
sexta-feira, maio 28, 2010
Primavera do adeus

quinta-feira, maio 20, 2010
Pedra bruta e envergonhada

sexta-feira, abril 16, 2010
À boa ventura
Há pouco tempo foi o dia dos meus anos, que transcorreu em paz e em boa companhia. Com muito esforço e muito andar (a fim de reunir ingredientes e utensilhos) foi possível preparar o bolo de coco que em duas das minhas festas de aniversário de menino foi servido aos que tiveram a sorte de lá comparecer e me deixar umas boas prendinhas.
A receita, desaparecida com a confeiteira que tinha elaborado a iguaria de então, foi reconstruída com a memória dos meus cinco anos, a falhar um pequeno detalhe com relação à calda da ameixa (que faz da sobremesa um bolo molhado), mas fez-se festa na mesma pelos meus anos completados. Mas eu sempre fico feliz nessa data pela razão inversa: sempre acredito que vai haver ainda muitos e muitos anos a completar.
Quando se faz aniversário, acho eu, deve-se voltar o pensamento para o futuro, e não para o passado. Os futuros aniversários, os futuros presentes, as futuras surpresas, o futuro que guarda a vida, onde cada dia é diferente e embuído de propósito. Por isso é muito triste que uma pessoa complete anos e não tenha um bolo especial para repartir com os seus... Todo aniversariante tem direito a um bolo à medida do seu sonho.
Lembro-me vivamente (tanto quanto da minha festa infantil com bolo de coco) de estar em casa dos avós no dia dos anos do meu avô materno. Sujeito sério e discreto, é claro que nunca ligou para essas tolices, mas eu decidi que ele devia ter um bolo e fiz lá os possíveis para que quando chegasse a casa abrisse um sorriso de aniversariamente como se deve. E assim foi.
Também cruza o pensamento aquele lindo, doce verso que Vinicius escreveu para sua irmã Lygia nos dia dos anos dela, quando os dois eram ainda meninos, quando a poesia cumpria a função de um presente que o pouco dinheiro não permitia dar:
Com o aumento dessa nova estrela
Para a constelação de tua vida.
Um brinde, meus caros! E com vinho verde, que sabe a futuro. Aos anos a vir, de boa ventura, saúde e confiança nas nossas convicções, e também uma fatia de bolo de coco, que é para não deixar esquecer o sabor da alegria de descobrir o futuro.
terça-feira, março 09, 2010
Os meus tios que se foram
Contam-se poucos meses do passamento do meu tio-avô Domingos Ferreira Rios, homem da indústria, proprietário rural e apreciador da cultura cigana.
Acompanhei eu, e acompanhamos todos nós lá de casa, com pesar mas também com uma solidariedade de amigo o seu momento de descanso, após seus seguidos anos a lutar contra problemas de saúde e visível abatimento com que encarava o porvir.
Morreu na velhice, embora tenha tido a inusitada experiência de ser pai já velho, ele se foi tranquilo quanto ao futuro do seu pequeno Rafael. E tranquilos restamos nós, na fé de que a sua alma encontrou o bom caminho para Deus.
Esse pouco tempo que se conta da morte do do meu tio-avô veio a se encurtar de repente com a tragédia que se abateu sobre nós no fim de semana.
Era tarde de domingo quando, numa curva do caminho (esse tortuoso e surpeendente caminho que é a nossa vida) o meu tio Maximiano despistou-se para encontrar a morte às vésperas do seu 60º. aniversário.
Poderia aqui fazer relembrar inúmeros eventos da minha infância e juventude ligados ao meu tio Max. Poderia encher os vossos corações com esse luto que eu sinto e que em alguma medida tem também a serenidade dele. Mas vou dizer o pouco que significa muito.
Foi um homem bom. Nunca obrou o mal, nunca manipulou e nunca utilizou-se da sua posição para seu benefício próprio. Errou, sim, errou, como todos os homens todos os dias erram, mas fê-lo com o coração comprometido com a certeza de que era o melhor.
Foi amoroso com os seus. Sempre preocupado com a sua família, com os seus irmãos, com os seus pais. Um marido que se dizia sortudo, um pai sempre adorado, um avô apaixonado pelas suas meninas.
Foi um bom tio para mim. Honrou o nosso nome no desempenho das altas funções públicas que durante grande parte da sua vida desempenhou. Deixou-me o exemplo do amor pela coisa pública e da caridade para com os menos favorecidos da nossa terra - uma preocupação que quotidianamente ocupa os meus pensamentos.
Não era um homem velho. Era um homem maduro que se preparava para a velhice. Deixou a nossa família novamente órfã de patriarca 23 anos após a morte do meu avô paterno, sempre presente nas suas palavras e no seu coração.
