quinta-feira, junho 26, 2008
Meridiano
Estabelecido por Sir George Biddell Airy em 1851 e aceito internacionalmente a partir de 1884, sempre tinha me feito impressão o motivo pelo qual aquele lugar e não qualquer outro no mundo, tinha sido escolhido para ser o ponto zero da longitude do mundo. Se lembrarmos, entretanto, que na altura em tais estudos de coordenadas geográficas foram feitos, o centro cultural, econômico e científico do mundo era aqui na capital do Reino Unido, essa estranheza deixa logo de existir.
Ontem estive a passear por lá pela primeira vez. Como turista na cidade onde moro já há algum tempo, não podia deixar de ir visitar o lugar.
A vizinhança de Greenwich é muito bonita e alegre. As casas parecem mais coloridas e certamente há mais crianças que noutras regiões de Londres, devo ter contado no mínimo uns 30 carrinhos de bebê em algo como uma hora e meia. Talvez tenha contribuído para o número o fato de ter atravessado o parque que guarda o observatório e que o mesmo é maravilhosamente florido, daí já não me surpreenderia pela natural ligação dos bebês e das flores, pois coisas belas costumam estar juntas.
Envolto nessa atmosfera, o velho observatório astronômico de Greenwich, onde consta bem a linha que divide o mundo e as longitudes e latitudes de várias capitais, ainda guarda muito da sua original feição: parece que se pode ler nas paredes a certeza e a precisão das distâncias e das localizações, como se fosse uma liberdade ao grande medo de peder-se, afirma-se sutilmente que estamos agora num mundo onde todos os centímetros são cuidadosamente medidos e pode se saber a localização de qualquer coisa com o mero ajuntamento do correto par de graus latitudinais e longitudinais. Especialmente para os fins militares, é capaz que tal seja mesmo muito útil e até para uma questão de orientação espacial quando se faz uma excursão por um lugar remoto, mas ressalvados esses e outros casos correlatos, parece-me de uma aplicação restrita.
Imagine-se, entretanto, se fosse possível meter coordenadas no que se sente e pensa. Essa talvez fosse uma idéia que tivesse maior apelo e é possível que muitos se interessassem em saber por onde anda a caridade, o amor, a consciência, o respeito das pessoas em geral ou mesmo de quem se ama.
"Meu amor está na latitude 33º, longitude 21º" e pronto, era ir para esse lugar dentro de si e poder encontrar o sentimento. Certamente, o centro internacional do meridiano de si mesmo devia ser o coração. A partir dele, uma linha imaginária a dividir-nos pela metade para que fóssemos demarcados e em nós se pudesse achar tudo o que de mais precioso existe, mas que tantas vezes é difícil encontrar.
A contemplar tantas possibilidades, com o pensamento leve e ponderado, equilibrei-me como quem anda numa corda bamba enquanto andava sobre a linha que divide o mundo.
domingo, junho 15, 2008
A piscina
Quando chegavam as férias do final do ano, chegava também a época de ir para lá cultivar os bons hábitos da infância tardia que espertamente não quer se despedir. Fazíamos uma boa refeição de manhã e , com a bola de futebol debaixo do braço, rumávamos para lá, para o resto do dia as refeições eram no pomar, sempre visitado entre uma atividade e outra.
Dias havia que nos dedicávamos à caça, outros para explorar as antigas casas de colonos, outros para o três-troques no futebol, mas quando fazia mesmo calor, eram dias na piscina.
Não me lembro mais das dimensões, mas podia-se nadar livremente uma boa distância, ao menos em termos de braçadas de menino. Na parte mais funda devia contar com pouco mais de 3 metros e na mais rasa eu, com algo como um metro e meio, dava-me pé facilmente.
Muitas vezes nadávamos na piscina como os gladiadores lutavam nas arenas: uma cerrada competição, seja para ver quem tinha mais fôlego, seja para ver quem nadava mais rápido, mas de todas as disputas, minha favorita era o mergulho. Numa das modalidades que eu mais gostava, ficávamos de costas para a piscina e ao mesmo tempo jogávamos uma moeda dentro d'água: quem trouxesse a moeda do outro primeiro ganhava. Noutra modalidade, valia mais o movimento do mergulho: tomava distância e, tendo em conta um degrau bem antes da quina, media bem os metros para o impulso, o salto e a entrada na água, a força com que me jogava para o impulso através da água para vir à tona bem mais à frente.
Por vezes quando nado no centro de esportes da City University fico a lembrar daquelas tardes de verão e daquele tenaz mergulhador que não admitia jamais vir a tona sem a moeda do adversário: sorri-me sempre cheio de camaradagem quando o procuro no espelho.
sexta-feira, maio 16, 2008
Memória

Sem poder ver, eu sinto. Chegam em ondas eletromagnéticas do telefone, chegam por mensagens eletrònicas, chegam pelos jornais e também pelos silêncios meus e deles.
Varre o vento dos dias de dentro de nós partes do que fomos, deixa-nos menores e essa embaraçosa nudez nos ruboriza mais quando os olhos alheios nos encontram.
Talvez por ser uma idéia demasiado penosa, não costumo me deixar desfazer ao tempo, levo todos comigo. Vivem assim junto de mim numa proximidade que não poderiam imaginar. Queridos amigos meus, do doce convívio que por uma etapa da vida tivemos há esse conforto de saber com quem se lida, com quem se vai e onde se vai chegar. Como quando me confiaram a vida, o carro, os pensamentos íntimos, a amizade e dessa honra forjada no respeito que eu senti por eles, recebem a minha lealdade.
Essas lembranças que vagam, entretanto, cobram seu pedágio à saudade e por vezes fere lentamente, algumas vezes passa, outras visita-me e perguntam que se passa, como foi o dia, que se faz no fim de semana, para o mês. Eu respondo assim na língua das lembranças distantes e revivo no pensamento os momentos que tivemos juntos, rendendo-lhes essa pueril e anônima homenagem e mantenho-os, ao menos do meu lado e dessa pobre maneira, meus amigos.
