segunda-feira, dezembro 20, 2004

Dramas velados

Antes mesmo de surgirem os afetos, antes da alegria por tantas afinidades, eu soube que seria assim. Soube que entre nossos olhos frios de aragem que carregamos desde o nascimento haveria paixão e drama.
Presas no íntimo da minha garganta, as frases mais amáveis e gentis não chegaram aos teus ouvidos e eu te privei do toque exato das mãos no teu rosto, na moldura inevitável da cena de amor.
Nós dois, cada um no seu caminho, mendigando tão erradamente aceitação para as nossas idéias e sentimentos, encontramos um ao outro com os olhos arregalados e cheios de vento. Em ti o terror e a angústia calada de outro fim, e aqui o bem perene de acreditar nessa virtude amorosa para não ceder ao fatalismo.
Eu usei a brutalidade dos meus braços para passar com perfeição os teus vestidos, para que a sua beleza brilhasse mais. Eu permiti que a acidez do meu ceticismo fosse misturada à basicidade da arte do encontro para encher meu peito de você. Eu ouvi canções de amor e dancei com você no meu quarto quando tive medo... e dancei tanto que os bailes mais longos foram apenas instantes de ensaio frente à nossa dança.
Já me perguntei se há dignidade na caverna escura do meu coração, tão acostumado às paixões agressivas e aos sentimentos fortes... Paixão, cólera, asco, veneno... alquimia desesperadamente humana, tão nossa e que eu não nego à minha natureza, que liga-nos perigosamente e nos machuca um ao outro...
Seus olhos vão brilhar mais sem o choro e eu os prefiro assim, secos de tristeza e dúvidas... úmidos das tuas andanças poéticas e dos teus sentimentos instantâneos e de esperança.
Mecanicamente os bom-dias chegam, os carros na rua se apressam pontualmente, as luzes dos postes se apagam, acendem-se as luzes do escritório, claridade na janela: tudo sem poesia, mas nem por isso sem a esperança secreta de que ela nasça em qualquer distração, e então, quando os nomes das coisas fizerem sentido e quando as luzes mais claras não ferirem a vista, quero que você esteja comigo.