Um coração integralmente livre, que nasceu livre como o vento e que por toda a vida ditou o caminho trilhado na convicção dos melhores valores que também eu recebi e tenho comigo.
Muitos de vocês que lêem essas linhas nunca estiveram com esse típico e bom "miano", mas acreditem que teria sido um gosto. Nós todos bem o sabemos.
Foi para as mãos de Deus e é preciso ter obediência para aceitar a Sua vontade, na confiança da vida eterna e da ressureição da carne.
Pelo descanso das almas dos meus bons tios, homens de bem, orgulho da nossa raça, eu vos peço uma oração sincera.
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
Para o Fernando Carvalho

terça-feira, fevereiro 02, 2010
Vai bugiar, meu menino
As palavras estão à disposição de todos, os loucos e os sábios. E assim temos de ver nos entrar pelos ouvidos coisas escabrosas, ou ficar à expectativa de um conforto que não é dado.
Acho bem que é nesse espaço entre o excesso e a falta que se encontra o mistério de viver em sociedade.
Criaturas curiosas e bugiadoras que somos, no interior mais secreto, esse ficar sem saber aguça, esse saber o que não interessa até distrái.
Como um longo e doce passeio pela margem do rio, onde as suas serenas águas passam indiferentes à cidade e aos carros, fico à espera de alguma mensagem, de saber como foi e o que esperam do que vai vir na sua viagem até a foz da Figueira, viagem que é tão boa, bem eu sei.
Mas o rio nada diz que ouvidos como os meus possam ouvir. Vão dizer: é a água a passar, tolo! Não... enganam-se muito os que assim pensam. Há ali pormenores, há ali cores, há ali gente e há ali, portanto, história. O rio sabe, melhor que ninguém, como as coisas são. Está ali a passar a séculos imemoriais e mansamente espera e segue, sem nada dizer do que sabe.
Por vezes confunde-me a sua perene inconstância... é sempre novo a cada novo momento, mas no caminho que segue, na margem que toca, nas gentes que banha e de quem arrasta o pensamento, é sempre o mesmo rio.
Mas na generalidade, os mistérios não assumem essa forma fluvial, antes, estão nas pessoas. Muitas poderiam até ver no rio, antes desse mistério que tudo sabe e nada revela, um óbvio que são obrigadas a tolerar, como os portugueses fazem todos os dias em relação ao seu mentiroso Primeiro Ministro. As pessoas preferem outras pessoas, eis uma verdade imutável.
Mas qual o mistério que há em nós? O que guardamos que nos torna interessantes aos outros? E mais, talvez até mais importante, qual o nosso óbvio repetido e aceito que aborrece, que se intromete pelos olhos e ouvidos dos outros e nos faz o cansativo lugar comum?
Se é o rio testemunha silenciosa, sabe bem que a convicção e a fé, em Deus ou mesmo em um ideal, conduzem as vidas das pessoas que realmente importam, como o fluxo do rio conduz os barcos que na superfície se arriscam.
Nada mais somos do que o exercício das nossas bugiações. A externação do que pensamos e sentimos. Com essa forma de influenciar os outros e se deixar influenciar por eles, fazemos o mundo em que vivemos.
Ao contrário do rio, que tudo sabe, mas nada diz, nós, que temos a pretensão de que sabemos, ao menos podemos falar, comunicar, fazer perceber, a dizer, maravilhar ou aborrecer.
E em alguma medida, essa é a vida que se tem para viver.
quinta-feira, janeiro 21, 2010
Os 20 valores de Manuel de Andrade

sábado, dezembro 05, 2009
Quando se tem amor
Quando se tem amor
A se oferecer em partilha
No dia da grande viagem
Que é o nosso grande amor
Quando se tem amor
Um amor, tu e eu
Para morrer de alegria
A cada hora e a cada dia
Quando se tem amor
Para viver nossas promessas
Sem nenhuma outra riqueza
A não ser a de acreditar sempre
Quando se tem amor
Para enfeitar com maravilhas
E cobrir com o sol
A feiura da miséria
Quando só se tem amor
Como única razão
Como única canção
E única saída
Quando se tem amor
Para vestir o amanhecer
Pobres e bandidos
Com casacos de veludo
Quando se tem amor
Para se unir em oração
A favor dos males desta terra
Como um simples trovador
Quando se tem amor
Para entregar a essa gente
Que vai à luta
Em busca de luz
Quando se tem amor
Para traçar um caminho
E forçar o destino
Em cada encruzilhada
Quando se tem amor
Para falar aos canhões
E bastasse uma canção
Para convencer os tambores
Só então, quando não tivermos mais nada
A não ser esta força que é o amor
Teremos na palma de nossas mãos
Minha amiga, o mundo inteiro!
