terça-feira, janeiro 17, 2012
Estranhas sombras
Ainda ano passado foi o casamento de um bom querido amigo e lá fui eu àquelas antigas paragens da vida para ser padrinho do casal.
Deus sabe o que custa trazer à tona (e à realidade) as faces daqueles que foram o passado com tal intensidade que nem poderia imaginar outra vida possível. É literalmente outra vida, é como ser outra pessoa.
Atravessar a poça é visitar este estranho mundo, é ver por entre um vidro envelhecido o que remanesce do desgaste do tempo, já que muitas têm sido as voltas da terra.
O tempo e a distância vão reservando para mim surpresas e encontros comigo mesmo. Sempre me surpreende ver os pais e os tios tão envelhecidos, entristece ver a frágil saúde dos avós, assim como constatar do distanciamento daquela boa e vívida amizade com os primos.
Os amigos, ah, estes continuam lá como valentes e destemidas sentinelas a velar pelo meu retorno - ao menos os meus bons amigos. Assim como eu, guardam e acarinham na memória o melhor das lembranças e dão-me o seu tempo e o seu pensamento sempre que estamos juntos, com uma generosidade que por vezes é difícil de perceber quando não se tem amigos verdadeiros.
Mesmo estes meus bons e queridos amigos, meus amados familiares, todos eles, a que eu junto as terras em que nasci e vivi, tudo isso parece-me terrivelmente perturbador.
Quando verto os olhos para lá e meto dentro da alma aquelas faces que dizem tanto vejo então que por imenso tempo têm estado mudas, surdas e cegas em mim.
Contam-me histórias de um valente destino que eu escolhi e explicam as minhas escolhas mais facilmente que a minha argumentação.
Lembro-me com algum assombro da minha adolescência desamparada nas manhãs frias da avenida Rio Branco quando ia a pé para o meu colégio. Quanta impressão não havia naquele ar novo que eu traguei para dentro do peito com tanta fome? Assumi para mim próprio um destino que não poderia se conformar com o caminho pisado pelos que vieram antes de mim e que teria inevitavelmente que libertar-se do que sempre me pareceu naquela altura desarrazoado e fatalista.
Um caminho novo, eis o que o meu coração comandou e eu tentei com todas as forças realizar. Tal qual os meus antepassados que traçaram também eles novos caminhos para a então jovem e intocada terra das Minas Gerais.
Olho o caminho velho que percorri e as belas alamedas da vida não assustam e nem amedrontam. Mas parecem turvas vertingens da vida de um rapaz que por vezes eu mal reconheço em mim mesmo.
É o tempo a passar, e a embranquecer a memória...
sábado, dezembro 24, 2011
O natal que eu te dou
As minhas férias grandes de verão, a começar com o natal, eram também um longo tempo de convívio com os meus primos que no resto do ano não estavam na terra, por isso, ao lembrar daquele tempo penso um pouco nisso.
Hoje é completamente diferente e, como não poderia deixar de ser, penso de uma forma mais ampla nessas celebrações. É uma época de doação e de esperança. Nada mais bonito.
Doação, pois nada faz com que tenhamos uma conexão mais sentida com o divino do que quando abrimos mão de algo que é para nós para dar ao outro. A este sentimento é que se deve dar o nome de amor.
Esperança, pois é véspera do início de mais um círculo da vida onde teremos novamente a oportunidade de sermos bons e demonstrar caridade e perdão. Esperança não puramente nos nossos êxitos, que são legítimos de se ambicionar, mas esperança sobretudo em sermos pessoas melhores para connosco e para com os outros.
Para mim o natal não é nem a fórmula vazia dos centros comerciais e nem puramente uma celebração religiosa, é uma comunhão de sentimentos que vão dar mesmo no amor e na caridade. Acho que o cunho religioso é muito útil pois nos ajuda a refletir sobre isto: a chegada de um menino rei que iria redimir a todos. Que é esta boa nova senão esperança? A redenção aqui não é uma redenção mágica e instantânea, mas sim é a redenção pela conversão na fé de que só há salvação dentro da humilde reverência a um Deus maior do que nós próprios e na celebração deste divino amor que dele emana, uma redenção no perdão, uma redenção na caridade. Eis o convite da religião.
Deixo-vos o meu convite: abram o coração e o encham de bondade. Esqueçam as desavenças, as discussões tolas que não levaram a lado nenhum, esqueçam todas as coisas que nos separam e lembrem-se com o grato sorriso dos felizardos que sóis amados. Celebrem este amor no natal. É só com base no amor que todas as outras coisas podem existir. É só com muita fé nesta redenção que o nosso messias vai nascer novamente e orientar a nossa vida pelo bom caminho neste novo, florescente ano de 2012.
Um bom natal e um ano novo de muita paz e muita saúde.
terça-feira, dezembro 13, 2011
Os que gozam a vida na velhice
É desta maneira que penso ser com estes muitos senhores de idade que tantas vezes vejo na baixa durante o dia, a conversar e a ver o tempo passar. É bem verdade que também muitos deles são vistos no Parque Verde do Mondego a jogar as cartas sob as árvores, junto ao Museu da Água, uns mais aventureiros pescam à beira do rio, mais à frente.
Sem pressa de viver, meus amigos. Que belo exemplo nos dão estes senhores reformados! Não correm em desespero, não se afligem demasiado, não se esgotam em preocupações e ansiedades e - digo-vos isso com convicção - são felizes, ou ao menos são mais felizes do que no tempo do trabalho, ou melhor, são felizes de outra maneira, pois que livres da obrigação de prover para si e para os seus.
Arrisco ir mais longe. Acho que se pode ver nesta sua serenidade, mais que o conforto pela despreocupação com o prover, a experiência que vão ganhando com os anos e que os ensinou a ser assim mais brandos, a saber ouvir até o fim antes de dar o palpite ou a sentença apressada.
Penso que, se chegar mesmo à velhice, seria assim como eles. É capaz que não. Acho que é muito difícil ter este estado de calma e de espera (que não é bem espera, é mais uma forma diferente de apreciar a vida).
Todavia, por ter aprendido a não brigar demasiado com a vida e saber aceitar as circunstâncias que vão se impondo contra a minha vontade, acredito também que poderia me adaptar a isto.
