quinta-feira, março 31, 2005

O altar aos olhares

"Vida feita de inveja e de medo" foi esse o pensamento mais forte do meu dia! Atingindo-me perto do meio-dia como um raio caído dos abismos do céu diretamente sobre o meu colo, fez parecer que minha camisa pesava mais de 50 quilos e que peixinhos nadavam ao lado dos copos e dos talheres!
Não poderia imaginar que um simples almoço no centro da cidade fosse lançar tantas faíscas e eu fui colher no chão aquela centelha que se apagava para aqui expor todo meu drama naquele momento que na verdade não era meu, mas alheio, totalmente alheio, pertencia a um estranho rapaz que ao meu lado almoçava desassossegado. Cabelos louros bem curtos, olhos castanhos, visivelmente fora de forma, com as unhas destroçadas pelos dentes e pela ansiedade, parecia incapaz de continuar sua refeição depois de ter visto sentada de frente para nós, numa outra mesa, uma linda mocinha de não mais de 18 anos, com os cabelos castanhos bem escuros e lisos à altura do pescoço, com grandes olhos verdes bem aproveitados pela sua franja e pelas sombrancelhas bem feitas, medindo não mais que 1,65m nem menos que 1,60m, parecia a criatura mais formosa do mundo aos olhos do rapaz, enfeitiçado por esse cenário completado apenas talvez pelo seu lindo decote, nem um pouco exagerado, mas suficiente para ter os olhares que desejasse e ainda mais.
Reparando que ele babava pateticamente no seu prato, um impulso pela dignidade masculina correu meu corpo de repente e de maneira mesmo forçada, eu diria, bem a contragosto de qualquer tipo de abordagem gentil e natural, perguntei de solapão: "Então não é idêntica à Natalie Portman?" O rapaz tossiu de repente e foi uma tossida tão alta que o garção do outro lado do restaurante virou-se para ver se tinha alguém passando mal. Depois de recuperar-se, olhou para mim e disse, "olha que acho ainda mais linda" e dizendo tinha nos olhos uma cor que olhando para o seu rosto de lado não tinha suspeitado que tinha, ele tinha então olhos de mar, marejados de angústia, como nos quadros que retratam navegantes costumava-se colocar aquele azul lilás símbolo de saudade angustiada e doce. Voltou vagarosamente a adorar aquela moça, como que curvando-se ante um altar.
Numa segunda observação ao rosto da moça, lembrei-me rápido de quem era, afinal conhecia a sósia de Natalie Portman! Seu nome é Fátima, tem 19 anos (percebi mal sua idade pelo olhar), estuda Artes na universidade federal e estudou francês no Departamento de Línguas Estrangeiras Modernas quando eu trabalhava lá como monitor desse mesmo idioma. Tendo conversado com ela apenas uma vez para explicações de última hora para um exame, a impressão que restara era de uma pessoa prática e bastante segura, feliz com o que tinha às mãos e nada curiosa, afinal o tipo de mulher que deve estar apaixonada e não fazer apaixonar, embora essa segunda condição seja enfim mais constante nas suas relações.
O rapaz tinha uma expressão tão serena no fim do almoço que eu quase me esqueci que tinha que ir e acabei por atrasar-me um pouco! Nos olhos aquele lilás imaginário e na compostura de seu corpo a certeza de desejar algo que lhe era distante e inalcansável, algo que os padrões, os temperamentos, as circunstâncias não lhe dariam nunca.
Quando o deixei admirando Fátima limpando a boca com o guardanapo de papel, desisti de continuar analisando aquela maciça exposição da fragilidade masculina, talvez sentindo-me compensado por não ter ídolos daquele tipo, talvez cansado de ter compaixão por quem não tem compaixão com o próprio coração.