Jacques Brel
quinta-feira, novembro 19, 2009
A nossa casa

terça-feira, novembro 10, 2009
Feliz aniversário
É uma loja que fica em frente ao Arco de Almedina, portal que sustenta a última das sete torres erguidas por Afonso Henriques para proteger a citadela da Alta de Coimbra.
O emblemático passado daquela zona não comunica muito mais ao comércio, anestesiado pelas grandes superfícies, mas ainda muito preguiçoso para reagir. Logo serão os próximos a pedir auxílios do Estado por terem sido "devorados pela crise".
Voltando ao sítio em questão. Fica em frente ao Arco de Almedina. É uma loja de peças em couro, mas não estamos a falar de selas de cavalo ou tapetes de pele de tigre, mas sim do mais fino couro para botas, bolsas e casacos.
É tanto couro junto que o cheiro distinto remeteu pra uma outra linda loja, noutras paragens, mas igualmente impressionante, onde me tinham mandado escolher o casaco que quisesse. Fora então o dia dos meus anos.
Por tantos anos tive aquele casaco sobre os ombros como que a vestir um comprometimento com um futuro que hoje se faz presente e dele sobra essa saudade maio sem pai nem mãe. Sem saber bem a que se refere, ele existe, como um enfeite no meio da sala que faz alguma boa figura, embora não comunique nenhuma ideia ou lembrança, não signifique muita coisa mais.
Comprei um novo casaco, feito na Índia, espero eu que não por crianças famintas, e com um toque macio à sua pele de ovelha, sendo assim mais confortável que o anterior e mais leve. Sim, mais leve. Quando a vida nos deita à frente o mais escabroso dos problemas, a mais espinhosa das situações, é a hora de ter a serenidade necessária para saber o que fazer e ter muito peso nos ombros não ajuda muito!
Antes como agora, o nariz aponta pra frente, sem medos ou receios de se comprometer e fazer desse grande palco de loucos um exercício útil para alguém mais que eu mesmo na satisfação dos meus caprichos particulares, bravura de ver no horizonte uma linha a desaparecer, sem montanhas com o dedo em riste e sem o peso meu velho casaco de couro a fazer pender para frente.
sexta-feira, outubro 30, 2009
C'est bien loin tout ça
Enquanto os jornais de Coimbra criticam o cortejo da latada desse ano pela falta de consistência, perdendo folhas de papel com esses apontamentos ingratos, soube a mim, como a muitos outros, se calhar, um gosto de nostalgia demasiado forte para qualquer observação agressiva.
Já não tive ao meu lado os meus colegas tão queridos, cuja ausência nesse ano ressona tão alto nos meus ouvidos e salta para cima dos meus olhos em momentos como esse.
Daquela vez no ano passado tínhamos corrido as ruas com um grupo de estudantes do segundo ano do curso de direito para arranjar-lhes uns nabos para seus caloiros. Logo passadas umas horas, éramos já nós os que trincavam o legume. Como um rio de carrinhos de supermercado, caloiros de meias-calça rasgadas e sutiens e doutores desbatinados, fomos chegando à baixa para, por fim, dar o banho do baptismo aos novos estudantes, passavam a ser de cá de Coimbra então, se calhar também nós passamos a ser.
Embora houvesse em tudo semelhança, e talvez, é possível, alguma superioridade ao desfile anterior, já não pareceu tão engraçado. A mim faltou-lhe aquela despreocupação para me entreter e sorrir, já agora há tanto por fazer!
De todo jeito o meu coração foi muito alegre nos instantes que lá estive, do que sem nenhum exagero é o meu dia favorito em Coimbra em todo o ano, o do cortejo da latada. E isso explico pelo seguinte: já não há mais eventos como esse, em que o que importa mesmo é a amizade, a integração dos mais velhos e dos mais novos, desprovido de interesse económico. Os concertos no recinto (a preços de 12€ no fim de semana apenas para entrar) infelizmente converteram-se na forma de a Associação Académica de Coimbra fazer bons contratos com as marcas de cerveja e com os que querem lá ter uma lanchonete, para além dos patrocínios dos media e de empresas. Muito há que se dizer desses contratos, tanto nessa altura da latada quanto na da queima das fitas!
De tudo em tudo, o cortejo da latada permanece aquela coisa simples e feita em casa, sem grandes pretensões, embora extremamente bonito e sincero, pleno de alegria e movido cidade abaixo, rumo ao Mondego, pelo coração uníssono de todos os estudantes.
quarta-feira, outubro 14, 2009
Devagar para não faltar amor
Em meio às confusões do início do ano académico, contribuiu para o convívio dos colegas do ano passado a conferência sobre a suprema corte de Israel. Interessante não seria o termo. Digamos que a conferência em si foi informativa e que ri uma ou duas vezes do sotaque do palestrante, magistrado dessa corte.
