quarta-feira, setembro 17, 2008

Para rir

Começa o ano lectivo na universidade, mas mesmo antes dele os problemas administrativos do semestre passado acordam das férias para atormentar alguns alunos.
Não foi outro o caso de uma futura colega do mestrado (espero eu e mais ainda ela mesma) que após concluir a licenciatura, fez candidatura condicionada para o 2º Ciclo, a qual só poderia ser confirmada com a apresentação da certidão de licenciada.
Pelas dinâmicas próprias da burocracia, mas mais directamente pelo desleixo de um dos seus professores do semestre passado, a tal certidão não seria nunca expedida. Explico: os serviços académicos só emitem a certidão de licenciado uma vez que tem todas as cadeiras no currículo com as notas assinadas pelos professores e esse um "esqueceu-se" de assinar a nota da minha colega. Resultado: nada de certidão e por conseguinte, nada de mestrado.
Peço desculpa por fazer descer à guela do leitor os pormenores burocráticos, mas é preciso para que o exacto ridículo da situação fique claro: por erro da faculdade na pessoa de um seu professor, uma candidatura ao mestrado seria negada e, muito pior que isso, o próprio futuro profissional da candidata comprometido em 1 ano pelo menos, já que com as modificações introduzidas pelo processo de Bolonha, não basta mais apenas a licenciatura, é preciso também uma especialização (mais 1 ano de estudos) para fazer os exames da Ordem dos Advogados. Resumindo a missa: um erro sério e imperdoável, na visão desse modesto homem de acção.
Muito bem, estando eu nos serviços académicos para tratar dos meus próprios assuntos, aproveitei a rara chance de questionar à Doutora Maria Benedita, encarregada dos mestrados, o que poderia ser feito nessa situação, para além de compelir fisicamente o professor a assinar a nota, e foi-me dito que juntasse o currículo da candidata onde constava a integração das cadeiras que poderia confirmar a matrícula, tendo, entretanto, de juntar a certidão até o início das aulas.
Como pareceu-me uma coisa simples (tão ingénuo o menino) resolvi ver se poderia adiantar alguma coisa eu mesmo já que estava de frente para o balcão onde se faz os pedidos de currículo.
Bravo e resoluto, após alguma espera a ouvir falar ao telefone o tal que me iria atender, expliquei com clareza didática o caso. O homem abriu no seu computador o currículo da candidata e já estava tudo pronto para que o imprimisse e eu entregasse o documento na outra mesa quando, por razões que nem a fé pode explicar, questionou qual seria a cadeira que faltava o relatório da nota assinada... Eu não tinha tido a indiscrição de perguntar (já agora percebem que chamei desleixado a um professor que nem sei quem é, mas sei como trata os seus relatórios de notas). Não percebi a importância aquilo, já que o senhor tinha visto que o interesse era apanhar o currículo ali e deixar no balcão dos mestrados, onde a senhorazinha que ali atendia iria cuidar muito bem de dar baixa na anulabilidade da candidatura e resolver todo o problema... Mas não viu dessa maneira o senhor: juntou-se nessa de querer ver qual era a cadeira e como eu realmente não sabia, não pude fazer muito mais que isso.
Depois disse à minha colega qual era a providência a tomar e ela mesma fez o dito, que esperamos que baste.
Da situação toda, entretanto, para além da raiva do momento, serviu para ver que como se não bastasse a falta de organização, falta também o senso do ridículo a alguns funcionários públicos. É mesmo para rir.

terça-feira, setembro 09, 2008

A tua vida

Danae, Klimt

Canção para a amiga dormindo


Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede ao silêncio
Que não vá embora.

Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha.
Dorme e me procura
Na ausente paisagem...
Nela a minha imagem
Restará mais pura.

Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.

Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
De um sono sem fim...
Na minha poesia.



Amanhece na capital portuguesa. Vem o sol iluminar a antiga terra banhada pelo rio Tejo e lançar as primeiras luzes sobre a residência universitária da Universidade Clássica.

Lá dentro tu habitas junto da tua consciência de estar no mundo, tuas partituras, teu lindo amor a queimar ponderadamente.

Teus óculos e teus olhos, teus cachos e tuas mãos, teus livros. Tu a ter deles e eles a ter de ti. A manhã, a tarde, a noite. A rotina dos cuidados de higiene, com o quarto, com a casa. O comer a ser feito por essas mesmas mãos, a loiça a ser lavada, a vista da janela a ser admirada num instante de contemplação das coisas do mundo. Dentro e fora um incomensurável silêncio.

Quando eu olho o horizonte da minha janela e presto bastante atenção nas cores do céu, na velocidade do vento, no cheiro do ar, eu percebo a tua presença em todas as coisas da minha vida. Tens em ti tão fortemente marcado o gênio da determinação, da força, da grandeza que se merece, que o meu sorriso vai para ti de uma maneira original e generosa, sempre, sempre...

O cancro do pai, a insensatez da irmã, o abatimento da mãe, nada disso te consome, embora não negues a reponsabilidade que tens sobre as costas. Tal como Atlas, tu não sedes e justamente por isso o mundo não cai. Compreendes, consolas, apóias. Nunca te queixaste. Nunca maldisseste ao destino, a Deus, nunca culpaste aos outros. Em todas as tuas acções há virtudes e há pureza em todas as tuas intenções, há uma beleza indescritível nos teus olhos.

Por tudo isso, pela tua lealdade, pelo teu brio, fibra e nobreza, o meu respeito e incondicional amor.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Corre sangria nas minhas veias

Eu achei piada quando ouvi que os arcos que ficam entre o Instituto de Botânica e a Junta de Freguesia da Sé Nova eram parte do sistema de aquedutos de Salazar... Claro que eram um bocado mais antigos, mas não tinha me atrevido a considerar que vinham da ocupação romana... pois a verdade é que são tão romanos quanto nossa herança de opressão e vaidade e nosso alfabeto latino.
A história de Coimbra é tão cheia de pormenores, que passenado ali pelos arcos romanos, reparei uma bizarrice que no final das contas tinha lá sua surpreendente razão de ser.
Bem às costas da estátua do sto. padre João Paulo II, no alto dos arcos, há uma outra imagem que a princípio não pude ver bem de quem era.
Estando ao pé da Junta de Freguesia e sabedor do vasto conhecimento em termos de história coimbrã que o seu presidente possui, fui lá ter sem nenhum outro pretexto.
Após uma espera de menos de 2 minutos, o gentil senhor que já me conhece pelo primeiro nome elogiou a "perspicaz" observação e informou que a tal imagem era de São Sebastião. Isso eu bem achei que era, afinal não faltam aos olhos da imagem uma infinita expressão de dor e resignação.
Entretanto, eu logo interpus objecção: Mas então onde estão as setas?
"Bem, jovem mancebo, houve uma noite de inverno em que o frio era muito e o vento soprava suas tramadas rajadas de desconsolo. Desciam da universidade, entretanto, muitos capas-pretas com as bochechas vermelhas, traziam guitarras e de certeza eram lá alguma tuna que tinha acabado de se apresentar.
A odiosa imagem da dor que o pobre São Sebastição devia estar a sentir naquela fria noite ventosa e ainda todo espetado de setas, veio à mente de algum deles que convocou os outros.
Treparam para cima dos arcos e depois de alcançarem o santo, arrancaram-lhe as setas.
Desde esse dia, ninguém ousou restituí-las e não se sabe mesmo de nenhum outro São Sebastião que não tenha setas atravessadas ao corpo, que não o de Coimbra.
Antes de descerem, os estudantes deixaram pendurada uma placa com os dizeres: "Basta de tanto sofrer."

quinta-feira, agosto 28, 2008

Corações rotos

The raccoon - Calvin & Hobbes

Lá do céu a lua nos acompanhava pelas ruas durante aquele consentido regresso à Alta, pleno das ruas vazias neste valente mês de Agosto das férias universitárias.
Íamos curiosos e curiosa nos acompanhava a lua. Nas bordas dos olhos uns horizontes novos e nos dedos um enlace frágil e sem segredos.
Lembrei-me das minhas longas noites em West End e o quanto daquela devassidão encontrava algum sentido no meu espírito apaixonado. As meninas inglesas com seus gestos exagerados e cheias daquela sagacidade encantadora delas, a ingenuidade dos turistas desprevenidos ao hábito inglês de beber-se sempre ao exagero, a querida condição dos estrangeiros não se sentirem assim tão estranhos. Havia um denominador comum naquilo tudo e havia um encanto próprio daquelas ruas e daquela gente, um subtil comprometimento com a vida.
Subitamente um sorriso lançava aquilo de volta aos meus olhos e eu quis sempre poder crer na esperança e no brilho dos olhos, mas a lua estava tão linda... O silêncio e a madrugada encontraram de novo espaço em mim e só apetecia estar sozinho a olha-la. Ninguém mais poderia compreender aquilo, ninguém poderia perceber que a lua ali a olhar por mim falava-me numa língua esquecida das rotas madeixas dos sonhos e das esperanças dos que foram perdoados, a perguntar-me por onde eu tinha andado todo esse tempo...
Assim levei-te até a porta de casa e sorri sem mais nada ter para dar além de um alívio algo inesperado por estar algo como... livre para o meu encontro lunar.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Dois tons de castanho

A impressão de que estou em Ouro Preto é constante aqui em Coimbra. É claro que essa mítica cidade universitária é um bocado mais antiga, mas os morros, o clima de revolta dos estudantes e mesmo o calor (escusado esteja o sol de agosto, no dizer de Sá Carneiro), aproximam-nas um bocado e assim sinto-me um pouquinho menos estrangeiro e menos só no mundo.
Abraçam-me as antigas lembranças de Ouro Preto, na doce companhia dos amigos, quando despreocupados e com o peito aceso, íamos pelos palácios e igrejas a pensar em como tirar o melhor proveito da próxima hora.
Foi em Ouro Preto que Patrícia mostrou-me o sinuoso e inebriante caminho de uma paixão ponderada mas nem por isso menor. Ainda lembro da minha cara de curiosidade ao ver aquilo tudo e tentar colocar num formato mínimo, sem nenhum sucesso e depois aceitar a verdade de que as ruas antigas sempre pedem mais esforços aos nossos corações... Linda amiga, como fomos felizes então...
Não foram outros senão os olhos de Raquel os que refletiram as estrelas do céu de Ouro Preto com total despudor de brilhar mais que elas.
Os prismas misteriosos de estar onde se quer estar e com quem se quer estar e prender-se à madrugada para que ela não mais se vá e se esgueirar pelos muros como os gatos para espreitar nos quintais o segredo desse amor mineiro que no recesso dos lares ainda existe como no princípio.
Ladeiras douradas de tempo, um céu antigo que sobre nossas cabeças não nos compreende... Essas ruelas estreitas que causam aflição e e que eu queria tanto poder alargar com os meus braços só para que o meu coração não tivesse de passar por elas tão apertado!
Ouro Preto reencontrada em Coimbra... depois de tantos anos, são sentimentos novos novamente.