Seria assim: sairia cedo de manhã para o meu primeiro passeio, ia ver a rua, como estava a praça assim cedo, depois voltava a casa às 9 horas para um bom e rico pequeno almoço, com ovos, torradas, café e tudo mais sem pressa nenhuma. Às 10:30hs de volta à rua para me encontrar com os meus colegas de reforma e pôr a conversa em dia. O assunto pode ser qualquer um: política, futebol, festas da cidade, o que for - desde que seja uma conversa amena. Às 12 horas de volta à casa para o almoço e posterior descanso da tarde (que vou bem merecer, depois de tantos anos de trabalho!). Às 15:30 horas é sair de novo para o convívio que pode ser de vários tipos, como jogar as cartas ou fazer algum trabalho voluntário, ou uma sessão de dança de salão: o que apetecer! E se o convívio não for boa pedida em alguma altura, de certeza que sempre vai haver boa leitura para fazer, mais uma vez, sem pressas. À noitinha o jantar e o sagrado descanso no conforto do lar.
Assim, depois de um dia tão à vontade, à minha maneira, vou poder espreguiçar à vontade e feliz por ver que a velhice, afinal, não é assim tão ruim como lhe pintam.
quinta-feira, novembro 03, 2011
Feitas as contas

Passado o tempo, revejo nas folhas amareladas de mim mesmo o reflexo da minha época e daqueles que me tocaram a alma.
Sou um homem de pensamentos e sentimentos vastos, nunca tive medo deles.
Aventurei-me junto deles para me ver em seguida metido em labirintos de dúvidas, perdido e sozinho no mundo, algumas vezes. Tinha então apenas a convicção pálida de que os meus guias não me iriam trair, de que me orientara por bons propósitos.
É talvez como esta grande centelha de amor que queima em mim. É um perdigão que teima em não perder a pena, não importa o mal que lhe venha. Ama, pobre coraçãozinho iludido, estes tons de dourado e de bege do outono como uns anjos a anunciar a estação da minha vida: não tem o calor e a estupidez do verão, também não traz em si a inexperiência e nem a novidade da primavera, nem tampouco confunde-se com a rudeza e a maldade implacável do inverno, traz em si uma temperança, um desanuviar de preocupações injustificadas, é maduro e forte, impõe-se quando é preciso, mas sabe acolher sem magoar. Mais que tudo: não quer para si, mas quer dar de si.
Com o outono o meu coração encontra-se na estação certa. Ama muito, tem sede e fome, tem necessidades de homem, quer ter em si o mundo inteiro, quer perceber o mundo inteiro e achar razoabilidade nesta incrível selva de medricas, corsários, palhaços, lambe-botas, putas, ladrões e uns poucos tolos que, como ele, insistem em remar contra esta grande onda de indiferença e mediocridade.
Ama muito este meu coração. Ama a Deus como um bom e amoroso pai que muito o mima. Ama as montanhas da sua terra, de um amor louco e feroz. Conhece-as como se as tivesse andado todas, pelo caminho velho e pelo caminho novo. Ama respeitosamente a família e suas heróicas origens, com uma devoção discreta e quase nunca declarada. Ama a mulher, pois nada no mundo reúne tanto mistério, tanto encanto, tanta beleza e tanta treta. Amo até a Eva, que feita da costela do Adão, não hesitou em tentar o pobre homem a comer o fruto proibido. Cada uma delas é uma caminho para a vida de nós homens e qual fez Adão, também nós hoje mordemos a maçã cheios de convicção de que estamos a ir pelo bom caminho. Que culpa têm as mulheres, Deus meu? Eu não lanço culpas, eu prefiro amar.
E de tanto amar, amar assim como um exagerado disfarçado em comedido, já fui até acusado de não amar! Como se fosse possível...
Feitas as contas, deixo na contabilidade muito mais ganhos que perdas. De todo o amor que eu dei, tão grande e tão imenso amor recebi. Um amor que me aquece até às pontas dos dedos, um amor que rasga o peito, que quer acolher, que inspira o risco e a ventura, que leva à frente, que é forte, que compreende e sofre, que quer mesmo é amar, amar até não mais poder.
E se de todas as minhas contas posso ainda deixar um conselho, eu diria para por tudo no amor e de lá não tirar nada, nem que falte o comer. Assim pretendo fazer e que Deus me ajude.
Deste modo, ao fim do exercício da vida, saberei feliz que deixo esta grande fortuna que é o amor daqueles que eu amo.
sexta-feira, outubro 28, 2011
Viva a aristocracia!
Atualmente vivemos um tempo de democracia, em Portugal desde 1974 e no Brasil desde 1985. Não que esta seja a primeira experiência democrática destes países... Mesmo no tempo dos reis ela existia e era bem exercitada, nalguns (poucos) períodos da vida republicana também.
Os seus defensores dizem que é o melhor dos sistemas, pois consagra a legitimação popular e todas as outras alternativas não são melhores.
Acredito que essa ideia comummente aceita e quase nunca desafiada é uma mentira das grossas.
A democracia é uma branda maneira de favorecer a corrupção, a ineficiência e a infelicidade.
Através do regime democrático grandes charlatães e demagogos alcançam posições de grande poder e influência para distribuírem favores aos seus e causarem grandes prejuízos aos cofres públicos.
Pela democracia o povo se anestesia e evita discutir pois a decisão popular consagrou aquele governo e toda contestação cai sempre nessa falácia.
Este nefasto sistema é o que proporciona as muitas perdidas horas de trabalho dos parlamentos do mundo todo, com seus grupos inconciliáveis a morderem-se uns aos outros por um pedaço maior do bolo, formados quase sempre por políticos de carreira, formados nas maliciosas juventudes partidárias para se converterem em políticos de carreira, pessoas incapazes e muitas vezes mal intencionadas e cuja produção não reverte minimamente o custo que consome. A aristocracia é bem diferente.
Posso afirmar que nenhum outro sistema garante tanta eficiência, transparência ou felicidade quanto este de premiar o talento, o esforço e o gênio individual, pois parte do princípio de que os seres humanos são diferentes, o que é uma verdade incontornável e que os que defendem a democracia teimam em ignorar ao pretenderem, de maneira hipócrita, que os homens são iguais.
Se fôssemos iguais não haveria presídios, nem universidades, nem parlamentos, todos faríamos parte dos mesmos círculos pois é isto que consiste a igualdade que se pretende com a democracia quando é levada às últimas consequências e que no fundo não passa de uma ilusão e um embuste político.