Mais a mais, aquilo era uma boa centena e meia de alunos da licenciatura, meio sem perceber aquele inglês internacional, meio distraídos em olhar uns pros outros e ninguém de facto muito interessado na imparcialidade da corte maior do estado judeu. Por acaso não vi lá o Francisco, a quem a palestra teria interessado para além do aspecto puramente académico, digamos.
Uns lá, a se fazerem de bravos, levantavam grandes argumentos sobre o tratamento isonómico de todos os cidadãos israelenses, judeus ou não, outros a baterem-se pelo sagrado direito de defesa do estado judeu para justificar acções abusivas contra uma população palestina desarmada e miserável... Se algum dia fechei fileiras com esses, já não é mais assim, não vou mais por esse caminho. É tolice.
Não digo que seja tolice defender uma ideia com ardor, bater-se por ela, querer vê-la ganhar corpo nos corações e mentes dos outros. Se for um propósito digno e justo, ora que belo sentido para se dar à vida! Muito melhor do que viver de maneira leviana e consumista, ao capricho das aparências e dos modelos de carros.
O que acho que não cabe bem é levantar-se para ocupar o silêncio com a voz no sentido de querer ganhar uma atenção fácil e desmerecida... Nesses empenhos, nenhum proveito é colhido pelo ouvinte. Talvez iludido por alguma bela palavra, algum artifício de linguagem, deixa-se levar pelos primeiros minutos, vai confiando por algum desejo secreto de satisfazer a curiosidade de que aquilo faz sentido ou vai dar a algum lado. Não, nem por isso. As pessoas apenas cometem esses crimes contra o silêncio por amor a si mesmas, querem atenção, querem ser notadas, querem os elogios, os olhares, a confirmação de que sua existência tem propósito e sentido. Que débeis criaturas somos nós quando nos deixamos levar pelos valores errados!
Já agora é melhor ir devagar. Ouvir e calar. Não por medo acovardado em levantar a voz, mas simplesmente porque não vale a pena dar combate à bravata e à estupidez. Ambas arruinam-se no seu triste labirinto de véus de vaidade, cansam-se uma da outra e apunhalam-se mutuamente em traição.
Confio, assim, que um caminho de discrição e pouco riso (quando possível, pois é muito difícil) reserva mais doçura, mais proveito para o aprendizado e, certamente, amor para não faltar nunca a ninguém que o mereça.
quarta-feira, outubro 07, 2009
Fim da terra
Como um lento reflexo a se compor sobre a superfície do mar, o dulcíssimo marejar fez vir uma sensação de sentido e de receio que esmiuçava-se no calor.
Desde então - que grande sorriso maroto! - o verão foi doce e pleno.
A visita à Galiza, especialmente ao cabo Finisterra, foi apenas a precursora das indizíveis aventuras desta estação dos suores e das noites curtas...
Umas tantas músicas dos anos 80, bem lamechas, para o fim de tarde a voltar pra casa. Quantas outras passagens não recordam o mesmo sincero beijo? O tempo corre mais depressa desde que se decide pela vida...
Mas agora, sobre a secretária já cobram atenção umas poucas notas que remetem a telefonemas e compromissos para essas primeiras semanas do outono. Logo avoluma-se o trabalho, enche-se os dias com horizontes outros e pensamentos diferentes, preocupações novas. Um mesmo pulsar no coração, no entanto, alimenta-se de uma força destemida que parece sempre tão legítima que merece sempre um sorriso para si.
Acarinhada gema, nas minhas mãos indefesa e contente, que grande beleza nasce a cada seu sorriso.
E assim também eu nasço de novo a cada dia, estranhamente mais jovem e mais bonito, algo envergonhado por ter a si nesse precioso sítio, talvez, como num contínuo verão, fértil e robusto.
Nada mais afortunado que ter um coração puro.
segunda-feira, setembro 28, 2009
Aos bocadinhos e com muito jeito
Ganha Portugal? Não me parece. Antes, ganham os que, felizes em se alimentar das migalhas da mesa do primeiro ministro, vão ter o que comer por mais 4 anos, subsistência que talvez seu talento não possa suprir. Como o resto do país, os entusiastas militantes do Partido Socialista parecem acreditar que José Sócrates é um homem sério e honesto nas suas promessas. Assim, sonhando com um futuro de largas expensas e privilégios comerciais às custas do tesouro público, continuam a adornar as fotos da vitória, essencialmente, as jovens e atraentes militantes que circundavam já o primeiro ministro nas fotos da campanha.