Claro que há amigos novos, boa gente que tenho alegria pelo convívio, mas como cada pessoa é única, não se pode exigir que sejam como são outros ou mesmo que tenhamos a mesma camaradagem que é feita de muitos anos e muitas experiências partilhadas.
Assim, my old mates, guardem consigo a lembrança fiel desse aqui que em vocês empenha o coração e que está à disposição para o que der e vier, como sempre.
quinta-feira, março 06, 2008
Sou aquilo que se vê
A força que se esconde no aspecto das coisas fala também às pessoas as suas silenciosas palavras. Diz do que pode ser, especula. Uns ouvem a essa voz e admiram-se com formidáveis olhinhos de fome a miserável condição humana que tem, essas cenas de amor, de esperança, de confiança, de respeito à fluida parte de nós que podemos tocar com as mãos e que ocupa com covardia a grande parte dos nossos pensamentos.
Um visível cansaço apoderou-se desses olhos frente ao espelho, olhos vindos de ver a maldade e o triunfo dos impulsos estúpidos, agora mais voltados para si mesmo, agora a ver para além das retinas e dos tempos da vida e a baixar quase que com constrangimento, envergonhado pelos outros.
No vale secreto das montanhas, lá onde eu nasci, no frio do momento prestes à aurora, onde o nevoeiro está a desfazer-se e a intimidade ganha contornos de ser abraçada e vibrar com entusiasmo, lá é que eu vivo inteiramente, nesse mero instante.
Celebra no segredo desse recanto, a paz de não haver expectativas a cumprir, de não fazer ninguém sofrer, de não ter que ser agressivo ou permissivo, de não ter que amar. E há tanta compreensão, há tanta comtemplação desse mistério de Deus, que era de bom proveito extender esse instante do dia para sempre, não fossem as correntes que trago no pescoço e as estacas que me espetam o coração e me reduzem a um escravo de paixões e ambições vãs.
Assim resta-me conversar com esse mal aspecto das coisas aparentemente belas, tentar levar com bom humor essas tretas todas e ter uma infinita paciência com toda gente, ou ao menos com os que merecem.
domingo, fevereiro 17, 2008
Leãozinho
Ardem os olhos, avisa o corpo que basta, que é preciso dormir mais, que é preciso querer menos, que para ele não é preciso, mas o coração não quer saber dessas estórias e segue sempre inflexível nas suas ordens.
Encontra beleza nessas doces manhãs de sol e frio que a capital tem tido no início do ano e anima-se com a primeira brisa fria inspirada da saída da estação: viva a vida.
Começos e finais, horas a passar. Tamborilar de dedos, pensamentos a bater estupidamente sem nenhum retorno, reconhecimento do absurso e pior, secreto anseio da realização do absurdo. Irrepreensível amor à beleza e um ingênuo fascínio pela doçura dos sorrisos recebidos.
Esforços dedicados, telefonemas que ficaram por serem feitos, palavras que morreram no meio termo das intenções. Frustrações e alguns acertos.
Mas existes. Trazes contigo esperança, bolinhos para um piquenique e montes de olhares docinhos e beijos de amor.
Existes assim na inteireza de alma, nos teus sonhos secretos, nas tuas fantasias românticas, nas pequenas e gentis palavras que comunicam teu nome. Existes em mim.
Como os pássaros que planam calados para manchar o céu sem muitas outras pretensões, impõe-te ao horizonte diante dos meus olhos, estás à minha frente, pedes para comer do meu corpo e parar beber do meu sangue, pedes para vestir minha pele e para ver com meus olhos e eu, miseravelmente, dou tudo que tenho.
Calmamente tenho a marca dos meus sorrisos no rosto e percebo o esmorecer da cor dos meus olhos. Este impulso de vida que gasto com tanto prazer serve-me melhor à realização do delírio que o amor propõe através de ti e que tão orgulhosamente eu aceitei sem exitar.
Dá o teu abraço, pequenina! Agarra-te a mim e não me deixes ir antes de tomar um café fresco e predizer como será amanhã, das cores que virão do céu e do cheiro apaixonante a desprender-se da nossa pele.
Como os navios nos portos silenciosos eu vejo assentar-se a madrugada e do segredo da minha solidão insuspeitada, queima incondicionalmente o meu coração.
terça-feira, janeiro 29, 2008
Participação da poesia
Café a esfumaçar, manhã de sol, as portas se fecham atrás dos milhões de pessoas que vão trabalhar nessa vibrande capital onde os sonhos se realizam.
Atrás de mim também fechou-se uma porta. Dentro do meu casaco segui pela minha rua, depois pela minha high street até a estação onde, por debaixo da terra, o trem me levou para Central London.
A multidão em Oxford Circus me adota, tomo parte no caudaloso rio que toma toda a calçada... sérias as pessoas, talvez já a meditar sobre as tarefas do dia, a maneira como dizer as coisas, talvez a confabular mentiras, talvez a ordenar interesses, acho que uns poucos conseguem se distrair para respirar o generoso ar fresco ou admirar o bonito brilho do sol sobre a cidade, algo especialmente raro nessa altura do ano. Também eu desprezo inconcientemente essas doses de beleza e meto-me dentro de mim absurdamente concentrado.
Eis que toca o telefone. Eis que vem uma voz que coloca-me de novo no mundo, brutalmente de face para o ridículo das coisas, timidamente a sorrir para o desconhecido.
"Correu bem a formatura, obrigado pela lembrança" Pois lembrei-me da data e parabenizei o formando em questão, algo assim como que há três semanas...
Que crueldade lembrar do pessoal de lá sem poder tar com eles nos lugares de costume, sem a nossa cidade, sem os nossos teatros, praças, bares, sem nós todos!
Minhas novas estações de metrô, praças com luminosos, ruas magicamente curvadas e colunas monumentais apenas palidamente compensam essas ausências que assaltam tão covardemente.