domingo, julho 06, 2008

Para dentro da luz da escura noite negra

De longe eu os vi indisfarçadamente a saltar aos olhos. Um casalzinho nos seus 14 ou 15 anos, deitados na grama do St. James Park, a contemplar um ao outro em meio a pequenas brincadeiras.
Não me viram, nem viram a ninguém que lá estava, pelo que me parece. Tinham os olhos um para o outro e o resto do mundo era uma casual moldura ao rosto da pessoa amada.
Eram certamente ingleses, certamente londrinos, isso pelos penteados, roupas e pelo sotaque mais metropolitano. A moça com um rabo de cavalo e a franja presa para trás. O rapazinho com o cabeço raspado como o do David Beckham. Ela com aquelas sapatilhas pretas rasas, calças colantes e uma blusinha azul com alça delicada. O rapaz com calça jeans preta bem justa, sapatilhas e uma camisa de marca esportiva.
Imagina toda esssa descrição coladinha, misturada, tão juntos que estavam, embora os momentos mais doces fossem quando falavam, havia muito cuidado com as palavras, esse sábio e primordial hábito inglês que costuma lhes evitar tantos problemas e que nós latinos ignoramos orgulhosamente.
Não faziam declarações de amor, entretanto. Eram coisinhas mais simples, sobre música ou amigos, qualquer contexto em que pudessem, timidamente, deixar subentender que gostavam um do outro.
Que coragem que têm eles - pensei comigo. A entrar assim, com um parque aos pés para lhes testemunhar, nessa seara do sonho e da incerteza que embora comece com caminhos simples, por vezes exige muito mais de nós.
Pensei se aquelas primeiras impressões um do outro restariam imaculadas ou iriam com os dias passar a ser algo mais real. Se a voz manteria aquele tom doce e harmônico ao perguntar e responder. Se saberiam sempre dizer as coisas sem ferir e se, mais que tudo, mais que receber, aprenderiam essa misteriosa e generosa feição do amor que é o dar de si.
Embora pareça um parque no verão, cheio de turistas espanhóis e cisnes reais, é mais real vê-lo como a porta para uma selva escura que se tem de atravessar de mãos dadas, um caminho para ser feito a dois, um a apoiar e acreditar no outro, a amarem-se muito e incondicionalmente, talvez assim consigam ver para além disso a mais bela das coisas que lhes espera do outro lado: a espiritualização de toda aquela matéria, a vez em que o parque, a luz, os cheiros e impressões vão estar presentes em cada um tão fortemente que não importa onde estejam, nem como... serão parte um do outro.
Começaram belissimamente bem nessa doce tarde de verão, com lindos vislumbres da luz a mostrar-lhes o caminho.

quinta-feira, junho 26, 2008

Meridiano

Greenwich é um dos bairros de Londres, um bairro muito bonito, por sinal, mas o local é mesmo conhecido mundo afora por ter dado nome à linha que corta o globo longitudinalmente e o divide em duas partes: leste e oeste.
Estabelecido por Sir George Biddell Airy em 1851 e aceito internacionalmente a partir de 1884, sempre tinha me feito impressão o motivo pelo qual aquele lugar e não qualquer outro no mundo, tinha sido escolhido para ser o ponto zero da longitude do mundo. Se lembrarmos, entretanto, que na altura em tais estudos de coordenadas geográficas foram feitos, o centro cultural, econômico e científico do mundo era aqui na capital do Reino Unido, essa estranheza deixa logo de existir.
Ontem estive a passear por lá pela primeira vez. Como turista na cidade onde moro já há algum tempo, não podia deixar de ir visitar o lugar.
A vizinhança de Greenwich é muito bonita e alegre. As casas parecem mais coloridas e certamente há mais crianças que noutras regiões de Londres, devo ter contado no mínimo uns 30 carrinhos de bebê em algo como uma hora e meia. Talvez tenha contribuído para o número o fato de ter atravessado o parque que guarda o observatório e que o mesmo é maravilhosamente florido, daí já não me surpreenderia pela natural ligação dos bebês e das flores, pois coisas belas costumam estar juntas.
Envolto nessa atmosfera, o velho observatório astronômico de Greenwich, onde consta bem a linha que divide o mundo e as longitudes e latitudes de várias capitais, ainda guarda muito da sua original feição: parece que se pode ler nas paredes a certeza e a precisão das distâncias e das localizações, como se fosse uma liberdade ao grande medo de peder-se, afirma-se sutilmente que estamos agora num mundo onde todos os centímetros são cuidadosamente medidos e pode se saber a localização de qualquer coisa com o mero ajuntamento do correto par de graus latitudinais e longitudinais. Especialmente para os fins militares, é capaz que tal seja mesmo muito útil e até para uma questão de orientação espacial quando se faz uma excursão por um lugar remoto, mas ressalvados esses e outros casos correlatos, parece-me de uma aplicação restrita.
Imagine-se, entretanto, se fosse possível meter coordenadas no que se sente e pensa. Essa talvez fosse uma idéia que tivesse maior apelo e é possível que muitos se interessassem em saber por onde anda a caridade, o amor, a consciência, o respeito das pessoas em geral ou mesmo de quem se ama.
"Meu amor está na latitude 33º, longitude 21º" e pronto, era ir para esse lugar dentro de si e poder encontrar o sentimento. Certamente, o centro internacional do meridiano de si mesmo devia ser o coração. A partir dele, uma linha imaginária a dividir-nos pela metade para que fóssemos demarcados e em nós se pudesse achar tudo o que de mais precioso existe, mas que tantas vezes é difícil encontrar.
A contemplar tantas possibilidades, com o pensamento leve e ponderado, equilibrei-me como quem anda numa corda bamba enquanto andava sobre a linha que divide o mundo.

domingo, junho 15, 2008

A piscina

Depois de muito tempo encontrei a foto em que está um primo meu e eu na piscina na quinta do tio Max, na altura em que éramos meninos ainda. Atrás, as palavras "os mergulhadores".
Quando chegavam as férias do final do ano, chegava também a época de ir para lá cultivar os bons hábitos da infância tardia que espertamente não quer se despedir. Fazíamos uma boa refeição de manhã e , com a bola de futebol debaixo do braço, rumávamos para lá, para o resto do dia as refeições eram no pomar, sempre visitado entre uma atividade e outra.
Dias havia que nos dedicávamos à caça, outros para explorar as antigas casas de colonos, outros para o três-troques no futebol, mas quando fazia mesmo calor, eram dias na piscina.
Não me lembro mais das dimensões, mas podia-se nadar livremente uma boa distância, ao menos em termos de braçadas de menino. Na parte mais funda devia contar com pouco mais de 3 metros e na mais rasa eu, com algo como um metro e meio, dava-me pé facilmente.
Muitas vezes nadávamos na piscina como os gladiadores lutavam nas arenas: uma cerrada competição, seja para ver quem tinha mais fôlego, seja para ver quem nadava mais rápido, mas de todas as disputas, minha favorita era o mergulho. Numa das modalidades que eu mais gostava, ficávamos de costas para a piscina e ao mesmo tempo jogávamos uma moeda dentro d'água: quem trouxesse a moeda do outro primeiro ganhava. Noutra modalidade, valia mais o movimento do mergulho: tomava distância e, tendo em conta um degrau bem antes da quina, media bem os metros para o impulso, o salto e a entrada na água, a força com que me jogava para o impulso através da água para vir à tona bem mais à frente.
Por vezes quando nado no centro de esportes da City University fico a lembrar daquelas tardes de verão e daquele tenaz mergulhador que não admitia jamais vir a tona sem a moeda do adversário: sorri-me sempre cheio de camaradagem quando o procuro no espelho.

sexta-feira, maio 16, 2008

Memória


Por esse tempo em que tenho estado ausente do país, parece-me que as coisas ficam ainda mais distantes. Como um míope que tenta ver ao longe, eu aperto os olhos mas sem conseguir discernir claramente o que lá está, como estão os que ficaram pra trás.
Sem poder ver, eu sinto. Chegam em ondas eletromagnéticas do telefone, chegam por mensagens eletrònicas, chegam pelos jornais e também pelos silêncios meus e deles.
Varre o vento dos dias de dentro de nós partes do que fomos, deixa-nos menores e essa embaraçosa nudez nos ruboriza mais quando os olhos alheios nos encontram.
Talvez por ser uma idéia demasiado penosa, não costumo me deixar desfazer ao tempo, levo todos comigo. Vivem assim junto de mim numa proximidade que não poderiam imaginar. Queridos amigos meus, do doce convívio que por uma etapa da vida tivemos há esse conforto de saber com quem se lida, com quem se vai e onde se vai chegar. Como quando me confiaram a vida, o carro, os pensamentos íntimos, a amizade e dessa honra forjada no respeito que eu senti por eles, recebem a minha lealdade.
Essas lembranças que vagam, entretanto, cobram seu pedágio à saudade e por vezes fere lentamente, algumas vezes passa, outras visita-me e perguntam que se passa, como foi o dia, que se faz no fim de semana, para o mês. Eu respondo assim na língua das lembranças distantes e revivo no pensamento os momentos que tivemos juntos, rendendo-lhes essa pueril e anônima homenagem e mantenho-os, ao menos do meu lado e dessa pobre maneira, meus amigos.
Claro que há amigos novos, boa gente que tenho alegria pelo convívio, mas como cada pessoa é única, não se pode exigir que sejam como são outros ou mesmo que tenhamos a mesma camaradagem que é feita de muitos anos e muitas experiências partilhadas.
Assim, my old mates, guardem consigo a lembrança fiel desse aqui que em vocês empenha o coração e que está à disposição para o que der e vier, como sempre.

quinta-feira, março 06, 2008

Sou aquilo que se vê

The toilet of Venus, Diego Velázquez, The National Gallery

A força que se esconde no aspecto das coisas fala também às pessoas as suas silenciosas palavras. Diz do que pode ser, especula. Uns ouvem a essa voz e admiram-se com formidáveis olhinhos de fome a miserável condição humana que tem, essas cenas de amor, de esperança, de confiança, de respeito à fluida parte de nós que podemos tocar com as mãos e que ocupa com covardia a grande parte dos nossos pensamentos.
Um visível cansaço apoderou-se desses olhos frente ao espelho, olhos vindos de ver a maldade e o triunfo dos impulsos estúpidos, agora mais voltados para si mesmo, agora a ver para além das retinas e dos tempos da vida e a baixar quase que com constrangimento, envergonhado pelos outros.
No vale secreto das montanhas, lá onde eu nasci, no frio do momento prestes à aurora, onde o nevoeiro está a desfazer-se e a intimidade ganha contornos de ser abraçada e vibrar com entusiasmo, lá é que eu vivo inteiramente, nesse mero instante.
Celebra no segredo desse recanto, a paz de não haver expectativas a cumprir, de não fazer ninguém sofrer, de não ter que ser agressivo ou permissivo, de não ter que amar. E há tanta compreensão, há tanta comtemplação desse mistério de Deus, que era de bom proveito extender esse instante do dia para sempre, não fossem as correntes que trago no pescoço e as estacas que me espetam o coração e me reduzem a um escravo de paixões e ambições vãs.
Assim resta-me conversar com esse mal aspecto das coisas aparentemente belas, tentar levar com bom humor essas tretas todas e ter uma infinita paciência com toda gente, ou ao menos com os que merecem.

domingo, fevereiro 17, 2008

Leãozinho

Chrisa de Jaime Valero Perandones, National Portrait Gallery, Londres


Ardem os olhos, avisa o corpo que basta, que é preciso dormir mais, que é preciso querer menos, que para ele não é preciso, mas o coração não quer saber dessas estórias e segue sempre inflexível nas suas ordens.


