películas sobrepostas - o seu coração saltou, mas ainda não via. Deitou água para cima daquilo, limpou com as mãos e chegou o lampião junto ao fundo da mina e o que viu ele disse-me uma vez com os seus bonitos olhos verdes a brilhar: "vi o meu reflexo e sorri como um louco!".

O avô tinha encontrado o maior veio de mica até então conhecido. Basta dizer que pagou as dívidas todas na semana seguinte a descobrir o veio e ainda comprou camiões para carregar aquela mica toda - despachada para o Rio de Janeiro e depois para o estrangeiro.

Enriqueceram muito. Teve uma vida boa, comprou terras, cultivou café, criou gado, depois, mais tarde na vida, perdeu dinheiro nos seus negócios de compra e venda de terras, ao ponto de ter de ir viver para as terras herdadas pela mulher, o único bem que havia sobrado. Ainda naquele momento mais baixo, que eu rapazito pude ver, manteve sempre mesma integridade e consistência: voltava a trabalhar duro com o mesmo sonho de enriquecer, não esmorecera em nada.

Raul, este nome que para mim diz serenidade, calma ao falar, pensar rápido e à frente dos outros, esta designação que é tão próxima do meu espírito e da minha forma de ver o mundo, sob o signo da justiça e com força e pujança para o trabalho, esta fortaleza da família, esta beleza indizível na forma de amar sem declarações que eu tanto aprecio e que tão bem sabe - por ser verdadeira.

Este nosso Raul Agostinho (o Agostinho é herança do pai, que era António Agostinho; o avô chama-se Raul António), completou agora há duas semanas 80 anos. Os meus parabéns, avô. Deste-me com a tua vida o que ninguém mais me poderia dar. Herança minha de que tenho imenso orgulho.

sexta-feira, janeiro 03, 2014

Ano novo, novos sorrisos


Ainda ontem estive a ver um documentário sobre o natal na Inglaterra no tempo dos Tudors e de tudo, fascinou-me ver como naquele tempo, portanto, na idade média, o natal era já uma festa que seguia as tradições pagãs de festejar o solstício de inverno no hemesfério norte, o dia 22 de Dezembro.
Estas festas tinham por objetivo animar um pouco as pessoas, já que esta também é a época do ano com menos luz do sol, dias curtos, noites longas, frio, chuva, mau tempo enfim...
Havia, deste então também, festas e brincadeiras que marcavam o fim do ano e o início de um novo ciclo.
Ora bem, o ciclo 2014 já começou. Vamos lá ver como segue para todos nós. Fazemos os esforços, mas, honestamente, ninguém sabe o que vai acontecer.
E isso é bom! É tempo de fazer melhor e de fazer mais. Todavia, nem sempre se sabe como fazê-lo. Talvez o mais fácil seja apenas esperar pelas coisas, ver como vão acontecer. Afinal de contas, o destino estaria já traçado...
Eu não penso nada assim. Acredito que nós estamos no comando das nossas vidas e podemos e devemos dar-lhes o rumo que acreditamos ser o certo. Orientar a vida é uma coisa (e já é muito, por vezes), mas a orientação certa a dar, bem, daí já é diferente.
Há quem se baseie apenas nas suas necessidades e desejos, bricam com a religião (na qual não acreditam de verdade), são educados com os outros, mas no fundo não se importam muito com os outros. Esses são os que costumam fazer o mal e o fazem porque esta filosofia gera infelicidade e gente infeliz faz os outros infelizes.
Penso que uma boa orientação para 2014 é ver que a felicidade está, na verdade, no bem que fazemos aos outros. Não me refiro apenas à caridade, penso sobretudo a transferir esta intenção sincera na execução do trabalho: saber envolver as pessoas com quem trabalhamos com confiança no que fazem, interesse pelo que são, cooperação bem intencionada com o que precisam. Antes ainda, pode ser bem aplicado na família, com aplicação da paciência para perceber e apoiar uns aos outros, sem brutalidade e ou frontalidade desnecessária. No entanto, se ainda houver aí boa disposição para dar o passo à frente, a caridade é uma linda opção.
Os ingleses dizem que a caridade começa em casa, mas eu acho que a caridade começa mesmo com nós próprios. Ora bem, isso pode parecer estranho de dizer, já que lá acima eu não quis ir pela via do egoísta, mas na verdade, a caridade é um sentimento sempre voltado para fora. Ao termos caridade conosco próprios, estamos na verdade a tentar perceber o que há em nós que pode ser dado aos outros.
Eu gosto de partilhar as coisas belas que vou descobrindo pela vida. A poesia é maravilhosa, e gosto de dividi-la com os amigos e com a família, mas também é preciosa a habilidade de saber tratar as pessoas, de valorizá-las, estimulá-las. Podemos mudar a vida das pessoas ao mostrar-lhes do que são capazes, o que podem fazer se tomarem a decisão de se desenvolver e se tornar melhores.
Eu espero que em 2014 possa aprender a ser um homem melhor do que sou hoje. Ao cabo destes novos 12 meses à nossa frente, que possamos todos ter a coragem necessária de aprender e corrigir o que for preciso. Partilhar esta viagem convosco, amigos e familiares, faz deste novo ano o melhor de todos. Vamos juntos fazê-lo valer.