As eleições provaram também que os portugueses não gostam de atalhos mal iluminados e com más infraestruturas. Provar pela primeira vez tem de ser feito com cuidado e envolvendo o mínimo de risco.
Foi deste modo que o CDS/PP e o Bloco de Esquerda elevaram muito substancialmente suas participações no número de deputados da Assembleia da República, sem ameaçar, no entanto, a supremacia do PS e do PSD.
Aos emergentes, o eleitor disse: "vamos ver o que vocês fazem com esse bocadinho a mais. Se forem mesmo capazes, ser-lhes-á dado mais um bocadinho." Assim como é muito incorrecto achar que o PS e o PSD têm lugar incontestável no cenário político, é igualmente errado achar que mudanças bruscas são possíveis e, num certo sentido, é bom que seja assim, pois a estabilidade é que confere sólida legitimidade.
Mesmo que se diga que a percentagem de votos de forças políticas como o CDU decresceram, o grande perdedor foi, surpreendentemente, o vencedor... O PS que até agora detem algo como 120 lugares para deputado na Assembleia, passará a ter 96 e passa a depender de alianças com outros partidos para aprovar projectos de seu interesse. Afinal, a arrogância da maioria absoluta deste partido mostrou aos portugueses que absolutismo nenhum é positivo e assim, a democracia portuguesa, aos bocadinhos e com muito cuidadinho, já agora vai poder respirar.
terça-feira, agosto 18, 2009
O outro eu
Existe um outro homem que também vive sob a minha pele. Há muito não ouvia falar dele. Hoje lembrei-me bem das suas feições e modos, já que estivemos a limar nossos pontos de vista, outrora tão próximos.
Mora ainda em Inglaterra, ao que parece. Conserva, magicamente, uns lindos olhos cinzentos, um peito aceso de amor incondicional e muitíssima força vital. É um touro, um burro desses que arrastam muitas vezes o próprio peso... e sorri, sorri com confiança. Quem corre por gosto não cansa. Mas é tão bruto, Santo Cristo, tão bruto é esse homem! Come com o garfo à mão direita e a faca à esquerda, tem olhares ora leves, ora pendulares, ora incrivelmente possessivos! Como é engraçado!
Nessa tão longa tarde de verão, participei a ele alguma poesia e acho que ele percebeu, sem concordar, o quão breve será sua vida (quase tanto quanto a minha) e que nesse atmo que dura pouco demais para lembranças torpes, confidenciou seu grande, grande amor, não na forma de uma declaração ou de um nome de mulher... mas na forma de seus actos, actos verdadeiramente grandiosos. Pudessem todos os homens perceber a grandeza na face desse homem, quanta dignidade a sua, acho que se envergonhariam todos da vida que levam e dos deuses que elegeram para si.
É um encanto o seu sorriso. Traz em si tanta firmeza e actitude que o pragmatismo que sempre me fez orgulhoso pode aprender hoje uma bela lição. Contou-me das suas tarefas quotidianas, das coisas simples de onde consegue retirar alguma beleza, das sutilezas de ser esquecido por todos e mesmo assim suportar o não poder esquecer e eu lhe perguntei insistentemente como. Mas como? Diz-lá, como?
"Porque também nisso há sentido. Porque foi o que passou e me deixou os olhos marejados, primeiro de uma forma, depois de outra, que me fez esse um no mundo, independentemente dos outros que ignoram os meus propósitos e fazem pouco dos meus ideais. Lembro-me de tudo sim, de tudo que me fez melhor, de tudo com que serviu de lição, pois se não sou choramingas, menos ainda sou burro." Com a mão a segurar o queixo, olhei malandramente os seus lábios a oscilar, mas reconheci-lhe o modo muito particular de ver as coisas.
Comentou ainda sobre o tempo, a temperatura da água do mar no norte, o governo do PS (sem muito entusiasmo), e despediu-se assim que esvaziou seu copo.
Era cedo para ir, pensei em dizer-lhe. Mas homens assim não são comandados pelas sugestões dos outros, seguem rectos, como as setas lançadas, o seu destino e cumprem-no.
sábado, julho 25, 2009
Palavras de sabedoria
Parte, e tu verás
Parte, e tu verás
Como as coisas que eram, não são mais
E o amor dos que te esperam
Parece ter ficado para trás
E tudo o que te deram
Se desfaz.
Parte, e tu verás
Como se quedam mudos os que ficam
Como se petrificam
Os adeuses que ficaram a te acenar no cais
E como momentos que passaram apenas
Perecem tempos imemoriais.
Parte, e tu verás
Como o que era real, resta impreciso
Como é preciso ir por onde vais
Com razão, sem razão, como é preciso
Que andes por onde estás.