Encontra beleza nessas doces manhãs de sol e frio que a capital tem tido no início do ano e anima-se com a primeira brisa fria inspirada da saída da estação: viva a vida.


Começos e finais, horas a passar. Tamborilar de dedos, pensamentos a bater estupidamente sem nenhum retorno, reconhecimento do absurso e pior, secreto anseio da realização do absurdo. Irrepreensível amor à beleza e um ingênuo fascínio pela doçura dos sorrisos recebidos.


Esforços dedicados, telefonemas que ficaram por serem feitos, palavras que morreram no meio termo das intenções. Frustrações e alguns acertos.


Mas existes. Trazes contigo esperança, bolinhos para um piquenique e montes de olhares docinhos e beijos de amor.


Existes assim na inteireza de alma, nos teus sonhos secretos, nas tuas fantasias românticas, nas pequenas e gentis palavras que comunicam teu nome. Existes em mim.


Como os pássaros que planam calados para manchar o céu sem muitas outras pretensões, impõe-te ao horizonte diante dos meus olhos, estás à minha frente, pedes para comer do meu corpo e parar beber do meu sangue, pedes para vestir minha pele e para ver com meus olhos e eu, miseravelmente, dou tudo que tenho.


Calmamente tenho a marca dos meus sorrisos no rosto e percebo o esmorecer da cor dos meus olhos. Este impulso de vida que gasto com tanto prazer serve-me melhor à realização do delírio que o amor propõe através de ti e que tão orgulhosamente eu aceitei sem exitar.


Dá o teu abraço, pequenina! Agarra-te a mim e não me deixes ir antes de tomar um café fresco e predizer como será amanhã, das cores que virão do céu e do cheiro apaixonante a desprender-se da nossa pele.


Como os navios nos portos silenciosos eu vejo assentar-se a madrugada e do segredo da minha solidão insuspeitada, queima incondicionalmente o meu coração.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Participação da poesia

Café a esfumaçar, manhã de sol, as portas se fecham atrás dos milhões de pessoas que vão trabalhar nessa vibrande capital onde os sonhos se realizam.
Atrás de mim também fechou-se uma porta. Dentro do meu casaco segui pela minha rua, depois pela minha high street até a estação onde, por debaixo da terra, o trem me levou para Central London.
A multidão em Oxford Circus me adota, tomo parte no caudaloso rio que toma toda a calçada... sérias as pessoas, talvez já a meditar sobre as tarefas do dia, a maneira como dizer as coisas, talvez a confabular mentiras, talvez a ordenar interesses, acho que uns poucos conseguem se distrair para respirar o generoso ar fresco ou admirar o bonito brilho do sol sobre a cidade, algo especialmente raro nessa altura do ano. Também eu desprezo inconcientemente essas doses de beleza e meto-me dentro de mim absurdamente concentrado.
Eis que toca o telefone. Eis que vem uma voz que coloca-me de novo no mundo, brutalmente de face para o ridículo das coisas, timidamente a sorrir para o desconhecido.
"Correu bem a formatura, obrigado pela lembrança" Pois lembrei-me da data e parabenizei o formando em questão, algo assim como que há três semanas...
Que crueldade lembrar do pessoal de lá sem poder tar com eles nos lugares de costume, sem a nossa cidade, sem os nossos teatros, praças, bares, sem nós todos!
Minhas novas estações de metrô, praças com luminosos, ruas magicamente curvadas e colunas monumentais apenas palidamente compensam essas ausências que assaltam tão covardemente.
Tenho bilhete para ir ao Brasil amanhã, mas não vou, meu lugar vai vazio para algum sortudo esticar-se mais durante as 10 ou 12 horas de viagem para atravessar o oceano Atlântico.
Esses minutos contados a ouvir aquela boa voz amiga, entretanto, calaram-me demais e eu chorei mesmo que o frio e a compostura não me deixassem ter lágrimas.
Amigos queridos, há aqui alguém que é por vocês, mesmo quando parece que não lhes liga nenhuma. Cuidem do nosso país por mim e venham cá visitar quando puderem!

sábado, janeiro 26, 2008

Fragmento da pureza

Foi assim como um desses lampejos que cortam o coração quando se sente que está a sofrer um infarto: gritou-se na rua um apelo por libertade, toda a gente que lá estava deve ter percebido como foi doído, como percorreu a espinha a cortar, aquele pranto...
Imaginei donde viera, tentei refazer os caminhos por onde o mal seguir para talhar naquela cara tal expressão de horror, como deveria já vir sendo violentado por algum tempo, como tinha vincos marcados, e cicatrizes vermelhas onde abaixo pulsava seu sangue pleno dos seus sentimentos fortes, da sua cólera e da sua ira.
Abaixei o olhar ao meu colo, em seguida levantei às nuvens... que lindo céu para lançar engimas! Pudera a vida ser esse patético jogo de más certezas e dúvidas jeitosas para nos fazer ir por ela como imbecis bem recompensados por instantes pequenos de alegria, quando a parca parcela do que é prazeroso e feliz nos é dado parcimonicamente a fim de não esgotar a pobreza da garrafa onde é guardada.
Esvaziou-se a rua. Cada um que lá estava, que viu e sentiu tudo aquilo, tomou diferentes direções: à rua da indiferença foram muitos para distrair-se com alguma tolice engraçada, à rua da balbúrdia foram os que acharam bonito e quiseram continuar a fuzarca, porém sem o mesmo coração e alma nos gritos, à rua do lamento seguiram uns tantos mais decididos que queriam reclamar das coisas e conseguir algo com as queixas: pobres criaturas de Deus!
Eu, cá pleno deste horizonte sem fim que tenho em frente aos olhos, de coração quis passar a faca em todos, um desses desejos encolerados que temos quando não sobra mais paciência e é ultrajada a última barreira de tolerança, quando mesmo metem-nos o pé na dignidade. Pois uma morte por lâmina era o que mereciam os covardes. Esses uns que fazem sangrar a liberdade, esses canalhas que sorriem e querem parecer eficientes, os patéticos títeres da monotonia, da falta de alma das coisas, da monocromacia do mundo. Eis seus mais aplicados agentes, esses maus gestores do humor alheio.
Pude vê-lo ainda a respingar da roupa a sua ira, a sumir como um vento forte passa e depois dele não sopra mais nada, nem brisa mansa, nem o contínuo soprar mais forte, cessa tudo.
Pois na minha cara esse vento trouxe tudo o que tinha se proposto trazer e mesmo depois de ir, deixou marcada a sua mensagem de inconformismo. Há mesmo que ser assim, sem nenhuma tolerância com essa gente feia.

sábado, novembro 24, 2007

Piccadilly Circus e eu

Embora ainda houvesse gente na rua, embora os painéis continuassem a brilhar as animações dos produtos mais bacanas, embora tudo parecesse apontar para uma madrugada usual, Piccadilly Circus, já a mais de um ano o lar das minhas noites insones, mostrou-me num relance de pensamento onde Eros foi mandar sua flecha.
Ar frio que conheço e que tempera, o calor do rosto de expressão impassível: quanto frescor para se respirar! Fomos juntos, a fria brisa e eu, a vagar mais anônimos ao caminho do ponto de autocarro. No caminho, um rapaz despojado sentava-se numa cadeira de escritório enquanto três garotas italianas, todas flagrantemente bêbadas, falavam dos flertes da noite e brincavam animadamente umas com as outras. Havia junto de mim também um grupo de adolescentes de comportamento anti-social a fazer mais barulho que o necessário e trabalhadores com suas mochilas, encostados junto à fachada da Patisserie da Regent Street. Nenhum deles percebeu o meu estado.
Chego a casa e o céu do noroeste de Londres, sempre a lembrar o de Juiz de Fora, alaranjou delicadamente e este extremo amor que me comanda fez-se matéria sobre o meu corpo e tive a imediata certeza que qualquer um que me visse notaria esse sentimento nos meus olhos confiantes.
Num instante, toda mágoa e todo sofrimento se disolveram com os beijos que ganhei no meu sonho e foi sorrindo que a linda face da minha namorada aproximou-se para dar mimos.
O sonho a comandar a vida, a vida a seguir sua obediente condição de percurso e essas avenidas preparadas a se encher da expectativa dos dias do fim do ano quando ficará a ilha sem mim por uns dias a fim de que possa visitar o país que Fernando Pessoa chamou de "o rosto que contempla".
Outra coisa não poderia vir ao pensamento quando a vista do quarto evocava essa coragem, essa certeza, essa maneira de encantar o mundo que a princesa me ensinou sem perceber: contemplar a grandeza da liberdade e ver para além das casas vitorianas e dos pinheiros quietos, o horizonte distante que quer-se tanto: "Com razão, sem razão/como é preciso/que andes por onde estás".
Assim, procurei a cama meio tonto desta plenitude de vida, dediquei o último pensamento a ela e adormeci.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Parque Secreto