Tenho bilhete para ir ao Brasil amanhã, mas não vou, meu lugar vai vazio para algum sortudo esticar-se mais durante as 10 ou 12 horas de viagem para atravessar o oceano Atlântico.
Esses minutos contados a ouvir aquela boa voz amiga, entretanto, calaram-me demais e eu chorei mesmo que o frio e a compostura não me deixassem ter lágrimas.
Amigos queridos, há aqui alguém que é por vocês, mesmo quando parece que não lhes liga nenhuma. Cuidem do nosso país por mim e venham cá visitar quando puderem!
sábado, janeiro 26, 2008
Fragmento da pureza
Foi assim como um desses lampejos que cortam o coração quando se sente que está a sofrer um infarto: gritou-se na rua um apelo por libertade, toda a gente que lá estava deve ter percebido como foi doído, como percorreu a espinha a cortar, aquele pranto...
Imaginei donde viera, tentei refazer os caminhos por onde o mal seguir para talhar naquela cara tal expressão de horror, como deveria já vir sendo violentado por algum tempo, como tinha vincos marcados, e cicatrizes vermelhas onde abaixo pulsava seu sangue pleno dos seus sentimentos fortes, da sua cólera e da sua ira.
Abaixei o olhar ao meu colo, em seguida levantei às nuvens... que lindo céu para lançar engimas! Pudera a vida ser esse patético jogo de más certezas e dúvidas jeitosas para nos fazer ir por ela como imbecis bem recompensados por instantes pequenos de alegria, quando a parca parcela do que é prazeroso e feliz nos é dado parcimonicamente a fim de não esgotar a pobreza da garrafa onde é guardada.
Esvaziou-se a rua. Cada um que lá estava, que viu e sentiu tudo aquilo, tomou diferentes direções: à rua da indiferença foram muitos para distrair-se com alguma tolice engraçada, à rua da balbúrdia foram os que acharam bonito e quiseram continuar a fuzarca, porém sem o mesmo coração e alma nos gritos, à rua do lamento seguiram uns tantos mais decididos que queriam reclamar das coisas e conseguir algo com as queixas: pobres criaturas de Deus!
Eu, cá pleno deste horizonte sem fim que tenho em frente aos olhos, de coração quis passar a faca em todos, um desses desejos encolerados que temos quando não sobra mais paciência e é ultrajada a última barreira de tolerança, quando mesmo metem-nos o pé na dignidade. Pois uma morte por lâmina era o que mereciam os covardes. Esses uns que fazem sangrar a liberdade, esses canalhas que sorriem e querem parecer eficientes, os patéticos títeres da monotonia, da falta de alma das coisas, da monocromacia do mundo. Eis seus mais aplicados agentes, esses maus gestores do humor alheio.
Pude vê-lo ainda a respingar da roupa a sua ira, a sumir como um vento forte passa e depois dele não sopra mais nada, nem brisa mansa, nem o contínuo soprar mais forte, cessa tudo.
Pois na minha cara esse vento trouxe tudo o que tinha se proposto trazer e mesmo depois de ir, deixou marcada a sua mensagem de inconformismo. Há mesmo que ser assim, sem nenhuma tolerância com essa gente feia.
sábado, novembro 24, 2007
Piccadilly Circus e eu
Embora ainda houvesse gente na rua, embora os painéis continuassem a brilhar as animações dos produtos mais bacanas, embora tudo parecesse apontar para uma madrugada usual, Piccadilly Circus, já a mais de um ano o lar das minhas noites insones, mostrou-me num relance de pensamento onde Eros foi mandar sua flecha.
Ar frio que conheço e que tempera, o calor do rosto de expressão impassível: quanto frescor para se respirar! Fomos juntos, a fria brisa e eu, a vagar mais anônimos ao caminho do ponto de autocarro. No caminho, um rapaz despojado sentava-se numa cadeira de escritório enquanto três garotas italianas, todas flagrantemente bêbadas, falavam dos flertes da noite e brincavam animadamente umas com as outras. Havia junto de mim também um grupo de adolescentes de comportamento anti-social a fazer mais barulho que o necessário e trabalhadores com suas mochilas, encostados junto à fachada da Patisserie da Regent Street. Nenhum deles percebeu o meu estado.
Chego a casa e o céu do noroeste de Londres, sempre a lembrar o de Juiz de Fora, alaranjou delicadamente e este extremo amor que me comanda fez-se matéria sobre o meu corpo e tive a imediata certeza que qualquer um que me visse notaria esse sentimento nos meus olhos confiantes.
Num instante, toda mágoa e todo sofrimento se disolveram com os beijos que ganhei no meu sonho e foi sorrindo que a linda face da minha namorada aproximou-se para dar mimos.
O sonho a comandar a vida, a vida a seguir sua obediente condição de percurso e essas avenidas preparadas a se encher da expectativa dos dias do fim do ano quando ficará a ilha sem mim por uns dias a fim de que possa visitar o país que Fernando Pessoa chamou de "o rosto que contempla".
Outra coisa não poderia vir ao pensamento quando a vista do quarto evocava essa coragem, essa certeza, essa maneira de encantar o mundo que a princesa me ensinou sem perceber: contemplar a grandeza da liberdade e ver para além das casas vitorianas e dos pinheiros quietos, o horizonte distante que quer-se tanto: "Com razão, sem razão/como é preciso/que andes por onde estás".
Assim, procurei a cama meio tonto desta plenitude de vida, dediquei o último pensamento a ela e adormeci.
quarta-feira, outubro 10, 2007
Parque Secreto
Foi assim a tarde no parque: junto do vento constante o cheiro dos cabelos, vi a luz do sol a deitar-se devagar sobre a gente. Encampei no meu coração a empreitada de esconder-me entre as árvores, buscar com os esquilos o de comer e não voltar nunca mais para junto das ruas e do concreto, quis naquele minuto viver do meu amor e curtir o sorriso do meu amor como minha lembrança cristalizada do mais bonito que podia haver e depois disso nunca mais buscar nada.
