quarta-feira, janeiro 12, 2005

Mais uma canção

Acontece sempre de um jeito parecido essa história de apaixonar-se. Um sorriso torna-se rapidamente uma afinidade natural e aflora daquilo a percepção de que aquele mistério é algo quase transcedental às coisas ordinárias: é mais uma canção.
Tantos suspiros depois, tantas afindades e tanto carinho, o capricho de negar: 'não, não é nada disso', 'acho que está tudo fora de lugar', 'sim, mas se não fosse por isso, até que seria bom'. E sobrevivendo à toda sorte de execuções prematuras, vem a paixão.
Como um gatinho novo que chega à casa e pára na sala olhando com seu olhar fluorescente para as pessoas no sofá apenas virando a cabeça e em seguida segue o percurso.
Sim, como um gatinho é a nova paixão. Aninha-se no pensamento qual um gatinho no colo e o maior prazer do mundo é alisar suas costas, acariciar as orelhas e dar beijinhos que o fazem se contorcer de estranheza com tanto afeto.
Nos seus pulos instantes de aventura e suspense, nas curiosidades e atropelos grandes risadas, na sua luta contra um mosquito gargalhadas ininterruptas: ele é tão inocente e tão sincero.
Um gatinho que se deita preguiçosamente no canto do sofá dormindo aquele sono de quem sabe que é amado, e ele sabe tão bem que antes de dormir olha pra mim e parece dizer que vai dormir um pouco, que é para não me preocupar que ele vai sonhar comigo e que o coração dele está calmo.
Sim, seu coração calmo. Bizarramente na paixão os corações batem no mesmo ritmo. Bizarramente a alteração de batimento de um é a do outro mas normalmente ninguém confessa isso. Imagine o seu terror diante de um bulldog na rua, um desses monstros instintivos e sem nenhuma compaixão com um pequeno gatinho! Pois é a minha mesma aflição por ele.
Esse gatinho tão doce, que toma seu leitinho sossegadamente de manhã é tão atencioso aos detalhes! Repara nas vírgulas, nas exclamações, vê sem precisar de muito estímulo quando as coisas não estão bem e depois dispõe seus olhinhos imensos pra dizer 'isso passa, não se preocupe'.
Eu olho dentro daqueles olhos refletindo fluorescentes alguma luz da noite e, como que num espctro sobrenatural que muda o desfecho combinado, vejo tudo de um jeito diferente... e dependente, ao som de mais essa canção.