Foi assim a tarde no parque: junto do vento constante o cheiro dos cabelos, vi a luz do sol a deitar-se devagar sobre a gente. Encampei no meu coração a empreitada de esconder-me entre as árvores, buscar com os esquilos o de comer e não voltar nunca mais para junto das ruas e do concreto, quis naquele minuto viver do meu amor e curtir o sorriso do meu amor como minha lembrança cristalizada do mais bonito que podia haver e depois disso nunca mais buscar nada.
Havia sobre as cabeças um azul malhado de branco céu cheio de ambições, como um teto que não é alto o suficiente e por vezes abraço-te e andamos curvados até a saída.
Foi assim junto do memorial do Príncipe Albert. Estavam lá nas escadas os velhinhos a aguardar a abertura das portas para o próximo espetáculo, todos guardados pelo olhar do consorte dourado do alto de seu trono. Descansamos, respiramos fundo, comemos morangos! Ao toque dos dedos pareceu-me o brilho dourado vir antes doutro lado e foram-se a grande indiferença e a dureza para darem lugar ao úmido apreço pelas mãos queridas, pelos beijos ansiados, pelos risos mais sonoros.
Veio uma estrela no fim da tarde e deixou-me no colo a solidão. Agarrei-a com as duas mãos e ao trazê-la junto ao peito abracei-a forte e queimei-me e tanto mais quanto feria-me a pele, tanto mais apertava até que, com o frio da noite já assentada, foi-se de mim num suspiro apaixonado.
Eu caí pelo lado, tonto a sorrir ao esquilo curioso, que desceu da árvore pra examinar aquela doce figura que eu fazia ali.
Pisquei o olho direito ao bichinho que, muito amistoso, deu boas vindas ao novo vizinho com um franzir de bigodes.

sábado, agosto 25, 2007

Não sonho mais

Estavamos, um colega que tambem trabalha no Museu de Ciencia e eu, quase a chegar a entrada do caminho subterraneo para a estacao de South Kensington quando fomos parados por um casal com sua penca de filhos para dar-lhes informacoes.
'Onde e' o Museu de Ciencia?' -E' esse predio aqui a sua direita, senhor. 'Oh, realmente!' dizia constrangido enquanto o pequenito se escondia atras de sua perna e ria pra mim como a desafiar-me e eu de volta, ria ao puto com uma simpatia que nao dou a toda gente.
Seguiram o seu caminho e tambem nos seguimos o nosso, mas por todo dia nao segui senao com aquela imagem no pensamento, afinal aquela suavidade arrancou-me pra fora das coisas praticas e de novo podia tocar as coisas sem que fosse com as maos e que beleza nao pude ver descrita no dia de sol e vento cheiroso que tivemos hoje.
Ganhou mais tempo a minha ponderacao e num minuto pareceu tolo considerar, considerar, considerar para afinal fazer a coisa errada, faco o que faria aquele puto, eu sorriria cheio de confianca em mim mesmo, a esperar que nao houvesse razao melhor que a grande generosidade do meu coracao.
Assim aturei muito bem o grupo barulhento de estudantes espanhois que infestou a galeria da navegacao espacial e com grande polidez pedi a um senhor alterado que moderasse sua voz ao corrigir o filho e ainda consegui ir alem e surpreendi-me a mim mesmo: dei ate' conselhos sentimentais ao bem bom Johnathan! Afinal que tipo de namorada se recusa a preparar o jantar a um homem dedicado como ele? A que nao se importa... e e' pra gente que nao se importa que foram feitas as guilhotinas: off with her head!
Tambem eu ca' no meu encontro como o menino sorridente decidi num rompante: 'da' ca' um beijo, amor, lembra que eu te amo, que eu nao sonho mais!'

sábado, agosto 04, 2007

Submersão sentimental

As grandes cidades do mundo talvez deem-se as maos nessa grande angustia do desconhecimento, um desconhecer que nao e' propriamente ignorancia, e' um facto da vida.
Desconhecem-se uns aos outros, desconhecem os caminhos inabituais, desconhecem, por pior que pareca, a si mesmos.
Vivemos aqui juntos, 7 milhoes de londrinos, sob a constante sugestao do prefeito da cidade para que passemos a andar de bicicleta e abandonemos os carros e o metro, achando piada do quanto o novo primeiro ministro bajula os americanos enquanto esnoba os franceses e alemaes... a espreita de algum arabe com olhos arregalados que queira explodir a si mesmo e a tantos quantos estiverem proximos a si, com essa estranha e curiosa pre-disposicao para apreciar humor negro e sarcasmo, com esse despeito pelos dias de sol e os grandes sorrisos com os copos de cerveja de 600 ml nas maos do lado de fora dos pubs a partir das 5 da tarde.
Curto imensamente o modo de vida dos britanicos, especialmente a sua capacidade de serem gentis sem que com isso significar que se importam, nem por isso... e' uma gentileza de estirpe, nao que significa respeito pela outra pessoa. Agrada-me o bom gosto no vestir, especialmente dos homens e das mulheres com mais de 25 anos... as mais novinhas vestem-se como as americanas e portanto, vestem-se como macacas de circo que vao andar naqueles triciclos pequeninos, com grandes bandanas de bolinhas na cabeca e calcas colantes sob as saias... nao chega a perturbar o ambiente de todo. E' bom tomar cerveja para acompanhar o file' de peixe frito e as batatas fritas, o prato nacional por excelencia, e gastar as preguicosas tardes de domingo com os amigos num pub aconchegante e belo como todos os pubs tradicionais sao.
Tanta imersao cultural e eu assim tao submergido, entre o antes e o agora e o depois, esse lapso tonto de acordar 'a tarde com a sensacao que perdeu-se um compromisso... mas nao ha' nada, ficou so' a sensacao e umas saudades com olhinhos tristes de orfa a mendigar moedinhas para um pedaco de pao, um beijinho com carinho, alguma palavra de afecto.
Cinza leve a vagar junto da brisa fria e constante, espectro morbido e jocoso do que um dia foi a minha louca fantasia em brasa, um deboche intimo e cruel, uma maldicao que lanco silenciosamente quando o odio me inflama discretamente antes de converter-se novamente em amor, com o alarde brutal da minha paixao... E repete-se ao infinito os versinhos queridos que me dizem tanto:

'Parte, e tu verás
Como o que era real, resta impreciso
Como é preciso ir por onde vais
Com razão, sem razão, como é preciso
Que andes por onde estás.'

Plena tarde de verao, beijos ao ar, moedas nas fontes da Trafalgar Square, pensamentos distantes 'a beira do Tamisa... tao quente submersao sentimental na capital do Reino Unido.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Pedaço de céu

Ca' comigo eu lembrei dos sorrisos, dos cheiros, do vento que passava e da forma das arvores e no outro minuto, quando subitamente vi-me apartado de tudo... senti-me tao miseravel como qualquer mendigo da rua, mas sem o orgulho deles.
E' sempre a reproducao infinita de Cachito, uma sensacao como a que tinha quando meu avo fazia-me uma grande festa no cabelo ao me ver... e' sempre esse conforto maravilhoso que a distancia converte em numa saliva com gosto de fel que apaixona.

sexta-feira, julho 20, 2007

Legado de liberdade

A inundacao do metro de Londres essa manha deu-me oportunidade, para alem do esperado aborrecimento, para ir visitar o momumento ao Principe Albert no Hyde Park e afinal lembrar um tanto daquele homem que passou a vida como o marido de uma imperatriz, sem ser muito mais que isso. Nao que seja pouca coisa... nem por isso! Mas afinal, a Rainha Victoria nao foi uma mulher de temperamento facil, sabe-se ate' que nao aturava ninguem que a contrariasse nas minimas coisas, era mandona e muito rigida nas vontades, uma verdadeira soberana. Assim restou ao principe, seu esposo, figurar-lhe na vida, ser o acessorio indispensavel a foto oficial, sem entretanto participar ativamente daquilo, o tempo mais grandioso de toda a historia britanica.
O momumento em sua homenagem faz realmente uma bela figura, com o perdao do trocadilho, a justificar um grande amor, bela em toda sua grandeza, reluzente e viva. Logo em frente vem o grande anfiteatro, belo e majestoso.
A Rainha Victoria encheu Londres de belos monumentos, logo em frente ao Palacio de Buckingham ha' mesmo um monumento em honra a ela mesma que e' fantastico, mas a mim o mais belo e' este ao principe Albert, o mais significativo tanto mais porque a estatua dele e' dourada e reluz como o ouro, afinal deve ter sido um marido de ouro ou algo assim para justificar a homenagem, ou afinal ja' nao havia mais argumentos para o proximo monumento e num estalo alguem lembrou-se: 'claro, ainda temos o Principe Albert!'.
'A parte desses questionamentos menos interessantes, vejo como deve ser dificil ser principe de outro reino, como devem nascer no coracao duvidas, como devem nos corroer incertezas, como deve custar caro tanta tramoia... Levantar o cetro a dominio sem nenhum valor e aceitar homenagens que nao sao de modo algum devidas por ser afinal parte do cerimonial e ir levando comendas ao corpo e coroas na cabeca e ir a festas e sorrir a toda gente e nisso tudo nao haver nada de real para si, em nao realizar-se em nada disso, que pobre vida, que privacao corvarde que se escolhe para si!
Lembro-me assim do nosso Imperador Pedro I, que abdicou da coroa para o filhinho de 5 anos, que deixou para nunca mais ver, e que embrenhou-se numa luta sem certezas para garantir o trono portugues para a filha. Venceu mais pela forca do coracao e pelo amor que o povo que tinha do que por qualquer outra coisa, tao valente e corajoso o nosso Pedro que pouco mais de dez anos antes tinha nos dado independencia e contrariado amplamente o interesse de seu pais de origem.
Talvez diga-se que afinal tava a garantir a coroa para os filhos, que nisso nao havia amor nem ao Brasil nem a Portugal, mas acho que para alem desse imediatismo havia um homem que acreditava nos seus ideais e no valor da coroa que trazia sobre sua cabeca, um combatente honrado, um homem de temperamento forte e aventureiro, eis a marca dele sobre o nosso imaginario: antes de tudo, foi senhor de seu proprio coracao.
Nao me lembro de haver muitos monumentos em honra ao nosso Pedro I, na verdade ha' um muito belo no Rio de Janeiro, perto da Palacio da Boa Vista, mas pronto... nada se comparado ao Memorial ao Principe Albert. A diferenca e' mesmo que nao e' preciso monumento nenhum, por mais reluzente que fosse, para que lembrassemos de sua presenca e de seu legado.

quinta-feira, julho 12, 2007

A canção do amor demais

Assombra por vezes o aspecto que toma o ceu de um instante para o outro. Por vezes, mansamente azul, ja depois nublado de branco, cinza e negro.
Ventou assim numa tarde depois que cheguei de volta a Londres, estava no Queens Park, numa inscurcao para matar saudades e entao, como que de repente, a bela tarde de sol tornou-se num pressagio de diluvio e toda gente que la estava despreocupada, a dar de comer aos esquilos e a ver os filhos jogarem futebol, aos pobres namorados que enfim podiam partilhar um momento juntos, os velhos que ja' andavam cansados de ficar em casa, toda essa gente (tambem o antigo morador que veio matar saudades) foi obrigada a correr-se de la' e assim, vazio de gente, respirou o parque uma solidao muito curiosa, que eu vi so' de longe, mas que pareceu belissima.
Apartado e quieto, nao ficou lado outro sem sonoridade, de si para consigo, falava la' sua lingua, conversava o vento com as arvores, e e' bem capaz que os esquilos entre si tambem estivessem a dizer alguma coisa, uma harmonia que para nos visitantes pode parecer tao distante, mas que a intimidade conhece bem e talvez por isso nao se ressinta da falta dos que vem a passear, mesmo que o parque exista para eles, mesmo que com eles e' que ele seja mesmo parque, com si para consigo ele e' belo, ele compreende-se.
Por vezes eu o visitava para que pudesse perceber algo disso, para ter dele algum conselho talvez, mas nunca tive resposta.
Curiosamente naquela tarde em que me corri de la e depois olhei para tras eu percebi quao belas sao as arvores ao vento, quanto de amor ha' no cheiro daquelas flores e que ceu lindo ha' por cima, mesmo quando tudo e' nublado... o que e' verdadeiro e belo sempre permanece.

terça-feira, junho 26, 2007

Amarra teu coração ao meu


Guardião da entrada da igreja de Santo Adalberto, Cracóvia


LXXIX


De noite, amada, amarra teu coração ao meu
e que eles no sonho derrotem as trevas
como um tambor duplo combatendo no bosque
contra o espesso muro de folhas molhadas.