Havia sobre as cabeças um azul malhado de branco céu cheio de ambições, como um teto que não é alto o suficiente e por vezes abraço-te e andamos curvados até a saída.
Foi assim junto do memorial do Príncipe Albert. Estavam lá nas escadas os velhinhos a aguardar a abertura das portas para o próximo espetáculo, todos guardados pelo olhar do consorte dourado do alto de seu trono. Descansamos, respiramos fundo, comemos morangos! Ao toque dos dedos pareceu-me o brilho dourado vir antes doutro lado e foram-se a grande indiferença e a dureza para darem lugar ao úmido apreço pelas mãos queridas, pelos beijos ansiados, pelos risos mais sonoros.
Veio uma estrela no fim da tarde e deixou-me no colo a solidão. Agarrei-a com as duas mãos e ao trazê-la junto ao peito abracei-a forte e queimei-me e tanto mais quanto feria-me a pele, tanto mais apertava até que, com o frio da noite já assentada, foi-se de mim num suspiro apaixonado.
Eu caí pelo lado, tonto a sorrir ao esquilo curioso, que desceu da árvore pra examinar aquela doce figura que eu fazia ali.
Pisquei o olho direito ao bichinho que, muito amistoso, deu boas vindas ao novo vizinho com um franzir de bigodes.
sábado, agosto 25, 2007
Não sonho mais
Estavamos, um colega que tambem trabalha no Museu de Ciencia e eu, quase a chegar a entrada do caminho subterraneo para a estacao de South Kensington quando fomos parados por um casal com sua penca de filhos para dar-lhes informacoes.
'Onde e' o Museu de Ciencia?' -E' esse predio aqui a sua direita, senhor. 'Oh, realmente!' dizia constrangido enquanto o pequenito se escondia atras de sua perna e ria pra mim como a desafiar-me e eu de volta, ria ao puto com uma simpatia que nao dou a toda gente.
Seguiram o seu caminho e tambem nos seguimos o nosso, mas por todo dia nao segui senao com aquela imagem no pensamento, afinal aquela suavidade arrancou-me pra fora das coisas praticas e de novo podia tocar as coisas sem que fosse com as maos e que beleza nao pude ver descrita no dia de sol e vento cheiroso que tivemos hoje.
Ganhou mais tempo a minha ponderacao e num minuto pareceu tolo considerar, considerar, considerar para afinal fazer a coisa errada, faco o que faria aquele puto, eu sorriria cheio de confianca em mim mesmo, a esperar que nao houvesse razao melhor que a grande generosidade do meu coracao.
Assim aturei muito bem o grupo barulhento de estudantes espanhois que infestou a galeria da navegacao espacial e com grande polidez pedi a um senhor alterado que moderasse sua voz ao corrigir o filho e ainda consegui ir alem e surpreendi-me a mim mesmo: dei ate' conselhos sentimentais ao bem bom Johnathan! Afinal que tipo de namorada se recusa a preparar o jantar a um homem dedicado como ele? A que nao se importa... e e' pra gente que nao se importa que foram feitas as guilhotinas: off with her head!
Tambem eu ca' no meu encontro como o menino sorridente decidi num rompante: 'da' ca' um beijo, amor, lembra que eu te amo, que eu nao sonho mais!'
sábado, agosto 04, 2007
Submersão sentimental
As grandes cidades do mundo talvez deem-se as maos nessa grande angustia do desconhecimento, um desconhecer que nao e' propriamente ignorancia, e' um facto da vida.
Desconhecem-se uns aos outros, desconhecem os caminhos inabituais, desconhecem, por pior que pareca, a si mesmos.
Vivemos aqui juntos, 7 milhoes de londrinos, sob a constante sugestao do prefeito da cidade para que passemos a andar de bicicleta e abandonemos os carros e o metro, achando piada do quanto o novo primeiro ministro bajula os americanos enquanto esnoba os franceses e alemaes... a espreita de algum arabe com olhos arregalados que queira explodir a si mesmo e a tantos quantos estiverem proximos a si, com essa estranha e curiosa pre-disposicao para apreciar humor negro e sarcasmo, com esse despeito pelos dias de sol e os grandes sorrisos com os copos de cerveja de 600 ml nas maos do lado de fora dos pubs a partir das 5 da tarde.
Curto imensamente o modo de vida dos britanicos, especialmente a sua capacidade de serem gentis sem que com isso significar que se importam, nem por isso... e' uma gentileza de estirpe, nao que significa respeito pela outra pessoa. Agrada-me o bom gosto no vestir, especialmente dos homens e das mulheres com mais de 25 anos... as mais novinhas vestem-se como as americanas e portanto, vestem-se como macacas de circo que vao andar naqueles triciclos pequeninos, com grandes bandanas de bolinhas na cabeca e calcas colantes sob as saias... nao chega a perturbar o ambiente de todo. E' bom tomar cerveja para acompanhar o file' de peixe frito e as batatas fritas, o prato nacional por excelencia, e gastar as preguicosas tardes de domingo com os amigos num pub aconchegante e belo como todos os pubs tradicionais sao.
Tanta imersao cultural e eu assim tao submergido, entre o antes e o agora e o depois, esse lapso tonto de acordar 'a tarde com a sensacao que perdeu-se um compromisso... mas nao ha' nada, ficou so' a sensacao e umas saudades com olhinhos tristes de orfa a mendigar moedinhas para um pedaco de pao, um beijinho com carinho, alguma palavra de afecto.
Cinza leve a vagar junto da brisa fria e constante, espectro morbido e jocoso do que um dia foi a minha louca fantasia em brasa, um deboche intimo e cruel, uma maldicao que lanco silenciosamente quando o odio me inflama discretamente antes de converter-se novamente em amor, com o alarde brutal da minha paixao... E repete-se ao infinito os versinhos queridos que me dizem tanto:
'Parte, e tu verás
Como o que era real, resta impreciso
Como é preciso ir por onde vais
Com razão, sem razão, como é preciso
Que andes por onde estás.'