Acredito firmemente que nos aproximamos cada vez mais da aristocracia. Vejam que não estou a referir à autocracia, onde as liberdades e os direitos fundamentais cedem lugar a uma ordem totalitária e opressora, onde a vontade de um indivíduo ou de um partido se converte em supremo mandatário da nação. A aristocracia também não tem a ver com um elitismo económico, onde o poder seria concentrado nas mãos dos donos dos meios de produção e do capital financeiro, estes grandes gatunos que não possuem minimamente as condições de carácter para gerir algo para o bem comum.
A aristocracia refere-se a premiar o talento. É uma sociedade voltada para alçar às posições de liderança os indivíduos mais capazes.
Incute no povo a ideia de que o talento e o esforço pessoal são o maior de todos os patrimónios e uma vez que um indivíduo os possua as portas estarão abertas ao seu contributo.
Também é mais amplo do que pode parecer à princípio pois não se circunscreve apenas à esfera meramente política, mas informa o próprio sistema de educação, por exemplo.
Na aristocracia os estudantes, desde tenra idade, são incentivados a assumir uma postura mais ativa na construção do seu próprio conhecimento. Desta forma, ao invés das maçantes e improdutivas horas a ouvir a palestra do professor, cada aluno deve trabalhar ativamente em tarefas de pesquisa e de exercícios a fim de cumprir um programa semanal mínimo de estudos. As classificações obedeceriam portanto a qualidade do trabalho produzido e a eficiência com que foi desempenhado. Os próprios mestres também deveriam apontar as qualidades de carácter dos alunos e destacá-los para tarefas mais apropriadas para o seu génio individual. Este sistema, por acaso, já existe e goza de boa saúde em muitos países, como a Inglaterra, os Estados Unidos e mesmo em Espanha. Trata-se do "Plano Dalton". Há uma escola que implementou este programa no País Basco e que tem resultados maravilhosos. Também na Holanda é muito popular. Em Portugal e no Brasil, no entanto, não há uma só escola que funcione nestes termos.
Indivíduos educados desta maneira seriam muito mais ativos na sua vida adulta, teriam muito mais iniciativa. Não ficariam à espera, iriam sempre tomar à frente da prória vida e ir em busca daquilo que lhes interessa. Eis outra feição do regime aristocrático.
De tudo em tudo, não se trata de promover um elitismo, mas de promover uma cultura de elite onde as posições de comando são dadas aos indivíduos mais capazes de as desempenhar.
As funções legislativas, executivas e judiciárias do Estado seriam desempenhadas pelas pessoas mais preparadas e cuja preparação seria aferida pelo seu percurso de vida, pelo conhecimento que adquiriram, pelo seu carácter atestado por quem os educou, pelos objectivos que tem para si próprios e para sua vida.
Muitos irão dizer: "este aqui está a delirar...", mas estas mesmas palavras foram direccionadas a Jean Jacques Rousseau quando as suas ideias iluminismo e anti-absolutistas começaram a ser publicadas e hoje ninguém ousa discordar destas mesmas ideias.
O que se passa é que a implementação de um outro regime em substituição ao democrático é algo que só pode ser feito no desenrolar das folhas do tempo, a dizer, as seguidas gerações, a pouco e pouco, tem de assimilar os valores da aristocracia (que já existem, principalmente no mundo empresarial) e desenvolver os modelos pelos quais esta aristocracia irá passar a vigorar.
Um primeiro passo seria o estudo desta fascinante forma de organização do Estado e da sociedade. Recomendo "Sobre a democracia e outros estudos", de Aldous Huxley. Lá também encontrarão interessantes apontamentos sobre o Plano Dalton.
quinta-feira, outubro 06, 2011
Eu me amarro no gigante da colina
Uma equipa que traz em si a nossa herança portuguesa, um clube que é o clube desta tão vistosa colônia, a princesa entre as colônias de estrangeiros do Brasil, nossa alegria.
Este ano tem feito uma muito boa e promissora temporada, como pode ser visto: detém hoje a primeira posição no campeonato brasileiro, alcançada com brio, mantida com muito esforço e que indica já um desfecho feliz para a grande empresa que é sagrar-se campeão desta competição, que é das mais equilibradas e disputadas do mundo. Para se ter uma ideia, por vezes do primeiro ao quinto ou sexto lugar a diferença que separa cada uma das equipas é de apenas um ponto, do que é de se reconhecer o campeonato brasileiro como muito disputado e de alto nível, o que também contribui para incendiar os corações dos torcedores.
Muitos irão pensar: "mas os clubes são todos iguais... querem os títulos pelas verbas de publicidade e as boas vendas que vão fazer dos jogadores... os torcedores são uns tolos por alimentarem essas ambições." Mas isso não é verdade.
Um clube que é nosso, comunica-nos os sentimentos e os ideais que nos movem, que nos fazem ter as personalidades que temos e fazer as escolhas que fazemos e ser amigos de quem somos amigos. Reflecte um pouco da nossa própria maneira de ser e de estar, da nossa personalidade. Ver o nosso time ganhar é ganhar também, e como é sabido, a vitória tem um doce, inebriante sabor.
Para nossa felicidade, esta equipa que veste hoje o equipamento do gigantão da colina, meu querido Vasco da Gama, é boa, é mesmo da fuzarca!
Com craques como Juninho Pernambucano, Dedé e Diego Sousa, faz lembrar o expresso da vitória de 1948 que ganhou todos os campeonatos e que foi o primeiro campeão sul americano invicto. Faz lembrar o time de 1989 que eu vi, ainda menino, ser campeão brasileiro com um golo matador do Sorato. Faz lembrar o campeão brasileiro de 1997 e 200o e o campeão da Copa Libertadores de 1998.
Não só faz lembrar, já é campeão, pois conquistou há poucos meses a Copa do Brasil de 2011.
Muito mais virá a este grande do futebol do Brasil que por tanto tempo esteve esquecido pelos meios de comunicação que se vangloriavam em ignorar esta potência. No nosso coração, nunca esmorecido, o amor pelo Vasco da Gama é uma coisa muito querida, muito nossa, muito honesta e que homenageia a amizade, o convívio e o melhor futebol.
Acompanhem e torçam connosco, o sentimento não pode parar.
Viva o CRVG!
segunda-feira, setembro 05, 2011
London pride

Depois de 3 anos, voltei à capital do Reino Unido para ter com os lugares onde a minha vida fora apressada, cheia de expectativas, desafiante e ainda assim plena do British manner of doing things.