Noturna travessia, brasa negra do sonho
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade de um trem descabelado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.

Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
à tenacidade de que em teu peito bate
com as asas de um cisne submergido,

para que às perguntas estreladas do céu
responda nosso sonho com uma só chave
com uma só porta fechada pela sombra.


Pablo Neruda
in "Cem Sonetos de Amor"
Tradução de Carlos Nejar

Estava a passear pela Praça Maior da Cracóvia naquela fria tarde de domingo, a olhar para os prédios do entorno à velha praça medieval e a calar talvez mais fundo as lembranças e os sonhos, mas mais alto calou-me a figura de dois guardiões, que na humildade de seu segredo tinham toda a virilidade do mundo, eis que lá há duas estátuas de leão a guardar uma das entradas da igreja de Santo Adalberto.
Um, mais que o outro, tomou a minha atenção, tinha a cabeça entre as patas e parecia estar entre a paciência e a resignação, a conter todo o impulso de seu coração selvagem na calma espera que lhe desafiassem. Guardava, assim julgando por um primeiro e fugaz olhar, um jeito algo tímido e triste e que podia inspirar assaltos de desafiadores, lado outro, ainda assim era um leão e mesmo que casmurro e quieto por aquele tempo, era capaz de rasgar ferozmente a presa na queda, fazer sua alma fugir com um urro e em sua magestade guardar sempre a entrada da igreja de Santo Adalberto, subitamente não era mais uma estátua de leão, era um leão.
Impossível não compará-los com os quadro gigantescos leões de bronze a guardar a Coluna Nelson, na Trafalgar Square, Londres.
A famosa praça londrina só se completa pela figura daquelas feras, postas com a cabeça no horizonte e a lançar olhares ameaçadores, mas a mim não metiam medo nenhum e nem nenhum outro sentimento, afinal é possível que lhes falte qualquer coisa como um pouco de introspecção e até beleza, mas também de humildade. Preferi a simplicidade dos leões polacos.
Na minha infância havia um leão, eu o vi muitas, sempre que íamos passear no parque onde havia um pequeno zôo cá na minha terra.
Ele se chamava Golias e tinha péssimo humor e cheiro e teria sido comprado pela prefeitura de algum circo que tava a falir. Dele, dizia-se e pela cara de mau eu nunca contestei, que procurava meios de atacar os tratadores e lançava-lhes olhares cheios de ambição. Pobre leão que é culpado de querer comer carne fresca ao invés dos piores quartos de boi que saem do matadouro municipal!
Foi lá bem encarcerado, a ver natureza por todo lado e tendo a jaula junto à ribanceira. Era triste com longos olhos negros que pareciam sempre ter acabado de chorar e não poderia ser diferente, se aceitasse feliz aquilo não seria um leão.
Assim, na humildade do que podia ser feito, ele urrava e urrava muito alto para avisar a todos que ainda estavam lá, que não os subestimassem, que merecia carne fresca de primeira classe e não as ossadas que lhe arranjavam, que cuidassem bem das trancas da sua jaula e, no caso dessa falhar, das da porta de casa!
Já no início desse ano voltei ao zôo mas... qual-o-quê! Nem mais leão e nem mais cabritinhos monteses, acabaram com aquilo tudo... Gestão nova na prefeitura, onde não acharam que valia manter os bichos. Quando lá estive tinha se tornado apenas um jardim e berçário de mudas, estranhamente rodeado por celas fantasmagóricas dos antigos moradores.
Fiquei a me perguntar onde tinha ido o leão... que teria sido feito dele, se afinal tinha se libertado, voltado à carreira circense ou (pobre bicho) sido sacrificado... o que quer que fosse, era certo que manteve sua estirpe até o fim e houve muita coesão nesse pensamento.
Como se lá da Cracóvia uma estátua tivesse ganhado vida para reafirmar em atitude toda a transmutação daquela poesia, percebi ainda na Praça Maior que onde quer que esteja ou por mais difícil que tudo pareça, um leão é sempre um leão e pior para aqueles que acharem que não!

Que Deus nos ajude.

quarta-feira, junho 13, 2007

Bom dia, tristeza!

Lembra, Quelzinha?

Bem à maneira da gente que habituou-se a acordar muito cedo toda a vida e depois que isso não tem mais necessidade continua com o hábito, ligou o rádio a vizinha dona Margarida às habituais 5:40 horas da manhã.
Veio de lá o som de um hino que fez arrepiar todos os pêlos do corpo:
.
"Vamos todos cantar de coração,
A cruz de malta é o meu pendão!
Tu tens o nome do heróico português,
Vasco da Gama tua fama assim se fez!
(...)"

A vizinha anciã e eu partilhamos o amor pelo futebol, especialmente por esse clube cheio de qualidades notáveis e que mais agora no fim de semana deu-nos uma pequena alegria. Afinal o nosso Vasco da Gama, grandioso clube, vitorioso na terra e no mar, havia assumido a liderança do campeonato brasileiro no Sábado e numa homenagem singela, assim começou a sessão desportiva do primeiro noticiário da rádio Cidade FM.
Sorri e a pequena lembrança de alegria suavizou por um instante a anunciação do adeus que houve no fim de semana, quando houve os últimos concertos de outra instituição carioca da minha mais alta estima, os Los Hermanos.
Tocaram na Fundição Progresso, no boêmio bairro carioca da Lapa, na Sexta-feira e no Sábado, ambos os concertos com bilhetes esgotados com mais de duas semanas de antecedência.
Por serem as últimas apresentações da banda, gente de todo país compareceu, do norte ao sul, caravanas formaram-se e, digamos assim pela devoção dos fãs, peregrinaram à Cidade Maravilhosa. Cheios de pena mas também de ansiedade, foram cantando junto da banda os hinos do amor, da contemplação, da separação, do acaso, do horizonte distante que a gente quer tanto ver e que teima tanto em sumir da vista.
Levaram cartazes, choraram, gritaram: "Não parem, esqueçam isso de recesso, quem dá tempo é relógio!", como um namorado que não aceita a separação, mas é tudo inútil, sentença assinada. O fato é que cansaram-se daquilo. Agora é questão de minutos, chega a última música do último concerto: "Todo carnaval tem seu fim", dificilmente outra poderia ser mais apropriada. E foi o fim e brincamos de ser felizes.
Com o pensamento pleno do significado dessas coisas, refleti como foram maduros de escolher fazer o mais difícil mas que era o mais honesto com eles mesmos. Não deixei entretanto de ficar triste, de uma tristeza própria de quem se despede de um amigo que vai embora e Deus sabe se volta. Foram-se e levaram as guitarras consigo.
No Domingo de ressaca, fiz piada de tudo e nem considerei muito bem, mas à noite coisas se passaram e do infinito do mistério vieram sonhos maus, cheios de caretas e gente bêbada a chorar pelos cantos, de donzelas envelhecidas e piadas sem graça nenhuma, eu tentava me levantar da mítica mesa de bar onde era acompanhado por estranhas figuras e logo quando levantava para ajeitar meu belo fraque e assentar a cartola na cabeça, apanhavam-me com uma bengala gigante e davam-me uma dose dupla de whisky com gelo: "Vamos celebrar a tristeza, poeta!"
Quando amanheceu ao som do hino do Gigante da Colina eu fiquei algo consolado da angústia de dizer adeus, e com um sorriso surreal na cara, olhei deboxadamente para o teto do quarto e dei bom dia à tristeza.

terça-feira, junho 05, 2007

Um olhar, um encontro


Cá em cima da escrivaninha não pude deixar de ignorar a matinal, fortuita e curiosa posição do pequenino dragão da Cracóvia com cara de tonto e do belo anjinho de gesso londrino, todo pintado à mão, a olharem-se.
Essas coisinhas, que servem para lembrarmos dos lugares por onde passamos, que sempre curti ter à vista pelo presente que são de amigos queridos, excederam um bocado a sua natureza e me despertaram um sorriso novo.
Em parte, as expressões vivas são mérito da inspiração dos criadores para fazê-los indivíduos, mas a cena dos dois a se olhar criou um conjunto belo onde não houve participação voluntária de ninguém, ao menos acredito que a faxineira tenha refletido muito para colocá-los nessa posição.
Entre aqueles olhos que não guardam nem nunca guardaram nenhuma vida biológica, quanta presença de meiguice e de encanto ao voltar a maré alta da minha surpresa pelo inusitado.
Diante dessa cumplicidade, levantaram-se algumas lembranças do calabouço fundo! Quanto olhar retido na reflexão de um encontro falhado, na esperança de remissão de uma mágoa de amor, na último sorriso antes da partida, aquele olhar era o que via... Quando dois seres se olham eles também se encontram um no outro, eles encontram-se no despropositado de si mesmos.
Nesses olhos, nada há da dureza que desprendem o modo de olhar dos chichisbéus de mulheres, dos falsos chimangos, dos calabares e dos sinecuros, dos homens da sigla e da cifra: não há nenhuma falsa pureza, pois tudo quanto é legítimo não é forçado.
É assim que a vida por vezes concede alguns olhares lindos por puro acaso, o que os faz serem ainda melhores: uma gentileza inesperada, um canto melodioso, o ato de gratidão desinteressada e a carta de amor cheia de esperanças, tudo isso dão grandes e belos olhares de acaso e qual paixão não despertam! Olhares assim são pais ausentes de grandes loucuras!
Hoje, dessa maneira à minha frente, as inocentes miniaturas, a darem-se assim um olhar dos mais circunstanciais e surpreendentes, parecem caídos de amor, perdidos no mundo, doidos por um beijo ou mesmo por alguém que lhes diga: "vivam isso sem medos, sejam felizes!" Mas os pobrezinhos não podem fazer nada diante da sua condição de seres inanimados, mas o mais curioso de tudo é que mesmo os seres animados, quando deparam-se com um olhar assim, por vezes agem como os meus amiguinhos aqui na escrivaninha, não agem e, numa triste similaridade com eles, ficam um pouco mais inanimados.
Como me aborrece a falta de iniciativa, coloquei cada qual no seu canto, cada qual a olhar numa direção, cada qual na sua solidão e não há mais nenhuma expectativa, nenhum sonho partilhado, nenhum olhar, não há nada. De repente, não mais que de repente, são de novo apenas dois seres inanimados.