sexta-feira, setembro 13, 2013

A força e a juventude

Antes não ligava muito às mortes dos meus parentes. Rezava e ficava triste, mas não pensava muito, não entrava nos meandros do tempo que tinha passado. Todavia, algo neste concluir do livro da vida acaba por fazer sentido para a minha vida, sobretudo quando quem se vai fá-lo ainda na juventude.
O Fabrício, o meu primo de 2.º grau que faleceu no sábado, tinha apenas 37 anos de vida.
Dele, falam-me as lembranças de infância quando o meu primo mais velho capitaneava as brincadeiras na quinta do bisavô. O rio que contornava aquela península da manhã da vida era a fronteira e o destino preferido das pescarias e brincadeiras. As longas tardes a caçar nas altas mangeiras à beira do rio as mais doces mangas da vida - pequenas e cheinhas, como cá em Portugal se diz que tem de ser as sardinhas e as raparigas.
Ele avançou para dentro da vida adulta antes que eu. Começou já com o divórcio dos pais e a partir daí, uma adolescência de rebeldia e insubordinação. Afrontado pela vida, restou-lhe também afrontar de volta. Virou homem assim de uma maneira algo estúpida, com os sentimentos contorcidos num mar de confusões e alguma tristeza escondida.
A força e a juventude encontraram boa expressão naquele rapaz bonito e sorridente. Gostava da bola, como todo rapaz da sua idade, e era afixionado pelo Flamengo - predileção que não é a minha, mas que tem alguma popularidade na família da minha mãe - e pelas raparigas bonitas, com as quais teve sempre muita popularidade.
Nem força, nem juventude e nem beleza foram capazes de confortar aquele coração solitário e aquela mente perturbada pelas tristezas com que fora obrigado a crescer.
No ímpeto da rebeldia, foi fácil às más companhias encontrarem nele alguém que lhes desse ouvidos e ele próprio, se calhar, passou a ser chamado pelos outros de "má companhia". Todavia, nunca fez mal à ninguém deliberadamente, senão a si mesmo.
A indisciplina, a rebeldia e a falta de orientação lançaram-no para uma vida de mediocridade em que, por pura sorte, acabou por esbarrar na futura esposa, talvez a pessoa que mais tenha verdadeiramente acreditado nele. Deu-lhe uma filha linda e viveram juntos até que ela também já não conseguia aguentar mais os abusos daquela alma atormentada.
Depois desta separação, perambulou pelo mundo mais uns poucos anos, provavelmente ainda mais triste, até encontrar a doença e a morte numa cama de hospital.
Lembro-me vivamente da última vez que o vi. Graças às cunhas da mãe, estava na altura a trabalhar na câmara da nossa terra, fora designado para um dos espaços públicos de recreação, numa função subalterna. Via-se tão envelhecido e tão triste, que custou-me muito sorrir-lhe e ir apertar-lhe a mão. Não estava desgostoso de cumprimentá-lo, mas sim triste de vê-lo naquele estado, era umas sobras do homem rijo e bem feito que um dia fora. Parecia, desde então, acabado para a vida. Mesmo naquele dia pensei com todo o coração o que poderia fazer por ele, o que estava ao meu alcance... mas a viver aqui tão longe e a cuidar também eu das minhas coisas, não pudia fazer muito a não ser dar-lhe ali uma palavra de amizade e o meu sorriso com carinho. Assim fiz ao meu primo, despedi-me daquela vez sem pensar que poderia ser a última, mas foi mesmo.
Uma vida interrompida guarda sempre o mistério da questão: e se tivesse sido diferente? E se quando pequeno não tivesse sofrido com os pais que teve? E se tivesse tido melhor orientação na adolescência? E se tivessem lhe aconselhado emigrar e deixar aquelas coisas da terra que o chateavam para trás? Ora, ele próprio também escolheu os seus caminhos, isto é válido para todos nós, chama-se livre arbítrio, todavia, muitos outros também ajudaram a empurrar-lhe para a avenida dos dias contados.
Tenho rezado pela alma deste meu primo. Desejo que possa descansar em paz e que a sua filhinha cresça para uma vida feliz que o pai, mesmo a amando muito e de coração, nunca poderá ver.