Ainda lá estava a Coluna de Nelson, com o célebre almirante lá no alto, no meio da praça de Trafalgar, a olhar a Whitehall e a torre do Big Ben.
Por vezes é difícil descrever o que os lugares significam para nós. Associamo-los às pessoas com quem convivemos naquela altura, ou ao ânimo do lugar, ao seu espírito geral... a forma daquele povo, daquele lugar, de pensar e agir.
Londres para mim são os londrinos e é também a própria história da Inglaterra e do Império Britânico.
É impossível não ver as marcar de tão devastador domínio, por vezes acompanhado de grande brutalidade, que este povo exerceu sobre o mundo. De certa forma, o mundo veio ter com os britânicos em Londres, para ver se dão o troco participando também eles da pujança gerada a partir das antigas colônias britânicas em que muitos deles nasceram.
Da minha parte, não há nenhuma ligação pessoal ao Reino Unido anterior à minha estada como estudante por lá, iniciada há 5 anos atrás. Pensava tratar-se de um país que vivia das sobras do seu passado de opressão sobre o mundo, com pessoas esnobes que não tinham boas praias para se bronzearem.
Bem, talvez não tenham mesmo boas praias... Mas não são nada do que eu imaginava. Trata-se de um povo muito corajoso, muito firme, cheio de orgulho da sua herança. São muito civilizados, um educação que pode por vezes tomar a forma de cinismo, mas que no geral é responsável por uma atmosfera social de bastante harmonia, do que é muito fácil conviver com eles.
Eu aprecio sobretudo o sotaque britânico (em oposição ao sotaque americano). Gosto imensamente da intonação quase exagerada, das vogais longas, das expressões que são um vício de usar e que são tão diferentes das ditas em português. (Second to none sempre foi uma favorita, assim como that's a new low). É a inteligência expressa na forma de falar, uma inteligência que dá muito prazer ver fluir e que é muito viva e apreciada.
Lá estive, uma vez mais, depois de tanto tempo, não tanto para rever as marcas que o passado fez em mim por aquelas paragens, mas tanto sim para reviver um bocadinho o gozo que é viver numa das maiores metrópoles do mundo, a maior cidade da Europa, estar de volta para matar as saudades e para agradecer.
Quanto parti, dei-lhe as costas sem desprezo, mas com o gozo do dever cumprido. Terminei lá o meu curso, obtive os meus certificados, tudo com imenso trabalho e sacrifício. Desta vez lá estive, não para ir buscar nada, mas simplesmente para agradecer e sorrir na esplanada da Somerset House que dá para a margem do Tâmisa e sentir a brisa do fim do verão a passar.
Cheers, dear capital city.
sábado, agosto 13, 2011
A jornada do herói
Começaste, como eu, menino da aldeia, em meio à lenda, à beleza e ao afecto, mas não tiveste o conforto que eu tive na minha infância: trabalhaste desde o surgimento de alguma firmeza nos músculos.
Erigiste-te ao pensamento natural de que a vida é uma avenida de significados vagos e que muita contemplação só servia à perda das paisagens que se iam mostrando, sempre devotas dos teus olhares misteriosos.
Cresceste, fizeste-te rapaz entre os rapazes, pois tinhas uma motocicleta. Mas não só. Tinhas o sorriso, o encanto, o mistério de um coração eternamente submergido na nossa mesma melancolia ancestral - o forte comando na raça de que não há como escapar - a compor essa delicada personalidade de herói ignorado.
Fizeste-te homem em tempo nenhum. Eras então quase casado. Tinhas num amor especial esse recanto onde poderias enfim fazer descansar o grande peso do teu fatalismo sem meditação, alguém que pudesse cuidar da embriaguez da sempre acesa disposição em fazer novo, em fazer amigo, em fazer próximo, em fazer lar tudo quanto o que tocasse.
Amaste, é verdade. Amaste no segredo da tua alma, sem declarações e nem sentimentalismos falsos. Amaste com dedicação, como o teu coração podia, na medida das tuas limitações, amaste muito e sem limites.
Casaste, tiveste os teus filhos. A eles, ensinaste o que lhe tinham ensinado: Deus, Pátria, Família, à tua maneira, é claro. Talvez mais Família que os outros dois...
Ainda hoje montas a tua motocicleta de chamar a atenção, não sei quantas cilindradas sempre a alertar a Deus e ao mundo da tua chegada.
Ainda hoje acendes o teu cigarro de desprezo às coisas do mundo, com baforadas serenas, como sereno é o teu espírito antigo.
Ainda hoje olhas com os olhos do menino meigo e discreto, com muito respeitinho por todos, com muita devoção pelas coisas da terra, com o teu imenso, louco amor de não dizer... Um amor que miseravelmente herdamos de ti, no teu lindo, sempre temperado sorriso de herói.
É capaz que seja a nossa jornada no mundo um bocado também da tua: nunca ferir, nunca magoar, sempre seguir, seguir... para onde? Deus proverá um caminho, um sentido, um lugar. Um além d'onde fincar os pés e plantar em covas rasas as sementes da nossa fé em um mundo um pouco à tua maneira, sem pressas injustificadas, sem ódios, sem ganância, sem discriminações.
Um lanço de terra, um espaço no mundo como é a nossa casa. O sítio onde o respirar do teu sono compôs nas paredes a sua condição de generosidade, conciliação, amizade e sossego.
Tu que ensinaste tantos valores sem nunca dizer-lhes o nome. Tu que pelos teus erros nos mostraste os melhores caminhos. Tu que pelo amor não dito mostrou deveras o amor.
Héroi, imperfeito e trágico, que tão grandes saudades tuas.
Feliz aniversário.
quarta-feira, julho 13, 2011
O que faz falta
Desde já, digo que o Zeca Afonso faz muita falta, e quanto sentido há nisso.
Há uns dias atrás fui ver o vídeo desta canção e havia lá um comentário algo como isso: "que canção sem sentido... se o pão que comes sabe a merda basta ir comprar outro pão!". Uma ideia que é sintomática da ignorância que anda solta por aí, a espalhar a sua miséria.
Fiquei a pensar comigo mesmo se é preciso estar tudo escrito nos formulários das obrigações inescusáveis para as pessoas conseguirem perceber bem o que se trata.
O canalha que escreveu este comentário de certeza não sabe o que é viver sob uma ditadura. Não sabe o que é ter suas ideias controladas, a sua palavra controlada, a sua vontade controlada. Não sabe o que é ser mandado para o meio do mato em África para lutar e morrer numa guerra estúpida.