Parte, e tu verás
Como insensivelmente esquecerás
Como a matéria de que é feito o tempo
Se esgarça, se dilui, se liquefaz
E qualquer novo sentimento
Te compraz
Repara como um novo sofrimento
Te dá paz
Repara como vem o esquecimento
E como o justificas
E como mentes insensivelmente
Porque és, porque estás
Ah, eterno limite do presente
Ah, corpo, cárcere, onde faz
0 amor que parte e sente
Saudade, e tenta, mas
Para viver, subitamente, mente
Que já não sabe mais
Vida, o presente; morte, o ausente –
Parte, e tu verás...
V. de M.
1961
in Poesia completa e prosa: "Poesias coligidas"
O coração não deve carregar consigo nenhum peso, não deve se deixar prender pelo que já passou, não se deve deixar envelhecer.
Uma vez o então presidente de um grande grupo de comunicação, em entrevista por ocasião de seus 99 anos ou algo do tipo, fez uma declaração que não pude nunca esquecer. O entrevistador perguntou o quanto ele amava a sua mulher, com quem era casado há pouco mais de um ano e o que sentia em relação aos outros amores que tinham passado. "Nunca houve nenhuma outra antes dela". É evidente que o que ele queria dizer é que o passado não significava nada, que ele não lhe ligava nenhuma, a primeira e a última namorada era a sua esposa, ela merecia e esperava essa dedicação.
É capaz que seja bem assim. Levar do passado, talvez os conhecimentos, nada mais que isso. Nem falsos cartões de natal, ou votos de feliz aniversário, aos que deixaram o convívio, tudo parece um pouco falso e sem muito sentido. Será que é sempre assim? Há amigos que perseveram no afecto e na fé? É bom que haja e é uma fortuna encontrá-los, mas a vida não é uma avenida de delícias, ao contrário, parece mais uma via rápida em que escolhas pragmáticas são precisas sempre mais rapidamente. Pobres dos amigos! Que interminável gradação de prioridades faz com que sejam empurrados em um vão de estupidez e auto-satisfação!
Sem pesares maiores, cabe o que se percebeu do brilho dos olhos deles, sempre a brilhar nos nossos de alguma forma, sem entretanto perpetuar sua ausência, sem desejá-los, sem citá-los, sem trazê-los para um convívio que não é parte deles. Passa-se algo como um velório sentimental, um sepultamento dessas esperanças e nem as saudades parecem verdadeiramente justas.
Mas os braços não lhes podem estar fechados, isso nunca. Há para eles um remanso de harmonia e bem-querer, um sorriso pronto e confiante, um desmemoriado gostar da presença, reencontrada na alegria simples do acaso que foi o primeiro encontro.
Deixar ir. Deixar ir. Para onde? Quem sabe... para outro sítio, de certeza, esse desconhecido lá onde os espectros não têm peso e nem importância e o novo senta-se à mesa no seu lugar de direito, sem ser perturbado ou calado por qualquer calafrio nosso.
terça-feira, julho 07, 2009
Depois de dois anos
Talvez tenha crescido ao meu lado uma criança madura e prudente que tem um sorriso contido e gosta de dar muitas ordens. Uma criança que não chora nunca e que nunca olha para trás.
Como o velho e amplíssimo salão do Instituto Granbery em Juiz de Fora, o pensamento mantém a sua elegância como que à espera. Mesmo tendo por princípio a acção, por vezes é preciso convir da natureza estática de certas coisas e deixar estar.
As ruas dos meus anos mais verdes perderam o encanto com a minha ausência. Ressentiram-se como o amor que os meus amigos me tinham. Já não sabiam meu nome, olharam-me como se fora um estranho e não como seu filho. Assim, uma brisa muito fria lentamente levou consigo o verde da borda dos meus olhos e eu fiquei fixamente a mirar a cidade, sem saber bem para que lado ir.
Como um trovão dos céus (embora o toque fosse amistoso e simpático, como o é), o telemóvel trouxe-me de volta à realidade. "Sim, sim, já estou cá, está tudo bem, sim, sim, obrigado, adeus." Que conversa estúpida, fez-me lembrar o propósito de tudo isso. De volta aos afazeres.
Seguiu à noite uma manhã de chuva. Detestável mais aos mais impressionáveis que a mim, propriamente, tive que adoptar a consciência inglesa de que um belo dia depende de nós mesmos unicamente e não da presença do sol.
De volta às galerias onde o negócio dos alfarrabes ainda é próspero e pujante, se calhar porque é alimentado pelo comércio de livros didáticos: umas mães a se desfazerem do inútil outras a tentar uma pechincha e os alfarrabistas a fazer algum dinheiro na intermediação. Também compram (depois de escolher com cuidado o que é conveniente) bibliotecas herdadas e talvez aqui esteja o grande interesse desses sítios: nunca se sabe o que se pode encontrar e nem em que estado de conservação!