sábado, junho 29, 2013

Aos que tripudiam da vossa memória

Que resta depois da morte senão a memória do que se fez e do que se foi? Pouco ou mesmo nada, diria eu.
Assim sendo, quando muito se faz, mais ainda se justifica que seja lembrado e reverenciado pelo legado de uma vida e de um sonho.
Tenho especial predileção pela memória de Dom Pedro IV de Portugal e I do Brasil. Mais do que um príncipe, por si só, foi mesmo alguém que, tendo a posição e a condição de transformar, o fez sem pensar duas vezes, uma vez consultada a voz da sua consciência.
Libertou o Brasil daquelas pretensões mesquinhas e verdadeiramente estúpidas das Cortes Liberais, indo mesmo ao ponto de separar para sempre o novo país de Portugal. Estabeleceu um novo Estado, deu-lhe a sua feição inicial e, sobretudo, a sua constituição. Na outra parte da sua vida, já de volta a Portugal, libertou o país do absolutismo tirânico que massacrava o reino com intolerância e violência, restaurando (ou mesmo implantando, como alguns defendem) uma ordem constitucional e seus valores intrínsecos.
Mesmo tendo sido um herói de tal grandeza, mesmo tendo atingido, ao cabo de apenas 36 anos, tantas e tão enormes façanhas nunca mais igualadas por ninguém em proporção e significado histórico, mesmo assim, tem a sua memória vilipendiada e o seu legado menosprezado.
A independência acusam-no de tê-la feito por estar sob a influência de José Bonifácio. Esta insinuação de que Bonifácio seria um seu mentor sempre o perturbou imenso. Pedro tinha um génio muito forte e foi educado para ser um homem honrado e leal - por toda a vida viveu por estes princípios. É óbvio que não era somente a vontade dele, era a vontade de todo um povo que ele soube ouvir. Bonifácio teve influência? Sim, claro que sim, era dos homens mais influentes daquele momento. Porém, não cabe apontar para qualquer indecisão por parte de Pedro quanto a isso. Romper com Portugal era para ele uma questão muito difícil, pois significava romper com o seu pai, o Rei de Portugal, pessoa a quem jurara lealdade e estava afeto por fundos vínculos de amor filial.
Recebeu, no entanto, com ânimo sereno os abaixo-assinados de milhares e milhares de brasileiros de São Paulo e do Rio de Janeiro de que não se cumprissem contra a vontade do Regente as ordens das Cortes, o que por si só insinuava o grito popular pela independência. Quando decidiu ficar no Brasil no famoso 9 de Janeiro, penso que já estava na antessala da libertação do Brasil, então decidida no seu coração. Sentia-se amado e querido pelos brasileiros, e pelo amor que lhe era dado, nunca deixou de corresponder.
Fez a independência e cunhou, ele próprio, a expressão "independência ou morte". As cores verde e amarela, consideradas as cores nacionais do Brasil, foram também por ele acolhidas em representação da sua Casa de Bragança com o verde, e da Casa de Habsburgo de dona Leopoldina com o amarelo.
Tomou para si a Nacionalidade Brasileira, rejeitando a sua nacionalidade de origem, facto que perdurou por toda a sua vida, mesmo quando estava à frente do governo de ditadura para restaurar a ordem constitucional em Portugal e como regente em nome da sua filha a Rainha D. Maria II - nunca negou a nacionalidade brasileira.
Causa-me grande tristeza que venham aí uns professores de história (sabe-se lá onde obtiveram as suas licenciaturas!) que dizem que Pedro era português. Pedro foi português até a independência do Brasil, depois disso e, repito, para o resto da sua vida, foi brasileiro, condição que nunca negou.
As condições para que tivesse a nacionalidade brasileira são claras e justificadas: tendo vindo de Portugal ainda na infância, aos 8 anos, foi no Brasil que cresceu e se tornou homem. Foi no Brasil que fez as suas cavalgadas e conquistou, pela primeira vez a montanha do Corcovado do Rio de Janeiro onde hoje se encontra o Cristo Redentor. Foi no Brasil que Pedro amou e sofreu por amor. Foi no Brasil que se casou, e teve quase todos os seus filhos (a única filha nascida fora do Brasil - não em Portugal, mas sim na França - foi a princesa Maria Amélia). No Brasil apoiou seu pai contra as brutais pressões das Cortes Liberais, ganhando aí sua confiança e começando desde então a participar nos assuntos do governo do Reino Unido. No Brasil viu o sentimento nacional aflorar frente às imposições abusivas e prepotentes das Cortes Liberais em Lisboa, tendo então tomado para si a condição de verdadeiro herói ao desafiar a guarda que o acompanhava, também ela leal ao Rei de Portugal, e a desafiá-la a matá-lo ou a morrer pela espada dele, ali junto ao Ipiranga, caso não se fizesse naquele momento a independência do Brasil.
E assim, como fez Alexandre, o Grande, com o nó górgio, Pedro de um só golpe libertou o Brasil e criou um novo Estado, ao qual dedicou-se completamente para que realizasse o designo que acreditava ser o dele: mantê-lo unido e feliz, sob o signo da Justiça.
Por ímpetos das juventude e pela mesma força de caráter que lhe serviu bem em momentos críticos, não foi unânime sempre, é bem verdade.
Por conta desses rompantes, no entanto, querem imputar-lhe uma outra inverdade que é a da imposição da Constituição brasileira de 1826.
Não há disputa de que esta Carta foi outorgada, ou seja, dada ao povo pelo poder executivo, e não promulgada, oferecida pelo seu poder legislativo. Porém, não se queira com isso dizer que a Constituição do Império do Brasil foi imposta aos brasileiros, pois aí reside uma profunda injustiça com o seu processo histórico e com o seu valor enquanto diploma legal.
Antes de mais, é preciso perceber que o parlamento do Império no período que se  seguiu à independência vivia ainda um momento de convulsão política que já vinha deste o tempo em que se preparava a independência. Um novo país surgiu e era tempo de dar-lhe feição. Esta oportunidade única por vezes distraia os legisladores do verdadeiro objetivo, que era promulgar a Carta Constitucional, e assim perdiam-se em discussões, por vezes comezinhas, que em nada dignificava a grandeza da função que lhes tinha sido confiada. A discussão de fundo, no entanto, tinha que ver com o conflito entre a ideologia liberal do anteprojeto e a posição radical de alguns constituintes.
Assim sendo, observando uma demora completamente injustificada e prejudicial para a elaboração e votação da Carta, o Imperador considerou que deveria intervir. Dissolveu a assembleia e formou uma comissão a que encarregou de terminar os trabalhos.
Uma vez que a Constituição ficou pronta, não coube ao Imperador impô-la sem mais aos brasileiros. A Carta foi submetida à plebiscito em todas as Câmaras Municipais do Brasil, com destaque para a do Rio de Janeiro, onde foi aprovada com elogio.
Nenhuma outra Carta constitucional deste período foi aprovada com tamanha participação dos representantes do povo.
Cabe comentar ainda de outros episódios da vida de Pedro que parecem por vezes enevoados, como as rebeliões contra a união do Império e a forma como reagiu às mesmas, ainda quanto aos seus muitos amores (uma feição que é objeto de frequente caricatura e flagrante exagero quanto à sua vida sexual).
Cabe aqui dar uma palavra sobre dona Leopoldina e uma outra sobre dona Amélia.
Dona Leopoldina foi uma princesa com valores e ideais verdadeiros. Amava o Brasil e acreditava em todos os sonhos de construção de um novo país. Foi uma das pessoas mais importantes para a independência, pois também influenciou Pedro à sua medida.
Tinha, porém, um traço que fazia com que Pedro não fosse apaixonado por ela, embora a amasse: não tinha uma personalidade forte. Dizia sempre que sim e não se levantava contra nada. Não havia nela nenhuma réstia de conflito e, para Pedro, a falta de paixão acesa era algo que não lhe ascendia o fogo do espírito.
Assim foi que Pedro se aproximou de outras, em especial Domitila, uma mulher calculista e manipuladora e que, sem o amar verdadeiramente, quase arrastou Pedro para uma espiral de destruição.
Depois da morte de Leopoldina, em alguma proporção causada pelos desgostos com Pedro, o Imperador sofreu um bom bocado. Primeiro porque realmente amava (sem no entanto nunca ter estado apaixonado) Leopoldina, por outro, tinha conseguido para si tão má fama, que nenhuma princesa queria se casar com ele.
Depois de muito esforço, lá se arranjou uma linda princesa para consorte do Imperador. Veio dona Amélia da Baviera com a sua personalidade delicada e decidida, pronta a unir o seu destino ao de Pedro.
Dizem as crónicas da época que o Imperador, ao ser avisado da chegada no porto do Rio do navio que trazia a noiva, não aguentou ter que esperar no cais e tomou um barco para ir à bordo do navio. Lá chegando, ao ver a princesa pela primeira vez, desmaiou, dizem alguns, pelo encantamento da beleza de Amélia.
Jurou-lhe fidelidade e amor infinito e pode-se dizer com franqueza que não se portou mal por todo o tempo em que estiveram casados, até a morte de Pedro.
Continuo a escrever aqui qualquer coisa sobre o nosso Pedro numa segunda crónica.
Reservo para esta próxima a grande aventura de Pedro para libertar Portugal do absolutismo e da tirania, contra a crença do falhanço da empresa por parte de todo o mundo.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Fé e doutrina