quarta-feira, maio 30, 2007

Coisa linda

Filipa e seus sequazes
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Fico a pensar no que consistem as publicações póstumas dos poetas que costumam chamar de "poesias coligadas" ou "poemas póstumos", esse nome é sempre bizarro, pois dá a entender que foram escritos depois da morte... enfim, fico a considerar esse tipo de publicação: se o poeta quisesse que viesse a público ele o teria feito em vida, então por que a sanha dos herdeiros em publicar os guardanapos escritos na adolescência?
À parte da ganância dos herdeiros de ter mais uns cobres no bolso à custa de trabalho nenhum, as obras publicadas postumamente costumam ser muito úteis aos estudiosos da obra do autor, porque servem para confirmar ou revelar o oposto de uma ideologia poética.
Carlos Drummond de Andrade teve seus poemas eróticos publicados postumamente e houve algum constrangimento por parte dos críticos que sempre defenderam a nobreza do seu estilo sóbrio e limpo de escrita, embora esse constrangimento não se justificasse muito, já que mesmo com tema controverso para alta poesia, ainda assim era alta poesia, com a habitual qualidade e inteligência deste grande poeta mineiro. Essa parte de sua obra só não havia sido publicada em vida porque Drummond era muito reservado e tímido, assim tinha pavores de ter de dar entrevistas sobre o livro, expondo sua intimidade.
Evidentemente que nem todo material que ficou inédito é bom, costuma acontecer mesmo o contrário, ou seja, são os poemas excluídos, os preteridos aos que foram ao prelo, o que nem por isso quer dizer que são ruins e aqui há uma sutileza maravilhosa: foram preteridos pelo autor, não pelos leitores.
A deliciosa descoberta das "Poesias Coligadas" de Vinicius tem movido todos os meus pensamentos já há uns meses e quanto mais leio, mais profundamente me encanto, aliás, esse poeta é como o meu pai: nunca me decepcionou e fez isso sem esforço nenhum.
A virtude desses poemas inéditos quando da morte do poeta é que refletem um Vinicius por vezes mais despojado de medos formais e absurdamente carinhoso e lírico, não que não fosse na obra prévia, mas nas coligadas há poemas que foram feitos para as amadas e que ele nunca considerou publicar porque eram muito pessoais, mas passado tanto tempo, todos os envolvidos nas suas sepulturas, é bom que tenhamos acesso a esse material. Outros poemas devem ter simplesmente ficado perdidos por muito tempo e acabaram ignorados de outras edições ou talvez ainda não parecessem adequados para ir em nenhuma das edições e cabe-lhes muito bem o conjunto de poesia coligada, já que o que as faz um grupo é sua condição de ter ficado de fora das livros publicados.
Há poemas que me emocionam sempre que leio e que já estão entre os meus preferidos, como o encantador "Redondilhas para Tati" e o introspectivo "Na esperança de teus olhos" que é uma coisa linda, e o doce e meiguinho "A primeira namorada".
Ainda no mês passado havia uma pendência judicial que impedia novas edições dos livros do grande Manuel Bandeira e pareceu-me mesmo uma dessas lides que tinham de ser resolvidas da noite para o dia, porque privar o povo da poesia é uma privação das mais duras de suportar e o Bandeira é muito querido, tanto que se forem aos sebos vai ser difícil achar algo dele: ninguém se desfaz dos livros. Agora imaginem o que é ser privado da poesia de um poeta desde sempre, nunca vier a conhecê-la? Seria tão triste quanto nunca ter conhecido alguém que seria certamente nosso amigo ou nunca ter dito à namorada como ela é linda... um encontro falhado com a poesia. Talvez só por isso eu ainda considere algo útil essas publicações póstumas, ao menos as do Vinicius, é ou não é, Coisa Sardenta?

segunda-feira, maio 21, 2007

Um coração a sangrar

"Os poderosos podem destruir uma, duas, ou até mesmo três flores, mas jamais deterão a primavera"
Che Guevara


Para mim é impossível olhar o mapa da América Latina sem lembrar da feliz alcunha que Eduardo Galeano usou para referir-se ao nosso continente: um coração eternamente a sangrar.
Nunca antes da leitura do clássico da literatura de jornalismo político, "As veias abertas da América Latina’, da autoria de Galeano, tinha percebido a grandeza e a robustez do mito que meu continente corajosamente encarnou e encarna: à dura missão de ter tomado para si o sonho iluminista de liberdade, igualdade e fraternidade não poderia nunca mensurar as vezes em que seu grito de horror face à injustiça fora impiedosamente sufocado no decorrer destes 5 séculos de tenaz existência.
Desde o Rio Grande até a Terra do Fogo, fomos marcados pela sina do sonho, da fantasia, da traição pelo covarde e da capitulação ao inimigo que nos ambiciona o corpo e as virtudes, mas mesmo depois de tantas mentiras, depois de tantas traições, de tantas lágrimas, seguimos irremediavelmente como adeptos do sonho, como se não houvesse para um latino a hipótese de desistir do seu sorriso e da sua esperança, o que certamente é difícil de perceber a um estrangeiro, mas que para nós faz sentido instintivamente.
Quando os movimentos de esquerda ganharam força na América Latina a partir do final dos anos 50 e principalmente nos anos 60, não havia propriamente um levante para se instaurar uma grande União Soviética latina, mas sim um desejo unânime de igualdade social e democracia efetiva, em substituição aos velhos sistemas de dominação política das aristocracias tradicionais, com suas eleições forjadas e seus governantes submissos a interesses particulares e dos estrangeiros, enquanto o interesse do povo latino-americano ficava à mercê das sobras que houvessem, a tentar a felicidade apenas com o surrealismo ocasional de suas vidas, o culto aos grandes futebolistas, as festas religiosas e com um pouco de sorte uma pequena querida a sorrir-lhes.
As grandes veias abertas da América Latina foram notadas pela juventude filha de sua influente classe média quando deparou-se com questões como desenvolvimento sustentável, recursos naturais e remessa de lucros para o estrangeiro, entre outras fontes de mazelas. Os recursos que faltavam ao Estado para promover inclusão social dos pobres, para investir em educação, para emprestar aos que sonhavam em ter seu negócio, ou mesmo para investir em infra-estrutura, como boas estradas e bons portos, escapava entre os dedos de uma mão que assinou indulgentemente generosas anistias fiscais para empresas estrangeiras explorarem o inesgotavelmente rico subsolo do nosso continente, uma mão que tomou suborno para censurar a imprensa e fechar partidos políticos, uma mão que foi apertada pelos seus senhores em cumprimento pela opressão da inteligência e da liberdade latino-americanas.
Houve, entretanto, quem prezava imenso pela nossa terra para encarar todos esses crimes e querer levar a vida como se nada estivesse a acontecer, houve gente que não se contentou em ouvir mentiras e ser covarde, houve gente que mereceu ser assim chamada.
Assim, houve luta armada contra as ditaduras e contra a opressão de maneira geral em Cuba, no México, na Argentina, no Chile, na Bolívia, no Brasil e em mais tantos outros lugares onde heróis anônimos resolveram gritar que nada daquilo estava certo e que era tempo de nos unirmos para fazermos valer nossa liberdade de decidir por nós mesmos, de pensarmos na nossa felicidade, para que pudéssemos sonhar com um futuro de prosperidade e mais que tudo, com um futuro de honradez política e social.
Muitas dessas lutas foram brutalmente sufocadas e mesmo que algumas vezes tenha havido sucesso nos seus propósitos, não é isso que fez umas maiores ou mais nobres que as outras. É sempre a coragem de sermos quem somos que nos faz livres, não um papel onde estão escritos direitos, ou nossos bens, ou a trama sofisticada de interesses que reúne pessoas que se chamam umas às outras de amigas.
Foi a covardia que nos assassinou muitas vezes. Mesmo que em qualquer campo da convivência humana sempre exista os que se protegem atrás das pedras e esperam passar a fera e outros que se lançam contra ela, porque não querem passar a vida a comer raízes e restos do chão e precisam mesmo de carne, não é sensato deixar escapar a lição de que aos fracos cabe precisamente a mediocridade e a submissão.
Hoje temos nossas jovens democracias cheias de uma ânsia imensa de recuperar o tempo perdido, de incluir os pobres nos grupos de consumo, de prover educação a todos e em todos os níveis, de integrar os países irmãos, de valorizar a nossa cultura e o nosso povo como melhores expoentes da nossa verdade, de tudo que temos para dar ao mundo, não mais o sangue das nossas veias abertas, mas sim o sorriso confiante e afetuoso que lançamos a um futuro quando as duras lições do passado serão lembradas apenas pelo estudo da história.
Um coração sempre apaixonado e corajoso em honra aos grandes leões da América Latina.