Os alfarrabistas lembraram-se mais da minha ausência do que do meu nome. Tinham lá qualquer coisa boa, uma pequena pilha de livros de uma antiga colecção, embora, como é costume, não soubessem disso.
Da rua veio uma voz conhecida que me deixou cair aquilo. Fui correndo ver. A minha prima com uma colega, estava lá como a tinha deixado o meu último abraço. Sorriu, sorriu imensamente. Perguntou porque não lhe tinha ligado, fez que se aborrecia, sorriu de novo. Foi a minha taça de temperança, como fora noutros tempos, embora como então, não lhe tenha dito nada, nem do bem e nem do mal.
Fui dormir, como sempre, antes da criança vigilante ao meu lado. Olhava-me com uma expressão severa que já me tinha habituado. O seu silêncio calou-me um bocadinho mais e meus pensamentos não foram muito além. Ela que esteve nos sítios onde o meu coração floresceu e foi pleno, ela que viu quem me tinha amor e estima, ela que fez de uns e de outros pouco ou nada, também dormia sob a mesma lua pouco depois, sem pensamentos, sem sonhos, sem cócegas e sem amor verdadeiro.
domingo, maio 24, 2009
A Travessa da Esperança
Não vás tão docilmente nesta noite linda:
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Embora o sábio entenda que a treva é bem vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.
O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.
O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendearia,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Assim, meu pai, do alto que nos deslinda,
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Dylan Thomas
Estimosa via junto ao Largo Rangel de Sampaio, localizada aqui na boa e mui antiga freguesia da Sé Nova, lar dos estudantes e dos senhores mais velhos e ponto de encontro para a conversa matutina da dona Fernanda e da dona Afonsa e das empregadas da residência universitária.
Escolho a ela e não a outras mais famosas e prestigiadas vias para as minhas inscurções à Baixa. Prefiro essa humildade cantada e discreta quando, de frente para a minha janela, dá-me a tranquilidade de sua (talvez) involuntária expressão poética.
É ali que espreito, todas as manhãs, o sol chegar primeiro e iluminar a bela roseira do jardim da casa ao lado enquanto que pela rua e sobre os carros os gatos mais bonitos de Coimbra estiram-se e numa divina paz de consciência aquecem-se aos raios meigos da manhã nova. Em volta, um mundo de desassossego parece não se dar conta de tanta fortuna, de tanto mérito, de tanta poesia.
Um grito de pavor, um amor verdadeiro falhado, um bilhete arrasador, um constrangimento, um abuso, um sem número de tragédias... Um cortejo de carnaval, um passeio de domingo, um abraço de reencontro, um sorriso amigo no lado oposto, um sem número de glórias... Tanto há na vida! Quanta coisa por fazer, quanto por viver, quanto por atravessar!
Na perseverança de um dia poder me aquecer de manhã como fazem aqueles gatos, continuo sempre a optar pela Travessa da Esperança.
quarta-feira, maio 06, 2009
A redenção pelo amor
Saiu de casa após o jantar sem o casaco, era uma noitinha quente como essas que vamos tendo agora na primavera, o que contribuia para ter o pensamento leve. Nas suas roupas um cheiro forte de alecrim, na pele um frescor de menta, aroma seu que a brisa docemente carregava consigo.
A essa imagem da boa composição de seu aspecto, à doçura de seus gestos e simplicidade das palavras, contrastava o que trazia dentro de si e que não se lia senão num fugaz fixar dos olhos vez por outra. Tentavam ver para além da vista que havia diante de si, tentavam alcançá-la na incorruptível paisagem dos seus sonhos, em que seu grande sorriso de bonança iluminava e aquecia como o próprio sol, o sol de sua vida.
As lembranças desses e doutros gestos assaltavam-no, no descuido de qualquer pensamento inocente era levado a cabo para ouvir a voz a dizer a certeza e o carinho, estava de novo presente para testemunhar a paisagem plena daquela presença, na atmosfera à sua volta o ar novamente vibrava com aquele riso, a mesma curiosa combinação de elementos que orbitava a mulher que como nenhuma outra percorreu os caminhos sinuosos que levavam ao seu coração.
Esperavam-no na tasca, seu copo já estava cheio e os abraços dos amigos ansiosamente à sua espera. Sua vida vinha tornando para caminhos demasiado previsíveis e aquela noite parecia como todas as outras em que negava a si mesmo: estéril e maçante, tudo aquilo a que diligentemente adimplia na vida, todos os seus dedicados esforços de êxito, suas noites longas de trabalho, nada daquilo tinha brilho, nada comunicava-lhe valor. Resignado, aceitava e seguia, sempre seguia em frente, não por gostar do que poderia o futuro trazer-lhe, simplesmente havia bons motivos maus, como o orgulho e a teimosia. Alguma coisa lhe provocara um impulso de revolta, entretanto.