A mim faz imensa impressão os 13 longos anos da guerra colonial. Penso nas famílias desfeitas, cá e lá, penso nos colonos portugueses que foram obrigados a largar tudo e retornar, penso no sofrimento, na viuvez, na doença, na mutilação.
Tudo o que poderia ser resolvido de outra forma se houvesse diálogo, se houvesse respeito pelos colonizados, se houvesse consideração pelo futuro deles, se houvesse humildade. Nada disso existe na ditadura. Para ela só existe afirmação, força bruta e uma visão unilateral e obsessiva do destino manifesto das coisas - o que vai variar de acordo com o específico tipo de ditadura.
Não só o pão sabia a merda nesses tempos, mas o vinho, a carne e o próprio ar que se respirava. Nenhum homem verdadeiramente livre poderia viver contente assim. E a verdadeira liberdade, tanto naquele momento como agora, consiste na coragem de reconhecer a tirania, a vilania e a opressão da vida e não aceitá-las, a dizer, não querer comer do pão que sabe a merda.
O rapaz que fez o comentário não sabe que não havia outro pão, senão o que sabia a merda para comer. Ele não sabe que é por causa da coragem de homens como o José Afonso, que ousaram dizer e propagar o que pensavam, que hoje já se pode comer outro pão que não o que sabe a merda.
E por isso, meus caros amigos, o que faz falta, e sempre vai fazer, é a consciência das coisas, da brutalidade do mundo, da mesquinhez das condições a que nos sujeitam, um total circo de opressões que só pode ser descortinado quando nos darmos conta do que faz falta: sensibilidade para perceber, humildade para aprender com a história, coragem para agir.
Este grito imemorial há sempre de ecoar do coração dos justos: o que faz falta é avisar a malta do que faz falta!
quinta-feira, junho 30, 2011
Minha juventude
domingo, maio 22, 2011
Maio maduro
Maio da Queima das Fitas, com seus cantores da madrugada pelas ruas da alta, a perturbarem-me o sono, maio das longas viagens, maio da Feira de Azambuja, maio a mais não poder.
Suas longas tardes gostam mesmo é de se espalhar para além das 6 horas da tarde, mais duas, quase três.
É mesmo agora por esse mês de maio que já começam a se agitar os partidos com as eleições em julho, é já agora que o calor evoca um verão que ainda demora, ao menos para poder ser gozado, é já agora em maio que se delineia um novo ano na academia.
Lembro-me vivamente, com esse prematuro verão do fim de maio, da minha chegada à boa cidade de Coimbra, para cursar o mestrado. Lá como agora, o impulso da vida parecia levar consigo qualquer outra indisposição, não dando vez a nada a não ser o comando de gozar aquela gentil condição de preparar mas sem afobações e nem angústias.
Vêm-me o cheiro das sardinhas na brasa, o gosto do vinho de Cantanhede, a brisa morna da alta, o transpirar das tardes no árido paço das escolas.
No mesmo fluxo, emerge uma ansiedade positiva de querer ver surgir aquele tempo novo, que então não se podia adivinhar bem e que talvez agora o seu congênere atual seja mais bem talhado nos anos passados.
Faz parecer sempre uma lógica circular do tempo e da vida, que nos reconduz ao recomeço, sempre novo e diferente, no entanto. É bem capaz que seja assim porque a nossa personalidade o diz, porque pede sempre pelo mesmo, pelos mesmos caminhos e pelas mesmas pessoas, mesmo que não seja tudo exatamente o mesmo na sua individualidade, mas a similiridade acaba por buscar a si mesma.
Estive a ter uma doce leitura nas últimas semanas. "Querido poeta" é o livro de correspondências de Vinicius de Moraes. Trata-se mesmo de uma inscurção pelo coração e pela mente do poeta, durante toda a sua vida, pelas cartas mandadas e recebidas desde os anos de 1930 até a última cartinha em 1980, ano da morte de Vinicius.
Essa excessiva aproximação do privado serviu-me para admirá-lo ainda mais, para compreendê-lo, compreender a sua grande gana de se fazer ler e ouvir, seu grande empenho em fazer chegar às pessoas a sua arte, com o intuito inquestionável de dividir com os outros e não o de somar para si.
Mais ainda, a vida de Vinicius, como a minha também e a sua, meu leitor, mostra lindamente o caráter cíclico dos acontecimentos, como nós nos reconduzimos a um perene começo, sempre diferente, mas que traz em si os mesmos elementos da vida que escolhemos para nós próprios: a nossa decisão quanto ao que será do nosso amor, da nossa amizade, da nossa profissão, da nossa fé.
Na doçura de um novo momento, o bom é reconhecer nele seus constituintes passados, sem os quais não haveria, mas acho também que vale viver a sua novidade nas circunstâncias das boas surpresas e dos novos desafios, sem os quais esses longos ciclos da vida iriam dar a lado nenhum.
Tudo isso a se passar nesse nosso maio, maduro maio que teima em não acabar.
quarta-feira, maio 04, 2011
Novíssimas tranças reflectivas
Já quase completos dois anos de ausência, o céu parecia dessa vez menos laranja e as esquinas menos ressentidas. Nos prédios e nas avenidas do centro, a mesma gente a mover aquilo para a frente, as mesmas empresas de transporte público com suas tarifas caras a ajudá-los a ir de um lado ao outro.
Juiz de Fora da minha adolescência, que não é revivada no saudosismo triste de tentar trazer de volta o que já não é e que é desmascarado na verdade mais óbvia: nem eu próprio sou o mesmo. Mas a cidade nos seduz nas pequenas sutilezas que o nosso coração não deixa escapar como ordinárias: aquele último abraço, a última volta pelo centro de madrugada, o costumeiro colorido dos nossos sábados, a contínua brisa a soprar as velhas lembranças na avenida Rio Branco.
Assim solto no meio desse redemoinho de emoções, o coração se aperta, tenta ver no tempo e no espaço aquele rapaz que deixou ali um rasto de risos e lágrimas que o tempo não tem podido fazer sumir.
Os velhos amigos dão os braços para me levar às velhas inscursões do espírito, quando leves e puros, rompemos a barreira de mistério que separa o menino da sua definitiva face de homem. Cantam a canção que inicia o rito, que põe-nos em marcha, rumo aquele mesmo sabido ideal de não deixar falhar a mão ao nosso irmão que nos aguarda para a defesa num momento de aperto. Escorrem lágrimas, dão-se gritos, mas os aviões continuarão a patrocinar a distância e os corações e mentes justifica-la-ão como já fizeram tantas vezes.