domingo, maio 06, 2007

Jeito juizforano de amar

"Flores no azul", Manuel Santiago, 1969, acervo do MMP

Íamos muito animados, um velho amigo de faculdade e eu, pelas ruas do Alto dos Passos, até que resolvemos ir ao Cine Alameda e para minha surpresa havia lá uma moça sentada junto às mesas da cafeteria que assim que nos viu saltou da cadeira para um abraço e um beijo cordial, nem mais e nem menos. Senti-me mal com aquilo a princípio, pela gentileza fria, mas depois percebi que não era por mal, era apenas como era para ser. Não havia mais nada naqueles olhos depois de 2 anos de um silêncio algo grosseiro que nos raspou dos ossos um do outro. Antes havia um mundo inteiro em qualquer banalidade onde colocasse os olhos e dedicasse um pensamento, uma palavra sua e havia certeza, um suspiro seu e havia então ainda uma esperança na doçura do mundo.
Numa tarde ordinária daquele tempo em que andamos juntos, resolvi visitá-la depois de deixar o campus e cheguei à sua casa num início de noite outonal, uma dessas encantadoras noitinhas de maio de Juiz de Fora. A sua mãe recebeu-me na porta e avisou: "ela queimou-se com água fervente, tem cuidado" . A namorada estava na sala a ver TV, os olhos algo vermelhos e na boca um beicinho ainda infantil a espelhar o tanto daquela dor continuada somada ao susto que levou. A queimadura não tinha sido séria, apenas um pouco de água espirou da panela de pressão e queimou-lhe superficialmente a pele do seio esquerdo. Naquela hora já havia tomado todos os cuidados, inclusive aplicado uma pomada sobre a parte ferida. Com o coração apertado de vê-la assim tão frágil, tão amedrontada, pedi-lhe para dar um beijo e ela sorriu-me assentindo, então beijei com todo cuidado para que aquilo não doesse mais. Não tardou, despedi-me e mais tarde liguei para conversar um pouco e dar boa noite. Dormi a pensar sempre como poderia fazer com que ela se sentisse melhor. Como se estivesse a arder o meu corpo inteiro, queimou de repente apaixonado o meu coração. No dia seguinte liguei para sua confeitaria favorita e pedi para fazerem a torta de nozes e avelãs que a deixava nas nuvens. Depois das aulas, que freqüentei sem nenhum expediente, fui correndo para a porta do seu colégio apanhá-la. Surgiu assim que a sineta tocou e ao ver-me abriu seu grande e generoso sorriso de surpresa e avançou junto com uma amiga na minha direção e beijou-me com uma exclamação grande do meu nome e fez-me uma festinha no cabelo. Acho que nunca antes desse momento tinha me dado conta do quanto dela já havia em mim, do quanto éramos ligados, não era mais essa treta de amor romântico, éramos os melhores amigos: eu cuidava dela e ela de mim. Fomos à confeitaria e paguei-lhe um pedaço da torta de nozes, conversamos docemente sobre qualquer tolice e foi maravilhoso vê-la de novo a moça equilibrada e bem temperada que sempre foi, ainda com a queimadura a incomodar, mas já senhora de si, independente dos meus cuidados, embora gostasse deles: eis a chave de tanta harmonia.
Nesse último encontro, vi uma moça mais madura e mais sedutora, mas a sorrir ao mundo o mesmo encanto de sua inquebrantável pureza e a deslumbrar como sempre com seu porte de princesa do Piemonte. Como pareceu duro tratá-la com a necessária frieza, mas não cabia nada mais que isso, não há nada além disso: nem amor, nem saudade, nem ressentimentos, mas ao mesmo tempo como há em cada qual tanto de cada um!
Aquela moça que ficou lá sentada era a minha grande amiga.

terça-feira, abril 24, 2007

Perdão apaixonado

O cego rabequista, José Rodrigues, 1855

Subia a Alferes Chiquinho com a costumeira disposição que me move nos domingos de manhã, à perspectiva de ter com os parentes o nosso almoço bento na casa da avó Adalgisa. Hábito imemorial, essa assembléia é no melhor estilo da minha família, com muita cortesia, assuntos amenos e sorrisos, bem à moda da minha avó, essa sábia anciã cheia de garbo e elegância.
Já perto do destino, avistei uma pequena figura na varanda, apoiada no balcão que mirava a rua e num instante encontrou-me e fez-me seu alvo, era a dona Ziza, claro. Acenei de longe e apressei-me para subir as escadas.
Já perto dela, pareci ler nos seus olhos: "malandro, vais nos deixar de novo!", mas não era isso, numa quase melancolia que não é nada típica dela, pareceram dizer-me "meu filho, será que te volto a ver depois dessa viagem?". Por certo era a mesma coisa, mas com impressões bem diferentes. "A sua bênção, avó", pedi como venho pedindo deste que aprendi a falar, e ela, generosa como sempre, deu-ma.
Naquele instante é que ficou mais claro como era cara a decisão de partir de novo, como havia um preço superior ao aparente e esse é justamente o fazer sofrer quem nos ama.
Eu por mim, resolvo-me muito bem com as minhas dores e saudades, porque compreendo as razões da minha empreitada, seus fundamentos, todo segredo da paixão que me move, já que não sou de desistir do que acredito, mas a eles não é assim tão claro, como não poderia deixar de ser, e consideram que uma carreira aqui é que valia, que há muitas oportunidades e que os bens precisam de alguém que lhes dê governo, mas o facto é que são todas excusas para não perderem o filho, o neto, o sobrinho, o amigo, o irmão.
Assim, gostava de poder pedir perdão aos avós, aos pais, aos irmãos, amigos, parentes, perdão ao pequenino afilhado que já agora aponta para tornar-se um homenzinho de bem, mas o que tem que ser, tem que ser, e o que tem que ser tem uma força incrível, como bem me disse um moçambicano quando estive no Algarve.
Amparados por vezes nas minhas palavras pontuais e amigas, foi quase desleal cativar os amigos de novo para agora deixar-lhes, foi mesmo uma trama intrincada oferecer aos parentes de novo um convívio que já era saudoso para em seguida tirar-lhes e por tudo isso, eu espero mesmo que me perdoem.
Eu, que sou um experto em partir, estou para experimentar em poucos dias a sensação de ser deixado, já que meu querido Daniel vai para Brasília, vai começar uma carreira no serviço público lá ou para onde quer que o mandem, ainda não se sabe. Certo é, entretanto, que aqui vai ficar um vazio imenso, que eu já consigo prever em todo lado onde costumamos andar e onde pode-se encontrá-lo, nessas horas talvez exista uma espécie de egoísmo que eu possa compreender, o de ter por perto quem se ama. Nenhum querer para si é tão próximo do amor de verdade, mas ainda assim não se justifica e eu sei que se gostamos mesmo de alguém, o bom é vê-lo feliz a fazer o que gosta e acredita, a estar com quem realmente ama, na terra que escolheu para si.
Assim, não foi pela falta de alegria da mãe ou as anedotas disfarçadas do pai que compreendi o alcance do meu crime, mas sim pelas palavras interditas da Dona Ziza e essa absurda solidão que significa ver partir quem nos faz ser quem somos.

sábado, abril 21, 2007

Liberdade



Hoje é o Dia de Tiradentes, o que vale dizer que é o dia de Minas Gerais. Eu, que antes de ser brasileiro, sou mineiro, tenho muito orgulho das Minas Gerais, da sua gente, das suas cidades, dos seus campos, dos seus ares de eterno outono apaixonado.
Nos versos de Guimarães Rosa, a mineiridade:

Ser Mineiro

Ser Mineiro é não dizer o que faz, nem o que vai fazer.
É fingir que não sabe aquilo que sabe,
É falar pouco e escutar muito,
É passar por bobo e ser inteligente,
É vender queijos e possuir bancos.
Um bom Mineiro não laça boi com embira,
Não dá rasteira no vento,
Não pisa no escuro,
Não anda no molhado,
Não estica conversa com estranhos,
Só acredita na fumaça quando vê fogo,
Só arrisca quando tem certeza,
Não troca um pássaro na mão por dois voando.
Ser Mineiro é dizer UAI,
É ser diferente e ter marca registrada, é ter história.
Ser Mineiro é ter simplicidade e pureza, humildade e modéstia,
Coragem e bravura, fidalguia e elegância.
Ser Mineiro é ver o nascer do sol e o brilhar da lua,
É ouvir o cantar dos pássaros e o mugir do gado,
É sentir o despertar do tempo e o amanhecer da vida.
Ser Mineiro é ser religioso, conservador,
É cultivar as letras e as artes, é ser poeta e literato,
É gostar de política e amar a liberdade,
É viver nas montanhas, é ter vida interior.
É ser gente .

Para honrar nossa história, devemos reverenciar aqueles que vieram antes de nós, que nos deram nossas terras, nossos costumes, mas sobretudo aqueles que moldaram pelo exemplo de vida e morte o nosso caráter de amor à liberdade e à justiça.
No dia de hoje devemos lembrar-nos de quem deu a vida para não negar sua fé de que somos um povo livre e soberano, de que ninguém deve decidir por nós e que o amor a um ideal é maior e transcende a própria vida.
"Numa manhã de sábado, 21 de Abril de 1792, Tiradentes percorreu em procissão as ruas engalanadas do centro da cidade do Rio de Janeiro, no trajeto entre a cadeia pública e o largo da Lampadosa, atual praça Tiradentes, onde fora armado o patíbulo. Executado e esquartejado, com seu sangue lavrou-se a certidão de que estava cumprida a sentença, e foi declarada infame sua memória. Sua cabeça foi erguida em um poste em Vila Rica, os restos mortais foram distribuídos ao longo do Caminho Novo: Cebolas, Varginha do Lourenço, Barbacena e Queluz, antiga Carijós, lugares onde fizera seus discursos revolucionários, arrasaram a casa em que morava e declararam infames os seus descendentes." In Wikipédia – A enciclopédia livre, http://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes.
Tiradentes foi para a forca de cabeça erguida, de chin up, a mirar nos olhos seus julgadores covardes, convencido de que não morreria em vão.


Libertas quae sera tamen!