Plena tarde de verao, beijos ao ar, moedas nas fontes da Trafalgar Square, pensamentos distantes 'a beira do Tamisa... tao quente submersao sentimental na capital do Reino Unido.
sexta-feira, agosto 03, 2007
Pedaço de céu
E' sempre a reproducao infinita de Cachito, uma sensacao como a que tinha quando meu avo fazia-me uma grande festa no cabelo ao me ver... e' sempre esse conforto maravilhoso que a distancia converte em numa saliva com gosto de fel que apaixona.
sexta-feira, julho 20, 2007
Legado de liberdade
A inundacao do metro de Londres essa manha deu-me oportunidade, para alem do esperado aborrecimento, para ir visitar o momumento ao Principe Albert no Hyde Park e afinal lembrar um tanto daquele homem que passou a vida como o marido de uma imperatriz, sem ser muito mais que isso. Nao que seja pouca coisa... nem por isso! Mas afinal, a Rainha Victoria nao foi uma mulher de temperamento facil, sabe-se ate' que nao aturava ninguem que a contrariasse nas minimas coisas, era mandona e muito rigida nas vontades, uma verdadeira soberana. Assim restou ao principe, seu esposo, figurar-lhe na vida, ser o acessorio indispensavel a foto oficial, sem entretanto participar ativamente daquilo, o tempo mais grandioso de toda a historia britanica.
O momumento em sua homenagem faz realmente uma bela figura, com o perdao do trocadilho, a justificar um grande amor, bela em toda sua grandeza, reluzente e viva. Logo em frente vem o grande anfiteatro, belo e majestoso.
A Rainha Victoria encheu Londres de belos monumentos, logo em frente ao Palacio de Buckingham ha' mesmo um monumento em honra a ela mesma que e' fantastico, mas a mim o mais belo e' este ao principe Albert, o mais significativo tanto mais porque a estatua dele e' dourada e reluz como o ouro, afinal deve ter sido um marido de ouro ou algo assim para justificar a homenagem, ou afinal ja' nao havia mais argumentos para o proximo monumento e num estalo alguem lembrou-se: 'claro, ainda temos o Principe Albert!'.
'A parte desses questionamentos menos interessantes, vejo como deve ser dificil ser principe de outro reino, como devem nascer no coracao duvidas, como devem nos corroer incertezas, como deve custar caro tanta tramoia... Levantar o cetro a dominio sem nenhum valor e aceitar homenagens que nao sao de modo algum devidas por ser afinal parte do cerimonial e ir levando comendas ao corpo e coroas na cabeca e ir a festas e sorrir a toda gente e nisso tudo nao haver nada de real para si, em nao realizar-se em nada disso, que pobre vida, que privacao corvarde que se escolhe para si!
Lembro-me assim do nosso Imperador Pedro I, que abdicou da coroa para o filhinho de 5 anos, que deixou para nunca mais ver, e que embrenhou-se numa luta sem certezas para garantir o trono portugues para a filha. Venceu mais pela forca do coracao e pelo amor que o povo que tinha do que por qualquer outra coisa, tao valente e corajoso o nosso Pedro que pouco mais de dez anos antes tinha nos dado independencia e contrariado amplamente o interesse de seu pais de origem.
Talvez diga-se que afinal tava a garantir a coroa para os filhos, que nisso nao havia amor nem ao Brasil nem a Portugal, mas acho que para alem desse imediatismo havia um homem que acreditava nos seus ideais e no valor da coroa que trazia sobre sua cabeca, um combatente honrado, um homem de temperamento forte e aventureiro, eis a marca dele sobre o nosso imaginario: antes de tudo, foi senhor de seu proprio coracao.
Nao me lembro de haver muitos monumentos em honra ao nosso Pedro I, na verdade ha' um muito belo no Rio de Janeiro, perto da Palacio da Boa Vista, mas pronto... nada se comparado ao Memorial ao Principe Albert. A diferenca e' mesmo que nao e' preciso monumento nenhum, por mais reluzente que fosse, para que lembrassemos de sua presenca e de seu legado.
quinta-feira, julho 12, 2007
A canção do amor demais
Assombra por vezes o aspecto que toma o ceu de um instante para o outro. Por vezes, mansamente azul, ja depois nublado de branco, cinza e negro.
Ventou assim numa tarde depois que cheguei de volta a Londres, estava no Queens Park, numa inscurcao para matar saudades e entao, como que de repente, a bela tarde de sol tornou-se num pressagio de diluvio e toda gente que la estava despreocupada, a dar de comer aos esquilos e a ver os filhos jogarem futebol, aos pobres namorados que enfim podiam partilhar um momento juntos, os velhos que ja' andavam cansados de ficar em casa, toda essa gente (tambem o antigo morador que veio matar saudades) foi obrigada a correr-se de la' e assim, vazio de gente, respirou o parque uma solidao muito curiosa, que eu vi so' de longe, mas que pareceu belissima.
Apartado e quieto, nao ficou lado outro sem sonoridade, de si para consigo, falava la' sua lingua, conversava o vento com as arvores, e e' bem capaz que os esquilos entre si tambem estivessem a dizer alguma coisa, uma harmonia que para nos visitantes pode parecer tao distante, mas que a intimidade conhece bem e talvez por isso nao se ressinta da falta dos que vem a passear, mesmo que o parque exista para eles, mesmo que com eles e' que ele seja mesmo parque, com si para consigo ele e' belo, ele compreende-se.
Por vezes eu o visitava para que pudesse perceber algo disso, para ter dele algum conselho talvez, mas nunca tive resposta.