De certeza que a beleza e a fatalidade da vida está nas surpresas que o correr dos dias nos apresenta. Qual não foi a minha surpresa quando vi na TV a notícia da resignação do Papa Bento XVI, talvez um perfeito misto de belo e trágico. Senti-me triste, senti-me órfão na fé, pois o Papa é para o católico o seu líder espiritual. Tinha especial carinho pelo Papa Bento XVI que, ainda que tenha tido um brilhante percurso académico e de doutrinador, falava sempre com serenidade, simplicidade e amor, indo ao foco das questões. Falava-me sempre ao coração e eu ouvia com muito gosto.
A voz fatigada daquele que conduziu por oito anos a nossa Igreja denunciava a frustração pela impotência em enfrentar os desafios ao seu futuro. 
A inversão de valores que corrompe o mundo não deixa de fora os fiéis e nem mesmo o clero. Cabe à cabeça da Igreja, cada vez mais, ter que lidar com denúncias de abusos sexuais de crianças, casos de vazamento de informações e documentos da Santa Sé e corrupção no banco do Vaticano, além de conspirações de uma suposta ala homossexual nos mais altos quadros da Igreja.
Se isso já não seria pouco para ser combatido por um jovem no pleno de suas forças, que se dirá de um ancião que percorre as últimas milhas do seu caminho na terra?
Joseph Ratzinger é, logo a seguir à qualificação de sacerdote, um académico. Ama o pensamento e o raciocínio puro e, portanto, odeia a mentira e a especulação perniciosa.
O rigor do seu escrutínio pessoal quanto ao valor e da substância da doutrina cristã é, por si só, uma prova substancial da grandeza, da verdade e do significado da obra da Igreja no mundo.
Nunca como nos tempos que correm o homem precisou mais da Igreja: há carência de amor, há carência de compreensão, há carência de caridade, há carência de humildade e de perdão.
Se a grandeza da civilização ocidental assenta maciçamente na fé cristã, sobretudo na fé católica, os efeitos do ateísmo aliados à estupidificação do pensamento e dos valores pela sociedade de consumo tem produzido indivíduos arrogantes, religiosamente ignorantes e intolerantes, que são apressados em julgar e condenar a Igreja sem se aperceberem que todos seus valores morais e mesmo o seu pensamento foram moldados pela doutrina cristã - que lhe chegou como um reflexo da versão original, mas ainda assim poderoso o bastante para se impor onde nada mais há.
Penso sinceramente que o Santo Padre resignou porque sabe que a Igreja precisa de atravessar estes tempos difíceis com a sua mensagem de amor, paz, caridade e perdão. A nossa fé na Igreja é o que nos dá a nobreza de sermos seres humanos, e não meros animais soltos na selva à mercê dos seus instintos. Acreditamos em uma força maior que nós próprios e que nos faz ser melhores do que já somos, leva-nos, assim, a ver para fora de nós mesmos, a pensar nos outros, no bem dos outros, a nos colocarmos na condição dos desfavorecidos, dos doentes, dos desesperados, dos abandonados, dos excluídos por este mundo onde o valor do caráter parece contar sempre menos do que o valor do poder económico, onde a fortaleza moral esmorece frente ao consumo de um bem que dê conforto ou, ainda mais fútil, um estatuto social mais elevado.
Eis a luta que se trava nos dias que correm, como antes também já se travava em outros domínios: as liberdades contra as igualdades. 
Sabe o Santo Padre que há que haver equilíbrio, o que só se alcança com o desenvolvimento espiritual, com a prática de uma fé. A ambição verdadeira, portanto, é convidar o homem para nascer para a religião conhecendo o mundo que está para além de si mesmo - eis o chamado de Deus.
Foi grande Papa Bento XVI ao ter a coragem de resignar colocando a Igreja à frente de si mesmo, como já o fizera diversas vezes antes. Que o seu exemplo lance sobre o seu sucessor uma poderosa determinação em cumprir com o destino da Igreja: ser sempre e genuinamente a irredutível defensora da mensagem cristã do amor, da caridade e do perdão.