sábado, abril 14, 2007

Crônica histórico-passional para Gabriela


Situado no extremo ocidente do continente europeu, Portugal é a terra que foi bravamente defendida por Viriato contra os romanos no século II antes de Cristo, é a que foi tomada dos mouros por Afonso Henriques no século XII, o país que pioneiramente estabeleceu uma rota comercial para as Índias em 1498 com Vasco da Gama e, entre outros feitos notáveis, foi o país que descobriu o Brasil em 1500 numa expedição chefiada por Álvares Cabral e colonizou-o até 1822. Bem, isso acho que todos sabem bem, está nos livros de história e é provável que qualquer um que teve instrução saiba, mas existe um Portugal oculto, oculto nos sentimentos e no próprio Brasil, que não se alcança tão pragmaticamente.
Antes de revelá-lo, cumpre anotar que procurou-se (e procura-se) apagar o legado português no Brasil o quanto é possível. Seja na literatura, seja na música, seja nas leis e até na visão absurda de alguns de desnaturar o idioma, ou culpar eternamente Portugal pelas chagas nacionais, em tudo vê-se alguma submissão na presença portuguesa e uma ojeriza a tudo que seja português, uma impressão que sinto que vem se apagando pela grande aproximação que tem se operado entre os países e seus nacionais.
Há episódios que construíram essas diferenças entre os dois lados do atlântico, no que vale lembrar um importantíssimo que passou-se na minha terra: a inconfidência mineira. Portugal reprimiu a insurreição com mão de ferro, o líder Tiradentes foi esquartejado e partes do seu corpo foram espalhados pela estrada real, sendo que sua cabeça ficou exposta por muitos dias na praça central de Vila Rica, atual Ouro Preto. Sem o ouro brasileiro Portugal estaria em péssima situação com credores e com a economia interna, basta lembrar que foi o nosso ouro que financiou a reconstrução de Lisboa, destruída por um terremoto na metade do século XVIII. Os brasileiros, evidentemente, não engoliram nada bem aquilo, daí os conflitos. Na época da independência também houve problemas. Após o regente Pedro ter feito o Brasil independende e transformado-o logo num império, surgiram conflitos pelo seu interesse na política ultramarina, já que era herdeiro do trono português e havia temor de que unificasse as coroas e com isso o Brasil voltasse a condição de colônia. Entrou para a história a noite das garrafadas, quando os brasileiros expulsaram um grupo de portugueses de um bordel do Rio e os moradores das casas próximas todos foram lançando garrafas nos lusitanos e mandando que voltassem para a terra deles.
Foram cenas circunstanciais que não dizem nada do que realmente passou-se na relação cultural entre as nações que para mim ainda parecem uma só em muitos sentidos, sem méritos de submissão ou qualquer contexto político.
É evidente que o Brasil criou valores próprios e em muitas coisas, realmente muitas, superou largamente Portugal, mas parece-me que é justamente nas coisas em que há afinidades que estão as virtudes.
Dá-nos a história exemplos incansáveis dessas virtudes: a resistência aos invasores romanos e mouros e espanhóis fez perpetrar uma cultura de fé na ressureição da pátria, em tudo a fé nesse amor que nada pode destruir a esperança, assim como episódios de coragem incondicional, como o cerco do Porto nas guerras constitucionalistas quando o povo dessa cidade ficou sitiado por vários meses por tropas miguelistas e resistiu para fazer partir de lá a vitória final do direito legítimo...
Num dos momentos mais trágicos da história portuguesa, quando da captura do jovem rei Dom Sebastião em África, houve uma consternação geral sobre o que seria do país, já que o herdeiro do trono era espanhol e com a unificação das coroas, fez Portugal parte de Espanha, de 1580 a 1620. Acreditava-se que o rei conseguiria regressar e chegaria numa manhã de nevoeiro para libertar Portugal, entretanto, isso nunca se verificou. Nesse ano de 1580 também compadecia Camões que escreveu um poema no qual dizia que morria junto com o seu país. O futuro, entretanto, fez a redenção de ambos, mas é fora de questão que foi um episódio extremamente marcante no modo de ser do português e marcou ainda mais a cisma com os espanhóis que perdura até hoje.
Portugal cresce também nas letras, em Camões, em Gil Vicente, em Bocage, em Castelo Branco, Eça de Queirós, mais recentemente também em Florbela, Pessoa e Eugénio de Andrade: esse fabuloso portuense de adoção! Foi no rastro deles que seguiram os nossos primeiros poetas e romancistas e de onde descende a nossa literatura para hoje haver uma comunhão muito sadia, além de mútuo respeito, entre os países.
Do gênio português, feito no arquétipo da saudade, do amor ao belo e da devoção à Deus, há um tanto imenso que temos também, essencialmente a questão do amor apaixonado e da introspecção, ambos ligados à saudade, à ilusão e ao sonho, todos componetes típicos do poema 'Mar Portuguez' de Pessoa, compõe-se dos mesmos elementos a intimidade sentimental do brasileiro. Claro que houve contribuições de outros países, isso é evidente, por exemplo, no modo brasileiro de falar português: é mais musical, no que foi alterado do século XIX em muito pelos imigrantes italianos, já que o Brasil foi o país que mais recebeu estrangeiros dessa nacionalidade no mundo. Há também presença de culturas não européias, como a indígena e a africana, mas não consigo perceber com o mesmo entusiasmo dos sociólogos a decisiva e marcante contribuição delas para o caráter nacional, há sim uma participação, mas sempre marginal se comparadas ao incomensurável legado lusitano.
Nesse passo, encontra-se Portugal aqui quando se abre a boca para dizer ‘bom dia’, assim como nos momentos de aperto ou alegria quando aflora a fé ao santo de devoção, há Portugal nas ruas antigas e estreitas, nas praças, nos prédios antigos, nas igrejas, mas encontra-se Portugal sobretudo quando olhamo-nos no espelho e enxergamos ainda no nosso olhar aquela esperança corajosa dos antepassados quando para cá vieram, nas suas palavras de saudade e amor, na sua inquebrantável fidelidade e bravura, quanta nobreza herdamos: há um imenso Portugal no coração!
Assim, Gabi, fez-se nosso antigo enredo e inescapável destino, quase historiadora.

segunda-feira, abril 09, 2007

Chocolate suíço



Fez-me lembrar a Corte Suíça, em Westminster, Londres, um presente de aniversário que ganhei: uma caixa de finos chocolates suíços. Ainda não cheguei a comer deles porque isso do aniversário coincidir com a páscoa fez com que o cheiro do chocolate chegasse mesmo a enjoar... mas acho que são deliciosos, após umas semanas vou provar daquilo.
Conhecida pelo chocolate de boa qualidade, pelos relógios precisos, pela neutralidade e pelos bancos, a Suíça é muito querida dos britânicos. Em 1991 um marco com os brasões de todos os cantões suíços, além de mais um que representa a bandeira do país, foi colocado numa das entradas da praça Leicester para homenagear os 700 anos de independência do país, daí em diante esse largo passou a se chamar Swiss Court. Quanto a bandeira da suíça, vale revelar que é uma velha conhecida minha: tentem imaginar fazer um exame de desenho da bandeira do Brasil com o céu austral no lábaro aos 8 anos e vão perceber a minha inveja das crianças suíças.
É pela Corte Suíça que se tem a mais bela entrada da praça Leicester, um sítio cheio de cinemas, teatros e bistrôs, muito concorrido por cineastas, escritores e artistas plásticos, além dos estudantes e turistas, claro! Junto a esse marco gastei muitas horas a conversar com os amigos, usei como ponto de encontro e mesmo quando estava com a minha bike parava por lá para sentir as minhas saudades.
Numa dessas conheci uma garçonete grega que esperava pela irmã ali, iriam comemorar juntas o aniversário dela. Percebi daquela vez que, ao contrário do que se dá com os ingleses – não duvidem disso! – os gregos não prezam lá muito pela pontualidade, um horário estabelecido pode se atrasar até em 1 hora e meia e ainda será aceitável.
A nossa conversa foi sobre os países de origem, sobre Platão e a Acrópole, sobre Ipanema e Chico Buarque, até ela falar que era seu aniversário, o que me deu uma grande impressão e me fez sentir aliviado de não ter a perspectiva de passar o meu no estrangeiro, onde certamente ninguém se importaria com isso e também por fazer doer mais a ausência de quem se ama e em quem se ama. Sorte dela que ainda tinha ali a irmã e juntas iam vencendo as tramóias da vida de um imigrante, onde todo amor é tirado quando se sai do nosso país e nenhum é recebido quando se chega ao estrangeiro.
Quando vi que ela já estava exausta de esperar pela irmã, convidei-a para tomar uma cerveja num bistrô da praça e afinal vi que ela ficou feliz, teve significado para ela o dia de seus anos e por isso também eu fiquei muito feliz. Naquele dia ela completara 21 anos e era seu primeiro aniversário longe dos pais e amigos.
Hoje, assim de repente ao lembrar desse episódio, percebi a sorte de desfrutar um dia como esse, por ter por perto a família e amigos muito queridos e para que quem me ama tivesse esse argumento para declarar-se sem mais pudores.
Thank you all.

segunda-feira, abril 02, 2007

Coelhinho da páscoa

Coelha Juka e suas meias mágicas. All rights reserved! = )

Já montaram na praça Coronel Pacheco de Medeiros o bazar de roupas velhas para ajudar às casas de caridade, especialmente os abrigos para idosos, nas festas de páscoa.
O bazar tinha lá a moça toda empolgada a mostar umas roupas puídas, doadas por não serem mais queridas, como se fossem do estilista mais famoso e o pessoal que se aproximava procurando alguma pechincha até se deixava contagiar com aquela encenação exagerada, era mesmo como uma atriz de comédia que não espera nem um pouco ser levada a sério, era engraçada a vendedora do bazar! Os estudantes, mais ao longe, ao meu lado, riam-se a valer e também eu não pude conter muito bem.
Acho bem que procurem fazer algo, eu visitei já algumas casas de caridade e a vida que os necessitados levam é muito sofrida. Sofrem pela falta de conforto onde vivem, sofrem pela humilhação de terem de viver lá, por vezes sofrem com quem, ao invés de cuidar, maltrata, mas sobretudo sofrem pela solidão.
Vem a páscoa e vem os ovinhos de chocolate, toda gente se empolga! Eu pessoalmente fiquei muito animado com o lançamento do chocolate 'diamente negro' em forma de diamante... achei demais! Dentro dos ovos por vezes mais bombons, festa geral da pirralhada. Nisso é que me ocorreu que os velhinhos vão ter um grande jantar na sexta-feira da paixão, mas eu aposto que o que gostariam mesmo era de ganhar cada um um grande ovo de chocolate... isso sim, sentir-se parte, não se sentir alijado dessa doce celebração.
Já é pena que a caridade seja circunstancial e é tanto pior que ela não atinja o seu fim. Assim, eu proponho aqui que todo dinheiro que se arrecade nas campanhas de caridade de páscoa seja convertido em ovos de chocolate! Acho que é bom para os necessitados poder também comer chocolate, que nesse momento do ano em que lembramos que Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar, é preciso ter em mente que o propósito foi o de nos incluir, incluir os pecadores no reino de Deus, eis então que a ressureição e a elevação de Cristo aos céus é a aceitação do pacto por Deus, é quando Ele nos readmite como filhos. Eis a grande inclusão que se deve recordar da páscoa.
Assim, meus amigos, quando estiverem a dar as suas vorazes dentadas nos ovinhos de chocolate no próximo dia 8 de abril (uma data muito bela, por sinal), lembrem-se por um instante que seja dos velhinhos solitários nos abrigos, das crianças órfãs que sonham em ganhar pais, nos chefes de família que não tem emprego e não podem colocar comida dentro de casa... pensem nas misérias do mundo, pensem em como todos esses miseráveis gostariam de ter nas mãos um delicioso mimo trazido pelo coelhinho da páscoa para poderem se sentir parte do mundo que pode consumir esses bens, para que por um instante alguma páscoa, no que vale dizer alguma esperança, possa alcançá-los.
Assim, que a senhora vendedora do bazar da praça faça muitas palhaçadas e venda todas as roupas usadas e arranje mais: nenhuma boca sem chocolate na páscoa!