Curiosamente naquela tarde em que me corri de la e depois olhei para tras eu percebi quao belas sao as arvores ao vento, quanto de amor ha' no cheiro daquelas flores e que ceu lindo ha' por cima, mesmo quando tudo e' nublado... o que e' verdadeiro e belo sempre permanece.
terça-feira, junho 26, 2007
Amarra teu coração ao meu

LXXIX
De noite, amada, amarra teu coração ao meu
e que eles no sonho derrotem as trevas
como um tambor duplo combatendo no bosque
contra o espesso muro de folhas molhadas.
Noturna travessia, brasa negra do sonho
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade de um trem descabelado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
à tenacidade de que em teu peito bate
com as asas de um cisne submergido,
para que às perguntas estreladas do céu
responda nosso sonho com uma só chave
com uma só porta fechada pela sombra.
Pablo Neruda
in "Cem Sonetos de Amor"
Tradução de Carlos Nejar
Que Deus nos ajude.
quarta-feira, junho 13, 2007
Bom dia, tristeza!
Lembra, Quelzinha?Veio de lá o som de um hino que fez arrepiar todos os pêlos do corpo:
A cruz de malta é o meu pendão!
Tu tens o nome do heróico português,
Vasco da Gama tua fama assim se fez!
(...)"
A vizinha anciã e eu partilhamos o amor pelo futebol, especialmente por esse clube cheio de qualidades notáveis e que mais agora no fim de semana deu-nos uma pequena alegria. Afinal o nosso Vasco da Gama, grandioso clube, vitorioso na terra e no mar, havia assumido a liderança do campeonato brasileiro no Sábado e numa homenagem singela, assim começou a sessão desportiva do primeiro noticiário da rádio Cidade FM.
Sorri e a pequena lembrança de alegria suavizou por um instante a anunciação do adeus que houve no fim de semana, quando houve os últimos concertos de outra instituição carioca da minha mais alta estima, os Los Hermanos.
Tocaram na Fundição Progresso, no boêmio bairro carioca da Lapa, na Sexta-feira e no Sábado, ambos os concertos com bilhetes esgotados com mais de duas semanas de antecedência.
Por serem as últimas apresentações da banda, gente de todo país compareceu, do norte ao sul, caravanas formaram-se e, digamos assim pela devoção dos fãs, peregrinaram à Cidade Maravilhosa. Cheios de pena mas também de ansiedade, foram cantando junto da banda os hinos do amor, da contemplação, da separação, do acaso, do horizonte distante que a gente quer tanto ver e que teima tanto em sumir da vista.
Levaram cartazes, choraram, gritaram: "Não parem, esqueçam isso de recesso, quem dá tempo é relógio!", como um namorado que não aceita a separação, mas é tudo inútil, sentença assinada. O fato é que cansaram-se daquilo. Agora é questão de minutos, chega a última música do último concerto: "Todo carnaval tem seu fim", dificilmente outra poderia ser mais apropriada. E foi o fim e brincamos de ser felizes.
Com o pensamento pleno do significado dessas coisas, refleti como foram maduros de escolher fazer o mais difícil mas que era o mais honesto com eles mesmos. Não deixei entretanto de ficar triste, de uma tristeza própria de quem se despede de um amigo que vai embora e Deus sabe se volta. Foram-se e levaram as guitarras consigo.
No Domingo de ressaca, fiz piada de tudo e nem considerei muito bem, mas à noite coisas se passaram e do infinito do mistério vieram sonhos maus, cheios de caretas e gente bêbada a chorar pelos cantos, de donzelas envelhecidas e piadas sem graça nenhuma, eu tentava me levantar da mítica mesa de bar onde era acompanhado por estranhas figuras e logo quando levantava para ajeitar meu belo fraque e assentar a cartola na cabeça, apanhavam-me com uma bengala gigante e davam-me uma dose dupla de whisky com gelo: "Vamos celebrar a tristeza, poeta!"
Quando amanheceu ao som do hino do Gigante da Colina eu fiquei algo consolado da angústia de dizer adeus, e com um sorriso surreal na cara, olhei deboxadamente para o teto do quarto e dei bom dia à tristeza.
terça-feira, junho 05, 2007
Um olhar, um encontro

Cá em cima da escrivaninha não pude deixar de ignorar a matinal, fortuita e curiosa posição do pequenino dragão da Cracóvia com cara de tonto e do belo anjinho de gesso londrino, todo pintado à mão, a olharem-se.
Essas coisinhas, que servem para lembrarmos dos lugares por onde passamos, que sempre curti ter à vista pelo presente que são de amigos queridos, excederam um bocado a sua natureza e me despertaram um sorriso novo.
Em parte, as expressões vivas são mérito da inspiração dos criadores para fazê-los indivíduos, mas a cena dos dois a se olhar criou um conjunto belo onde não houve participação voluntária de ninguém, ao menos acredito que a faxineira tenha refletido muito para colocá-los nessa posição.
Entre aqueles olhos que não guardam nem nunca guardaram nenhuma vida biológica, quanta presença de meiguice e de encanto ao voltar a maré alta da minha surpresa pelo inusitado.
Diante dessa cumplicidade, levantaram-se algumas lembranças do calabouço fundo! Quanto olhar retido na reflexão de um encontro falhado, na esperança de remissão de uma mágoa de amor, na último sorriso antes da partida, aquele olhar era o que via... Quando dois seres se olham eles também se encontram um no outro, eles encontram-se no despropositado de si mesmos.
Nesses olhos, nada há da dureza que desprendem o modo de olhar dos chichisbéus de mulheres, dos falsos chimangos, dos calabares e dos sinecuros, dos homens da sigla e da cifra: não há nenhuma falsa pureza, pois tudo quanto é legítimo não é forçado.
É assim que a vida por vezes concede alguns olhares lindos por puro acaso, o que os faz serem ainda melhores: uma gentileza inesperada, um canto melodioso, o ato de gratidão desinteressada e a carta de amor cheia de esperanças, tudo isso dão grandes e belos olhares de acaso e qual paixão não despertam! Olhares assim são pais ausentes de grandes loucuras!