Não é um desespero, não é uma agonia sem mãe nem pai, não é o fim e nem o começo do mundo. É, isso sim, ter o coração apertado, como se pulsasse com mil pequeninos cortes a tirar dele o fluido vital que é sua razão de ser.
Entre a tristeza e a alegria de existir tanto para mim nessa boa terra de Murilo Mendes, nunca cessarão os meus pensamentos de amor filial para Juiz de Fora e fraternal para com os juizforanos.
quinta-feira, abril 28, 2011
Queda d'água bruta no peito
Depois de quase dois anos, cá estou eu novamente, no seio desta terra onde nasci e que guarda, ainda hoje, a aventura e o mistério, a paixão e o sonho, estas lindas Minas Gerais da minha vida, com seus mil veios de ouro puro a deslumbrar os meus olhos e tornar mais rubro o meu sangue.
Trouxe o meu grau académico para mostrar, porque afinal é pela formalidade das razões que as coisas se explicam mais facilmente, mas o que eu trouxe mesmo vai muito além de uma dissertação de mestrado.
Comigo vieram também o fado e o sol da primavera, a maneira educada de abordar que ao mesmo tempo pode parecer bruta, os olhos postos firmes naquele pré-sorriso que o copo de vinho ajuda um pouco a formar. Um coração cheio de Portugal. Como uma queda d'água bruta no peito, faz-se notar para mim mesmo.
Talvez por isso as coisas do Brasil pareçam tão diferentes agora. Depois de tanto e tão profundo aportuguesamento, tudo parece um pouco fora de sítio: o calor, as roupas das pessoas, o modo de tratar, as confianças não dadas e que os brasileiros sempre acham que podem tomar - embora de boa-fé.
Se cá fosse ficar uns 2 meses, acho que pela quarta semana já estaria adaptado novamente a essa bossa nova daqui. Como não é o caso, quase me sinto estrangeiro no meu próprio país, onde as lembranças dos usos e dos costumes parecem sempre visões turvas de algo que no passado eu conheci, mas que hoje é diferente.
Vejo um país a levantar-se com uma força imensa. Uma nação de braços dados, quase sem religião e com valores confusos, doida para ter e se fazer notar. Uma nova América? Não, não será nunca o que os Estados Unidos são porque não fomos formados naquele protestantismo revanchista, nem temos clara a noção do nosso destino manifesto.
O Brasil se levanta com ambição. Nisso os brasileiros estão todos juntos. Mas a gênese da riqueza lhes escapa covardemente por entre os dedos: ignoram que a prosperidade anda de mãos dadas com os valores que a sociedade defende acima de tudo. Sem os valores (cristãos - na minha humilde e devota perspectiva), o que sobra é uma geleia de interesses a se devorarem uns aos outros para serem no fim enlaçados por um terceiro oportunista que lhes aproveita os esforços mal intencionados, para mais à frente também ser vítima de alguma emboscada vil.
Portugal anda melhor? Não, sinceramente não acho que os portugueses sejam anjos da providência, mas ao menos os valores ainda se fazem sentir com mais força: há o respeito pela propriedade alheia na medida que se quer que a nossa seja respeitada, há recato, há alguma sensatez e muita sobriedade nos discursos das gentes - o que às vezes passa por pessimismo, mas não é. Ninguém mais que o português deseja que as coisas corram bem, o que custa é ver a realidade e sonhar... Mas Portugal sonha e eu também sonho.
De frente para o Palácio do Planalto ou na calçada da praia de Ipanema, um mesmo e grande país a fazer-se ao mundo sem ter clara a razão dessa pretensão toda. Em Portugal, um rosto a mirar o infinito, à espera de que o gigante conte o segredo da sua pujança e desfaça o nevoeiro que há tantos séculos cobre todos os corações lusitanos.
domingo, março 06, 2011
Mas é carnaval...
Digo carnaval como quem diz entrudo, não o carnaval das extravagâncias da carne, essa estupidez nunca me interessou, para mim não passa de uma grosseira coroação dos instintos que durante o resto do ano se deve repremir, portanto, é um bocado estúpido. Daí também já se vê uma diferença clara entre o carnaval das crianças e o carnaval dos adultos, coisas completamente diferentes, mas que os pequenos tendem a não compreender, como é natural.
Hoje, se calhar, fico feliz já e apenas em lembrar daquele entrudo de quando eu era puto. Dos preparativos das fantasias, das peças a pregar, dos exageros inocentes, daquilo de não ter identidade e poder exagerar nas brincadeiras sem que ficasse ninguém chateado. Talvez também isso fosse estúpido, mas pelo menos não era uma banalização dessa época antes da quaresma, como é para os ateus.
Lembro-me vivamente do carnaval dos meus oito anos quando tinha como missão, para além do meu traje de carnaval, também o dos meus primos, tínhamos de pensar no que queríamos nos fantasiar, depois as mães iam lá ver como arranjar aquilo em condições, nem sempre as mais favoráveis, diga-se de passagem.
A ideia, no entanto, era ter dois trajes de carnaval. Um dos trajes usava-se nos bailes de carnaval, que para as crianças eram matinês, sempre uma ao domingo e outra à segunda-feira, das 16 às 18:30hs, por vezes começava mais cedo. O outro traje era mesmo para o entrudo, também tínhamos máscaras, mas esse traje era mesmo de roupas velhas, coisas que já não importava rasgar ou manchar, e tanto quanto ninguém soubesse quem éramos, melhor. Isso de preservar a identidade era algo para se levar a sério, não bastava uma mascarazinha de nada, só para constar... Não senhor, era preciso cobrir bem o rosto, por vezes utilizando uma fronha velha, fazendo-lhe as aberturas necessárias para respirar e ver, e pintando-a para ilustrar a cara do "sujo", eis como chamávamos a esses mascarados e cada um desses portava uma espécie de porrete, que era para se defender dos que viessem gozar e para as peças também, como é claro. Nos bolsos levávamos farinha de trigo, uns ovos e pouco mais, de acordo com a criatividade.