terça-feira, janeiro 22, 2013

E o vento levou... Será?


 As grandes chuvadas da noite anterior não podiam adiantar com verdade o que se passaria no dia a seguir. Uivos longos e perniciosos do vento logo de manhã tiraram da cama no fim de semana quem precisava de descanso após uma dura semana de trabalho. Os que tinham de sair para trabalhar de certo que enfrentaram alguma resistência por parte da natureza para chegarem ao posto de trabalho.
Mais intenso no norte e centro do país, a ventarra correu o país inteiro e causou danos variados, como milhares de árvores tombadas (aqui em Coimbra a tempestade levou ao chão árvores plantadas no tempo da expansão ultramarina e trazidas das antigas colónias na Índia e na África), placas de sinalização de trânsito também foram abaixo, e mesmo a morte de um senhor de idade que tentava resgatar o gato que tinha fugido em pânico dos uivos horripilantes do vento (o pobre animal devia pensar que era o juízo final e devia ter lá as suas culpas a apurar!). Isso sem falar nos postes de eletricidade tombados e nos cabos que se partiram e assim deixaram às escuras metade do país no sábado e no domingo.
Segundo os cientistas, os ventos de até 130km/h registados em Portugal continental são resultado de mudanças na pressão atmosférica, assim como das condições típicas do início da transição do inverno para o outono. Todavia, custa acreditar...
Ouvimos muitas pessoas mais velhas, algumas com 80, 90 e mesmo centenária a dizer em uníssono: nunca cá tínhamos visto uma tal tempestade! E não é de se duvidar.
Os ventos do furacão Katrina que passou por Nova Iorque tinham ventos de 130km/h! Vejam lá que nos falta talvez o protagonismo mundial da Big Apple, mas em termos da brutalidade da natureza, pudemos ver bem do que foi capaz.
De tudo em tudo, parece-me que este dia em que os portugueses ficaram  nas próprias casas, reféns deste constrangedor mal tempo, serviu para compreender melhor aqueles que vivem em terras distantes e sofrem regularmente com os desastres naturais, como as populações das Caraíbas com os furacões e os Japoneses com os terremotos.
Esta esmagadora força que está na natureza e que nos acostumamos a desconsiderar está latente no significado destes desastres. Por mais tecnológica e avançada que seja a nossa civilização, não vamos nunca escapar à verdade natural de que estamos à mercê das forças da natureza. A regra da vida e da morte lembra-nos isso, mas quando esta imposição de poder é demonstrada no exterior fica ainda mais clara esta verdade.
Antes de conformar a natureza, moldá-la, domá-la, procurar modificar o seu código genético à nossa conveniência, talvez fosse mesmo melhor (e mais inteligente) saber respeitá-la na sua condição de parâmetro universal. A própria ciência o faz! Vejam lá: científico é o que é desafiado vez após vez em relação às forças e condições naturais e prova-se sempre verdadeiro. Ora, também daí deveríamos tirar uma regra preciosa, mas esta de cunho das ciências sociais aplicadas, de que é também pela natureza que devemos medir o respeito a ela própria pelo parâmetro que somos parte de um ecossistema: afinal, também o homem é um animal, um animal racional, mas ainda assim um animal.
Esta simples verdade salvaria milhões de pessoas de vidas em vão, desperdiçadas na crença irrefletida de que são únicos e especiais e de que nunca nasceu e nem voltará a nascer alguém tão especial quanto elas. Todavia, se ouvissem às regras universais da natureza (e também se soubessem um bocadinho de história!) saberiam que todas as milhares de gerações que existiram para lhe dar a vida, cada uma delas, também acreditou na mesma falácia.
Carpe diem, pois as forças naturais estão vigilantes e nunca falham.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