Hoje, dessa maneira à minha frente, as inocentes miniaturas, a darem-se assim um olhar dos mais circunstanciais e surpreendentes, parecem caídos de amor, perdidos no mundo, doidos por um beijo ou mesmo por alguém que lhes diga: "vivam isso sem medos, sejam felizes!" Mas os pobrezinhos não podem fazer nada diante da sua condição de seres inanimados, mas o mais curioso de tudo é que mesmo os seres animados, quando deparam-se com um olhar assim, por vezes agem como os meus amiguinhos aqui na escrivaninha, não agem e, numa triste similaridade com eles, ficam um pouco mais inanimados.
Como me aborrece a falta de iniciativa, coloquei cada qual no seu canto, cada qual a olhar numa direção, cada qual na sua solidão e não há mais nenhuma expectativa, nenhum sonho partilhado, nenhum olhar, não há nada. De repente, não mais que de repente, são de novo apenas dois seres inanimados.
quarta-feira, maio 30, 2007
Coisa linda
À parte da ganância dos herdeiros de ter mais uns cobres no bolso à custa de trabalho nenhum, as obras publicadas postumamente costumam ser muito úteis aos estudiosos da obra do autor, porque servem para confirmar ou revelar o oposto de uma ideologia poética.
Carlos Drummond de Andrade teve seus poemas eróticos publicados postumamente e houve algum constrangimento por parte dos críticos que sempre defenderam a nobreza do seu estilo sóbrio e limpo de escrita, embora esse constrangimento não se justificasse muito, já que mesmo com tema controverso para alta poesia, ainda assim era alta poesia, com a habitual qualidade e inteligência deste grande poeta mineiro. Essa parte de sua obra só não havia sido publicada em vida porque Drummond era muito reservado e tímido, assim tinha pavores de ter de dar entrevistas sobre o livro, expondo sua intimidade.
Evidentemente que nem todo material que ficou inédito é bom, costuma acontecer mesmo o contrário, ou seja, são os poemas excluídos, os preteridos aos que foram ao prelo, o que nem por isso quer dizer que são ruins e aqui há uma sutileza maravilhosa: foram preteridos pelo autor, não pelos leitores.
A deliciosa descoberta das "Poesias Coligadas" de Vinicius tem movido todos os meus pensamentos já há uns meses e quanto mais leio, mais profundamente me encanto, aliás, esse poeta é como o meu pai: nunca me decepcionou e fez isso sem esforço nenhum.
A virtude desses poemas inéditos quando da morte do poeta é que refletem um Vinicius por vezes mais despojado de medos formais e absurdamente carinhoso e lírico, não que não fosse na obra prévia, mas nas coligadas há poemas que foram feitos para as amadas e que ele nunca considerou publicar porque eram muito pessoais, mas passado tanto tempo, todos os envolvidos nas suas sepulturas, é bom que tenhamos acesso a esse material. Outros poemas devem ter simplesmente ficado perdidos por muito tempo e acabaram ignorados de outras edições ou talvez ainda não parecessem adequados para ir em nenhuma das edições e cabe-lhes muito bem o conjunto de poesia coligada, já que o que as faz um grupo é sua condição de ter ficado de fora das livros publicados.
Há poemas que me emocionam sempre que leio e que já estão entre os meus preferidos, como o encantador "Redondilhas para Tati" e o introspectivo "Na esperança de teus olhos" que é uma coisa linda, e o doce e meiguinho "A primeira namorada".
Ainda no mês passado havia uma pendência judicial que impedia novas edições dos livros do grande Manuel Bandeira e pareceu-me mesmo uma dessas lides que tinham de ser resolvidas da noite para o dia, porque privar o povo da poesia é uma privação das mais duras de suportar e o Bandeira é muito querido, tanto que se forem aos sebos vai ser difícil achar algo dele: ninguém se desfaz dos livros. Agora imaginem o que é ser privado da poesia de um poeta desde sempre, nunca vier a conhecê-la? Seria tão triste quanto nunca ter conhecido alguém que seria certamente nosso amigo ou nunca ter dito à namorada como ela é linda... um encontro falhado com a poesia. Talvez só por isso eu ainda considere algo útil essas publicações póstumas, ao menos as do Vinicius, é ou não é, Coisa Sardenta?
segunda-feira, maio 21, 2007
Um coração a sangrar
Nunca antes da leitura do clássico da literatura de jornalismo político, "As veias abertas da América Latina’, da autoria de Galeano, tinha percebido a grandeza e a robustez do mito que meu continente corajosamente encarnou e encarna: à dura missão de ter tomado para si o sonho iluminista de liberdade, igualdade e fraternidade não poderia nunca mensurar as vezes em que seu grito de horror face à injustiça fora impiedosamente sufocado no decorrer destes 5 séculos de tenaz existência.
Desde o Rio Grande até a Terra do Fogo, fomos marcados pela sina do sonho, da fantasia, da traição pelo covarde e da capitulação ao inimigo que nos ambiciona o corpo e as virtudes, mas mesmo depois de tantas mentiras, depois de tantas traições, de tantas lágrimas, seguimos irremediavelmente como adeptos do sonho, como se não houvesse para um latino a hipótese de desistir do seu sorriso e da sua esperança, o que certamente é difícil de perceber a um estrangeiro, mas que para nós faz sentido instintivamente.
Quando os movimentos de esquerda ganharam força na América Latina a partir do final dos anos 50 e principalmente nos anos 60, não havia propriamente um levante para se instaurar uma grande União Soviética latina, mas sim um desejo unânime de igualdade social e democracia efetiva, em substituição aos velhos sistemas de dominação política das aristocracias tradicionais, com suas eleições forjadas e seus governantes submissos a interesses particulares e dos estrangeiros, enquanto o interesse do povo latino-americano ficava à mercê das sobras que houvessem, a tentar a felicidade apenas com o surrealismo ocasional de suas vidas, o culto aos grandes futebolistas, as festas religiosas e com um pouco de sorte uma pequena querida a sorrir-lhes.