Naquela noite depois de deixar a casa, sem que nenhuma estrela tivesse despencado do céu, sem que tivesse ganhado a lotaria, sem que nada de especial tivesse provocado o resultado, encontrava-se completamente convicto de sua condição: amaria.
Subitamente, seu coração ardeu à intensidade do sonho e lhe soube bem ter a face quente pela emoção e então quis que ardesse até a própria cinza, à grandeza de ser redimido pelo amor que tinha em si, violado e domado, naquela noite, exaltado.
Olhou a lua apaixonadamente e mandou-lhe um beijo com as mãos e disse para si mesmo o nome da mulher que amava e sentiu sobre o seu rosto o aproximar do seu rosto, o toque das suas mãos, a completude do mundo e do sentido de tudo que havia no seu abraço.
À condição do segredo e do destino, continuou resoluto o percurso. Ao chegar à tasca ouviu seu nome ser gritado, em seguida os copos ao alto: soube então que estava para sempre redimido.
terça-feira, abril 21, 2009
O mais profundo desejo
Ai de quem gritar outro nome! Não há, meus amigos, não há desejo nenhum maior do que o de ser livre. Podem tirar do homem os seus bens, o seu conforto e até o futebol aos domingos, mas é sempre demasiado cruel retirar-lhe a capacidade de decidir por si e assim, por ele mesmo, definir o seu destino, a sua fortuna, pelas suas próprias escolhas.
O amor à liberdade tem subido às cabeças e as vidas de milhões de jovens foram sacrificadas nas guerras do século passado (e de tantos séculos antes...) em defesa desse ideal.
Hoje é o dia de Tiradentes, o meu herói. Um homem que de seu, além dos instrumentos de dentista e de umas poucas mudas de roupa, tinha o ideal da liberdade a arder a cada respiração sua. Queria-a para si, mas também a queria para todos os outros e, principalmente para sua pátria. Traído por duas vezes, preso e quando do seu julgamento, quando confrontado com a possibilidade de trocar uma sentença de morte por uma de degredo no caso de negar a sua fé na independência do Brasil e jurar fidelidade à D. Maria I, preferiu sacrificar a própria vida do que negar aquilo que lhe dava mais sentido. Fê-lo honradamente, com a sua dignidade revolucionária que tantos outros contagiou mas que esses não partilharam ao ponto de partilhar com ele o mesmo destino e, por isso mesmo, ele é que é o herói que merece ser lembrado e, mais ainda, reverencidado pelo legado que nos deixou.
Curiosamente, nessa mesma semana comemora-se um outro dia de orgulho para a liberdade do mundo. Há quase 35 anos, jovens oficiais das forças armadas portuguesas, em associação com diferentes forças da sociedade e expressando um desejo uníssono do povo português, resolveram terminar com uma ditadura despótica e envelhecida, uma que privava as mulheres do direito de voto e que tinha lançado a juventude portuguesa ao sacrifício vão de uma guerra injusta por longos 13 anos. O 25 de Abril trouxe liberdade política à Portugal e às antigas colónias, que foram libertas do julgo da metrópole, mas não só isso, trouxe consigo uma corrente morna, embuída de convicto cheiro de cravos, de que era possível ter esperança em uma vida mais feliz e mais digna, em que os destinos que se revelassem, bons ou maus, teriam sido aqueles que foram escolhidos pelas pessoas, em liberdade, e não por qualquer outro que quisesse decidir por elas.
Essa corrente de sentimento ainda circula por esse valente e heróico país. Está nas mentes e nos corações, a impulsionar a todos com a sua força vibrante, a redimir das misérias, a trazer esperança quando das tristezas no seu significado de amor à liberdade e por isso, deve ser celebrado sempre.
Nesse 25 de Abril, mais que nos outros dias todos do ano, lembremo-nos daqueles que viveram sob a repressão e a tirania e sofreram-nas para que hoje pudéssemos escolher por nós mesmos, mas lembremos sobretudo de que o que moveu aqueles revolucionários de 1974, como aqueles que Tiradentes liderou em 1789, foi o mesmo e mais profundo desejo da alma humana que é desejo de ser livre.
Aos exemplos dos nossos heróis, a coragem para levar a cabo as nossas revoluções particulares para nos libertar das opressões que magoam e, por fim, ter coragem para dar efeito ao que nos pede o coração para fazer, sentir e viver.