No mundo, uma criança nasceu

Para grande alegria de todos que vêem nesses dias a esperança da renovação, o nascimento é talvez o emblema maior deste sentido.
Uma vida que começa é como o início de uma nova linha que aponta para um horizonte onde não podemos ver. Lá estão os dias de verão das suas férias, as surpresas e as prendas esperadas, as cartas e os livros que quer ler, os grandes feitos que irá render ao mundo através dos seus talentos e do seu trabalho, os amores que encontrarão, a par de outros que também o irão tentar, os caminhos sinuosos do seu coração.
Ao olhar para trás, na perspectiva de um passado cheio de dúvidas, é que se tem a certeza de que o futuro chega não importa o quanto nos preocupemos com ele. Impõe-se à nossa vida como dita a própria contagem do tempo, afinal, ninguém pode deter o sol quando ele se põe ou se levanta.
Acho curioso como o nascimento do Senhor Jesus serve também para firmar em nós essa convicção da renovação das coisas à mercê do que não podemos controlar.
Veio Ele ao mundo para ser o Cristo, ou seja, o Messias, para redimir a humanidade, e assim o fez. Todavia, no momento do nascimento, era só um bebé, sem grandes aspirações para além das que têm os bebés todos: ter a atenção da mãe e do pai, ser bem alimentado, protegido e poder descansar. Nisso vejo que o menino Jesus tinha imenso potencial e é mesmo assim que o Natal deve ser para nós: renovação da esperança no potencial que o amanhã nos reserva.
As cartas do jogo da vida não estão todas dadas quando do nascimento, antes estão nas nossas próprias mãos e as jogamos todos os dias, com todos com os quais temos algum relacionamento. Ao nascer temos um baralho novo. Nas nossas cartas, ninguém nunca tocou naquele momento.
Tudo pode ser feito, tudo pode ser alcançado, o potencial é incomensurável, o futuro coloca-se todo aos pés de quem pode começar assim puro e limpo uma vida de redenção do que não trouxe nem paz e nem felicidade para um período novo em que um novo comportamento irá fazer a vida também diferente.
Podemos, também nós, os nascidos há muito tempo, nascer de novo, se tivermos a grande coragem que um tal ato exige. Todavia, não vale a pena ser tolo... é um projeto ambicioso! Prende-nos ao antigo estado a pregüiça, o desânimo, a falta de motivação em geral e quando damos por nós já chegou Dezembro outra vez e está tudo como d'antes. Para prevenir tal acontecimento, temos de encontrar os nossos motivos (daí é que vem a motivação) e bem fortes motivos devem ser! Dou-vos um: querer fazer da nossa vida mais do que uma existência à espera dos outros. Se quisermos verdadeiramente, podemos ter uma vida sublime. Sabeis como são as vidas sublimes? Ora, são as vidas vividas em prol de algo maior que nós mesmos. Nenhuma vida grandiosa foi egoística, antes pelo contrário, foram vidas voltadas para os outros e nisso há muita verdade e nesse caminho encontra-se seguramente a bendita felicidade e a paz.
Na esperança de uma nova vida que podemos fazer para nós próprios também há muita inocência e de certeza que o Senhor Deus lá do céu irá abençoar este esforço. Força!
Quanto aos que escolheram este Dezembro para nascer de facto, o meu bem haja e as minhas boas vindas a este maravilhoso e fantástico mundo que nos foi legado pelos nossos antepassados.
É nossa suprema responsabilidade conduzi-lo com amor e zelo para que estes pequenos que só agora juntaram-se a nós possam também apreciá-lo e fazê-lo melhor.
No fim das contas, mas ainda tendo em conta a ideia acima referida da perspectiva do tempo, nós não somos proprietários de nada, no máximo temos a posse das coisas por um determinado período de tempo. Assim, há que preservar e viver pensando que sempre haverá um amanhã.
Devemos todos querer nascer melhor, amigos. O futuro pede de nós esta alegria e esta determinação.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Os responsáveis pela ruína de Portugal