Era claro que entre o baile de carnaval e a noite de entrudo eu preferia sempre o entrudo. Saíamos eu e os meus primos, sempre num grupo de 4 ou 5, e fazíamos a volta à praça todos juntos, num grupo bem unido. Por vezes encontrávamos outro grupo de "sujos" e aí podia haver guerra, mas era sempre coisa de crianças, sem grandes traumas. Normalmente também acompanhávamos a banda da nossa terra que nos dias de carnaval ainda hoje sai pelas ruas a tocar as marchinhas e a acompanhá-los saem uma boneca gigante cabeçuda a "negra Tereza" e também um senhor a empunhar uma fantasia de touro e um outro numa fantasia de mula, além de um toureiro e a grande festa é a simulação de uma tourada com esses três personagens. Nós acompanhávamos essa turma toda, sendo de alguma forma também parte dela.
Sabia bem ser criança e estar na rua a ver as pessoas do costume e estas não saberem quem éramos nós, havia ali algum gozo e por isso mesmo gozávamos com eles e víamos o que faziam quando atirávamo-lhes um ovo, ou laçávamo-lhes farinha na cara, muito bem sabiam eles que podia ser um sobrinho ou um amiguinho que estava só a gozar, por isso, por regra, nunca nenhum adulto revidava a um "sujo", o que acontecia só quando as coisas ficavam mesmo fora de controle, mas pronto, aí é porque o "sujo" em questão já era mais grandinho e também porque já devia ter tomado um copo ou dois e andava a festejar mais do que o normal.
Bons tempos que já não voltam, e não faz mal que seja assim. Sei bem que mesmo na minha terra essa tradição já não continua, ao menos já não é o que foi. Hoje é só barulheiras e cerveja e gente com pouca roupa a dançar música bahiana... not my cup of tea.
De todo jeito, meus leitores, muita água e muita alegria, além do juizinho habitual, nesses dias antes da quaresma, porque depois do carnaval a vida continua, como bem o sei.
sábado, fevereiro 05, 2011
A menina e os olhos
Era bonita a miúda. Tinha uns olhos cinzentos que pareciam ser castanhos e o cabelo, esse sim castanho, mas brilhante e cumprido. Umas maçãs do rosto bem lusitanas e boca bem feita davam-lhe o aspecto de moça das Beiras, mas sem ter a pele propriamente morena.
Fiquei a observá-los quando eu próprio me encontrava naquele insólito de depender do autocarro para ir de um lado para o outro. Mas foi um curioso parar para observar a vida.
Os dois falavam de outros colegas e de coisas um bocado tolas, do que não vale vir aqui colocar ou reproduzir. No entanto, faziam uma figura engraçada aqueles dois. Eram uma decadência muito colorida, mas ainda assim não propriamente decadente. Pensava onde é que o autocarro os iria levar: se era para casa, se era para um outro encontro, se ainda tinham esperanças de desligar daquelas tolices e ver a beleza daquela idade, daqueles poucos anos que eles tinham ali e que vai desaparecer amanhã numa forma mais madura, embora também possa ser bela.
Chegou o meu autocarro primeiro. Ela ficou a olhar-me nos olhos e o rapaz acabou por reparar no meu passar por eles. Quase sorri, mas não, não o cheguei a fazer. Ficaram lá os dois em meio aquelas brincadeiras idiotas de adolescentes.
Ainda fiquei a pensar naqueles dois por um bocado. Revi os meus momentos de rapazito pateta na procura das coisas novas, mas mais bem comportado que aqueles dois, acho eu. Hoje se calhar as coisas que eram novas naquela altura já são as do costume e as euforias manifestam-se de outras maneiras.
Faz-me falta, entretanto, aquela despreocupação com o resto do mundo, com os olhos e palavras do resto do mundo, ante o nosso maravilhar pela vida, o nosso encanto e a nossa descoberta, a nossa alegria pela liberdade e pelo sonho. Tendo que tudo isso não é exclusividade dos adolescentes, ao menos, cabe invejar-lhes o inocente desleixo com as aparecências, por vezes sem sentido, e que nos conformam a vida para dar tão pouco de volta.
É capaz que quando eu voltar a ver aqueles dois também eles já tenham desaprendido essa liberdade irresponsável que ninguém nos deixa manter quando se quer, ao mesmo tempo, ser levado a sério.
quarta-feira, janeiro 19, 2011
Vem viver a vida, amor

terça-feira, outubro 26, 2010
Hey, you!

terça-feira, outubro 12, 2010
Viva o Rei!
...........................Estátua de Dom Pedro IV no PortoA forma republicana não é ruim, na sua essência, nem os princípios republicanos são ruins. Mas quando falamos dos Estados nacionais, ou seja, dos países que reúnem um só povo, com uma identidade étnica, religiosa e linguística, não acredito que a república seja uma forma de estado melhor que a monarquia.
Antes de mais, porque a monarquia não é oposto da república e dos seus princípios. Na monarquia constitucional o soberano não é monarca, mas sim o povo, a quem o Rei representa. Com mais legitimidade que qualquer presidente, o Rei deve defender os valores nacionais, a sua identidade, o seu destino manifesto. Assim, a monarquia não é anti-republicana, mas sim mais republicana do que a república, uma vez que também abraça o respeito pelos ideais de igualdade entre os homens e da boa gerência dos dinheiros públicos, com a vantagem de não trazer em si a pressa das realizações com fins popularistas ou a endêmica corrupção da república.
Em Portugal e no Brasil instalaram-se repúblicas tenebrosas, assentadas na força bruta e na ignorância do povo, assassinaram um rei e expulsaram um outro que tinha servido o país por 50 anos para que morresse quase abandonado num hotel de Paris.
Nos dois lados do atlântico, a república serviu aos grupos sociais emergentes para apossarem-se do poder do Estado sem ter que dar satisfações ao fiscal real que não permitiria os seus abusos e desmandos. Foi assim que o século XX será sempre lembrado pelas estúpidas ditaduras que forçaram Portugal e o Brasil aos grilhões da obscuridade e da censura.
A forma republicana foi, portanto, um meio eficaz para iludir os espíritos que pediam mudanças mas sem, de facto, promovê-las. No Brasil tivemos o caso exemplar de Rui Barbosa, que chegou a discursar a favor da república, mas que depois de implantada à força e sem participação popular, viu que nada mudaria, pois os problemas do país não estavam no seu monarca, mas sim em questões estruturais que teriam de ser enfrentadas com trabalho e não com um covarde golpe de Estado.