As grandes veias abertas da América Latina foram notadas pela juventude filha de sua influente classe média quando deparou-se com questões como desenvolvimento sustentável, recursos naturais e remessa de lucros para o estrangeiro, entre outras fontes de mazelas. Os recursos que faltavam ao Estado para promover inclusão social dos pobres, para investir em educação, para emprestar aos que sonhavam em ter seu negócio, ou mesmo para investir em infra-estrutura, como boas estradas e bons portos, escapava entre os dedos de uma mão que assinou indulgentemente generosas anistias fiscais para empresas estrangeiras explorarem o inesgotavelmente rico subsolo do nosso continente, uma mão que tomou suborno para censurar a imprensa e fechar partidos políticos, uma mão que foi apertada pelos seus senhores em cumprimento pela opressão da inteligência e da liberdade latino-americanas.
Houve, entretanto, quem prezava imenso pela nossa terra para encarar todos esses crimes e querer levar a vida como se nada estivesse a acontecer, houve gente que não se contentou em ouvir mentiras e ser covarde, houve gente que mereceu ser assim chamada.
Assim, houve luta armada contra as ditaduras e contra a opressão de maneira geral em Cuba, no México, na Argentina, no Chile, na Bolívia, no Brasil e em mais tantos outros lugares onde heróis anônimos resolveram gritar que nada daquilo estava certo e que era tempo de nos unirmos para fazermos valer nossa liberdade de decidir por nós mesmos, de pensarmos na nossa felicidade, para que pudéssemos sonhar com um futuro de prosperidade e mais que tudo, com um futuro de honradez política e social.
Muitas dessas lutas foram brutalmente sufocadas e mesmo que algumas vezes tenha havido sucesso nos seus propósitos, não é isso que fez umas maiores ou mais nobres que as outras. É sempre a coragem de sermos quem somos que nos faz livres, não um papel onde estão escritos direitos, ou nossos bens, ou a trama sofisticada de interesses que reúne pessoas que se chamam umas às outras de amigas.
Um coração sempre apaixonado e corajoso em honra aos grandes leões da América Latina.
domingo, maio 06, 2007
Jeito juizforano de amar
Íamos muito animados, um velho amigo de faculdade e eu, pelas ruas do Alto dos Passos, até que resolvemos ir ao Cine Alameda e para minha surpresa havia lá uma moça sentada junto às mesas da cafeteria que assim que nos viu saltou da cadeira para um abraço e um beijo cordial, nem mais e nem menos. Senti-me mal com aquilo a princípio, pela gentileza fria, mas depois percebi que não era por mal, era apenas como era para ser. Não havia mais nada naqueles olhos depois de 2 anos de um silêncio algo grosseiro que nos raspou dos ossos um do outro. Antes havia um mundo inteiro em qualquer banalidade onde colocasse os olhos e dedicasse um pensamento, uma palavra sua e havia certeza, um suspiro seu e havia então ainda uma esperança na doçura do mundo.
Numa tarde ordinária daquele tempo em que andamos juntos, resolvi visitá-la depois de deixar o campus e cheguei à sua casa num início de noite outonal, uma dessas encantadoras noitinhas de maio de Juiz de Fora. A sua mãe recebeu-me na porta e avisou: "ela queimou-se com água fervente, tem cuidado" . A namorada estava na sala a ver TV, os olhos algo vermelhos e na boca um beicinho ainda infantil a espelhar o tanto daquela dor continuada somada ao susto que levou. A queimadura não tinha sido séria, apenas um pouco de água espirou da panela de pressão e queimou-lhe superficialmente a pele do seio esquerdo. Naquela hora já havia tomado todos os cuidados, inclusive aplicado uma pomada sobre a parte ferida. Com o coração apertado de vê-la assim tão frágil, tão amedrontada, pedi-lhe para dar um beijo e ela sorriu-me assentindo, então beijei com todo cuidado para que aquilo não doesse mais. Não tardou, despedi-me e mais tarde liguei para conversar um pouco e dar boa noite. Dormi a pensar sempre como poderia fazer com que ela se sentisse melhor. Como se estivesse a arder o meu corpo inteiro, queimou de repente apaixonado o meu coração. No dia seguinte liguei para sua confeitaria favorita e pedi para fazerem a torta de nozes e avelãs que a deixava nas nuvens. Depois das aulas, que freqüentei sem nenhum expediente, fui correndo para a porta do seu colégio apanhá-la. Surgiu assim que a sineta tocou e ao ver-me abriu seu grande e generoso sorriso de surpresa e avançou junto com uma amiga na minha direção e beijou-me com uma exclamação grande do meu nome e fez-me uma festinha no cabelo. Acho que nunca antes desse momento tinha me dado conta do quanto dela já havia em mim, do quanto éramos ligados, não era mais essa treta de amor romântico, éramos os melhores amigos: eu cuidava dela e ela de mim. Fomos à confeitaria e paguei-lhe um pedaço da torta de nozes, conversamos docemente sobre qualquer tolice e foi maravilhoso vê-la de novo a moça equilibrada e bem temperada que sempre foi, ainda com a queimadura a incomodar, mas já senhora de si, independente dos meus cuidados, embora gostasse deles: eis a chave de tanta harmonia.
Nesse último encontro, vi uma moça mais madura e mais sedutora, mas a sorrir ao mundo o mesmo encanto de sua inquebrantável pureza e a deslumbrar como sempre com seu porte de princesa do Piemonte. Como pareceu duro tratá-la com a necessária frieza, mas não cabia nada mais que isso, não há nada além disso: nem amor, nem saudade, nem ressentimentos, mas ao mesmo tempo como há em cada qual tanto de cada um!
Aquela moça que ficou lá sentada era a minha grande amiga.