A ver as filas de pessoas à porta dos Centros de Emprego logo cedo de manhã, a ler nos jornais sobre o crescente pedido de vistos de trabalho e estudo de recém-licenciados para o Brasil, ou simplesmente apanhar o vôo só de ida para Inglaterra, Alemanha..., e ver os idosos com suas pensões miseráveis serem obrigados a ir recolher comida aos restaurantes populares e ficarem a depender da caridade das juntas de freguesia para conseguir comprar os remédios, ver as empresas a dispensar empregados e a sofrerem os maiores constrangimentos para pagar os impostos e à Segurança Social, jovens casais a deixar de ter filhos por não ter como sustentar-lhes, em tudo isso se vê a ruína de Portugal.
Uma tal situação de penúria que não se compara a que se vivia na onde de emigração para a França nos anos de 1960, quando também não havia muito dinheiro, mas havia trabalho. Hoje há desesperança e muita confusão quanto a quem culpar, mas não é difícil perceber quem é responsável por esta situação.
O Estado português, agora posto à trela pela Troika do FMI, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, pôs a si mesmo nessa situação pela irresponsável ambição de obter o apoio dos portugueses oferecendo-lhes um estado social paternalista que pagava por tudo e ao invés de estimular a livre iniciativa empresarial, confiando pateticamente na continuidade perene dos fundos comunitários para apoiar essas leviandades de governação pública, sem pensar no futuro dos portugueses, contando com a estratégia de resistir a tudo e a todos como se fosse um herói que fez o que pôde para evitar a catástrofe para logo em seguida, fora do governo, apressar-se para pôr as culpas nos seus sucessores.
Muito dessa estratégica política maquiavélica só poderia ser concebida por um grupo político extremamente ambicioso, descomprometido com os verdadeiros e legítimos fins a que um governo de Portugal deveria cumprir, mas sempre atento às oportunidades que o poder coloca aos que compõem as suas fileiras, seja através das nomeações, seja através das oportunidades enevoadas que se apresentam aos que controlam a chave do tesouro que paga pelos contratos públicos com as empresas privadas.
Aliado a isso e com a cumplicidade desse mesmo governo, o setor bancário concedeu o crédito barato para que os portugueses pudessem comprar casa, carro e mobiliário a fim de viver à altura de um sonho sustentado por artimanhas e aspirações ardilosamente inspiradas que não encontrou eco na frágil economia portuguesa.
Assim se fez a ruína de Portugal, caro leitor. À custa de muita mentira, a que os portugueses, de uma parte, quiseram acreditar de coração e, de outra parte, por ignorância e ideologia obsoleta, pensavam tratar-se de uma obrigação do Estado dar apoios sociais e direitos laborais a tudo e todos, desprezando e maltratando as pequenas e médias empresas.
Hoje há greve geral, mas para quê? Portugal encontra-se à mercê dos seus credores internacionais e não há greve nesse mundo que possa alterar as obrigações a que o governo anterior se comprometeu e o atual tenta a muito custo fazer cumprir.
Causa-me uma profunda tristeza ver Portugal nesse triste estado, com o povo cabisbaixo, sem ver no horizonte o futuro de grandeza que os nossos antepassados nos legaram. 
Esta antiga nação, com seu forte sentimento familar, com a sua religiosidade interiorizada e com o seu amor pela pompa e pela circunstância, não foi concebida e nem existe para ficar à mercê de forças políticas nefastas e corruptas que usam o país para alcançar os seus objetivos obtusos, que se opõem flagrantemente aos princípios que orientam a administração pública.
São estes os verdadeiros culpados por toda a miséria, por todo o sofrimento, por toda a privação. 
Portugueses, acordai! É tempo de julgar e punir as irresponsabilidades dos que conscientemente nos conduziram pelos caminhos desastrosos, arruinando as ruínas do Estado e arrastando todo o resto do país para o precipício dos desesperos a que chegamos.
Ao atual governo, à parte da sua falta de habilidade em comunicar, não cabe imputar culpas pela herança maldita que está a tentar gerir.
É tempo de mudar os conceitos e homenagear a Justiça!
Paris não pode ser refúgio de luxo para os traidores de Portugal!

domingo, outubro 21, 2012

E então, garotão?