Há poucos dias vimos o deprimente espetáculo que foram as festividades pelos 100 anos da república em Portugal. Mas festejar o que? As ditaduras que vieram a substituir a democracia dos tempos dos reis? A falta de liberdade de expressão que foi implantada para calar os que contestavam os desmandos? A corrupação que premiava os filhos dos chefes dos partidos e os amigos dos poderosos do aparelho estatal? Afinal, a república vem custar ao povo muito mais, incalculavemente mais do que a monarquia, com o ônus acrescido da sua ilegitimidade.
Todo o quadro fica ainda mais triste de se admirar quando recordamos que Portugal é o mais antigo Estado nacional do mundo, fundado sob a coroa de Dom Afonso Henriques, que conquistou essas terras a lutar cara a cara com os mouros invasores.
Assim como Barbosa, um dos mais destacados intelectuais brasileiros de sempre, se retratou e passou a defender a monarquia pelo resto da sua vida, também é hora desta multidão de indiferentes acordar para a realidade e banir de vez essa escumalha republicana cujo único e perene ideal é espoliar o dinheiro dos impostos ao seu próprio bem e dos seus comparsas e parentes.
Abaixo a república!
Viva o Rei!
sexta-feira, agosto 13, 2010
O poeta e eu

Embebido no sonho, lá dentro do mundo fantástico que os sentimentos e a razão constroem para nos fazer quem somos, estive com o poeta maior para lhe criticar a arte, na infinita coragem de instrumentalizar a vida para dar passagem à poesia: o oposto do que toda a gente faz. E nesse aproximar da destruição, se calhar, é que existia a sua magnânima grandeza.
Convidou-me depois para almoçar em sua casa, e na intimidade era afinal tímido e precisava de de muito gin (por acaso não me lembro de ver nenhum whiskey) para sorrir e brincar. Eu era ali um estranho e nem compreendi bem por que me haveria de ter feito o convite, mas depois, a pouco e pouco, foi bem vista a razão: mostrava-me ele, o poeta, o caminho meu que já foi o dele e eu então percebi o porquê das decisões e num rompante imenso de lirismo, vi os rostos de toda a gente que por pouco que fosse já me tocara a alma.
O dia amanhecido foi uma identificação das novas certezas, mas da maneira doce que a falta de obrigações ou imposições conhece.
Vi com mais vigor os traços do meu avô materno nos meus próprios, no meu cabelo e no meu olhar e senti fundo as tradições daquela raça que em mim vingou mais que nos outros e que faz lembrar tempos que já vão tão longe e quando era preciso muita coragem, muita força e uma resistência brutal para que a vida não fosse um exercício de submissão que levava à morte.
Já então nenhuma das minhas decisões parecia mais despropositada e nem havia saudades, nem raivas e nem remorços de nada e nem de ninguém. Apenas uma lembrança de mim mesmo sempre mais clara e que eu não posso, mesmo agora, deixar de estranhar de todo.
Seja lá como for, a simplicidade e a timidez do poeta mostraram-me um caminho que sempre tive comigo, mas que nunca tinha tido a audácia de fazer abrir-se diante de mim, mas que está aberto para a frente, para o futuro.
A bênção, Vinicius.
quinta-feira, junho 17, 2010
Olhos nos olhos
Não diria que Deus é vingativo, como muita gente gosta de dizer. Diria que as coisas que fazemos voltam para nós mesmos, as boas e as más. Antes de acreditar que a infinita bondade e o infinito amor que é Deus são responsáveis por essas maçadas da vida, antes vale ver o caminho por onde se anda, especialmente aqueles sítios onde ao invés do sacrifício para o bem comum, foi visado só um interesse pessoal e egoístico, onde ao invés de esperança e fé, deu-se lugar ao oportunismo e a leviandade, onde a humilhação e a opressão impunham perseverança, deu-se lugar a uma desistência fraca e uma retirada em precipitação.
É um longo caminho por onde passamos, a nossa vida. Vejo-o nos gatos de rua que moram aqui em frente de casa. Se de manhã matam-se a miar pelo pequeno almoço trazido pela dona Fernanda, ao meio da tarde, quando vem o sol quente, desaparecem para algum refúgio fresco, suspeito eu, longe dessas paragens. Mas depois que o sol esmorece, voltam mansinhos a ocupar as suas posições de costume. Fazem da vida essa rotina de estar juntos, nem sempre a lamber-se, mas certamente sempre a contar uns com os outros. Um é chefe e dá as ordens. Os outros obedecem ou então levam na cabeça, que é para aprender de uma vez.
Na sua charmosa bestialidade, os gatos em muito mostram o nosso comportamento (com vantagens notáveis, é verdade: a liberdade, a graça, o desprendimento, a sutileza, etc.). De certo que ignoram de todo a existência de Deus e no alto da sua consciência animal, o certo e o errado levam ao limite do convívio social e da sobrevivência na sua sociedade patriarcal. Todos se submetem as ordens do macho dominante e cada um tem uma função nessa sociedade, porque sabem que juntos tem chances melhores e porque são animais sociáveis, também é verdade.
Ser "esperto como os gatos" talvez também passe por aí. Saber que os verdadeiros vencedores são todos "team players", ou seja, não há êxito verdadeiro quando se mira só o próprio umbigo: vão faltar apoios, vão faltar motivos, vão faltar alegrias.
Sintomático de que o homem (e também a mulher, por que não?!) deve voltar-se para fora de si mesmo é esse magnífico evento: o mundial de futebol, ou a Copa do Mundo. Assim como os gatos que protegem-se uns aos outros, uns de alerta enquanto os outros dormem, também a equipa que vai vencer esse torneio contará com jogadores que salvaguardam as costas dos outros. O gato que conquista um belo petisco não pode tê-lo só para si: sabe que a boa nutrição do grupo é que vai lhe garantir boas performances amanhã. Também o avançado que não passa a bola para o companheiro melhor posicionado para marcar vai ter menos hipóteses de ver sua equipa sair vitoriosa.
Assim, o que se passa com os gatos, o que se passa com os futebolistas, passa-se com toda a gente, em todo o lado, da mesma forma. Põe a mente e o coração para fora de ti mesmo e vais ver Deus na plenitude. Não o Deus vingativo e ditador que os pagãos e ateus gostam de pintar, mas o Deus que é amor, caridade e verdade.
Mas se esse discurso filosófico-religioso, com alegorias a gatos e à Copa do Mundo, não te convence, segue o teu caminho reto dentro de ti mesmo, mas saiba que ele conduz a um destino torto.