Nesses dias em que a política da minha terra andou a dar o que falar por conta das eleições municipais, é quase impossível não associar estas agitações democráticas ao meu tio que muito apreciava essas atividades, participando ativamente dos pleitos como candidato ao legislativo e ao executivo municipal, sendo eleito e cumprindo mandatos muitas vezes para as diferentes funções: a dedicação de uma vida inteira ao bem de uma terra.
Mas este ano já não pôde cumprir o que certamente seria mais uma campanha para prefeito, já que há pouco mais de dois anos levou-lhe a vida uma colisão brutal, após um despiste, após uma curva em declive, sobre uma pista molhada de chuva, sobre uma ponte, não muito longe da nossa terra.
Não me incomoda a morte porque sei que ele viveu, talvez não tanto quanto possivelmente lhe iria permitir a natureza (razoavelmente, pois já vinha sofrendo com doenças do coração e fora operado no ano anterior), mas viveu. 
Ao longo dos incompletos sessenta anos que andou por entre a gente, foi o próprio carisma e muitas vezes, a própria amizade, o amor e a coragem. Não conseguia dizer que não a ninguém, e talvez por isso fosse muito criticado e também por isso tenha perdido muito do património que já estava a ser transmitido por herança na minha família há quatro ou cinco gerações. 
Sorria muito e nos cumprimentava com o costumeiro sorriso, com as bochechas do sorriso..., os seus óculos de aro dourado e o clássico bordão: " - E aí, garotão?". 
Quando era criança, lembro-me bem de uma festa de aniversário em que foi o meu tio, sem me trazer ali nenhum presente. Claro, menino mimado que era, e sabendo que um primo tinha recebido um cavalinho lindo de prenda do meu tio, não podia deixar por menos e quando ele me cumprimentou eu fui logo perguntando se iria ganhar um cavalo também. O pobre do meu tio, que por óbvio tinha uma predileção por aquele meu primo, não estava preparado para aquilo e disse assim: " - Eu vou te dar mais que um cavalinho, vou te dar a bezerrinha mais linda que eu já tive". Claro que eu não fiquei contente, mas de qualquer das formas, foi um grande presente. No dia seguinte, bem cedo, o tio não se tinha esquecido do presente, e mandou entregar na quinta do meu pai uma linda bezerrinha.
Era cafeicultor, como o pai dele, e também tinha outras atividades agropecuárias
Não negava nada a ninguém, aquele bom, gentil homem, nem mesmo a um sobrinho mimado.
O meu pai amava-o com uma dedicação notável. Desde criança, sempre o vi muito envolvido nas campanhas políticas do meu tio, argumentando quanto a temas de que normalmente não falava, colocando dinheiro no que normalmente não punha, indo a onde normalmente não ia. Eis o tipo de dedicação que o meu tio provocava não só no meu pai, seu irmão, mas em toda a gente.
Eu próprio, apenas um pouco mais velho do que no episódio que contei acima (creio que completava então cinco anos), ajudava também nas campanhas e ia com o meu pai aos comícios. Para mim, como é claro, eram momentos muito aliciantes e a figura do meu tio era para mim e para o meu irmão e primos e tios, como para os primos e demais parentes dele também, uma grande referência na nossa família.
Por dezasseis anos compôs o executivo municipal, por quatro anos como vice-prefeito e outros doze na função de prefeito. No início do seu percurso foi ainda vereador por um mandato de quatro anos.
Fez pelos pobres sobretudo: casas sociais, calçadas das ruas, centros de saúde, escolas, tantas obras e tão abrangentes que não haveria a cidade que há hoje sem o esforço desenvolvido por todos os anos que esteve a frente dos destinos da municipalidade.
Não foi, todavia, perfeito. Nem na seara familiar, nem na profissional e nem na política. Errou por vezes ao querer ser bom demais. Dizia o avô dele, meu bisavô, que "o homem tem que ser 'bão', o que é 'bão, bão', arrebenta no chão", e nisso há muita sabedoria. 
Emprestava dinheiro a quem o levava sem intenções de pagar de volta, ajudava com a sua influência e posição, quem não lhe tinha verdadeiro respeito ou não reconhecia o seu trabalho, dava oportunidades ou confiança a quem não as sabia aproveitar, ou que não estava ao nível de fazer valer as oportunidades ou confiança, e acabava por comprometer o seu nome. 
E pelo bem e pelo mal, feito por vezes sem conseguir antever a maldade, foi sobretudo muito amado e vai ser ainda lembrado por muitos anos.
De mim, o "garotão" terá sempre a memória de quem muito o respeitava e amava. Morreu quando eu terminava a minha dissertação de mestrado, e por isso lá consta uma dedicatória à sua memória. Recordo hoje e sempre, como com relação ao meu pai, a sua juventude (o que aqui não tem a ver com a idade). Amava a vida e amava a nossa terra e por estes amores muito sofreu e muito sorriu. 
Que Deus o tenha na Sua infinita misericórdia, pois a nós só resta ter muitas saudades do nosso "garotão".